Saindo da Índia

Após Goa ainda viajei por mais lugares na Índia. Fui do extremo Sul para o extremo Norte do país. Parece besteira, né? Imagina uma viagem do Paraná até o Maranhão e você vai ter uma ideia da magnitude que estou falando. Sim, amigo, peguei um trem de Goa até Deli (pela terceira vez fui a Deli) e após Deli peguei um outro trem em direção à Amritsar, capital de Punjab, lar dos Sikhs e cidade onde se encontra o mais do que magnânimo Golden Temple a “Capela Sistina” da religião Sikh.

Golden Temple

Três dias de trem no final… Filé…
De Amritsar ainda segui para a Índia tibetana (local onde se encontra o governo tibetano no exílio e lar de Dalai Lama), depois Agra (Taj Mahal) e depois, pela quarta e última vez, voltei a Deli para poder pegar o meu voo em direção à Suécia, a terra das suecas quentes (Uhhhh).
Como já explicitado em um post passado, vou pular o post acerca dessas interessantíssimas regiões do norte da Índia porque quero fazê-los com calma e também porque não agüento mais escrever sobre a Índia. Só pra vocês terem uma ideia, eu comecei a POSTAR sobre a Índia em Setembro de 2008, quando ainda estava na Turquia. Por que eu digo “postar” com tanta ênfase? Porque, apesar de começar a postar apenas em setembro, lembro de já ter começado a escrever sobre a Índia quando havia chegado à Polônia, portanto em agosto de 2008!! Éguas cumpade, depois de mais de seis meses escrevendo apenas sobre um país, acho melhor dar um break, né? Se não for assim, daqui a pouco o blog vira “A Índia numa mochila”.
Engraçado que ainda tem muita coisa pra escrever 🙂
Mas então, vamos “tele transportar” o blog e ir direto para o aeroporto em Deli.
Pra começar, havia deixado uma PANCADA de coisas na casa de Avinash, aquele indiano que me hospedou quando estive a primeira vez em Deli. Por precisar esperar apenas duas noites em Deli, decidi ficar logo num hotel e nem pedi pra ele me hospedar. Ah rapaz, mas passei um sufoco pra pegar minhas coisas, viu? Cara, eu ligava, ligava, ligava e nada do moleque atender. Já estava cogitando postergar minha passagem mais uma vez quando, enfim, consegui ver o irmão dele e o cara me deu os meus bregueços.
Depois disso foi só voltar para o hotel e me preparar pra poder pegar o voo em direção à Estocolmo.

No aeroporto de Deli, a saga começa

Uma curiosidade que achei interessante na Índia. Devido ao constante estado de ebulição que o país enfrenta com o Paquistão, entrar em um aeroporto na Índia, por medidas de segurança, só é permitido se você possuir um comprovante de passagem. E não tem nem “ai”! Não é que nem aquela história no Brasil em que você vai, entra no aeroporto, vai no balcão do check-in e só apresenta a identidade pra voar. Se não tiver a passagem NÃO ENTRA. O aeroporto, cara, parece até uma zona de guerra! O cara que vai checar o seu comprovante de passagem tem um simpático rifle escorado no ombro dele. INSANO TOTAL!

Fila da galera esperando pra ter os comprovantes de passagens checados no aeroporto

Na primeira vez que precisei ir ao aeroporto, a caminho do Nepal, até tentei conversar com o carinha mostrando meu passaporte brasileiro pra ver se ele deixava eu entrar sem comprovante. Aonde! Não teve nem conversa, tive que ir num guichê de uma agência, fora do aeroporto, pra poder pedir pra eles imprimirem pra mim!

Mas voltando ao assunto “Europa”. Não sei vocês que já foram pra lá, mas pra mim foi um grande trauma a primeira vez que fui entrar na União Européia. Mermão, imagina o meu desespero!?!? Já imaginou se eu fosse barrado e os caras me mandassem de volta pro Brasil? Caraca, velho! Eu ia perder TODA a minha viagem! Além de que, pra melhorar ainda mais a situação, aquela crise em que negaram a entrada de dois pesquisadores brasileiros quando eles estavam na Espanha, estourou MUITO próxima à minha viagem. Você quer motivação melhor pra viajar do que ser bombardeado dia e noite com manchetes do tipo: “Brasileiros são barrados diariamente em postos de imigração na Europa?”?

Pois então, era assim que eu ia viajar.
Ah, meu amigo! Mas eu não deixei barato! Imprimi uma cópia do meu plano de saúde, uma cópia da minha passagem de volta ao mundo, uma cópia de alguns extratos bancários do meu pai, tirei extrato bancário da minha conta nos EUA e no Brasil, imprimi a carta do cara que dizia que ia me hospedar em Estocolmo (portanto, eu teria como provar onde ficar em Estocolmo) e fui levando!!! Separei um calhamaço de documentos pra poder apresentar na imigração assim que chegasse. Eu podia até não conseguir não entrar, mas que eu ia dar um trabalho miserável pra eles antes de eles me mandarem de volta, eu ia! Ah, mas eles iam ler TODOS aqueles meus documentos antes de me mandarem voltar. Ah, mas iam.
Quando já estava na fila de check-in o espanto! Caraca, percebi que na passagem de volta ao mundo que eu havia imprimido constava apenas que eu tinha um voo de Deli para Estocolmo, de Estocolmo para Vasórvia e de Varsóvia para Turquia, mas não havia marcado o voo ainda. Ou seja, eu tinha uma passagem apenas de ida para a Europa!! Mermão, isso poderia me causar um problema grave, afinal, o básico que todo oficial de imigração quer quando você entra no país dele (ou no continente, como é o caso da União Européia) é que você tenha um meio de entrada e um de saída! Mermão, eu não tinha minha passagem marcada, o que fazer?
Cara, corri pra uma lan house que tinha no aeroporto, fiz uma ligação pro BRASIL, pedi pros caras marcarem minha passagem de saída da União Européia pra duas semanas depois e imprimi! Tudo isso em menos de 15 minutos, pois já estava na hora de fazer o check-in. Peguei a passagem velha, joguei no lixo e fui fazer o que tinha de ser feito.
Fiz o check-in de boa.
Mas como tudo sempre tem que dar errado, quando estava me dirigindo para a imigração, a constatação! Caraca, eu havia jogado a impressão certa da passagem fora e continuava com o comprovante errado que mostrava que eu tinha apenas a passagem de ida pra Europa! Não, não basta ser burro, o cara tem que ser MUITO burro! Não pensei duas vezes! Voltei para o banheiro, peguei um saco plástico que tinha na bolsa, coloquei a minha mão no saco fazendo uma luva e enfiei no cesto de lixo. Procurei, procurei, achei e, antes de jogar fora, mais uma vez, chequei a passagem e vi que REALMENTE, DESSA VEZ, havia jogado a passagem errada fora! Chequei, joguei fora e fui pegar meu avião.
Ufa! Parecia que tudo ia dar certo!

Entrando na União Européia

Entrei na União Européia por Viena. De lá iria pegar minha conexão em direção à Estocolmo. Como a viagem Viena – Estocolmo seria algo como uma viagem “doméstica” (eu não cruzaria postos de imigração, já que minha viagem começaria e terminaria dentro da União Européia), o posto de imigração o qual eu passaria seria na Áustria.
Desci do avião com meu camalhaço de folhas embaixo do braço e fui marchando disposto a enfrentar a imigração de frente! Eles não vão me barrar! É preciso bem mais do que um gordo de farda pra me mandar de volta pro Brasil! “NUNCA SERÃO!!” já dizia Capitão Nascimento!
Entrei na fila destinado aos estrangeiros e fiquei esperando a minha vez.
A fila foi andando… Andando… Andando… Até a hora que o cara na minha frente começou a ser entrevistado.

Aeroporto de Madrid nos tempos da crise

Era um daqueles indianos típicos, saca? Ah meu cumpade, mas o oficial da imigração danou-se a fazer pergunta pro cidadão. De onde vinha, pra onde ia, por que iria entrar na União Européia, onde ia ficar e pá pá pá. Cada pergunta a mais que o oficial fazia, mais meu coração palpitava e mais eu via a minha “Suécia Quente” se desfazendo no horizonte! O cabra perguntou, perguntou, perguntou, perguntou… Mermão, depois de uns dez minutos perguntando e o indiano gaguejando mais que uma galinha, mais que a Ruth Lemos, o oficial chamou um pessoal que tava lá e o indiano foi dirigido a uma salinha! Mas que bela motivação a se ter antes de ser entrevistado por um cidadão de origem germânica, que dentre outros estereótipos, a sua mais famosa, é a de não ser o mínimo simpático.
Tentei por alguns segundos ouvir os gritos de terror e socorro do indiano sendo espancado ou o de seus ossos sendo quebrados antes de caminhar aquela distância de menos do que um metro e meio, mas me sentindo em direção a uma jaula cheia de leões. Saca aquela parada que você vê em filmes? Que diz que a vida passa em seus olhos segundos antes de você morrer? Cara, eu achava isso a maior besteira do mundo até ter a vida passando em meus olhos segundos antes de ser entrevistado… E digo isso SÉRIO MESMO! Fiquei lembrando o quanto fiquei feliz quando descobri a passagem de volta ao mundo, da minha felicidade ao meu pai concordar em me ajudar a pagar pela viagem, da primeira sueca quente que vi ao chegar nos EUA, das diversas presepadas pelo caminho, dos indianos me roubando, das suecas quentes de top-less na praia em Bali etc. Caraca, passaria ou não pela imigração?
Parei na linha amarela. O cara pediu o meu passaporte. Entreguei a ele. O mesmo cara que segundos antes havia enviado um indiano para a cadeira elétrica agora detinha o futuro da minha viagem e conseqüentemente do meu blog em suas mãos. O oficial foi lá, olhou pra foto, olhou pra mim, puxou o carimbo e PLAM! Próximo!!
Só isso…
Ãhn? Como assim? Eu estava dentro da Europa? E as pessoas me espancando? E os cientistas brasileiros que não puderam entrar? E todo o trabalho que tive pra poder juntar esse calhamaço, agora inútil, de folhas? Enfiar a mão no lixo? Ah não, brother!! Não dava! Fique uns dez segundos querendo acreditar que eu REALMENTE tinha entrado quando percebi que era verdade, estava definitivamente na Europa.
Feliz? Claro que não, brother!! Depois de toda essa epopéia, depois de ficar horas no avião treinando meu inglês para uma possível entrevista, eu realmente queria ser entrevistado! Pô, é um direito meu! É um direito meu ser constrangido no guichê de imigração!! É um direito meu ser revistado! É um direito meu ser espancado numa salinha obscura de aeroporto! Pô e agora? Eu passei e fiquei sem histórias pra contar! Ah meu, sacanagem! Eu quase que voltei lá e falei: “Ow brother, e aí? Não vai me entrevistar não? Ow, eu sou latino americano! Sou perigoso! Posso ter drogas! Posso assaltar bancos! Você acha que aquele indianozinho de nada poderia lhe dar problemas? Você tá é por fora! Eu sou muito mais hardcore que ele!! Já ouvi falar das Farc?”
Arf… saco isso. Ficar sem história é algo que me deixa transtornado!
Nem o fato de que, quando eu cheguei ao aeroporto da Suécia, uma policial, LINDA por sinal, me abordou no aeroporto e me perguntou de onde era e pra onde eu estava indo. Falei que era brasileiro e estava indo ao banheiro e ela falou: “Tudo bem!”. Estranho! Na hora me deu uma vontade de falar que nem o Bocage quando foi abordado na porta do Café Nicola por um policial perguntando quem ele era, pra onde ia e de onde vinha:
Eu sou o poeta Bocage

E venho do Café Nicola

Vou deste para o outro mundo

Se me disparas a pistola

Estranho esse povo…

Opa, olha eu aqui

Galera, desculpe-me pelo relativo sumiço acontecido durante esses dias. Esse fim de semana fiz uma prova de concurso e não conseguia me concentrar em mais nada. Felizmente parece que fui bem. Voltamos agora à normalidade.
Este vídeo abaixo ocorreu quando eu ainda estava em Goa e eu o fiz porque tinha sido postado no Jacaré Banguela. Não lembro se o havia postado antes ou não, portanto o posto por via das dúvidas.

Lembrar que o próximo post eu já vou “pular” direto pra meu voo de Delhi à Estocolmo e começarei a postar acerca das minhas aventuras na terra das Suecas Quentes (uuhhhh), afinal nem eu aguento mais escrever tanto sobre a Índia.

É isso aí, nos vemos depois

Abraços maranhenses

Obs: O Bruno Bonini meio que fez uma chantagem emocional acerca de uma pergunta que ele fez na sessão de comentários. Eu ia respondê-lo na sessão de comentários mesmo (COMO EU SEMPRE FAÇO VIU, BRUNO?!?!?!?!? HEHEHE :p), mas acho melhor responder por aqui porque acho ser mais pertinente. Ele perguntou o que aconteceu com a Samanta “Coração Gelado”, a minha companheira de viagens na Índia. Galera, assim que voltei à Deli pela segunda vez, inclusive seguindo os conselhos dela, acabamos nos separando, pois ela estava esperando uma amiga e já havia conhecido o sul da Índia. Ficamos de nos encontrar no Norte da Índia posteriormente, mas não foi possível 😦

Obs2: Ow galera, desculpe eu não lembrar quem, mas me foi chamado a atenção que, ao contrário do que havia postado no post de Goa, São Francisco de Assis nasceu no século XII e morreu no século XIII. O São Francisco que eu falava era o São Francisco DE XAVIER!!! Mais conhecido como o “Apóstolo do Oriente”!!! Peço as mais sinceras desculpas, mas eu realmente vacilei nessa!! Vou corrigir a postagem lá!

Perambulando por Panjim, a Lisboa de Goa

Depois de um dia ficando na casa do vegetariano, ficou claro pra mim que eu não conseguiria sobreviver muito tempo por lá. Cara, não é que eu não podia comer carne ou frango, o problema é que o figura não queria era que eu não comesse sequer queijo ou ovo!! Aí ficava difícil. Além disso, o cara morava MUITO longe da parte de Goa que eu queria visitar, logo, não deu outra, no outro dia, pé na estrada e tive que ir para um albergue em Panjim.
Chegando a Panjim eu conheci a Goa que eu realmente procurava. Ruas nomeadas em português (como em Macau na China), construções portuguesas e aquele quê de “estou em uma São Luís estrangeira”. Cara, realmente quando cheguei naquela cidade pude perceber que era realmente o que procurava. Sensacional!

Cara, desculpa eu ficar sempre comparando Goa a São Luís, mas a parada é que é muito, mas MUITO parecida! Sério, compara essas duas fotos

Não parecem ser na mesma cidade? Mermão, doido demais! A foto de cima é de um cabra no Rio Anial que eu acabei achando pelo Google e a de baixo sou em Goa! Diz aí se não parece a mesma cidade? Caraca IMPRESSIONANTE a semelhança!
Outra, compara esta foto da Catedral da Sé em São Luís
Com esta foto da Nossa Senhora da Imaculada Conceição em Goa que eu bati por lá (desculpem pela qualidade, mas a minha máquina era ruim demais!)
Mas tinha ainda a cereja do bolo por vim. Peguei um busão de Panjim e segui para “Old Goa” (“Velha Goa”). Era um ônibus urbano mesmo. Paguei algo como um ou dois reais e desci na cidade com a maior concentração de igrejas e casas coloniais de Goa. Lindo demais e história pulsante a cada esquina. Depois de algum tempo caminhando naquele sol de rachar, resolvi comprar um refrigerante pra tomar uns goles, pois estava morrendo de sede. Quando chego numa lanchonete, ocorre o seguinte diálogo:
            – Amigo, tem refrigerante aí?
            – Sim, vendemos em garrafas de 290 ml, um litro e dois litros!
           – Ãhn? Diabo é isso? Tá ficando doido? Tu não tens nada no meio não? Por que diabos aqui ou é oito ou é oitenta? Ou é 290 ml ou dois litros? Que doidissa! A galera aqui ou tem MUITA sede ou não tem sede nenhuma é?
            – Não, senhor. Em Old Goa não é permitido a utilização de plástico ou de latas de alumínio de maneira alguma. Portanto não temos refrigerantes em latas ou embalagens plásticas. Só temos as embalagens de vidro com tais volumes.
            – Uai, quer dizer que aqui vocês não vendem nada em garrafas de plástico e não carregam as compras de supermercado em sacolas plásticas também não?
            – Não senhor, infelizmente não é permitido!
Diaboéisso… Meio que contrariado, não quis discutir com o cidadão e acabei tomando uma garrafinha de Coca de 290 ml mesmo. Só a título de ilustração do quão barato é comer na Índia eu até anotei no meu caderninho o preço do pastel que eu comprei nessa lanchonete para comer! CINCO rúpias (Um real era o mesmo que 20 rúpias!). Bom lembrar que estava em uma região turística, onde os preços geralmente são mais caros, hehehe.Enfim, caí fora da lanchonete do cara meio que escabreado achando que ele tava era tirando onda da minha cara. Mas não, pra vocês não acharem que o que falei era história de blogueiro, vai uma foto que bati quando caminhava por lá!Realmente, cara! Os caras realmente cumprem a risca essa lei. Vi um grupo de gringos serem parados por algum dos vigilantes com ele pedindo ou pra pessoas beberem toda a garrafa d’água que traziam com elas e lhe dar o recipiente ou ele iria apreender. Achei isso uma sacada genial, pois um dos principais problemas em lugares turísticos são os imbecis que jogam latas e garrafas de refrigerantes por todos os cantos. O governo gasta uma grana e pra ficar limpando e ainda sim sempre tá sujo. Os caras com uma só tacada salvam uma grana e ainda por cima deixam a cidade limpa. Inteligente os figuras…

É tudo tão parecido, né? Então, imagine que alguém lhe vende os olhos, lhe coloque num avião e diga que você terá que descobrir se a cidade em que lhe levarão será no Maranhão ou em Goa. Como você faz pra distinguir? Simples, em Goa as crianças não jogam futebol, elas jogam críquete ¬¬

Mas com certeza, a coisa mais interessante de todas acerca de Old Goa foi conhecer algo que nunca eu imaginaria que tenha ocorrido. Rapaz, vocês sabiam que São Francisco Xavier, um dos mais famosos santos cristãos e maior evangelizador depois de São Paulo, fez carreira em Goa? Sim, São Francisco de Assis chegou em Goa junto com os primeiros colonizadores portugueses e foi um dos responsáveis pela propagação da religião na Índia! Cara, alguém aí já teria imaginado que São Francisco de Assis tenha pelo menos vivido por lá? A melhor parte não foi nem essa. A melhor parte foi que o corpo dele sofreu um processo de mumificação natural (que a igreja julga ser um milagre) e até hoje é possível ver o seu corpo mumificado numa das igrejas em Goa, como pode-se testemunhar nessa foto abaixo.Louco demais, né cara?

Voltando a Panjim

Não há muito mais a se escrever sobre Panjim, até porque a cidade é muito parecida com Old Goa e possui vários casarões coloniais. Vou escrever mesmo é só sobre dois acontecimentos muito engraçados que rolaram enquanto estive por lá.
O primeiro foi que, enquanto batia fotos de uma das mais importantes igrejas de Goa, vi algumas pessoas conversando em português. Devido ao sotaque, pensei que fossem portugueses ou algo assim. Qual não foi a minha surpresa ao perceber que simpáticas senhoras indianas conversavam fluentemente na mesma língua que a nossa. Foi engraçado observar, pela segunda vez (a primeira foi em Mumbai), indianos conversando em uma língua ocidental e alegarem ser mais fácil de se comunicar do que em um língua indiana. Fui conversar com elas (pô, brother, não é todo dia que você vê um indiano conversando em português, né?). Elas eram até certo ponto simpáticas. Fui conversando e elas foram me explicando que a língua nativa delas, na verdade, era português. Elas falavam um pouco de híndi, mas português realmente era a mais fácil. Explicaram-me que quando eram crianças todas as escolas eram em português. Pra falar a verdade, todos os domingos tem missas em rezadas em português na igreja mais importante de Panjim. Fomos conversando e seguiu-se o seguinte curioso diálogo:
            – Você é brasileiro mesmo?
            – Sim, sou, por quê?
            – Você conhece Padre Nelson?
            – Padre o quê? Padre Nelson? Como assim Padre Nelson?
            – É, Padre Nelson, conheces?
            Nessa hora eu comecei a pensar. Quem diabos poderia ser esse padre Nelson? Pô, passei um “scandisk” imenso no meu cérebro procurando em todos os arquivos possíveis quem poderia ser esse padre. Pô, cara, eu sabia quem foi José de Anchieta, Padre Viera, Padre Cícero, mas Padre Nelson eu não saberia dizer quem era. Seria o cara alguma figura histórica que não me vinha à mente? Seria Padre Nelson algum padre pop tipo Padre Marcelo ou Bispo Edir Macedo? Seria Padre Nelson um Jedi ou novo Messias? Um grande atacante da seleção de 70? Afinal, quem seria Padre Nelson? Não consegui segurar a minha curiosidade e, MUITO constrangido, resolvi perguntar:
            – Senhora, me desculpe, mas eu realmente não conheço tal padre. Perdoe minha ignorância, mas quem seria Padre Nelson?
            – Ah, meu filho, é um padre que veio outro dia aqui rezar uma missa em Goa. Ele era muito gente boa e era brasileiro. Talvez você pudesse conhecer!
            – Ah, claro, senhora! Até porque no Brasil, geralmente, as pessoas conhecem TODOS os milhares de padres que nós temos perdidos por lá!
Ah, não, velho! Valeu! Como a mulher tem coragem de fazer uma pergunta tão idiota como essa pra mim? Será se na cabecinha dela era realmente imagina que conhecemos todos os padres daqui? Pra falar a verdade, é um pecado pra mim, proveniente de um país de 190 MILHÕES de habitantes não conhecer todo mundo por lá! Nunca me perdoarei por isso! Arf…
Vista da Igreja onde conheci as senhoras
Enfim, a outra história engraçada que aconteceu comigo em Panjim rolou quando eu tava em uma lan house. Estava no skype falando com meu irmão quando, de repente, não mais que de repente, a porta se abre e entram duas gringas LINDAS!! Deus meu, as minas eram bonitinhas demais, cara! Na mesma hora falei pro meu irmão em português: “Mlk, mlk, vou ter que desligar agora porque duas minas gatinhas acabaram de entrar, já te ligou, falow!” e Puf, desliguei. Rapaz, mas foi só eu desligar pra uma das meninas virar pra mim e falar:

– Cara, legal que vocês nos achou bonitinha! Bom receber um elogio em português!!!

Caraca, mano! A mina falava português!!! Ela não era brasileira, não! Era alemã mas morava na Bahia fazendo trabalho social. Diabos, como eu iria imaginar? A mina era até gente boa, conversamos por um tempaço. Depois ela e a amiga dela me chamaram pra poder tomar uma cerveja. Fui meio que acanhado, mas no final acabou sendo legal. O mais engraçado foi depois de descobrir que, além de tudo, as minas ainda eram lésbicas, hahhahaha. Até hoje tenho ela no meu orkut 🙂

Hospedagem em Goa – Meu couch

Eu acho que a galera já se acostumou a perceber isso e eu também adoro enfatizar, mas os couchs onde fico hospedado quando viajo são, sem sombra de dúvidas, uma das partes mais interessantes da viagem.
Goa foi um dos poucos lugares na Índia onde consegui um couch pelo Couchsurfing (os outros foram Mumbai e Deli). O interessante sobre esse couch foi que ele já começou de uma maneira engraçada. Quando estava em Jaipur e decidi, de uma hora pra outra, ir para Goa, resolvi logo começar a procurar um couch pra mim. Como eu faria isso? Ah cara, não seria tão difícil assim, pois, na minha modesta cabecinha, Goa era uma cidade indiana rica e com muitas pessoas, logo seria fácil conseguir um couch.
Quando comecei a procurar um lugar pra ficar por lá, o choque: Goa não era uma cidade, mas sim um estado!!! Valeu, velho, já é difícil alguém saber que uma parte da Índia foi colonizada pelos portugueses! Pô, daí querer que eu saiba que Goa era um estado já um pouco demais, não? Mas enfim, pra mim tudo é festa! Pense bem, se antes, quando eu achava que Goa era uma cidade, eu já achava que seria fácil achar um couch, imagina agora que eu descobrira que Goa era um ESTADO!! Uau! Melhor ainda! Saí no lucro! Pô, cara, mas é sério, eu realmente achava que Goa era uma cidade, sabe por quê? Simples! Pô, o negocinho lá é MUIITOO pequenino (sem trocadilhos, por favor). Parece uma cidadezinha de nada quando você olha no mapa. Por isso nem me preocupei em escolher uma única cidade pra tentar um lugar pra ficar em Goa (no caso, Panaji, a cidade com melhor localização pros prédios de arquitetura portuguesa situados no estado). Saí tentando pra tudo que foi lugar! Parecia tudo tão pertinho…

Acha Goa aí, Tigrão

Eis que de umas poucas dezenas de pessoas, um LOUCO, no MEIO DO NADA, aceitou me hospedar pelo período escolhido por mim. Lembro até hoje o nome da cidade daquele maluco, Patnem, situada na parte sul de Goa (Panaji fica na parte norte). Olhei no mapa e vi que a distância de Patnem pra Panaji parecia irrisória, logo, na minha cabeça, seria fácil ficar hospedado em Patnem, pegar um busão pra Panaji, passar o dia em Panaji e regressar pra Patnem pra poder dormir. Então, quis nem saber. Mochila nas costas e fui direto pra Patnem.

Patnem – Goa

Desci na estação ferroviária de Margao e lá já comecei a me relembrar o que é viajar na Índia. Neste país, cara, viajar 100 km é quase como viajar 500 km aqui no Brasil. Apesar de Patnem ser apenas a 70 km de Margao, havia apenas dois ônibus por dia descendo pra aquela direção e demoravam quase duas horas e meia! Ainda por cima tive que esperar por mais ou menos uma hora na estação antes de, definitivamente, descer pra Patnem.
E lá fui eu. Ônibus como sempre socado de gente dentro e eu lá que nem uma lata de sardinha. Fui indo, indo, indo… Rapaz, mas parecia que quanto mais o ônibus viajava, mais e mais eu ficava longe da civilização. Quanto mais viajávamos, mais as casas rareavam e mais aparecia planta pra tudo que era lado. Com medo de estar indo para o lugar errado, falei mais uma vez com o motorista e ele me confirmou que aquele ônibus iria para Patnem.
Rapaz, qual não foi minha surpresa quando o ônibus para em uma trivela no MEIO DO NADA com mato pra tudo que era lado e manda eu descer. No começo eu achei até que fosse sacanagem do motorista, pois, caramba, cara, não tinha NADA de um lado nem do outro. Parecia até com esse cruzamento que bati foto quando estava em Fiji (claro, sem os carros, sem as pessoas e sem as placas).
Desci do ônibus com minhas mochilas, olhei pra um lado, olhei pro outro e fiquei sem entender nada. Qual o pensamento que vem na cabeça do cidadão uma hora dessas? “F*deu! O que eu faço agora?”.
Fiquei uns dez minutos pensando no que iria fazer naquela situação. Procurava um orelhão ou qualquer coisa que pudesse me ajudar a achar a casa do figura. Eis que do nada, lááá de longe, vem um tiozão numa bicicleta amarela toda enferrujada, pedalando na maior calma do mundo enquanto mastigava um pedaço de graveto. Aquele típico estereótipo de matuto do Brasil. Quando ele me viu, ele franziu a testa e ficou me olhando com uma certa curiosidade enquanto fazia uma cara do tipo “que p*rra é essa? Um forasteiro por essas bandas?”. Quando ele veio chegando perto de mim, tentei falar num inglês no melhor estilo “Mim Claudiomar, you Jane!” perguntando a se ele por um acaso ele saberia aonde morava um francês, chamado Martin, por aquelas bandas.
O tiozão, claro, não entendeu alho nem bugalho. Depois de algum tempo, eu fazendo as mímicas mais malucas possíveis (imagina você tentar explicar através de mímicas algo do tipo “procuro um francês, você sabe onde ele mora?), o cara parece que entendeu algo e me falou pra segui-lo. Comecei a seguir o cidadão e depois de uns dez minutos chegamos em uma pequena vila, algo parecido com aqueles povoados que encontramos em beiras de estrada no Brasil. Aqueles pequeninos mesmo! Vinte casas, uma praça, uma agência do Banco do Brasil e um templo da Igreja Universal que serve, dentre outras funções, pra mover a economia do povoado. Começamos a caminhar no povoado e ele me apontou uma casa e falou que era pra eu bater lá.
Fiquei imaginando que poderia ser um hotelzinho ou até, sei lá, uma local de tortura de mochileiros no melhor estilo “Hostel”, mas não. Bati a porta com um certo receio (pô, cara, imagina, eu tava no MEIO DO NADA, NA ÍNDIA e tava batendo na porta de um completo estranho). Qual não foi minha surpresa quando a porta se abre e de lá de dentro emerge um francês! O tiozão tinha me levado diretamente na casa do Martin! Detalhe, cara! Nós não conseguimos conversar nada entre nós dois, ele não entendeu nada do que eu disse tampouco eu entendi coisa alguma. Engraçado que na cabecinha dele ele pensou assim: “Forasteiros sempre devem procurar forasteiros!”. Depois conversando com o Martin, ele me falou que era sempre assim. Sempre que saía um gringo de dentro de um ônibus e parecia não saber pra onde ir, o povo da vila pegava o cara e jogava lá dentro da casa dele! Blz, dessa vez deu certo, porque eu era do couchsurfing e realmente estava o procurando, mas ele me falou que diversas vezes os caras já pegaram mochileiros, que nada tinham a ver com o couchsurfing, perdidos por lá e levaram lá pra casa do Martin sem o cidadão entender patavinas porque um cidadão daquele tava chegando lá.

Martin, um francês perdido no meio do nada

Assim que o cidadão me acolheu na casa dele começamos a conversar. Cara, o Martin era um cara muito louco. O cara era um francês morando numa vila NO MEIO DO NADA! Fiquei até surpreso com o figura ter eletricidade na casa dele.
A história do cara era muito louca! Ele trabalhou por muito tempo na França como executivo. Não sei se vocês tão ligados, mas na minha opinião se tem algum povo que não gosta de trabalhar são os franceses! Os caras tem uma carga horária de apenas 36 horas por semana, pelo menos cinco semanas de férias e ainda por cima vivem fazendo greve! Então imagina como devia ser feliz um francês que trabalhava como executivo! Pois é, ele não era! Diz ele que depois de uma semana que ele trabalhou próximo de CEM HORAS praticamente ininterruptas, às vezes voltando pra casa só pra dormir, às vezes dormindo no escritório mesmo, ele tacou o botãozinho do “f*da-se” e se mudou de mala e cuia pra Tailândia. Decidiu que iria ficar por lá pelo menos uns três meses até ver o que iria fazer da vida.
Desceu na ilha de Ko Phangan, (ilha que até comentei nesse post aqui) e resolveu ficar por lá. Dizendo o bicho que ele alugou um bangalô lá de frente pro mar (parecido com um que aluguei em Ko Tao), apenas com acesso a internet e ficou loucamente, durante dois meses, procurando algum tipo de trabalho que ele pudesse fazer apenas pela internet.
Diz o bicho que ele fuçou, fuçou, fuçou até que uma hora ele achou uma vaga pra trabalhar como assistente de modelagem do site do PETA!! Pra quem não sabe o que é o PETA, é uma organização de defesa dos animais só que muito, mas MUITO mais extremista do que a WWF ou o Greenpeace. Os bichos chegam até a organizar atentados terroristas pra poder chamar a atenção e os seus protestos sempre são os mais loucos que vocês podem imaginar, como este aqui! Trocando em miúdos, ele me falou que não tinha muita opção e acabou aceitando o emprego já que ele poderia trabalhar dentro do bangalô de frente pro mar e a grana era boa.
Depois de algum tempo ele acabou tendo problemas com o visto e teve que deixar a Tailândia. Dentre as várias possibilidades que analisou, a Índia pareceu ser a mais vantajosa (o visto dele era de seis meses renovável o tanto que quisesse) e por isso ele se mudou pra Goa. Resultado? Hoje o cara mora numa vila de pescadores e trabalha ganhando um salário que mais ou menos 90% dos brasileiros não devem ganhar!

Parte logo atrás da casa dele

 

A vida do cara se resume no seguinte. De manhã ele acorda cedo e vai nadar na praia pra se exercitar. Nada por mais ou menos uma ou duas horas numa praia DESERTA e na volta passa na mercearia pra poder comprar legumes frescos colhidos a alguns metros de onde mora. Faz o almoço dele totalmente vegetariano (pô, cumpade! O cara trabalha PRO PETA! No começo ele falou que nem era vegetariano, mas depois de tanto tempo vendo as propagandas dos bichos, ele acabou virando. Na casa dele hoje não entra nenhum pedaço de carne. Azar meu que fiquei comendo capim o tempo todo!) e começa a trabalhar. Trabalha por umas cinco, seis horas e depois vai nadar mais um pouco porque ninguém é de ferro. Quando anoitece, ele sai de casa e fica conversando horas a fio com os pescadores ou com os couchsurfers que ele sempre tem em sua casa. Isso dia após dia. Um dia atrás do outro todos iguais por toda a eternidade.

Parte da frente da casa dele

 

Conversando com esse cara lembrei dos meus diversos amigos que trabalham em São Paulo. Acordam cedo, pegam um engarrafamento de uma hora pra chegar no trabalho. Chegam no ambiente de trabalho com o chefe já gritando que quer mais rendimento. Todo mundo estressado. O cara se sente um lixo, sai do trabalho e vai direto pro curso. Quando é de noite, acabado, volta pra casa, mas atento durante todo o caminho com medo de ter o carro roubado ou levar um pipoco de graça. E assim são as nossas vidas, dia após dia. Um dia atrás do outro, todos iguais por toda a eternidade.
É sério, cara, quando falo que viajando e conversando com outras pessoas percebemos que a nossa vida é um grande nada, as pessoas não acreditam, mas é verdade! Às vezes ficamos tão fissurados no que fazemos mesmo a contra-gosto que nos esquecemos que às vezes dificultamos as nossas vidas a troco de nada. Martim me ensinou muito, cara! Assim como os neo-hippies que conheci em Deli e que falei nesse post aqui.
Ele até tentou me convencer a virar vegetariano que nem ele, me mostrando aqueles vídeos do PETA de animais sendo torturados para virarem bifes.
Não precisa dizer que ele não me convenceu, né? Tá louco, viver sem um bife não dá, cara!
Sim, ele me colocou pra assistir uma castração de boi também, cara! Só que, ao contrário desta em que o boi claramente está anestesiado, a que ele me mostrou o boi foi castrado SEM ANESTESIA! Mermão, cê tinha que ver como o boi gritava! Uma coisa impressionante!! Aquilo me chocou tanto que eu resolvi até mudar meus atos. A partir de hoje eu só como carne de vaca! Carne de boi nunca mais, hehehe
Louco demais o cara! Grande aprendizado nesse couch…

Goa

“Claudiomar, qual foi o seu país preferido dentre todos que visitaste?”. É difícil não ouvir essa pergunta quando estou a falar da minha viagem de volta ao mundo para amigos. Como sabia que essa pergunta iria me perseguir assim que pisasse em terras brasileiras aproveitei as minhas longas oito horas de voo entre Lisboa e Brasília para já ir pensando nisso.
Qual seria o meu país preferido? Suécia com suas suecas quentes (uuhh)? Não… República Tcheca com suas tchecas ardentes (aaahhh)? Também não… Polônia com suas polacas fogosas (Ah, Pôlonia…)? Er, talvez… Várias foram as alternativas, mas no final acabei vendo que, assim como já havia dito no blog, a Índia foi de longe o meu país preferido. Nenhum país sequer chegou perto do tanto de presepadas e loucuras que ocorreram comigo como a Índia. Vivi e viajei tão intensamente durante um mês e meio na Índia que costumo classificar o meu voo de saída de Deli e ida à Suécia como o “início do fim da minha viagem”… Sim, cara! Curti mesmo a Índia…

“Mas a Índia é um país imenso, certo? Você viajou por dezenas de cidades por lá. Então, de todos os lugares que estiveste, qual foi a sua cidade/região, preferida?” sempre tem um que pergunta. Sem sombra de dúvidas, Goa. Por quê? Cara, viajar à Goa é como entrar em uma outra dimensão, uma outra realidade totalmente diferente de tudo o que você já estava acostumado na Índia! Sério mesmo! Goa é algo MUITO diferente e quando cheguei por lá não acreditei no que via.


Pra começo de conversa, tudo funciona em Goa. As pessoas são educadas, o índice de “faladores de inglês” (tradução livre de english speakers) é muito alto (semelhante ao de Mumbai), as ruas são limpas e etc. Por que isso tudo? Não demorou muito pra eu descobrir. Goa possui o maior PIB per capita e Índice de Desenvolvimento Humano da Índia, sendo o turismo o carro chefe de sua economia. Goa é o estado indiano mais desenvolvido, seria algo como o nosso Distrito Federal: pequeno, com alta qualidade de vida e aquele sentimento de “não estou no Brasil”.

Goa também tem uma história muito parecida e conexa com a nossa. As viagens às Índias que levaram ao descobrimento do Brasil seguiam para locais próximos a Goa, mas foi nessa região que Portugal construiu o seu império, a “Índia Portuguesa”, o qual só voltou ao controle de fato da Índia no ano de 1961, apesar de Portugal reconhecer a “independência” apenas em 1974 na Revolução dos Cravos. A influência arquitetônica portuguesa é tão flagrante que caminhar pelas cidades de Goa é como dar uma volta num domingo a tarde na mais-do-que-bela São Luís.

Saca só a semelhança incrível, cara!! Os azulejos acima são de São Luís. Os azulejos abaixo são de GoaMas o fator principal e louco que faz Goa ser conhecida e famosa no mundo inteiro é o seu estilo de música eletrônica, o “Goa Trance”, surgido devido ao ambiente “relax” e cheio de viajantes da região. Uma cambada de gente desce pra Goa pros seus festivais onde a galera costuma fritar noites a fio no meio da praia, um programa imperdível que só não pude acompanhar porque fui na época chuvosa, quando ninguém mais está por lá.

Alguém se arrisca a dizer quais dessas fotos são em São Luís e quais são em Goa?

 

Mas nem tudo hoje é flores pra galera “fritadeira”. Alguns amigos que conheci em Goa me falaram que a grande bagunça e o barulho ensurdecedor das festas, fez com que o governo tivesse uma fiscalização maior e dificultasse cada vez mais a concessão de alvarás, afinal, pessoas normais também vivem Goa e não aguentavam mais tanta piração.
A solução que acharam? Fácil, algumas raves em Goa hoje são com fones de ouvido 🙂 Sim, com fone de ouvido! Você paga o ingresso, o cara te dá tipo um radinho com a frequência que o Dee Jay tá tocando e você vai lá, pirar ao show das luzes e dos “performers” tal qual em qualquer rave pelo mundo. Um brother meu que foi numa dessas festas me disse que é MUITO engraçado! Uma galera se retorcendo, pirando e pulando! Quando você tira o fone do ouvido e começa a observá-los, diz que eles parecem um bando de louco tendo ataque epilético no meio d’água. Loucura demais 😛 Pra vocês não acharem que isso é conversa de blogueiro louco, posto uma foto de uma dessas baladas e o link para os mais interessados 🙂
Só pra vocês terem uma ideia de como é viajar pra Goa, todo mundo na Índia me perguntava:
– Uai, Claudio, você é louco? Pra que diabos você vai pra Goa agora? As festas de Trance não estão mais rolando, as baladas são inexistentes e chove dia após dia, logo você não pode ir pra praia.
– Cara, tou indo pra Goa porque sou muito interessado em história portuguesa que, em si, é quase que história do Brasil. Goa também tem uma arquitetura portuguesa bem interessante e preservada. Por isso, pra mim, na verdade, é bem melhor ir a Goa durante esta época que ninguém está por lá, logo tudo será mais barato, do que ir em alta temporada, que deve ser uma loucura. Além do mais, moro num dos países com maiores extensões costeiras do mundo, logo, praia, não é uma novidade muito grande.
– Ah é? Quer dizer que Goa foi colonizada pelos portugueses, é?
Hahahaha. De todas as pessoas que eu ouvi falar que estavam a caminho de Goa, eu fui o único abestado que estava indo para ver arquitetura. O resto da galera, como falei, vai pra lá é pra fritar ou pra ficar deitado na praia pegando sol. Depois eu não sei porque tem gente que me chama de “peganínguem”.

"Recall" do post passado

Galera, acabei esquecendo de postar um videozinho rápido que fiz em Mumbai. Foi uma cena que achei engraçada e não pude deixar de fazer a metáfora 🙂



Além disso, esqueci de postar uma foto interessante que bati enquanto visitava a casa de um amigo em Mumbai. A mãe dele, mais do que solícita, ao ver que havia um estrangeiro em sua casa, preparou uma típica refeição indiana. Fiquei curioso pra saber o que viria pra eu comer e qual não foi a minha surpresa quando vi que ela preparou algo como um risoto. Comi satisfeito até descobrir o nome que o tal prato era chamado… Curioso? Cara, acredita que aquele pratinho chama-se… chama-se POHA?? Sim, POHA, Poha com o “H” tendo som de “RR”.
Mermão, na hora que ela me falou o nome do prato eu me danei a rir. E ela perguntava:
– O que foi, meu filho, não gostou da “Poha”?
– O que tem de tão engraçado na “Poha”?
E cada vez que ela falava “Poha” eu me urinava de rir… Hahahaha. Cara, imagina aquela situação, uma senhora de idade falando pra você comer uma “Poha”? Tem piadinhas de duplo sentido que só a Índia pode fazer pra você…

Perambulando por Mumbai

1 – O metrô
Mumbai foi uma cidade que desde o começo me fez perceber que me encontrava em uma realidade totalmente diferente da Índia. Assim que liguei pro Mervin (indiano que me hospedou em Mumbai e que, dentre outras curiosidades, estava hospedando há mais de três meses uma alemã que tentava carreira em Bollywood), pedi detalhes para ele de como poderia chegar em sua casa. Como de praxe, achava que ele iria me explicar como pegar um táxi pra casa dele. Qual não foi minha surpresa quando ele falou que eu deveria pegar um metrô e, só depois disso, pegar um táxi. Ãhn? Pegar transporte coletivo em uma cidade na Índia? Como assim? Pô, táxi era mais fácil! Precisava ser murrinha não! Eu podia pegar um táxi!
Depois que eu fui me tocar. Mumbai é uma das MAIORES cidades do mundo. Logo, seria inviável eu pegar um táxi pra ir pra casa do figura (imagina descer em Guarulhos e pegar um táxi pro centro da cidade de São Paulo?).
“PCC” “contratando” pessoas em Mumbai
 
Tudo bem, pra mim tudo é festa! A própria estação onde o meu trem proveniente de Jaipur parou era, ao mesmo tempo, interestadual e intermunicipal. Poderia pegar o trem da estação diretamente para o bairro do meu host. Assim que saí do setor interestadual e entrei no setor intermunicipal, pude ter o primeiro contato com os já lendários trens de Mumbai.
Meu amigo, aquilo parece cena de outro mundo! Cara, eu nunca andei num metrô em São Paulo durante a hora de pico, mas se for pior do que aquilo que vi em Mumbai, será de um nível de insalubridade inimaginável para mim. Mermão, é gente viajando em pé, um por cima dos outros, cara viajando agarrado na janela! Coisa de LOUCO!! Se liga só nesse vídeo abaixo, de como neguinho chega a viajar e o que acontece de vez em quando…
Na hora que o trem para então… Bicho, como a parada é insana! Não tem lugar pra todo mundo e é praticamente impossível se mover dentro do trem! Todo mundo começa a empurrar todo mundo, os que estão querendo sair começam a puxar seu braço(não dá pra falar assim “senhor, por favor, você pode me dar licença? É a minha estação) e, principalmente, os que estão querendo entrar empurram os que querem sair, pois se eles não “se jogarem” pra dentro do trem, eles ficam na estação.
A parada é tão insana, que eu cheguei uma vez foi a viajar num dos compartimentos de bagagem do trem…
Compartilhamento de bagagem do trem que cheguei a viajar por não ter mais espaço
 
Então é aquela loucura! Imagina a cena: o trem lotado (de um jeito que você não consegue nem mexer o braço) umas cinquenta pessoas querendo sair, umas setenta querendo entrar E TODO MUNDO AO MESMO TEMPO! Cara, duas ou três vezes, vi carinhas saindo na mão por causa de ombrada ou “encontrão” que alguém deu na hora de sair.
Além disso, é engraçado quando os indianos querem atravessar de um linha pra outra do metro. Cê acha que eles dão a volta, pegam uma escadinha e talz?? Naaadaaa!! Os caras fazem o mais fácil mesmo: eles simplesmente pulam no meio dos trilhos e atravessam calmamente! Cumpade, é uma atração e tanto ficar observando o movimento nas estações em Mumbai. Algumas vezes eu fiquei até sentado só observando aquele “balé”:
1 – O trem começa a chegar e vem apitando que nem um louco.
2 – Pessoas que estavam atravessando pelo trilhos saem correndo em debandada por todos os lados para não serem atropeladas.
3 – O trem para.
4 – Gritos!
5 – Pessoas são “cuspidas pra fora” do trem por quem quer sair e quem quer entrar troca empurrões com as pessoas que estavam dentro em um movimento que me faz lembrar bastante futebol americano.
6 – Trem vai embora
7 – Pessoas pulam desesperadamente nos trilhos no afã de cruzar para a próxima linha
8 – Trem chegando e apitando…
E assim vai o balé, cara… Com vez ou outras ocorrendo discussões e troca de empurrões… Vou te dizer, o metrô de Mumbai é uma atração turística a parte.

2 – Triste fama de Mumbai
Mas, além do fato de Mumbai ser conhecida como a capital financeira da Índia e sua cidade mais importante, ela também é famosa devido aos vários ataques terroristas já ocorridos nela. O mais recente de todos e que quase levou a uma declaração de guerra da Índia contra o Paquistão, ocorreu há pouco tempo atrás, com o “Taj Mahal Hotel”, a maior atração turística de Mumbai e seu principal hotel, sendo um dos principais alvos do ataque. Para mais informações, clique aqui
Dando prosseguimento à série “tira uma foto pra mim” inaugurada no post em Jaipur. Essa foi a foto que pedi pra uma família de indianos bater de mim e do “Taj Mahal Hotel”
Essa foi a foto batida por eles. Sério, parece que os bichos fazem é de molecagem
Taj Mahal Hotel, depois dos ataques terroristas
 
O metrô de Mumbai também já foi alvo de vários ataques terroristas que causaram grandes estragos. Basta apenas lembrar que, num metrô aonde você tem umas cinquenta pessoas por metro quadrado, uma bombinha de São João pode fazer um grande estrago! Só pra vocês terem uma ideia de como andam os nervos das pessoas que utilizam metrô em Mumbai, no meu primeiro dia, eu quase que perdi minha bolsa com todas as coisas dentro! Eu entrei no trem, deixei minha mochila em uma das prateleiras suspensas do trem, próprias para mochilas, e me sentei no banco contrário pra poder ficar vendo a minha mochila. Ah, meu amigo, pra que? Um indiano viu aquela mochila lá sozinha, acho que não tinha dono (logo podia ser algum terrorista que largou por lá), meteu as mãos e começou a gritar perguntando se alguém era dono daquela mochila enquanto se dirigia já para a janela! Cena de filme, cara! Se eu não vou voado atrás dele gritando “é minha, é minha” ele fatalmente teria jogado minha mochila pela janela!
“Eu me arrependo de ter nada mais do que uma vida para servir ao meu país” placa posta em frente ao Taj Mahal Hotel!
 
3 – Cinema em Mumbai
 
Outro fator que também me chamou a atenção em Mumbai, foi quando fui ao cinema. É interessante você ver que nas salas de cinema indianas, as diferenças culturais ficam cada vez mais explícitas.
No Brasil, filme sim, filme não a gente tem um filme relacionado a futebol. É filme de ação, comédia romântica, documentários etc. Na Índia também é parecido. Quase 90% dos trailers de filmes que pude ver, havia algo relacionado a críquete nas histórias de lá: era uma menina que se apaixonava por um jogador de críquete, um menino pobre que tinha como sonho ser jogador de críquete, um professor de uma escola que reúne os alunos e faz o melhor time de críquete da Índia e por aí vai. Não precisa dizer que o críquete é o esporte nacional indiano. Pra quem não sabe o que é críquete, é um esporte de origem inglesa bem parecido com o “bats” ou “tacos” que a gente joga pelas ruas aqui do Brasil.
“Gateway of India”, um dos principais pontos turísticos de Mumbai
 
Outro ponto interessante que pude ver assistindo trailers em salas de cinema indiano é que é fácil saber se o trailer que está por vim é indiano ou americano. Se for filme americano, é bala comendo pra tudo que é lado, carro explodindo e etc. Se for filme indiano, começa com uma galera dançando e umas bolas de críquete de um lado pro outro. Cara, pode parecer que não é nada, mas eu vou colocar dois vídeos abaixo pra vocês verem como é, basicamente, um filme indiano1:2. Detalhe na “legenda em português” que os caras fizeram pegando carona na sonoridade da música cantada pelos indianos.
Se liga na dancinha que ocorre no minuto 1:24. Faz toda a diferença, hahahaha
 
Cara, você tá achando engraçado? Imagina um filme de três horas assim?? Com essas danças malucas pra tudo que é lado? Foi assim com os filmes indianos que pude assistir com legendas em inglês. Vou te dizer, sem graça é que não é… hahahaha.
Se prepara pro carnaval, punk rock e rock n’ roll! hahaha. GENIAL!
 
Outra curiosidade interessante é que no meio do filme todas as luzes se acendem e o filme apaga. É a hora do intervalo. Uma hora e meia de filme, quinze minutos de “show do intervalo” e mais uma hora e meia de filme depois. Praticamente um jogo de futebol…

Coisas que só acontecem na Índia. Parte 2

Solteiros de vilarejo na Índia constroem estrada para poder casar

Moradores construnido a estrada
Os moradores já construiram três quilômetros da estrada


Moradores solteiros de um vilarejo no oeste da Índia estão trabalhando sem parar para construir uma estrada de seis quilômetros que aumentaria suas chances de se casar.

O vilarejo de Barwaan Kala, no estado indiano de Bihar, está localizado no alto das montanhas Kaiumur e é conhecido na região como o “vilarejo das pessoas solteiras”.
Cerca de 120 dos 1,5 mil moradores do vilarejo com idade entre 18 e 80 anos são solteiros. Segundo eles, a principal razão seria porque o local é muito remoto.
Além da distância e da dificuldade de acesso, Barwaan Kala não possui muita infraestrutura. As seis bombas d’água construídas na região não funcionam e a escola estatal não tem professores. O hospital e o posto policial mais próximos ficam a 45 quilômetros de distância.
Por conta disso, muitas famílias se recusam a permitir que suas filhas se casem com homens solteiros da vila. O último casamento realizado na localidade foi há 50 anos.
“Aqueles que conseguiram se casar, o fizeram de forma clandestina, procurando abrigos temporários em vilarejos menos remotos”, disse à BBC Ram Chand Kharwar, que tem 50 anos e é um dos solteiros de Barwaan Kala.
Para ler esta fascinante história de superação completa, vai aí o link:
P.s: Cara, isso dá um outro filme que pode até levar Oscar. Pensei até num trailer: “Em um vilarejo, muito, muito distante. O amor vence qualquer barreiras! Jovens rapazes constroem a estrada para seus sonhos!!”… Hahahaha
P.s2: Francamente… E sua mãe reclamando da sua namorada.
P.s3: “O último casamento realizado foi há 50 anos”. HAHAHAHAHAHAHA