Sobre PS4, bananas e vacas francesas

Sempre tive muita preguiça de discutir comparações sobre o preço do PS4 no Brasil e nos Estados Unidos. Para mim, isso é de discussão de o “governo rouba”, “coisas assim só acontecem no Brasil” ou “imagina na Copa”.

Ver discussões dessas no Facebook ou na Veja realmente não me chocam mais, mas ver alguém do porte do Vladimir Safatle dando uma resposta simplista como tudo sendo culpa “dos oligopólios, amigos do governo” (como se a criação das controvertidas “empresas campeãs nacionais” por meio do Estado tivesse sido inventada no Brasil e não em países hoje desenvolvidos) é de uma tristeza imensa e o que me motiva a escrever isso.

No Brasil pagamos mais caros por carros, PS4 e outros eletrônicos, amigos, não por causa dos amigos do Governo ou porque o Governo, sempre ele, nos rouba. Precisamos pagar impostos altos porque depois da ditadura militar, várias demandas sociais reprimidas durante os anos de chumbo afloraram durante a elaboração da nossa Constituição Cidadã. Saúde pública para todos, aposentadoria garantida para todo e qualquer cidadão brasileiro ainda que não tenha contribuído a vida inteira, educação pública (que no nível fundamental e médio é de baixa qualidade, mas no nível universitário, para uma classe média que tanto gosta de falar que não usufrui dos impostos, mantém as melhores universidades da América Latina) entre outros, são conquistas sociais de extremo valor.

O problema é que tais conquistas custam caro, MUITO caro! Durante a abertura democrática, todas essas demandas sociais foram adicionadas a nossa Constituição sem que ninguém se preocupasse com o quanto isso ia custar. A conta para se manter o maior sistema de saúde pública do mundo, maior sistema público de transplantes do mundo, é cara! Bem cara! Só para título de comparação, na terra do PS4 barato, não existe universidade pública e nem sistema de saúde público. As pessoas literalmente morrem no meio da rua se não tiverem plano de saúde, mas claro, o importante é jogar GTA V a custo de poucos dólares.

Outro ponto que nosso amigo Safatle esqueceu de tocar é que os países naturalmente (seja por grupos de interesses, lobby ou mesmo para proteção de empregos) tendem a proteger os seus mercados menos competitivos. E isso, não é só no Brasil do “imagina na Copa”, é no mundo inteiro. Cada vaca francesa recebe um subsídio mensal do governo maior do que a maioria da África Subsaariana recebe de salário, por exemplo. Já que a moda agora é falar dos Estados Unidos, todo mundo fala que lá o PS4 é barato, mas ninguém fala que uma geração inteira de negros na terra do XBOX barato está sendo perdida para obesidade porque as pessoas não possuem recursos para se alimentar com vegetais e produtos naturais. Isso lá custa caro, MUITO caro. Na terra do Honda Civic a preço de banana, as pessoas não conseguem comprar bananas por causa do seu alto custo e são obrigado a se empanturrar com fast food. Porque isso ocorre? Porque assim como taxamos produtos eletrônicos esperando proteger uma indústria nacional que há anos se prova ineficiente neste setor, eles também fazem o mesmo com seu setor agrícola. Isso sem falar no preço dos serviços, basta apenas comparar quanto custa uma lavagem de carro, um corte de cabelo entre outros serviços.

Portanto, o que eu sugiro a todos é que desconfiem de soluções muito fáceis e simplistas para problemas complexos. Se é tão simples resolver, porque esquerda e direita em quase 30 anos de democracia nunca resolveram? Simples! Porque todo mundo é favor de mais liberdades econômicas, Estado eficiente e menos gastos públicos, o problema é que ninguém diz como fazer isso. Como vamos diminuir os gastos públicos? Privatizando universidades públicas? Privatizando hospitais? Diminuindo ainda mais a nossa taxa de investimento? Cortando o salário dos políticos (que se zerássemos não economizaríamos nem 1% do que gastamos)?

Pois é, se ninguém consegue responder isso agora, imagina na Copa?

Um comentário em “Sobre PS4, bananas e vacas francesas

  1. Maranhense, tu já devias estar a tempo suficiente (mas não em excesso!) no serviço público para perceber que até existem soluções simples para problemas absurdos de pura irracionalidade, onde ninguém tem algo a perder (diferente dos problemas midiáticos mais polêmicos), que muitas vezes só dependem de uma canetada para atingirem seus objetivos com plenitude, mas que simplesmente não acontecem por falta de conveniência do acaso (pessoa certa, no lugar certo, na hora certa). E quando a solução vence, fica aquela coisa de “por que não fizeram isso antes!?”

    Faço o exemplo da vez que isso aconteceu: O Bolsa-Família x Mentalidade burocrática. SE uma mente iluminada do MDS no Governo Lula não tivesse colocado um detalhe na lei, o BF até surgiria, mas seria limitadíssimo. A revolução foi o fato de que, contrariando a Constituição no seu lado papelocrático, o dinheiro repassado do BF não precisa de fiscalização. Até então todo o recurso executado dessa forma precisava de 01 processo administrativo individual e com fiscalização da prestação posterior de contas (que não ocorre, mas o processo está lá)…. e isso para cada uma das dezenas de milhões de famílias beneficiadas já significaria um gasto administrativo MAIOR que o próprio dinheiro que vai para a população. (Como acontece até hoje em outros programas sociais).

    Esse foi só um exemplo de sucesso, mas nas entrelinhas da administração continuam existindo trocentas situações absurdas, que não trazem vantagem para ninguém, que continuam sem o devido questionamento, por puro acaso de que, por enquanto, quem repara nisso não tem o poder de mudar.

    (E fique claro que isso não se aplica apenas ao Brasil. Pelo contrário. Em outros países inclusive mais ricos e desenvolvidos há tantos absurdos ilógicos que dá até pena)

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