Retratos do Brasil – Nosso garoto em Gaza

*Artigo interessante que li no blog do Noblat (www.blogdonoblat.com.br)

Luan Barbosa de Souza cresce na Faixa de Gaza. É brasileiro, tem sete anos de idade, conhece arma, defunto e medo. De noite, obedece ao toque de recolher. Às vezes não adianta. A guerra entra pela janela. Outro dia viu um cadáver jogado na calçada.

A mãe é uma heroína. O pai é um sábio vendedor de balinhas analfabeto que criou códigos e refúgios. Em dias de tiroteio esconde a família num cubículo no fundo de casa. Aumenta o volume da televisão, liga o rádio bem alto, inventa histórias estapafúrdias para aliviar a agonia do filho.

“Vivemos disfarçando o que se passa lá fora”, diz a mãe, dona Antonia, incansável mesmo quando a violência vence o disfarce. . “Se tem gente morta na rua, eu mudo o caminho. Morte não é coisa para criança. Nem guerra”.

“Guerra é confusão e tristeza. É cidade estragada”, resume o valente Luan. “Não tenho medo de nada, nem de bicho perigoso, nem de lobisomem. Só de tiro. O barulho dá de dor barriga. É assim pá, pá, pá”.

Luan já sabe ler e escrever, quer ser bombeiro. “Vou salvar todas as crianças do mundo”, planeja o pequeno herói. “Vou salvar de todos os perigos. Dos ladrões, dos soldados, dos incêndios e dos monstros”.

A monstruosidade de passar a infância no meio de vilões afeta a rotina e as brincadeiras de Luan. Ele não joga mais bola na rua nem anda de bicicleta nem solta pipa. “Só ratinha, que voa baixo e não vai pra longe”, ensina. “Ratinha é uma pipa pequeninha”.

“Também não deixo sair de casa no fim de semana. Fica mais perigoso. Aqui tem muita droga”, lamenta a mãe inconformada com o endereço da família.

Mora no Entorno da capital do Brasil, na cidade de Céu Azul, na favela de Vila Guairá, numa região tão violenta que ganhou apelido de Faixa de Gaza. A diferença é fora dali ninguém sabe dos corpos no chão e da dor dos meninos. Só Luan e o povo dali.

Ana Beatriz Magno é repórter, mãe de dois filhos, cobre temas relacionados à infância e ganhou importantes prêmios jornalísticos – Embratel, Rei da Espanha, Herzog, Libero Badaró. Em 9 de dezembro de 2008, ela conquistou com o fotógrafo José Varella o Premio Esso de Reportagem pelo trabalho Brinquedos dos Anjos. Bia é secretária-executiva de comunicação da Universidade de Brasília

P.s: Amanhã tem post novo 😛

6 comentários em “Retratos do Brasil – Nosso garoto em Gaza

  1. “Não tenho medo de nada, nem de bicho perigoso, nem de lobisomem. Só de tiro.”Antigamente dava pra dizer pras crianças que o bicho papão não existia, era só dar a mão pra ela e os monstros iam embora.como dizer a uma criança que o tiro é de verdade, e que o pai não vai sempre ser capaz de protegê-lo disso?

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  2. é triste ver que atualmente as crianças sao obrigadas a conviver com a guerra e a auto destruiçao de um mundo que nao deveria fazer parte de suas vidas. elas deveriam estar brincando na rua, jogando bola, e nao com medo dos tiros, encarando a morte com tamanha precocidade. nao é justo tirarmos seu direito de uma infancia saudável.

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