Mais médicos. Imagina na Copa?

Médicos brasileiros hostilizam e vaiam médicos cubanos que chegam ao Brasil. Olhe bem na cara do médico cubano, alguma vez você já foi atendido por um médico parecido com ele aqui no Brasil ou seria mais fácil se deparar com ele dirigindo um ônibus? Sinal de que temos muito a aprender com o sistema de ensino cubano…
Um dos principais desafios que sempre possuímos quando discutimos políticas públicas é sair das discussões rasas e se basear em dados. O Mais Médicos é o principal exemplo disso. Como sempre, todos os problemas do Brasil são culpa do governo que nunca faz nada, dos políticos que roubam, imagina na Copa.

O que as pessoas não pensam, ou pior, não sabem, é que o governo trabalha com recursos escassos, finitos. Segundo dados da OMS (2009), gastamos em porcentagem do PIB (8,8%) quase o mesmo que Finlândia (9%) e mais do que Austrália (8,7%). ” Ah, mas tá vendo? Mas eles tem uma saúde pública bem melhor do que a nossa!! Isso é porque roubam da gente, imagina na Copa” – alguém já poderia argumentar, porém, tudo é uma questão de renda per capita. Países onde há rendas maiores, onde os cidadãos recebem salários maiores, o governo também arrecada bem mais impostos por pessoa. Enquanto a Finlândia tem US$ 3226 e a Austrália US$ 3,484 para gastar por cidadão, o Brasil possui US$ 921, ou seja, se ZERÁSSEMOS a corrupção, teríamos cerca de quatro vezes menos recurso, para investimento per capita, do que Austrália e Finlândia. Isso porque temos o maior Sistema de Saúde Pública do mundo e também o segundo maior sistema de transplantes, só perdendo para os Estados Unidos. E isso porque há quinze anos gastávamos 4,3% do PIB em saúde, então falar que falta vontade política também é um pouco demais.

A situação é que não dá para termos hospitais bem-equipados como vemos na TV, não dá para simplesmente obrigar uma cidade de interior a ter uma UTI neo-natal, isso custa dinheiro, MUITO dinheiro! Entendo que os amigos médicos necessitem de estrutura para poder trabalhar, mas enquanto formos um país de terceiro mundo, isso não pode ser resolvido com uma canetada. E também não podemos ficar de braços cruzados dizendo que “sem estrutura, não é possível trabalhar” enquanto crianças no interior do Brasil morrem de diarreia.

Porque então entendo que Cuba é bom exemplo para o Brasil. Deixando toda e qualquer ideologia de lado e se atendo a fatos, Cuba investe US$ 478 dólares por cidadão (metade do que o Brasil) enquanto os Estados Unidos US$ 7,960, ou seja, 16 vezes mais, porém Cuba possui índices de mortalidade infantil menores do que o Brasil e, pasmem, do que os Estados Unidos. Se somos um país de Terceiro Mundo, temos que estudar formas de investimento do gasto público baseados em países que o fazem com poucos recursos. Alta tecnologia e um mar de dinheiro não são a resposta para nossos problemas, ainda mais no Brasil que forma mais cirurgiões plásticos que Médicos da Família (cujo retorno financeiro é bem menor). Precisamos de especialista nos rincões do Brasil.

Médicos estudam seis anos de suas vidas, fora a residência. Isso dá mais do que a maioria das outras profissões gastam com graduação, mestrado e doutorado. Assim como qualquer outra categoria profissional, não querem ir para o interior porque precisam morar próximos de centros


de capacitação para se atualizarem, necessitam de escolas privadas de qualidade para seus filhos, querem lazer, qualidade de vida como qualquer outro brasileiro, e isso é extremamente difícil em cidades do interior.

Então, se não é possível dar uma estrutura em Melgaço (pior IDH do país) como em Brasília (uma das cidades com maior distribuição de médicos), porque então a necessidade de se xingar e hostilizar médicos que estão dispostos a fazer isso? Se por tantos anos aceitamos médicos brasileiros formados em qualquer universidade de beira de esquina sem nenhum teste de revalidação, nos incomodamos tanto com isso para médicos de centros de excelência, como Cuba? O Revalida, para quem não sabe, é elaborado por Conselhos Profissionais de Medicina que, como o CREA ou qualquer outro conselho profissional, não tem interesse que mais profissionais atuem no mercado, por isso tão poucos são aprovados e se aplicássemos nos médicos brasileiros, talvez a aprovação fosse menor ainda. Acho que seria interessante refletirmos um pouquinho mais sobre o perfil de médicos que teremos neste país como os 400 primeiros a chegarem:

“Dos 400 médicos cubanos que participarão da primeira etapa, 89% têm mais de 35 anos, sendo 65% do total na faixa etária de 41 a 50 anos. Além disso, 84% têm mais de 16 anos de experiência em medicina, sendo 60% mulheres e 40% homens. Todos os profissionais cubanos já cumpriram missões em outros países, incluindo participação em missões em países de língua portuguesa e têm especialização em Medicina da Família e da Comunidade. Do total, 20% têm mestrado em Saúde.”

Enfim, vamos refletir um pouquinho mais sobre políticas públicas e não ficar pensando que a gente tem dinheiro e que se “os políticos parassem de roubar” teríamos hospitais cinematográficos em todas as cidades deste país.

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