Xangai

Quando as pessoas me perguntavam se eu já havia visitado a China, a minha resposta era sempre “- Não, só fui a Hong Kong e Macau”. Apesar de essas duas regiões serem parte da China hoje, pra mim elas não contavam como “China” em si por terem uma história diferente da China continental e, principalmente, por serem BEM ricas.
Xangai hoje posso dizer o mesmo. É um verdadeiro choque quando você sai do caos que é Pequim e outras cidades da China e cai diretamente em Xangai. Cara, Xangai é coisa de outro mundo. Começa pelo aeroporto, que parece novinho em folha e é gigantesco! Saindo de lá, quando você cai na cidade, você vê toda a opulência e riqueza que Xangai transmite, totalmente diferente das outras cidades chinesas que, como já falei, são gigantescas, porém sujas e bagunçadas. Mas como disse várias vezes, Xangai e nada na China são exemplos para ninguém.


Isso você vê de dois em dois minutos no chão de Xangai


Wall Street chinesa
 O que eu havia lido era que Hong Kong e Macau despertam um certo “ciúme” na cúpula do Partido Comunista Chinês. As duas regiões são pujantes e extremamente ricas, porém foram colonizadas por potências estrangeiras. Xangai seria uma resposta do modelo comunista chinês que eles poderiam fazer algo melhor e mais moderno seguindo o modelo comunista. Mais ou menos como a Pyongyang da China. Assim, de forma artificial, você tem uma ilha da maravilha no meio do caos das cidades do interior da China.

Perambulando por Xangai


Como já havia explicado antes, adiantei em alguns dias a minha ida a Xangai porque eu realmente não aguentava mais o interior da China, precisava descansar um pouco (afinal, eu não era aquele mochileiro de quatro anos atrás, agora eu era alguém tirando férias do trabalho e precisando de alguma forma descansar) e queria sentir um pouco dessa dita modernização chinesa. Xangai acabou por cumprir o que eu esperava.




Logo no metrô já começou algo bem engraçado. Assim, antes de falar preciso citar algo que temos que tirar o chapéu para os chineses. O metrô te pega quase que na porta de casa e te deixa já dentro do aeroporto. Isso é muito bom. Além disso, paguei 3 (isso mesmo TRÊS REAIS) de tarifa sair do aeroporto, atravessar toda Xangai e chegar na estação que eu deveria ir. Procurei a estação que eu supostamente deveria descer, comprei o tíquete e entrei no metrô. Eu deveria seguir a linha 2 do metrô do aeroporto até a estação que iria encontrar minha host, sem necessidade de mudança de linha. Lá estou eu sentado esperando o meu metrô ir passando as estações quando, de repente, todo mundo pula para fora do metrô. Como eu estava de cabeça baixa, escutando música, não me toquei que TODO MUNDO havia saído do metrô. Quando pensei em também cair fora (isso, afinal não parecia um bom sinal), vi que outras pessoas entraram. Bem, poderia seguir viagem, afinal, como eu disse, eu não precisava trocar a linha. Quando me toquei, quatro estações depois, o metrô estava VOLTANDO para o aeroporto. Diaboéisso? Eu supostamente não devia me manter na mesma linha? Tentei checar o que estava acontecendo, mas havia algumas instruções em chinês na estação que o trem havia voltado. Não entendi nada, saí do vagão e fui para o outro lado pegar os vagões que iam na direção que eu supostamente deveria ir. Fiquei sentado e dessa vez não pensei duas vezes, quando todo mundo pulou fora, eu pulei junto!



Aí que fui me tocar que, apesar de ser a mesma linha, em determinado momento você tem que fazer algo como uma baldeação de um vagão para o outro ainda que esteja na mesma linha, senão você corre o risco de voltar para o aeroporto. Essa eu não entendi. Acabou que eu apelidei o metrô do aeroporto de metrô ping-pong. Fica a dica aí para quem for para lá.


Host em Xangai


Consegui um couch em Xangai com uma polonesa. Ela se chamava Ewa. Era veterinária e estava entediada na Polônia quando viu um anúncio de emprego para ir trabalhar em Xangai. Aceitou e se mudou com mala e cuia para lá.




Assim, falar que ela era uma mulher é realmente algo difícil. Cara, ela era muito doida! Tinha crescido a vida inteira com amigos homens em fazendas derrubando cavalos no chão com as mãos, como ela mesmo gostava de falar. Além disso, ela também era fissurada em tuning e não raro participava de rachas pelas ruas da Polônia com o seu carro customizado. Bem mais macho que qualquer um aqui que tá lendo esse blog. O irmão dela corre em algo parecido com uma corrida de stock car e ela ficava me mostrando as fotos toda orgulhosa. E cara, como ela falava. Mas falava bem mais do que eu. Isso era bem engraçado.


Alguém pediu ovos de dragão para comer?





No começo eu tratava ela como…. bem… como uma mulher, né cara? Sei lá, tentava ser gentil ou coisas do tipo. Depois de um ou dois dias com ela me tratando como um cavalo, comecei a tratar ela quem nem brother mesmo! Aí que ficamos amigos! Ela dizia que eu era tão menininha, que quando alguém no meeting perguntava se erámos namorados ela só respondia: – “Só se for para ela ser minha esposa!”. Rapaz, mas a mulher era grossa que só parede de igreja!
 

Ela dizia que na casa dela só havia uma regra: “Regar as plantinhas logo pela manhã”. Isso havia no profile dela e não parecia ser lá um problema tão complexo. Já cheguei na casa dela sabendo que teria que fazer isso. Só que eu esperava encontrar “plantinhas” e não quase uma floresta amazônica que ela mantinha em um jardim de inverno no apê dela. Eita, mas era planta! Juro que eu gastava uns vinte minutos para poder regar toda aquela Floresta Amazônica que ela mantinha no quintal dela. A única parte positiva do fato de só ter chovido nos dois primeiros dias que fiquei em Xangai (choveu tanto que nem pude sair de casa), foi que não precisei jogar água nas plantas.

Outra história engraçada dela foi que no sábado a noite ela falou que não iria poder ir no meeting porque ela ia ter um encontro com um cara. De boa, fui sozinho e quando cheguei em casa resolvi perguntar como havia sido o seu passeio romântico. Cara, foi muito engraçado! Ela foi encontrar com um italiano estilo marombeiro. Quando chegou no bar ela já perguntou para ele o que ele iria beber e o cara respondeu “Suco!”. Rapaz, disse que na hora ela já pensou em perguntar se ele era… bem… você sabe. Depois disse que ele começou a falar que havia sido criado pela avó, mas sentia muita saudade da mãe dele. Italiano típico, se falasse que tinha feito estágio em Pelotas eu não estranharia. Depois que a Ewa já tinha tomado quase uma garrafa de rum sozinha (segundo ela para aguentar o cara, que era muito chato e nem cerveja pediu, só tomou suco de laranja!) ele começou o grand finale. Disse que havia viajado muito a vida dele, mas que agora estava pensando em se aquietar e voltar para o pequeno vilarejo italiano dele com uma mulher para ter uma família e ela criar os filhos. Isso, lógico, dando a entender que a Ewa poderia cumprir esse papel. Até porque a meta de vida de uma mulher que se embrenha no meio do continente asiático, sem eira nem beira, sozinha, que derrubava cavalo com a mão e era quase o Vin Diesel de Velozes e Furiosos na versão feminina, era substituir o papel da mama de um italiano de trinta e cinco anos. Disse que na hora ela só pensou em mandar ele virar homem, pediu a conta (que ele pagou, lógico) e voltou para casa! É amigo! A vida é dura!

Comédia Pastelão

Mas o mais engraçado em Pingyao, foi meu café da manhã. Eis que eu paro pra poder comer uma parada num boteco de uma tia. Chega meu prato e foi só eu começar a comer que um passa um cara com uma criança de colo, para, assim, a um metro de onde estava o meu prato e começa a acocorar.

Demorei algum tempo para poder acreditar que ele ia fazer o que eu estava imaginando que ele ia fazer. Sim, ele bota a criança pra, digamos, evacuar (ou cagar, para os menos íntimos) do LADO DE ONDE EU TAVA COMENDO, mas assim, no meio da rua. Eu juro que eu parei de comer e fiquei “admirando” aquela cena. Também, não deixei por menos, saquei a minha máquina e comecei a bater foto do menino cagando.

De repente aparece um chinês, doido, bêbado e começa a gritar com esse cara. Quando virei a máquina e ia começar a bater foto do véio, vi que ele estava com o casaco da policia.

Não sei se era uma fantasia ou se o cara era policia mesmo, mas não quis pagar pra ver. Só soquei a máquina dentro da mochila e fingi que nada estava acontecendo. Não é que do nada o cara com o bebê começa a gritar de volta com o velho, o velho vai pra cima, o cara, segurando o bebê no colo, solta um chute no peito do véio e aí o circo foi montado. Mermão, o PAU COMEÇOU A COMER! Foi porrada de um lado, porrada de outro, mulher gritando,o véio correndo pra poder pegar um bloco de concreto para jogar no cara, cachorro passando no meio, a turma do deixa-disso entrando em cena, eu tentando proteger meu prato… Entre mortos e feridos, retrovisores para um lado, restos de para-brisa e marcas de borracha do outro, conseguiram levar o velho embora e eu consegui terminar meu café da manha. 
Para situações como essas que o mercado, sempre ele facilitando a vida dos cidadãos, inovou e criou um novo modelo para facilitar a vida dos chineses. Lá, as roupinhas de bebê vem com uma abertura atrás para aquela hora que você precisar parar para a criança se aliviar no meio da rua. Mais prático impossível.

Roupinhas de bebê com o furo atrás

Cidade moderna a poucos passos da cidade antiga de Pyngao
Muralhas cercando a cidade antiga de Pyngao


Pingyao

Depois segui para Pingyao, uma cidade histórica da China. Cidade chinesa padrão, suja, confusa e empoeirada. Tudo bem, isso não é problema, há várias cidades do Brasil que também são assim. A cidade em si era bem legal e charmosa. A parte antiga era cercada por muralhas e um belo exemplo de como era, e talvez funcionava, uma cidade chinesa na época imperial. Lógico que ela foi engolida por uma cidade moderna devido ao crescimento repentino chinês nos últimos anos.
No trem, conheci três franceses que depois ficamos andando juntos em Pingyao. Eles eram bem gente boa, odiavam imigrantes, diziam que eles estavam destruindo a França e que logo logo a sede da Al Qaeda ia ser transferida para Paris, enfim, uns amores de pessoas. De cada quatro palavras que conversávamos, três eram xingando os muçulmanos e africanos e que agora os franceses tinham que se submeter ao cúmulo de estudar história dos muçulmanos nas escolas. Adorei os três fofuchos e os apelidei de trio Le Pen. Versão francesa de uma amiga que conheciem Israel, a senhora Sharon! (leia a história clicando aqui)





E viva o Santana!!!
Igreja Católica em Pyngao

Fazendo amigos

Uma grande vantagem que aconteceu comigo foi que consegui ficar amigo de duas chinesas que falavam um inglês perfeito e também estavam a viagem pela China. Aí era “win the game”, cara. Poxa, sem mais necessidade de negociar nada, de tentar achar lugar nenhum, era só sentar no banco de carona e segui-las. Ficamos bem amigos e ainda nos encontramos na outra cidade que viajei, Pingyao. Na verdade elas eram duas gracinhas, pareciam duas Hello Kitties.

Eu com as duas Hello Kitties



Fomos juntos para um templo suspenso na montanha, muito legal! Dava um pouco de medo de subir até lá, mas a vista valia a pena.
Depois fomos visitar os budas entalhados nas paredes de pedra. A resposta chinesa para Petra (para ler sobre Petra, clicar aqui). O legal é que do lado de um sítio arqueológico milenar havia uma indústria de material químico pesado e destruidor. Nada mais apropriado para o lugar.



Fábrica poluidora ao lado

Encontrando o albergue e Datong

Chegando lá, lógico, ninguém falava inglês. Peguei um táxi e mostrei para o motorista o nome do lugar, em chinês, para onde eu estava indo. De boa, o táxi me levou, parou no meio de uma praça, só apontou para ela e falou, é para lá. Desci. Olhei para um lado. Olhei para o outro e nada de eu conseguir achar o albergue. Na rua, além de ninguém entender o que eu falava, ainda que eu tivesse o nome do albergue em chinês, ninguém parecia saber onde ficava aquilo. Rodei, rodei, rodei quase uma meia hora quando escuto alguém falando em inglês:

– Procurando o albergue, cara?

Quando virei, era um não-asiático, acenando para mim e me chamando:

– Sim, cara, deve ser o mesmo albergue que o meu! Eu também não conseguia achar o albergue quando cheguei aqui. Só consegui achar quando outro cara me chamou na rua, que nem eu tou fazendo agora contigo.

Sim, o albergue era algo como uma confraria, onde você só consegue entrar se já conhecesse algum membro anteriormente. Super bem pensando para um lugar como esse.

Quando foi a noite fiquei embaixo tentando achar algum gringo de mochila perdido para poder mostrar para ele onde era o albergue e continuar a minha corrente do bem. Na foto abaixo dá para ver como é fácil achar o letreiro do lugar.

Datong


           Depois que voltei da Coréia do Norte comecei a me tocar que estava com um pequeno problema. Eu havia feitos planos, contatos, pesquisado, lido, tudo sobre Coréia do Norte e sabia exatamente o que iria fazer por lá. Porém, quando desci novamente em Pequim que fui me tocar. Rapaz, eu não tinha feito plano nenhum de viagem para a China. E ainda tinha três semanas! Que diabos eu ia fazer em três semanas na China? Depois de pesquisas e algumas sugestões, resolvi descer para Datong pois lá havia alguns Budas esculpidos na parede que pareciam bem legais. Comprei a passagem de trem e segui.

Mão invisível do mercado nas muralhas

Como fui voto vencido, seguimos em frente. Cara, sabe aquela imagem das muralhas que você em cartões postais e na tv? Ela toda bonitinha e talz? Pois é, aquilo é a exceção e não a regra. Aquilo ali é só na parte bonitinha e turística para os turistas gordos poderem bater fotos e colocar no facebook. A maioria da muralha hoje é feita de ruínas e depois que saímos da parte turística, fomos para a verdadeira muralha! Aí, cara era pedra descolada fazendo você tropeçar e quase desabar precipício abaixo, zonas da muralha quase inexistentes, vegetação dificultando a caminhada, zonas intensamente íngremes e, o pior, NENHUM ser humano a vista, ou seja, com tudo para dar errado.


Seguimos caminhando e de repente veio aquela cena de filme. Sabe aquela ilhota, famosa em filmes de náufragos? Não, a muralha não virou mar, nem o mar virou muralha (sábio Antônio Conselheiro!), mas serve como metáfora para o oásis que vimos. Ao longe foi se formando a imagem de um ser humanoide sentado ao lado de algo que parecia um cubo branco. Sim, demorei a acreditar, mas era isso mesmo. Um VENDEDOR AMBULANTE perdido NO MEIO DAS MURALHAS!! É isso aí, meu caro! A mão invisível do mercado suprindo a demanda e ofertando os seus produtos onde quer que acha necessidade deles serem comprados. Com o nosso estoque de água quase no fim, aquele cara seria uma benção! Adam Smith ficaria orgulhoso! Porém, sempre há um porém! Como já havia dito nesse post da Indonésia, a mão invisível do mercado não carrega o isopor dele montanha acima.
Então? Bem, então o cabra queria que pagássemos SETE VEZES MAIS pelo preço que normalmente pagávamos em outros ambulantes! Adam Smith ficaria orgulhoso! Tentamos argumentar, mas não teve jeito, ou pagávamos a ele, ou ficaríamos com o nosso estoque de água perigosamente baixo. Você se sente humilhado, depois de estudar Economia na universidade por quatro anos, não conseguindo argumentar com um ambulante que mal sabe escrever o nome! Marx, David Ricardo, Keynes, nada adiantava, a única linguagem que ele entendia, e bem, era a do dinheiro! Depois de muito choro, ele resolveu baixar para cinco vezes o preço de mercado de um ambulante comum e seguimos viagem. Nunca paguei tão caro por uma garrafa d´água na minha vida, cara! Aquele ambulante me ensinou sobre Economia do que qualquer universidade.

AMIGOS, AMIGOS…

Caminhamos mais por uma hora e, como a pomba que volta com um ramo no bico mostrando para Noé que ele estava próximo de terra firme, vimos alguns chineses caminhando em sentindo contrário ao nosso. Bem, essa maldita vila deveria estar perto.
Caminhamos mais um pouco e nos deparamos com um problema complicado. Chegamos a uma torre de observação e o acesso dela do outro lado estava simplesmente em ruínas. Era necessário pular algo como uns dois metros, dois metros e meio de queda livre para poder continuar viagem. Cara, isso é algo como pular do primeiro andar de uma casa. Bem, com muito cuidado até dá para você fazer isso e pular no seu quintal em cima da grana, o problema é que o terreno abaixo era pedregoso e um piso em falso poderia levar a uns belos arranhões ou, o pior dos mundos em um lugar como aquele, uma torção do tornozelo a algumas horas sendo carregado até o socorro mais próximo. Ficamos matutando o que fazer quando, do nada, lá detrás, vem um chinês correndo com uma escada na mão. Lógico, do lado dele, uma outra caixa de isopor. Ficamos bem agradecidos com o que ele estava fazendo e pensamos até em comprar umas garrafas d´água da mão dele como agradecimento. Só havia um detalhe, cara, estávamos na China. Assim que ele botou a escada na torre, que eu ia pisar ele só falou: – “É dois reais para descer. POR PESSOA!!!”. Adam Smith ficaria orgulhoso!

Ok, cara, não quero que ninguém trabalhe de graça e talz, mas POMBAS! Era só uma escada! Eu, lógico, nem quis barganhar com aquele enviado dos infernos. Não era por causa do preço nem nada, era mais a atitude mesmo. Mole, mole, erámos apenas seres humanos em uma situação de risco! Entreguei a minha mochila para a galera em cima e fui me esgueirando, esgueirando e consegui alcançar o chão. Peguei as mochilas, ajudei os outros homens a descer, fizemos as mulheres pularem nos nossos braços e seguimos viagem.

Nosso amigo com sua caixinha de isopor

Em que língua escrevem os vândalos?

CINCO HORAS DEPOIS do momento em que decidimos não voltar e chegar à vila, chegamos em uma parte da muralha onde vários ambulantes conversavam. Exaustos, pobres, extorquidos, mas vivos e hidratados. Cara, não tinha placa nem nada, o caminho seguia e se não fosse a nossa amiga chinesa, para perguntar se aquela trilhazinha de nada levava até a vila, estaríamos caminhando até hoje nas muralhas. Isso é, até o momento que nosso dinheiro acabasse de tanto comprar água inflacionada. No acesso para a trilha, lógico, mais uma pequena queda de um metro e meio e mais uma operação padrão para içar as meninas de cima para baixo.

Grandes Muralhas

Cara, sabe aquela história do deixar sempre tudo para a última hora? Pois é, isso em viagens também acontece. As grandes muralhas, eram de longe o lugar que mais me interessava em Pequim. Eu fui deixando, deixando, deixando. Não era tão fácil chegar lá e parecia que não seria lá tão da hora ir sozinho. O problema é que o tempo foi passando e, quando dei por mim, já estava quase que no último fim de semana de China e precisa ir nessas muralhas.
 Comecei a pesquisar como fazia para ir e estava decidido a ir sozinho quando uma menina postou no grupo que estava a fim de visitar as muralhas no sábado, meu último dia em Pequim. Não era muito inteligente fazer isso, afinal, sábado é fim de semana e, se tudo na China já é lotado, imagina no fim de semana quando todos estão de folga. Logo mais uns dois também postaram e resolvi me entrosar no grupo. Trocamos mensagens por telefone e ficamos de nos encontrar no outro dia as seis e  meia da manhã numa estação de metrô, pois o busão para as Muralhas saía as sete de Pequim. Previsão de duas horas e meia para poder chegar lá.

Cheguei no horário combinado e me encontrei com a menina, uma chinesa (meu, como tudo fica mais fácil quando temos alguém que fala chinês) e um alemão, Mark. Fomos para a parada de ônibus e ficamos esperando o terceiro couchsurfer que deveria chegar. Esperamos dez, quinze, vinte minutos e nada do bicho chegar. De repente, ele liga, fala que tava chegando na estação de metrô e que precisava que a chinesa fosse busca-lo por lá. Ela foi correndo para não perder o ônibus e eu acabei ficando com o alemão lá esperando. Do nada um outro alemão que também estava indo para as muralhas se entrosou com a gente (aprendam uma coisa, se viajarem na Ásia, SEMPRE, se entrosem com os ocidentais. Tentar resolver as coisas em grupo é sempre mais fácil do que sozinho).

 De repente o busão começou a ir embora e o Mark falou que ia esperar os outros dois chegarem e talvez pegar o ônibus de mais tarde. Apesar de sair como babaca, resolvi não esperar e seguir logo. Pombas, era o meu último dia de Pequim, eu não poderia arriscar e, caraca, eu havia chegado na hora, brother! É complicado você comprometer um grupo por causa de uma pessoa que se atrasa e que você nem conhece (no final acabei me arrependendo do que fiz, pois conseguimos fazer o passeio de boa, como vou explicar posteriormente, e o cara que se atrasou era super gente boa).
Isso, gira a câmera para esse lado

 Antes de falar como foi o passeio nas muralhas, um briefing. As muralhas, segundo a história oficial, foram erguidas para conter as diversas hordas mongóis que apavoravam a China durante anos. Segundo os historiadores mais sérios e respeitados, a Muralha na verdade foi construída para deter Chuck Norris. Bem, em ambas as hipóteses, elas falharam miseravelmente. São uma das maiores obras de engenharias da humanidade (depois da construção da Ponte José Sarney em São Luís) e além de serem usadas como proteção, foram de grande utilidade para ligar diversos pontos montanhosos do Império Chinês, haja vista que era possível caminhar entre suas paredes e com isso abria uma “trilha” em pleno terreno montanhoso chinês.

VOTO VENCIDO 

Eles conseguiram pegar um outro busão, se viraram por lá e acabou que chegamos quase ao mesmo tempo. Como falei, quando há alguém que fala chinês é tudo mais fácil.
Quando fomos para subir a muralha, havia duas opções. Uma era pegar um bondinho, aproveitar a vista, cair direto nas muralhas e pagar uns quinze reais e a outra era subir um lance de escadas de quase meia hora. Meu, você tem noção do que é subir meia hora de escadas? Se você acha que já é difícil subir quatro andares, imagina uns 50. Se eu gostasse de subir escada alugava um apartamento no terceiro andar sem elevador nas quadras das 400. Pô, 15 reais não vai matar ninguém!!! É lógico que era a melhor ideia. É lógico que não pegamos o bondinho. Fui voto vencido. É lógico que os couchsurfers escolheram o mais barato. E lá vou eu subir escadas.
Bondinho, ao longe. Longe de mim que subia as escadas
Subimos um lance gigantesco de escadas e no final fizemos o que? Mais e mais escadas, mas dessa vez caminhando pela muralha da China.
Quando chegamos lá em cima já éramos um grupo de seis couchsurfers, pois não sei como uma polonesa acabou nos encontrando por lá. No caminho um outro chinês acabou se juntando a gente.
Depois de duas horas de caminhadas, subindo e descendo escadas, chegamos a um local onde dizia que a partir dali não era mais permitido caminhar porque as muralhas começavam a ficar perigosas. Um dos alemães disse que checou no GPS que se seguíssemos em frente caminhando na muralha, iriamos levar menos de duas horas para poder chegar a um outro vilarejo e de lá poderíamos pegar um taxi. Tínhamos cinco litros de agua para sete pessoas, sendo duas mulheres. Ou seja, tinha tudo pra dar errado, por isso todo mundo ficou doido pra ir.
Isso pra mim é um nível de racionalidade semelhante ao de torcer pro Botafogo, mas enfim, voto vencido novamente, seguimos em frente. Juro que me imaginei alguns anos depois estrelando algum documentário da Discovery tipo o “Sobrevivi” que conta como pessoas escaparam de situações extremas sem agua e comida!
 

China



Um dos principais motivos que sempre me fazem viajar para lugares pedreiras, é o fato de me sentir um Indiana Jones de vez em quando. Me sentir um explorar, ir a lugares nunca antes navegados, nunca antes pisados, nunca antes visitados, pelo menos não por seus amigos mais próximos =) Mas se tem outro motivo que também me faz viajar, é visitar lugares que logo logo me darão grande saudade de voltar para casa, lugares que me demonstrem o quanto a minha vida medíocre é confortável no Brasil e me dar valor as poucas coisas que tenho. Sim, a China e a Coréia do Norte serviram perfeitamente para poder me fazer sentir isso. Se você perguntar para mim se a viagem para a China, em particular, foi boa, eu diria que foi, digamos, neutra. Houve várias coisas que eu adorei, mas também houve MUITAS coisas que simplesmente detestei.
Um pouco de uma realidade já conhecida por aqui

A primeira coisa que é preciso ficar clara para qualquer pessoa que comece a tentar entender a China, ela não é exemplo para ninguém. Esqueça o que um ou outro teórico tentou lhe convencer que o Brasil deva seguir da China. A China é um país fechado com um sistema policial extremamente forte, perceptível na vida dos cidadãos e corrupto, muito corrupto. É muito fácil conseguir crescimento de 10% ao ano quando você consegue controlar a vida das pessoas, não possibilitando que elas possam protestar por melhores salários e qualidades de trabalho. Com salários baixos, sobram recursos para investimentos em obras de infra-estruturas como trens-bala, portos ou aeroportos. Além disso a poluição por lá é um problema sério. Qualquer ranking que seja realizado das 10 cidades mais poluídas do mundo, pode ter certeza que várias chinesas estão entre elas. É muito fácil crescer quando não existe controle ambiental.

Eles


A primeira percepção que vi é que as pessoas na rua são bem, mas BEM mal-educadas. Pode ter sido má experiência minha e isso não ser verdade, mas infelizmente foi o que ocorreu comigo. Não existe respeito a filas, os assentos preferenciais nos trens são meros enfeites e coisas assim. Eles fumam em qualquer lugar e não estão nem aí, fumando em restaurantes e dentro de trens. Mas nada, NADA, me incomodava mais do que duas coisas: Escarro na rua e trânsito.
 
Tinha uma amiga minha que dizia que o barulho típico da China é o shhiiirrrtttpllllerrr de alguém escarrando na rua. Não, eles não sai cuspindo não, é escarro mesmo, daquele que você ouve o catarro estalando na garganta antes de ele ser cuspido no meio da rua. E não é um ou outro não, é o DIA INTEIRO! Outro dia eu fui para um parque para ler um pouco e simplesmente desisti pq não aguentava mais ouvir gente escarrando para todo lado. É bem nojento como vocês podem ver na foto abaixo de um escarro fresquinho que um cara mandou bem perto do meu pé.
Outro problema que me irritava bastante é o trânsito. Você reclama da falta de educação do paulistano é porque nunca foi a Pequim. Os motoristas não tem paciência alguma e dirigem com a mão enfiada na buzina outra no celular. Não, não é que eles buzinam quando querem passar não, eles simplesmente ENFIAM a mão na buzina até alguém dar passagem. E não interessa se você está só realizando uma manobra, retirando o carro do estacionamento e parou dois carros, eles enfiam a mão na buzina até você sair da frente. Além disso o respeito ao pedestre é inexistente, se eles vêem alguém na frente, simplesmente enfiam a mão na buzina até você sair. E não interessa se o sinal está vermelho para ele e você está atravessando na faixa, eles passam por cima do mesmo jeito. Isso quando as motos não vão pela calçada mesmo para poder cortar caminho e passam zunindo do seu lado.
Uma das centenas de motinhas que quase passam por cima de mim em plena calçada de Xangai

No começo eu até ficava puto, mas depois fui entendendo. Num país que cresceu numa velocidade impressionante como a China, um grande número de pessoas recém entraram na classe média. São pessoas que não puderam receber uma boa educação ou, pior, durante muito tempo foram mão-de-obra barata e tratadas pior do que gado. Sabe aquele seu primo que viveu a vida inteira na roça e chega na cidade mais bruto que que o Maguila? Pois é, imagina milhões de Maguilas escarrando no meio da rua e você terá um retrato do que é a China.
Trânsito caótico



Metrô China
Isso me irritava profundamente no metrô. Tudo bem, quando o metrô tá LOTADO, você entende que as pessoas estejam loucas para entrar e garantir um lugar e por isso não esperam quem tá dentro sair para poder entrar. Mas cara, lá não importava se o metrô tinha milhões ou duas pessoas, sempre que você estava dentro e a porta se abria, eles VOAVAM e te jogavam para dentro se você deixasse. No início eu meio que desviava para poder sair, mas depois de um tempo eu comecei a fazer algo bem educativo. Tenho 75 quilos. Quando chegava ou ia para o aeroporto, tinha uma mochila de mais 30 quilos e outra de 5. Bicho, eu ficava no total com 110 quilos em 1,60m de altura! Calcula a densidade! Praticamente um tanque de guerra, um trator, um Panzer da cavalaria alemã da Segunda Guerra. Imagina qual não era a minha dificuldade para sair de metrôs e trens? Como eu falei, no começo eu até tentava desviar, mas com esse peso todo, lógico que tinha dificuldade. Depois de um tempo, como falei, comecei o meu processo educativo de ensinar as pessoas educadamente esperarem quem tá dentro sair para depois querer entrar no metrô. Eu me “equipava” todo, colocava todas as mochilas nas costas e esperava abrir. Na hora que a porta abria eu saía com tudo para fora do metrô. THIS IS ESPARTA!!! Com os chineses sendo geralmente pequenos e magros, eu só via gente voando para todo lado! Mas parecia um boliche. Isso era bom, porque na próxima vez que uma pessoa dessa visse alguém cheio de malas, iria educadamente deixar alguém sair para posteriormente depois entrar. Infelizmente, no final, você acaba ficando mal-educado também.



Mochila extraviada e mercado com muita confusão

Existe sempre aquelas coisas que você nunca imagina que vão acontecer com você: pegar uma doença muito ruim, ficar pobre, torcer pro Botafogo… Umas das que estavam no meu rol de “isso nunca vai acontecer comigo” era ter uma mochila extraviada. Pô, viajo MUITO no Brasil, seja a trabalho, seja a turismo e nunca, eu disse NUNCA, tive uma mochila extraviada. Por isso, nunca fiz o que varias pessoas recomendam que é deixar artigos de higiene básica e uma muda de roupa dentro da mochila de mão para o caso de você ter uma bagagem extraviada. Por isso o moído foi grande quando eu descobri que a minha mochila não iria mesmo aparecer naquela esteira de bagagem. Falem o que quiser do Brasil, mas comigo isso nunca havia acontecido em terras brasileiras. Se tivesse acontecido isso com qualquer um no Brasil já iam começar o velho clichê: “Se aconteceu isso agora, imagina como não vai ser na Copa…”.
Centro de Pequim

Como não havia o que fazer, fui reclamar no guichê da empresa no aeroporto da China e, lógico, não havia ninguém que falasse um inglês decente para poder me explicar o que estava acontecendo. Papo de cá, mimica de lá, acabamos que nos entendemos e eles ficaram de me entregar a minha mochila no próximo dia pela manhã. Como eu havia mudado minha rota (saí direto de Washington), minha mochila tinha sido extraviada. Saí do guichê com aquela cara de “tá, eu tenho certeza que tudo vai dar certo, United Airlines! Você nunca me aprontou uma!” (NOT!!!!!) e fui para o centro de Pequim procurar o meu couch.

COUCH (HOSPEDAGEM) EM PEQUIM

Até que não foi muito difícil encontrar o lugar que eu iria ficar. Me enrolei um pouco com todas aquelas letras chinesas, mas depois de um tempo zanzando que nem uma barata tonta, me passa um gringo do meu lado (uma coisa que vocês tem que aprender quando viajam na Ásia. Deu algum tipo de problema, pede ajuda pro primeiro gringo que vir!). Pedi o celular dele emprestado, o bicho foi de boa, liguei pra minha host e marquei de me encontrar em frente a uma lojinha lá. Ela foi me buscar e tudo de boa.
Eu iria ficar num couch super irado. No lugar moravam um francês, um inglês, uma russa, uma estoniana e uma chinesa, fora os agregados que iam se jogando lá pelos sofás (quando eu cheguei, além de mim, havia um esloveno babaca). E sim, o lugar era mais bagunçado que o Campeonato Maranhense de Futebol. Assim que cheguei, Sacha, a russa, me perguntou se eu queria dormir um pouco e eu, lógico, disse que não, que era melhor ficar acordado.

Tecla PAUSE

Aqui já vai a primeira dica pra quem estiver pensando em fazer viagens pela Ásia. Se você vem direto do Brasil, NÃO DURMA assim que chegar. Se quiser se acostumar com o fuso horário, controle o seu cansaço e só durma meia noite, uma hora da manhã. Você não vai conseguir dar uma dormidinha de uma hora só para relaxar, você vai capotar, acordar três da manhã e ficar zanzando esperando o dia amanhecer. Portanto, quer vencer o Jet Lag? Durma apenas no horário que você normalmente dormiria no Brasil. Eu dormi meia noite, por exemplo, apesar de esse horário no Brasil ser onze da manhã. Não tem vezes que você volta da balada e vai dormir sete da manhã? Pois é, fique com isso na cabeça e você não vai ficar com sono. Se não for assim, é prego de caixão, vai estar um solzão no lugar, você vai estar na cabeça que no Brasil é de madrugada e lá vai uma semana perdida tentando se adaptar com Jet Lag.

Tecla PLAY

Centro de Pequim

PRECISO DE ROUPAS!!!

Na verdade, na verdade, eu precisava mesmo era ir em um mercado, pois todos meus materiais de higiene pessoal (tirando escova de dente e desodorante) estavam na minha mochilona que só Deus sabia onde estava viajando nesse momento. Não tinha nenhuma roupa tirando a do corpo (que já estava com ela por pelo menos umas quarenta horas) e, o pior, não tinha cuecas.

Descemos para uma feira em um shopping que de cara dava para ver que era bem turístico. Por quê? Nada, só porque a atendente já começou me atendendo em espanhol (não era que lá eles falavam inglês! Ela fala espanhol!). Comprei algumas camisas no melhor estilo “fui em Beijing e lembrei de você”, uma bermuda e depois seguimos para o mais complicado: “comprar cuecas”. Porque? Ah, parceiro, se já é constrangedor você chegar em um camelô e falar “desce um par de cuecas ai”, imagina ter que chegar em um camelô e, por mímicas, querer dizer “estou procurando cuecas”. Parceiro, não teve outro jeito, tirei o cinto da calça, virei de lado, puxei de dentro da calça o “lado” da cueca que eu tava usando (tentando não deixar escapar as teias de aranha e morcegos porque já eram rodados quase 47 horas de uso da mesma cueca) e o cidadão entendeu. Mas, veja bem, eu tava fazendo isso de maneira discreta. A Sacha, amigo, não queria nem saber, já chegava botando o bicho na galera e alardeando para quem quisesse ouvir na feira “estou procurando cuecas para o maranhense ao lado aqui!!!”. E tome constrangimento!

Existem diversas formas de se ganhar a vida na China. Acredite, seu trabalho não é tão ruim quanto você pensa.

Tentei dizer para ela que aquela cena toda era meio constrangedora, uma menina intermediando com seu parco chinês uma compra de cuecas pra mim, mas ela só ficou mais discreta mesmo quando uma vendedora disse que tinha cuecas bem baratas para o seu marido!! Sim, porque se você vê dois gringos de idade semelhante caminhando numa feira e a mulher pedindo cuecas para o homem, você na hora vai deduzir o que?  Se bem que, ela devia era ter achado o máximo! Não é todo mundo que pode se dar ao luxo de ser casada com um maranhense com 1,60m de pura emoção. Compramos alguns poucos pares, pois, me havia sido prometido que no outro dia pela manhã, eu receberia minha mochila de volta. Comprei mais cuecas mesmo pq o preço tava barato e eu tava precisando de cuecas de qualquer forma. Outra parada bem engraçada é que, muita gente diz que é lenda, mas cara, aquilo sobre os asiáticos é verdade, viu? Não, eu não fui trocar de cueca com o vendedor no banheiro, mas acontece que eu tive que pegar a cueca XXXXXL para ficar um pouco apertada, mas confortável.

Jantar oferecido em um restaurante norte-coreano em Pequim. Como tudo dos norte-coreanos, o restaurante era bem luxuoso

PORQUE TODO MUNDO TEM O SEU DIA DE GRINGO SOLTA FRANGA

No outro dia, como era de se esperar, minha mochila não chegou. Lá fui eu ter que ir comprar mais roupas (principalmente cuecas) só que dessa vez sozinho, pois a Sacha tinha que trabalhar. Após me encontrar com o pessoal da agência de turismo da Coréia do Norte em um restaurante de Pequim e pagar o meu pacote, segui para o mesmo shopping que havia ido com Sacha no dia anterior para comprar as cuecas. Só que, ferrou, tava fechado! O lugar fechava as sete. E aí, parceiro? Se lá que a galera falava pouco inglês já era difícil, imagina como seria nos outros lugares que NINGUÉM fala inglês. Vamos dar um jeito. Camisas eu ate podia pedir emprestadas para a galera do meu couch, mas cueca já é um pouco demais. Fui andando pela rua a procura de algo ou algum lugar que pudesse parecer vender cuecas e nada. Parei em frente a um sex shop e pensei “será se sex shop vende cueca?”, mas depois desisti da ideia de chegar na Coréia do Norte (cujo voo era no outro dia pela manhã) com cuecão de couro (uuhuuuooo!!) ou cuecas de super-homem, águias, elefantes (imagine como seria a tromba), Homem-Aranha, angry birds ou coisas assim. Depois de um tempo, entrei em um supermercado e qual não é a minha surpresa ao descobrir que nos fundos havia uma lojinha de roupas.

Cheguei lá e só vi calcinha para vender (não, amigão, eu não comprei calcinha. Se eu cogitei comprar? Se eu tivesse, cê acha que eu falaria?). Fiquei procurando cueca e nada de achar. Quando fui procurar um vendedor, problema! Só tinha vendedora mulher! Qual problema? Pombas, eu não poderia usar minha estratégia de virar de lado e puxar minha cueca dizendo que eu precisava de aquilo porque, bem, porque ela era mulher, cara! Vai que ela entende que eu tou assediando ela sexualmente (E ai, gatinha? Quer terminar de tirar isso aqui lá em casa?). Sei lá, ninguém falava inglês. Dai, no desespero, não deu outra, apela pra mimica. Nada dela entender. Mais desespero. Tento desenhar uma cueca no papel, nada dela entender. Mais desespero. Resolvi apelar. Comecei a apontar para a calcinha e depois para mim, batendo no peito tentando explicar “quero um desses, só que para homem!”. Na hora eu vi que a cara que ela fez foi “pronto, mais um gringo querendo comprar calcinha! Mais um que vem para Ásia para soltar a franga!” e me entregou uma calcinha!!!! Falei que não era aquilo!! Ela ficou me olhando com uma cara meio estranha e depois fez que entendeu. “Ufa”, pensei. Parceiro, a mulher não me vem lá de dentro e me traz um sutiã? Aí eu realmente tive certeza que ela achava que eu torcia pro São Paulo. Na hora eu fiquei meio sem saber o que falar (pô cara, a mulher achou que eu fui lá para comprar sutiã!!!), mas depois comecei a apontar para a minha bacia!! Ate que, enfim, uma velha que tava lá atrás do balcão entendeu e me trouxe umas cuecas XXXXXL acabando por vez com minha agonia.

United, você me apronta cada uma.

Pior que no final não adiantou de nada. Assim que eu cheguei em casa, Sacha recebe uma ligação. Pela reação dela parecia ser algo bom. Descemos e NA MINHA ULTIMA NOITE EM PEQUIM ANTES DA CORÉIA, me para uma Kombi e me desce um GORDO suado com a minha mochilinha, inteirinha, viva, sã e salva e, o melhor, com todas as minhas cuecas dentro!

Isso, vai lá, mostra pro tio como é que se faz uma pose para foto.
Olha como era simples achar o restaurante que eles haviam indicado, havia só CAMINHÕES em frente da entrada
Centro de Pequim
Pragmatismo, é isso que eu admiro nos chineses. Para que comprar um carrinho de bebê se você já tem uma mala com rodinhas?
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