Contos poloneses finais…


Além da visita ao museu do Levante de Varsóvia, houve apenas mais um fato engraçado que eu acho que merece destaque.
Na Polônia, assim como diversos países da Europa, o sistema de ônibus funciona com validação de tíquete. É aquele negócio, você compra o tíquete, entra no busão e de alguma maneira você passa ele no leitor. No tíquete é impresso a hora que você entrou e você tem direito a mais duas horas de viagem.
Maquininha de validação

Se você não valida seu tíquete, corre o risco de ser PEGO e sofrer alguns percalços como aqui aqui e aqui. Bem, no começo, quando cheguei em Varsóvia, eu andava sem tíquete mesmo. Tava nem aí. Mas depois das duas experiências, República Tcheca e Lituânia, comecei a ficar mais preocupado e mais cauteloso: Comprava tíquete, mas não validava. Qualquer coisa, se alguém me pegasse, eu faria a pior cara de bobo que eu conseguisse, falaria que estava com o tíquete e que não entendia porque alguém estava me cobrando por ele. Bem, isso não funcionou em nenhuma das três outras situações pensadas, mas não custava nada tentar novamente, hehehe. Enfim, me informei antes e descobri que se eu não tivesse tíquete quando fosse pego, eu não poderia ser preso e não teria como eles me fazerem pagar, haja vista que precisava de um número lá que só tem quem mora na Polônia. Além disso, ao contrário de todos os países que já havia sido multado, todas as informações de como validar o tíquete se encontravam em polonês, não havia nada escrito em inglês, portanto eu poderia tentar argumentar isso pra me livrar. Apesar de tudo, eu ainda ficava com medo. Eu só pegava ônibus pra realizar rotas curtas (quando tava com preguiça de andar) e quandoe ia pegar rotas maiores, eu realmente comprava e validava o tíquete, ainda que de estudante. E foi indo assim por várias semanas.
Até que… Bem até que teve aquele dia que eu pensei: “Ah, quer saber, a rota é grande, mas eu não vou validar esse tíquete. Tou sem grana e em quase quatro semanas aqui na Polônia nunca nenhum fiscal me parou dentro do busão”. Pois é, é nesses momentos que a porca torce o rabo. Já tava feliz lá dentro do busão, indo me encontrar com uma galera quando um careca subiu. O cara trajava roupas normais e uma jaqueta. Ele veio, parou do lado de um cara atrás de mim, abriu a jaqueta e mostrou que era “do rapa”. Chega eu vi o crachá saindo de dentro da jaqueta. CORRAM PRAS MONTANHAS!!! Me desesperei: Eita diabo, o que é que eu vou fazer? Beleza, ele não teria como me cobrar, mas o meu nome ele ia anotar e de qualquer maneira eu ia ficar com o nome lá e, sei lá, acho que isso poderia me dar algum tipo de problema. Tentei disfarçadamente ir para a porta e descer na próxima parada. Deu certo, ele não viu eu indo pra porta. O problema era descer, já que estávamos numa das avenidas mais movimentadas de Varsóvia e as paradas de ônibus eram praticamente inexistentes. Pensei em pular pela janela, mas a 80 km/h isso não parece ser a melhor ideia.
Enfim, fiquei lá parado esperando desesperadamente o ônibus parar. Lógico que não deu certo e o carrasco me cutucou pelas costas e começou a pedir meu tíquete. Bem, hora de fazer o mesmo teatrinho de sempre. Cara de bobo, “não sei o que o senhor está falando” e aqui está meu tíquete. O cara me olhou com uma cara do tipo “Ôpa, pesquei um peixe grande”. Apontou a porta do busão e falou que era pra eu descer.
Descemos e ele começou a falar alguma coisa em polaco pra mim. Comecei a falar em inglês e o figura fez uma cara de quem não entendeu nada. Ele não falava inglês. Bingo! Começou a gesticular a falar tíquete, tíquete, tíquete! Mostrei pra ele o meu tíquete e fiz cara de quem não tava entendendo nada. Ele apontava no meu tíquete a parte que teoricamente deveria estar escrito que eu deveria ter validado. Eu ficava falando pra: Tá aqui meu tíquete, olha só, ele tá aqui. Ele começou a ficar desesperado e teve a brilhante idéia de ligar para um amigo pelo celular dele pra colocá-lo pra falar comigo. Ele tentou, tentou, mas nada de conseguir falar com esse cara. Ele me olhou por uns cinco minutos sem saber o que fazer. Me olhou. E só virou de costa E FOI EMBORA!!

Exemplo de uma fiscal do tíquete. Repare que ela traja roupas normais e uma jaqueta. A jaqueta é pra esconder o crachá.

AAAAAHHH!! Depois de três multas, enfim eu conseguira vencer o sistema! AAHHH!! Não fui multado!!! Peguei outro busão, logicamente sem tíquete e fui encontrar a galera. Depois desse problema que eu tive, comecei a ficar ainda mais cauteloso. Adotei uma estratégia que era praticamente impossível de sofrer problemas. Entrava no busão e comprava um tíquete da mão do motorista. Não validava e me sentava. Caso um fiscal aparecesse, eu irai argumentar que havia comprado o tíquete e que não sei porque estava errado. Caso ele não acreditasse, eu pediria que perguntasse ao motorista pra confirmar. Guardava o tíquete no bolso e o próximo busão eu validava o tíquete do busão passado. Dessa maneira, fazia duas viagens com apenas um tíquete, não era de graça, mas como eu usava um tíquete pra estudante por DUAS VEZES saía por um quarto do preço de uma passagem normal. Enfim, saí apenas mais algumas vezes com a galera e dias depois fui ao aeroporto pra poder pegar meu avião em direção a Istambul na Turquia!!

4 comentários em “Contos poloneses finais…

  1. Em Paris tb tem que validar dentro do ônibus; mas já vi os espertos entrarem e saírem sem validar. Nas estações de trem de Paris eu vi os fiscais ficarem no corredor…
    eu ñ teria a coragem de fazer o que vc. fez.

    Curtir

  2. Contraditório vc condenar a corrupção de Sarney e achar normal “se dar bem” no transporte público europeu.
    Se o nosso Legislativo é como é, pode ter certeza que esses “pequenos deslizes” são determinantes para que isso aconteça.
    Engraçado foi a opinião pública cair em cima do Bill Clinton quando ele disse que a corrupção é um problema endêmico no Brasil. Infelizmente, ele só falou a verdade.

    Curtir

  3. O Anônimo errou, pois os europeus não são bobos e tentam fazer essas maracutaias também, mas lá os fiscais multam e o sistema mais vence do que perde, como pode-se notar no próprio exemplo do maranhão.

    Mas acertou em dizer que isso é pura incoerência. A culpa é sempre dos ouros. Uns 20 euros em tíquetes não pagos ao “sistema” na visão dele é a mesma coisa que 20 mil não pagos ao sistema por um empresário “inescrupuloso”, na visão deste, ou 20 milhões desviados do dinheiro público na visão de agentes públicos… Quantidade é sempre relativa e não justifica nada. Os 20 euros não são muita coisa para o maranhão, mas são uma grana boa para muita gente.

    Curtir

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s