Questão Palestina

Alguém fez um comentário no post passado, acho que a Paulistana, com uma proposta que eu achei bem interessante. Ela pedia que eu desse a minha visão sobre o conflito entre Israel e Palestina. Cara, se posicionar sobre um tema tão delicado como esse é realmente muito complicado. Como falei, desde que o Cristianismo, o Judaísmo e o Islamismo existem, eles estão lutando entre si, com um se aliando ao outro com o passar do tempo.

É complicado falar sobre a Questão Palestina por que, por mais que queiram nos fazer acreditar, esse conflito que está ocorrendo agora, logicamente, não se iniciou com a criação do estado de Israel. Só pra lembrar, as cruzadas nada mais foram do que a tentativa de se recuperar a Terra Santa das mãos dos infiéis muçulmanos que ocupavam Jerusalém há um bom tempo. Por nove vezes os cristãos guerrearam com os islâmicos, algumas vezes obtendo sucessos outras não.

Desde o começo do século e, principalmente, depois do Holocausto, milhões de judeus começaram a comprar terras e a migrar para a Palestina onde começaram a formar os seus kibutzi. Após a declaração de sua independência (o qual o Brasil foi um dos maiores entusiastas), Israel foi atacado por vários países árabes coligados e milagrosamente conseguiu derrotá-los. Com a justificativa que precisava de faixas de terras para se proteger dos próximos ataques, anexou diversas regiões de países vizinhos e no caminho ou expulsou (versão palestina) ou simplesmente assistiu os palestinos indo embora temendo por suas próprias vidas (versão de Israel). Esses palestinos acabaram indo se refugiar nos países vizinhos (Síria, Líbano, Jordânia…). Aí estava feita a panela do diabo.

Os judeus de Israel, por temerem se tornar uma minoria no seu próprio país, não aceitam que os palestinos voltem. Os países árabes não aceitam negociar enquanto os palestinos não puderem voltar para suas antigas moradas. E os pobres dos palestinos ficam sendo usados como massa de manobra por ambos os lados.

O cerne da questão é: – Afinal, a quem pertence as terras? Quem é o LEGÍTIMO dono? Essa resposta é muito difícil de ser respondida por que terras de países não são como o terreno de sua casa. Quando você vai comprar a sua casa, você vai lá, conversa com o antigo morador, ele lhe vende, o Estado lhe confere legitimidade e a casa é sua. Ninguém pode vir, dizer que morava lá há quarenta anos atrás e lhe expulsar de onde você está se você fez tudo de maneira legal, afinal, como falei, há o Estado para lhe garantir a legitimidade. O problema é que com países as coisas não são tão simples…

Num pensamento simplista, poderíamos dizer que os judeus “invadiram” o lugar onde hoje é Israel e expulsaram os Palestinos que lá estavam. Portanto eles “roubaram” as terras e casas dos árabes. Mas quando os árabes lá chegaram, não havia ninguém? Pelo contrário, os árabes também expulsaram os antigos detentores de Jerusalém (se não me engano os bizantinos) e ocuparam a terra por lá ficando. Então, eles também expulsaram alguém pra poder se alojar por lá. Além de que, se você pegar lá atrás na história, vai ver que os judeus são provenientes dessa região (guiados até lá por ninguém menos que Moisés) e foram expulsos pelos romanos há dois mil anos atrás da terra que eles acreditam lhe ser prometida por Deus. Por isso que você ao conversar com um ultra-ortodoxo ele vai argumentar que os judeus estão apenas voltando pra casa, ainda que 2000 anos depois. Você pode falar sobre essa história toda durante horas, mas imagina que você foi expulso da sua casa, da sua cidade? Será se um dia você vai aceitar isso? O Hamas tá aí pra poder te dar a resposta!

Por isso que é muito complicado opinar sobre esse assunto, cara! Israel tem o direito de existir e realmente precisa se proteger dos seus vizinhos hostis (Israel nunca iniciou uma guerra contra um país vizinho, eles sempre foram ameaçados ou atacados primeiro. Se a resposta foi totalmente desproporcional, aí é outra história. Bom lembrar que um dos principais objetivos do Irã e do Hizbollah é empurrar todos os judeus para o mar), mas ao mesmo tempo em que se protege, trata os palestinos como gado. Os palestinos também têm o direito de terem um Estado independente, mas não aceitam o traçado que Israel está disposto a ceder. Como não tem como fazer frente ao poderio bélico de Israel, utilizam o terrorismo para poder atacar. Por isso que eu sempre digo que ambos os lados estão super certos e super errados ao mesmo tempo. Há muita gente querendo pouca terra e esse conflito, infelizmente, tende a se arrastar durante um bom tempo…

Saindo de Israel

Depois de passar por altas aventuras com uma turminha do barulho, meu plano era seguir de volta para o Egito e pegar meu avião em direção à Suíça. Pra minha grata surpresa, Helena tinha planos diferentes. Ela e a mãe dela planejavam viajar para a Jordânia para visitar as ruínas de Petra, a cidade perdida, a cidade construída nas pedras da Jordânia.

Tinha ouvido um pouco sobre a história dessa verdadeira pérola do Oriente Médio, mas não tinha feito planos de ir para lá. Na verdade parecia até um pouco difícil de chegar, por isso eu meio que desanimei. Depois do convite da Helena e de descobrir que Petra foi eleita uma das sete maravilhas modernas, não pensei duas vezes e resolvi ir para lá com ela. Só não sabia que ia dar tanto trabalho.

Trabalho pra poder chegar lá? Não, amigo, trabalho pra SAIR de Israel. Raios! Eu querendo sair do país e os caras pareciam que não queriam deixar eu ir embora. Foi quase que a mesma dor-de-cabeça pra poder entrar. Entra aqui, é entrevistado aqui. Entra ali é entrevistado ali. E por aí vai! Cara, isso porque eu tava indo embora! Passei quase uma hora para atravessar uma faixa de terra de uns cem metros. O melhor não foi isso. O melhor foi que fizemos amizade com uma brasileira que estava por lá atravessando também. Essa brasileira nos presenteou com uma das cenas mais engraçadas/sem noção que pude ver em toda minha vida.

Estávamos nós quatro conversando enquanto os guardas checavam os nossos passaportes. Quando eu olho pro lado, tá lá a cena inimaginável! A gente já DENTRO da base militar, olha pro lado e tá a mulher com a câmera ligando e filmando tudo lá dentro! Pra quem não sabe o teor da maluquice que ela estava fazendo, basta lembrar o que aconteceu comigo quando eu fui bater uma foto na RODOVIÁRIA. Cara, sabe quando acontece aquela parada que você não tá nem um pouco esperando? Tipo, imagina que você está andando de boa na rua e um elefante rosa com bolinhas amarelas passa do seu lado fazendo malabarismos! Foi mais ou menos como eu me senti quando eu vi aquela mulher com a câmera ligada! Fiquei uns cinco segundos com aquela cara de “MAS QUE PORRA É ESSA?” olhando pra ela e tentando não acreditar! Fiquei tão confuso que na hora de falar “meu, desliga essa câmera”, errei até a língua e comecei a falar em inglês com ela. Depois que consertei a língua correta, falei pra ela desligar e ela, graças a Deus, desligou primeiro e foi me perguntar depois por quê. Felizmente o guardinha não viu o que ela tinha feito. Perguntei por que ela estava fazendo aquilo e a resposta foi o que coroou aquela noite: – Ah, mas a lua tava tão bonita, resolvi fazer uma filmagem dela! (!!!!!!!!). Nessa hora deu vontade de dar uma chacoalhada e gritar “AMIGA! ISSO AQUI É UMA BASE MILITAR DE UM DOS PAÍSES MAIS PARANÓICOS DO MUNDO! Espera a gente passar pro lado da Jordânia que lá, cem metros depois daqui, vai ter uma lua tão bonita quanto essa!!!!”. Mas fiquei de boa.

Tudo deu certo e escapulimos pro lado da Jordânia, mas não sem antes conversar em português com, pasmem, o último guardinha que checava nosso passaporte. Ele havia morado em São Paulo por um tempo e ainda lembrava algumas palavras em português. Cara gente boa demais. Foi uma das ÚNICAS pessoas simpáticas que pude conhecer em Israel, pra falar a verdade. Na saída de Israel ainda tive que pagar uns 40 dólares de “taxa de saída” (!!!). Pra entrar eu não paguei nada, mas pra sair tive que levar essa facada! Fiquei me perguntando se eles tavam fazendo aquilo comigo só pra eu nunca mais voltar. Se foi pra isso, cara, pode ter certeza, eles chegaram muito próximo disso. Só pra vocês terem um ideia, depois que saí da Jordânia, teoricamente deveria passar por terra por Israel em direção ao Egito. Para evitar toda essa dor de cabeça, preferi pegar um ferry boat da Jordânia, atravessando todo o Mar Vermelho e já descendo direto no Egito. Deus me livre passar por todos esses postos de fronteira novamente. Pode ter sido só um infeliz azar, mas, cara, Israel me entristeceu bastante.

Viajando pela Palestina. Não, não é tão perigoso como você imagina

(Pessoal, esse post vai vir meio cheio de figuras, mas é interessante por causa do contexto)

Ter a oportunidade de visitar o dueto Israel-Palestina foi uma das mais importantes e enriquecedoras experiências que minha viagem pôde proporcionar. Depois de passar por lá, visitar e poder conversar com palestinos e israelenses pude entender que o conflito entre muçulmanos, cristãos e judeus que ocorre lá há mais de 1000 anos é bem mais complexo e difícil de entender e resolver do que alguns analistas políticos de banheiro querem lhe fazer acreditar.

De início, achei que seria necessário pedir um couch pra poder ficar em Ramallah, mas logo no começo da viagem descobri que uma amiga estava servindo na representação diplomática brasileira na Palestina e ela me convidou pra poder ficar na casa dela. Bom demais.
Procure uma bandeira brasileira nessa foto na Palestina!
Cara, antes de eu efetivamente visitar a Palestina, eu tinha uma visão totalmente diferente de lá. Eu sempre achei que fosse um lugar paupérrimo e com todo mundo se matando pelas ruas. Uma sucursal do inferno mesmo. Mais ou menos como a foto abaixo.

Pô, mais dia menos dia eles estão sobre bombardeio intenso de Israel que vez ou outra corta a eletricidade, a água e as rotas de escoamento do país inteiro. Lá não podia ser tão rico! Mas apesar de tudo, quando cheguei por lá fiquei impressionado como as cidades parecem até bem arrumadinhas, não muito diferentes das cidades que temos aqui no Brasil. A economia de lá ainda parece sobreviver apesar de todos esses problemas. Não lembro de ver em lugar algum aquela pobreza abjeta, miserável, ou algo assim. Ramallah parecia uma grande cidade de classe média.
E não, cara, lá não há violência. Lá é MUITO calmo e as pessoas não estão cortando as gargantas de umas as outras nas ruas. Lá é apenas um lugar normal, com pessoas normais e ruas normais. Lá é inclusive BEM mais seguro que andar pelas ruas do Brasil.

Chegar a Ramallah, capital da Palestina, é muito fácil. Tem ônibus toda hora saindo de Jerusalém. Na verdade, pra ser mais exato, Ramallah fica a mais ou menos uns 30 km de Jerusalém, cidade (parte oriental) que era pra ser a capital do estado Palestino. Pegar esses busões de volta pra Ramallah eram interessantes porque eu sempre podia voltar conversando com os palestinos que todos os dias faziam esse trajeto de ida e volta pra ir trabalhar em Jerusalém e contavam como era a sua rotina de dia após dia ter que passar pela humilhação de serem revistados por recrutas israelenses de 16 anos de idade, isso quando os soldados não encasquetavam e seguravam a van durantes horas na fronteira levando a atrasos no trabalho.

Afim de tomar uma no Stars & Bucks Cafe?
Os palestinos em si eram bem amigáveis. Sempre dispostos a uma boa conversa e a te ajudar caso você precisasse de uma informação ou alguma foto, mais ou menos a experiência que tive quando estive em outros países árabes. Você conversando com eles, dá uma pena, cara! Eles relatando aquela vida de humilhação e indignação que sempre são obrigados a enfrentar. É como outro dia um palestino me falou em um busão na volta pra Ramallah:
– Eles falam em paz com a gente. Mas como você pode ter paz quando um lado em questão tem todas as armas e o poder e o outro é relegado a segundo plano? Tratado como sub-raça sem ao menos poder decidir o seu futuro?
Lá na Palestina “pegar um Mercedes pra ir pra casa” está longe de ser voltar de busão
Além de todos esses problemas, há o infame muro construído por Israel para supostamente protegê-los dos palestinos. O muro contorna toda Palestina e em alguns trechos tem oito metros de altura (bem, só pra vocês terem idéia, o Muro de Berlim tinha entre quatro e cinco metros). Construir um muro na fronteira pra lhe separar do vizinho não é algo, digamos, “novo”. Na verdade, até os EUA tem um muro desses na fronteira do México. Isso sempre ocorreu na história humana quando uma nação se sentiu ameaçada por uma vizinha, a Grande Muralha da China que o diga. Mas cara, o pior mesmo desse muro de Israel é que o bicho é MUITO maligno. Por quê? Bem, digamos que estamos falando de uma região onde as fronteiras não são claramente definidas. Bem pior que isso, a Palestina nem um país em si pode ser considerada. Então, você acha que Israel foi lá, sentou com os Palestinos, conversou com eles e aí construiu o muro? Claro que não! Israel foi lá e começou a subir o muro do jeito que eles bem entenderam, onde ELES imaginam que é a fronteira. Resultado? Os caras cortaram propriedades e oliveiras milenares no meio na Palestina e colocaram dentro de território israelense. Numa tacada dessas já levaram 12% do território da Cisjordânia (Palestina Oriental). Não é a toa que esse muro é conhecido como o Muro do Apartheid. Esse muro, lógico, é um dos maiores ódios que os Palestinos tem de Israel e é quase que todo pichado com palavras pedindo liberdade e justiça, além de várias pinturas e obras de arte.
O mapa da Palestina parece um rim, né?
Bandeira brasileira pintada ao lado de uma bandeira palestina no Muro. Foto da internet

A QUESTÃO ARAFAT

Uma coisa que você aprende quando viaja pela Cisjordânia é que lá há uma unanimidade e ela se chama Yasser Arafat. Cara, não há uma esquina, uma rua, um prédio, qualquer lugar em que você não vire e olhe ao menos uma foto ou um cartaz do famoso engenheiro egípcio, parecia até a África do Sul. Apesar de extremamente fragmentada e muitas vezes lutando entre si, a resistência palestina respeita bastante Arafat. Em Ramallah, há o túmulo onde se encontra embalsamado o corpo de Arafat onde, lógico, eu fui visitar.

Não é só Arafat que é ídolo por lá não. Também há esse figura aí de cima. Sempre bom lembrar que Saddam Hussein foi um grande apoiador da causa palestina
Mas o que ocorreu de mais interessante e mais legal comigo enquanto estive na Palestina foi que tive a EXTREMA sorte de estar em Ramallah em um dia superimportante. Eu só não sabia qual. Aconteceu assim, estava eu, de boa, no meio da rua, caminhando e dando uma volta em Ramallah e DO NADA uma MULTIDÃO começou a passar do meu lado carregando algumas bandeiras e gritando palavras de ordem. Eu realmente não entendi o que estava havendo. Cara, imagina, se aqui no Brasil, quando você tá no meio na rua e um protesto passa do seu lado, já dá um pouco de medo de sair do controle e vir a polícia com o caminhão de Cream-Cracker e distribuir bolacha pra todo lado, imagina isso NA PALESTINA! Pois é, era melhor não gritar truco e pagar pra ver porque tinha grande probabilidade de ser um protesto contra Israel e eles virem descendo o cacete ou duas facções diferentes da resistência palestina resolverem se desentender e a porrada comer solta.

Olha o tamanhozinho do rifle dos policiais
Fiquei meio de lado, mas continuei batendo algumas fotos, meio que brincando de “correspondente internacional”. Tava de boa até que teve uma hora que, bem, teve uma hora que uma bandeirinha bem, digamos, “polêmica” começou a surgir no meio do protesto. Era uma bandeira meio amarelada… Cara, era a bandeira do Hizbollah! E bicho, aí eu já meio que comecei a entrar em pânico. Pra quem não sabe o que é o Hizbollah, é um dos partidos árabes mais radicais e reconhecido como uma organização terrorista por diversos países ocidentais. Uma de suas principais bandeiras é a de gentilmente empurrar todos os israelenses no mar. Protesto de organização terrorista? Hum, isso não podia acabar bem…

Mermão, nessa hora fiquei em pânico! Protesto do Hizbollah NUNCA termina bem! Os caras são tão malucos e fundamentalistas que se vissem o Bolsonaro falariam que ele é muito contido em suas palavras. Até em sair correndo eu pensei, mas depois fiquei imaginando os caras olhando um estrangeiro, com uma máquina digital na mão, saindo correndo no meio da multidão, com uma cara de filho da puta… Aí já viu, né? Iam achar que eu era espião e eu iria virar maranhense ao sugo. Saí de mansinho e fui pra longe da multidão.
Esqueça a ONU, o futebol ainda vai salvar o mundo
Depois de uns dias que eu fui descobrir que todo esse medo e precaução não serviram de nada. Depois que eu fui descobrir que aquilo não era um protesto coisíssima nenhuma, aquilo era apenas os palestinos saindo às ruas pra poder lembrar o aniversário de Arafat e demonstrar o orgulho de terem nascido naquele lugar. Por último, as bandeiras amarelas que eles estavam carregando não eram do Hizbollah, mas sim do Fatah, o partido de Arafat. Mas pombas, olha só a semelhança das bandeiras:

Agora parece engraçado, mas queria ver os machões que tão rindo aí no meio de uma parada dessas como é que iriam se comportar.

BELÉM, ESSA SIM, A CIDADE QUE JESUS NASCEU

Além de Ramallah, na Palestina fui também a Belém, cidade que, ok todo mundo sabe, foi onde Jesus nasceu (apesar de ter crescido em Nazaré). A cidade em si tem o mesmo “problema” que Jerusalém. Há muita preocupação em criar vários lugares sagrados (lugar onde Maria amamentou Jesus, lugar onde Jesus rezou…) e pouca preocupação com os fatos históricos. Entendo que é muito importante um lugar como esse para quem é cristão praticante, mas eu sou mais interessado na História do lugar mesmo.

Mas apesar disso, vale o passeio por lá. Belém é uma cidade com mais de quatro mil anos e tem aquele charme de cidade sendo que medieval com suas casas de pedras e suas ruas minúsculas.
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