VIAGEM A ETIÓPIA| Addis Abeba: igrejas secretas, altitude e a melhor comida da viagem

Depois de perder praticamente um dia inteiro aprendendo, da pior forma possível, que nem sempre vale a pena tentar ser o mais esperto da situação, finalmente chegou a hora de conhecer Addis Abeba de verdade. No fim das contas, aquela saga atrás de um chip de celular e de uma Coca-Cola Zero acabou tendo um lado positivo. Passei horas andando sem rumo pela cidade, o que me permitiu observar com calma as ruas, os bairros e o dia a dia dos moradores. Pelo menos na região mais central e urbanizada, Addis Abeba me surpreendeu pela limpeza, pela organização e pela sensação de cidade em pleno crescimento. Era uma capital muito diferente da imagem que eu tinha formado antes da viagem.

No meu segundo dia, resolvi contratar um guia que tinha sido recomendado pelo meu amigo meu que eu iria visitar. Meu amigo fez questão de destacar duas qualidades: o sujeito conhecia muito bem a história da Etiópia e, principalmente, falava um excelente inglês.

O Gashaw passou para me buscar no hotel logo cedo. Assim que ele começou a falar, eu já senti um alívio enorme. Eu entendia absolutamente tudo o que ele dizia. Não havia aquele sotaque carregado ou aquele inglês truncado que faz você passar o passeio inteiro fingindo que entendeu metade da conversa. Depois perguntei onde ele tinha aprendido a falar tão bem. A resposta veio com a maior naturalidade do mundo: ele era formado em Literatura Inglesa. Aí fez sentido. Dali em diante, o passeio virou praticamente uma conversa entre dois amigos. Além de conhecer muito da história da Etiópia, o Gashaw era um sujeito extremamente simpático o que deixou o dia muito mais agradável.

A primeira parada foi a Igreja de São Jorge (ou St. George Cathedral), um dos templos mais importantes da Igreja Ortodoxa Etíope. Construída no fim do século XIX para celebrar a vitória etíope na Batalha de Adwa, quando o exército do imperador Menelik II derrotou as tropas italianas e garantiu a independência do país, a igreja se tornou um dos maiores símbolos do orgulho nacional etíope. No complexo também estão os túmulos de Menelik II e de sua esposa, a imperatriz Taitu Betul, duas das figuras mais importantes da história moderna da Etiópia. Além de seu enorme significado histórico e religioso, a igreja é conhecida por sua arquitetura octogonal e por abrigar um pequeno museu com objetos ligados à monarquia e à tradição ortodoxa do país.

O mais legal é que a visita ao interior da igreja não é feita por um guia turístico qualquer, mas por um diácono da própria Igreja Ortodoxa Etíope. Enquanto caminhávamos pelo templo, ele ia explicando a história da igreja, o significado das pinturas, dos ícones e das cerimônias religiosas. O único problema era um pequeno detalhe: se eu entendi uns 10% do inglês dele, foi muito. Tinha momentos em que eu sinceramente não sabia se ele estava falando inglês ou se já tinha mudado para o amárico no meio da frase. Ainda assim, mesmo sem compreender tudo, a experiência valeu muito a pena.

Foi ali que tive meu primeiro contato de verdade com o cristianismo etíope. Até então eu conhecia a Igreja Ortodoxa Etíope apenas pelos livros, mas vê-la funcionando na prática foi muito interessante. O que mais me chamou a atenção foi como, apesar de terem seguido caminhos diferentes há muitos séculos, ela continua sendo muito mais parecida com o catolicismo romano do que eu imaginava. Os vitrais e pinturas mostravam São Jorge, o anjo Gabriel, a Virgem Maria, a Santíssima Trindade e diversas outras figuras que qualquer católico reconheceria imediatamente. 

Pode parecer um detalhe pequeno, mas para quem cresceu no Brasil isso chama atenção. Em boa parte das igrejas protestantes brasileiras, por exemplo, esse tipo de representação não é permitido.

Mas o momento mais marcante da visita veio quando o diácono caminhou até um dos cantos da igreja, levantou um tapete e revelou uma pesada porta de ferro embutida no chão. Parecia cena de filme de aventura. Ele abriu a porta e apareceu uma escada estreita descendo para uma passagem subterrânea que levava aos fundos da igreja. Naquele instante, tive a sensação de estar entrando em um daqueles antigos mosteiros medievais cheios de passagens secretas e histórias escondidas. Só aquela cena já fez a visita valer a pena. 

Cara, a porta era tão pesada que três homens precisaram fazer força juntos para levantá-la. Era uma chapa de ferro enorme, daquelas que passam a impressão de que foram feitas para resistir a qualquer coisa. Não duvido nem um pouco que aquele compartimento suportasse até um bombardeio. Era só torcer para não ter uma pedra gigante rolando ladeira abaixo. 

Assim que descemos a escada, chegamos a uma espécie de cripta, onde estão os túmulos do imperador Menelik II e de sua esposa, a imperatriz Taitu Betul, instalados em dois mausoléus monumentais, ricamente ornamentados. O ambiente era escuro, silencioso e transmitia uma sensação de enorme solenidade. Tudo era muito luxuoso, muito nobre, muito da realeza. Os tapetes, as pinturas, a decoração… Enquanto caminhávamos pelo local, o diácono continuava explicando cada detalhe da sacristia, apontando objetos religiosos, pinturas e símbolos da tradição ortodoxa etíope. O problema é que, naquele ponto da visita, eu já tinha desistido completamente de tentar entender o inglês dele. De vez em quando eu ainda fazia um esforço, mas logo percebia que estava mais perdido do que chinelo em enchente.. Passei a simplesmente observar o lugar e deixar a vida me levar. Antes de irmos embora, o diácono fez questão de nos mostrar uma pintura que, segundo a tradição local, teria sido feita por Michelangelo. A história é fascinante, embora a maioria dos historiadores considere essa atribuição extremamente improvável e não haja provas que confirmem que a obra seja realmente do mestre renascentista. Ainda assim, verdadeira ou não, foi uma daquelas histórias que tornam uma visita muito mais interessante.

Subindo mais alto que o Pico da Neblina sem sair do carro – O lugar onde os etíopes treinam para dominar as maratonas

Depois da visita à igreja, voltamos para o carro e seguimos para o Parque Entoto, onde fica um dos mirantes mais famosos de Addis Abeba. A princípio, eu achei que não haveria tanta diferença. Afinal, a capital da Etiópia já está a cerca de 2.400 a 2.500 metros de altitude. Subir mais algumas centenas de metros não parecia algo tão significativo. Mas bastou olhar as placas para perceber a dimensão da coisa. Em poucos minutos de carro, chegamos a aproximadamente 3.100 metros acima do nível do mar. Para ter uma ideia, eu estava a uma altitude superior ao Pico da Neblina, o ponto mais alto do Brasil, que nem chega aos 3.000 metros. Era uma sensação curiosa pensar que eu tinha alcançado aquela altura simplesmente sentado no banco de um carro.

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O Gashaw aproveitou o caminho para explicar que a altitude é justamente um dos grandes segredos do sucesso dos corredores etíopes nas provas de longa distância. Muitos atletas de elite treinam na região do Entoto para aproveitar o ar mais rarefeito. Como há menos oxigênio disponível, o organismo é obrigado a produzir mais glóbulos vermelhos para transportar oxigênio pelo corpo. Depois, quando esses atletas competem em cidades ao nível do mar, onde o ar é muito mais rico em oxigênio, acabam levando uma vantagem fisiológica importante.

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Não é por acaso que a Etiópia produziu alguns dos maiores fundistas da história, como Abebe Bikila (que ganhou duas medalhas de ouro. A primeira correndo DESCALÇO em Roma), Haile Gebrselassie, Kenenisa Bekele e Tirunesh Dibaba. Para eles, subir correndo uma montanha a mais de três mil metros de altitude faz parte da rotina de treinamento.

O mirante em si é espetacular. Infelizmente, no dia da minha visita, o tempo estava bastante nublado e a vista de Addis Abeba não apareceu com toda a grandiosidade que eu imaginava. Ainda assim, o passeio valeu muito a pena. Além da paisagem, o parque é coberto por extensas florestas de eucalipto, uma árvore que, curiosamente, nem é nativa da Etiópia. O Gashaw me explicou que ela foi introduzida no fim do século XIX pelo imperador Menelik II. Na época, Addis Abeba crescia rapidamente e a população já havia praticamente esgotado a madeira das florestas nativas para construção e produção de carvão. Como o eucalipto cresce muito depressa, ele acabou sendo escolhido para reflorestar a região e, desde então, passou a fazer parte da paisagem da cidade.

Como o corte das árvores é proibido, surgiu uma atividade bastante curiosa. Existe uma associação de mulheres que percorre diariamente o parque recolhendo apenas folhas, galhos secos e madeira caída naturalmente. Depois, elas carregam enormes fardos nas costas morro abaixo para vender como lenha nos mercados de Addis Abeba. Confesso que foi uma das cenas que mais me marcou durante a viagem. Eram senhoras já de idade, muitas delas bem pequenas fisicamente, transportando cargas que pareciam pesar quase tanto quanto elas próprias. 

Folhas para serem vendidas

É um trabalho extremamente pesado e, pelo que pude perceber, muito mal remunerado. Foi um daqueles momentos em que a beleza da paisagem e a dureza da realidade conviviam lado a lado, lembrando que a Etiópia moderna que tanto me impressionou ainda enfrenta enormes desafios sociais.

Injera, Mercato e o primeiro picolé maranhense da Etiópia

Depois seguimos para um dos restaurantes mais tradicionais de Addis Abeba, o Addis Ababa Restaurant. O restaurante funciona em um casarão histórico construído pelo imperador Menelik II, que foi dado de presente à sua filha, a futura imperatriz Zewditu, quando ela se casou com Dejazmach Wube. Só o prédio já vale a visita. É daqueles lugares em que você tem a sensação de estar entrando em um pedaço da história da Etiópia. Logo na entrada, outra tradição chama a atenção: a cerimônia do café. Uma funcionária coloca carvão em um pequeno fogareiro, torra os grãos de café na hora, mói tudo manualmente e prepara a bebida em uma jarra de barro chamada jebena. No meio tem uns incensos para deixar mais cheiroso. O cheiro do café recém-torrado toma conta do ambiente e, para os etíopes, esse ritual é muito mais do que preparar uma bebida. É uma forma de receber bem os convidados, conversar e celebrar a convivência. Como eu não tomo café, fiquei apenas observando, mas achei muito interessante ver uma tradição tão antiga ainda fazendo parte do cotidiano do país. 

Foi ali também que experimentei o prato mais famoso da culinária etíope: a injera. Na verdade, a injera é aquele enorme pão achatado e esponjoso que serve ao mesmo tempo de prato, talher e acompanhamento. Ela é feita de teff, um cereal originário da Etiópia cultivado na região há milhares de anos. Sobre esse pão são colocados vários ensopados, legumes e molhos, cada um com um sabor completamente diferente. Não existe garfo nem faca. Você rasga um pedaço da injera com a mão e o usa para pegar a comida.

A famosa Injera

E, cara… que negócio bom. A injera tem um sabor levemente azedo, resultado da fermentação da massa, que combina perfeitamente com os ensopados bem temperados. Cada pedaço que você rasga acaba trazendo um molho diferente, então praticamente nenhuma mordida é igual à outra. Depois daquele almoço, eu só pensava em uma coisa: comer injera de novo. Se dependesse de mim, teria almoçado e jantado aquilo todos os dias até ir embora de Addis Abeba.

Me ofereceram um suco de abacate por aquelas bandas também. Sim, é tão ruim e intragável quanto parece

De lá seguimos para o Mercato, considerado um dos maiores mercados a céu aberto da África. Durante décadas, ele foi o principal centro comercial de Addis Abeba e até hoje reúne milhares de comerciantes vendendo praticamente de tudo: frutas, temperos, roupas, ferramentas, eletrônicos, artesanato, peças de carro e mercadorias vindas de todas as regiões da Etiópia. O lugar é importante não apenas pelo tamanho, mas porque continua sendo o coração do comércio popular da cidade. É daqueles lugares onde você consegue entender muito mais sobre a vida de um país do que passeando apenas pelos cartões-postais.

Antes mesmo da viagem, muita gente tinha me dito para não visitar o Mercato sozinho. O próprio Gashaw reforçou essa recomendação. Ele falou que não aconselhava nem mesmo etíopes que não conhecessem bem a região a andarem por lá desacompanhados. O problema não era exatamente violência, mas o tamanho do mercado, a quantidade de gente, o risco de furtos e a facilidade de se perder naquele verdadeiro labirinto de ruas e barracas.

Confesso que, por mais que o Gashaw tentasse me passar tranquilidade, eu não consegui relaxar completamente. Cara… é gente para todos os lados. Muita gritaria, vendedores chamando clientes, carrinhos passando espremidos entre as pessoas, ruas estreitas e uma movimentação praticamente ininterrupta. Era aquele tipo de lugar em que você instintivamente coloca a mão no bolso de cinco em cinco minutos para conferir se carteira e celular continuam ali. No fim das contas, gostei bastante da experiência. Foi um dos lugares mais autênticos que visitei em Addis Abeba, mas passei boa parte do tempo em estado de alerta.

Depois de horas andando pelo mercado, o Gashaw me deixou no hotel para descansar. Pelo menos essa era a ideia dele.

Porque, sinceramente, eu não sei descansar quando estou viajando.

Sempre fico com a sensação de que, se eu passar duas horas deitado no quarto, vou perder alguma coisa incrível acontecendo do lado de fora. É quase uma ansiedade de viajante. Eu olho pela janela, vejo a cidade ali me esperando e começo a pensar: “Já descansei o suficiente.” No fim, quase sempre acabo saindo de novo. Afinal, dá para dormir quando voltar para casa. Viajar, não.

Não deu nem meia hora.

Quando percebi, já estava saindo do hotel de novo.

Descansar definitivamente não é o meu forte quando estou viajando. Então pedi outro Yango e saí para conhecer Addis Abeba à noite.

E, cara… não me arrependi nem um pouco.

Addis Abeba fica linda depois que escurece. Os prédios iluminados, o movimento nas ruas e o clima frio dão à cidade uma atmosfera completamente diferente da que eu tinha visto durante o dia.

Alguém tinha me dado a dica de visitar o Friendship Park, onde acontece um show de luzes todas as noites. Lá fui eu, mais uma vez, dentro de um Yango.

Antes mesmo de entrar no parque aconteceu uma das cenas mais curiosas da viagem.

Um morador de rua veio me pedir dinheiro.

Em inglês.

Tudo bem, ele não começou a recitar Shakespeare nem nada do tipo, mas conseguiu manter uma conversa básica comigo, explicou a situação dele e pediu ajuda. Foi mais uma confirmação daquilo que já vinha me impressionando desde que cheguei ao país: na Etiópia praticamente todo mundo consegue falar pelo menos um pouco de inglês. Como falei, até então, a única vez que eu tinha vivido algo parecido tinha sido na Eslovênia. É uma daquelas coisas que só viajando para acreditar.

Entrei no parque e fui assistir ao famoso show de luzes.

Cara…

Muito legal.

Mas muito legal mesmo.

Jatos d’água, projeções, música e um espetáculo visual muito bem produzido. Na hora me lembrei de um show semelhante que eu tinha assistido anos antes, em Jacarta, na Indonésia. Não era exatamente igual, mas me trouxe aquela mesma sensação de estar vendo uma cidade investir em espaços públicos que realmente valem a visita.

Quando o espetáculo terminou, ainda não era hora de voltar para o hotel.

Resolvi caminhar mais um pouco pela cidade para conhecer o Commercial Bank of Ethiopia Headquarters, o prédio mais alto da Etiópia. À noite, todo iluminado, ele domina completamente o horizonte de Addis Abeba. Confesso que me lembrou bastante os arranha-céus iluminados que vi em Baku, no Azerbaijão. É curioso como uma cidade que tanta gente ainda associa apenas à pobreza hoje possui um skyline cada vez mais moderno.

Só que uma hora a realidade bateu.

Já era tarde da noite.

A temperatura despencava rapidamente.

E, a mais de 2.400 metros de altitude, o frio parecia atravessar o casaco e chegar direto nos ossos.

Achei melhor encerrar o passeio antes que eu me transformasse no primeiro picolé maranhense da história da Etiópia.

Meu grande encontro com Lucy durou até eu fazer uma pergunta

No outro dia finalmente chegou o momento que eu mais aguardava desde que comecei a planejar essa viagem: conhecer Lucy, um dos fósseis mais importantes da história da humanidade. Para quem nunca ouviu falar dela, Lucy é o esqueleto parcial de uma fêmea da espécie Australopithecus afarensis, que viveu há cerca de 3,2 milhões de anos. Seus restos foram encontrados em 1974, na Etiópia, e revolucionaram o estudo da evolução humana ao mostrar que nossos ancestrais já caminhavam sobre duas pernas muito antes de desenvolverem cérebros grandes. Não é exagero dizer que ela ajudou a mudar a forma como entendemos a própria origem da humanidade.

Fazia anos que eu queria conhecer Lucy. Sempre gostei desses temas ligados à evolução humana e à pré-história, então entrar naquele museu era quase como realizar um pequeno sonho de infância. Quando finalmente cheguei à vitrine onde ela estava exposta, fiquei vários minutos parado observando cada detalhe. Olhava para aqueles ossinhos tentando imaginar que aquele ser havia caminhado pela Terra milhões de anos antes de qualquer civilização existir. Era uma sensação difícil de explicar.

Até que resolvi fazer uma pergunta ao ChatGPT sobre um detalhe específico da ossada.

Foi um erro.

O ChatGPT resolveu destruir meus sonhos tão mesquinhos sem a menor cerimônia.

Descobri que os ossos que estavam na vitrine não eram os originais.

Aquilo que eu estava admirando era uma réplica em resina.

Na hora bateu uma pequena decepção.

Pô, réplica em resina eu podia ver em São Luís!

Depois fui entender o motivo. Os verdadeiros restos de Lucy são valiosos demais para ficarem permanentemente expostos ao público. Eles permanecem guardados em um ambiente climatizado, sob rigoroso controle de temperatura e umidade, sendo disponibilizados apenas para pesquisadores e estudos científicos. O que os visitantes veem no museu é uma reprodução extremamente fiel, feita justamente para preservar um dos fósseis mais importantes já encontrados.

Confesso que fiquei um pouco triste quando descobri isso. Por alguns minutos senti que tinham roubado um pedacinho da experiência. Mas, pensando melhor, acho que essa é mesmo a decisão mais sensata. Estamos falando de um patrimônio científico insubstituível. Não dá para deixar ali ao alcance de algum maluco para um acidente ou até a deterioração natural causada pela exposição para colocar em risco algo que pertence, de certa forma, a toda a humanidade.

E, para ser sincero, a réplica era tão bem feita que, se eu não tivesse perguntado ao ChatGPT, provavelmente teria saído do museu acreditando que tinha visto os ossos originais.

Eu e a resina dos restos mortais da mãe da humanidade

Do fóssil de 3 milhões de anos ao bife que nem passou pela frigideira

Só sei que saí do museu com um sentimento meio agridoce. Não por causa da Lucy, mas pelo próprio museu. Pô… era o Museu Nacional da Etiópia. Estamos falando de um dos países historicamente mais importantes da África, berço de uma das civilizações mais antigas do mundo e guardião de um dos fósseis mais famosos da humanidade. Eu imaginava um museu enorme, com dezenas de salas, exposições grandiosas e um acervo gigantesco. Na prática, achei o espaço bem pequeno. São poucos andares e a visita acaba muito mais rápido do que eu esperava. Claro que existem peças interessantes e a própria Lucy já faz o ingresso valer a pena, mas confesso que eu esperava muito mais de um museu nacional de um país como a Etiópia, com tanta história para contar.

Depois da visita, saí para almoçar. E, obviamente, fui repetir o prato que tinha conquistado meu coração desde o primeiro dia: injera com algum dos inúmeros ensopados etíopes. Se uma coisa funciona, não há motivo para inventar moda.

Enquanto esperava a comida, porém, uma cena chamou completamente minha atenção.

Na mesa ao lado havia um grupo de senhores muito bem vestidos, todos de paletó, com aquela cara de empresários ou autoridades. De repente, os pratos chegaram.

E eles começaram a comer… carne de boi crua.

Mas não era um carpaccio, cortado em fatias fininhas e temperado. Também não era um tartare.

Era carne crua mesmo.

Daquelas que, se você colocasse em uma bandejinha de isopor e envolvesse com plástico-filme, eu juraria que tinha acabado de sair da seção de açougue do supermercado.

Aquele prato tradicional etíope se chama tere siga. Consiste em cubos ou tiras de carne bovina crua, normalmente servidos com pimenta, mostarda e temperos locais. Para os etíopes, é uma iguaria bastante apreciada, especialmente em ocasiões especiais e comemorações.

Eu olhava para eles completamente intrigado.

Eles comiam com a maior naturalidade do mundo, enquanto eu tentava convencer meu cérebro de que aquilo era apenas uma diferença cultural.

Não consegui.

Confesso que comecei a sentir aquele inconfundível cheiro de açougue invadindo o restaurante e meu estômago imediatamente avisou que seria melhor manter uma distância respeitosa daquela experiência gastronômica.

A injera eu adorei.

O tere siga… acho que vou deixar para a próxima encarnação.

Enfim, cada cultura tem suas tradições culinárias. Algumas a gente experimenta com prazer. Outras a gente admira de longe. E está tudo bem.

Haile Selassie, rastafáris e uma história difícil de inventar – Como um imperador etíope virou Deus na Jamaica

Saí do almoço e segui para o Museu Etnológico da Etiópia. Confesso que ele nem fazia muita parte dos meus planos. Museus de etnologia normalmente não estão entre os meus favoritos e eu imaginava encontrar apenas uma sequência de vitrines com roupas tradicionais, utensílios antigos e objetos do cotidiano. Mas praticamente todo mundo que eu pesquisava fazia questão de recomendar a visita. Como eu também não tinha nenhum outro compromisso para aquela tarde, resolvi dar uma chance.

Ainda bem que fui.

Logo na chegada entendi por que o lugar é tão especial. O museu funciona no antigo Palácio de Haile Selassie, hoje localizado dentro do campus da Universidade de Addis Abeba. Antes mesmo de olhar qualquer exposição, o próprio prédio já vale a visita. Caminhar pelos corredores, conhecer os antigos aposentos da família imperial e imaginar que aquele foi, durante décadas, o centro do poder da Etiópia dá uma dimensão completamente diferente da história do país.

Foi ali também que percebi que os dois principais museus de Addis Abeba acabam se complementando. O Museu Nacional é mais voltado para a história natural, a arqueologia e, claro, para a Lucy. Já o Museu Etnológico mergulha na formação do povo etíope, nas diferentes etnias, religiões, tradições e na própria história política do país. No fim das contas, se eu tivesse tempo para visitar apenas um dos dois, acho que escolheria justamente o Museu Etnológico. Saí de lá com a sensação de que entendi muito melhor a Etiópia do que quando entrei.

Uma das exposições que mais me chamou a atenção foi a dedicada ao movimento Rastafári. Foi ali que finalmente entendi por que tanta gente associa a Jamaica à Etiópia. O movimento surgiu na Jamaica na década de 1930, inspirado pelas ideias do líder negro Marcus Garvey, e passou a enxergar a Etiópia como a terra prometida para os descendentes de africanos espalhados pelo mundo. Nesse contexto, Haile Selassie deixou de ser apenas o imperador da Etiópia e passou a ser venerado pelos rastafáris como a encarnação de Deus, ou Jah.

O mais curioso é que o próprio Haile Selassie nunca aceitou essa condição divina. Pelo contrário, sempre afirmou ser apenas um homem. Ainda assim, mantinha uma boa relação com o movimento, principalmente por enxergar nele um aliado na valorização da identidade africana e do pan-africanismo. Em 1948, por exemplo, doou terras na região de Shashamane para que afrodescendentes da diáspora que desejassem retornar ao continente africano pudessem se estabelecer na Etiópia.

O grande imperador Haile Selassie

Mas a impressão que tive ao ler os painéis do museu é que o imperador encarava toda essa devoção com uma certa perplexidade. Parecia respeitar os rastafáris e reconhecer sua importância política e cultural, mas não dava muito crédito ao que parecia um bando de maluco vindo do outro lado do continente dizendo que ele era deus. Pelo menos essa foi minha interpretação.

Por fim, fui conhecer a Catedral da Santíssima Trindade, considerada a igreja mais importante de Addis Abeba e a segunda mais sagrada da Igreja Ortodoxa Etíope, atrás apenas da Catedral de Nossa Senhora de Sião, em Axum. Construída durante a ocupação italiana e concluída após a libertação do país, ela acabou se tornando um símbolo da resistência etíope e da recuperação da independência nacional. Além de sua importância religiosa, a catedral abriga os túmulos do imperador Haile Selassie e de sua esposa, a imperatriz Menen Asfaw, além de outras figuras importantes da história do país.

Foi um dos lugares de que mais gostei em Addis Abeba. A arquitetura é belíssima, os vitrais deixam a luz entrar de um jeito muito bonito e existe uma atmosfera de paz difícil de explicar. É aquele tipo de lugar em que você simplesmente senta em um banco e fica observando o movimento, sem pressa para ir embora.

Na verdade, gostei tanto de ficar ali que acabei passando um pouco da conta.

Em determinado momento, um senhor que parecia ser o padre ou o responsável pela catedral veio falar comigo. Na minha cabeça, eu já imaginei que ele iria contar mais alguma curiosidade sobre a igreja. Nada disso. Ele apenas me informou, com toda a educação do mundo, que o horário de visitação havia terminado e que eu precisava me retirar.

Então tá bom.

Tecnicamente, fui expulso da Catedral da Santíssima Trindade. kkk

Tudo bem… talvez “expulso” seja um pequeno exagero da minha parte. Digamos apenas que fui gentilmente convidado a ir embora porque fiquei bem mais do que podia e devia lá dentro.

O lugar que eu mais queria conhecer… e achei melhor não arriscar

Infelizmente chegou a hora de me despedir da Etiópia. E a sensação que ficou foi a de que três dias eram muito pouco para um país com tanta história. Consegui conhecer bem Addis Abeba, mas tive que deixar muita coisa de fora. A primeira delas foi o Mosteiro de Debre Libanos, um dos mais importantes centros religiosos da Igreja Ortodoxa Etíope. Fundado no século XIII por São Tekle Haymanot, o mosteiro é um dos principais destinos de peregrinação do país e fica próximo à famosa Ponte Portuguesa e ao desfiladeiro do Rio Jemma. O problema é que ele fica a cerca de duas horas e meia de carro da capital. Somando ida, volta e visita, praticamente consumiria um dia inteiro da viagem. Com o tempo que eu tinha disponível, simplesmente não fechava a conta.

Mas a maior frustração foi outra.

Desde que comecei a planejar essa viagem, o lugar que eu mais sonhava conhecer era Lalibela. Considerada por muitos o maior tesouro histórico da Etiópia, a cidade é famosa por suas onze igrejas escavadas diretamente na rocha entre os séculos XII e XIII. Em vez de serem construídas para cima, como acontece normalmente, elas foram literalmente escavadas para baixo, formando um conjunto arquitetônico único no mundo e reconhecido como Patrimônio Mundial da UNESCO.

Infelizmente, a região de Lalibela vinha enfrentando episódios de conflito armado e instabilidade nos últimos anos. Apesar de a situação oscilar bastante, achei que simplesmente não valia a pena correr o risco.

Afinal, eu tenho um filho pequeno e não posso morrer agora.

Talvez quando ele ficar velho e não quiser mais saber de mim, tudo bem, eu posso morrer. Mas por agora eu não tenho essa escolha

Eu sou muito sensível à altitude. Em Machu Picchu, por exemplo, passei muito mal e quase não conseguia aproveitar o passeio. Em Addis Abeba, que está a cerca de 2.400 metros acima do nível do mar, começou a acontecer algo parecido. Meu estômago simplesmente parou de funcionar direito. Não cheguei ao ponto de passar tão mal quanto no Peru, mas já dava para perceber que meu corpo estava reclamando.

Para piorar, todo mundo dizia que não era necessário reservar um hotel com ar-condicionado porque Addis Abeba é uma cidade fria. E isso é verdade… até certo ponto. Realmente não faz calor, principalmente à noite. O problema é que o ar-condicionado não serve apenas para esfriar o ambiente. Ele também mantém a temperatura estável e permite dormir com as janelas fechadas. Como o meu quarto não tinha ar-condicionado, precisei deixá-las abertas durante a noite. Resultado: barulho de carros, cachorros, gente conversando e tudo o que acontecia na rua acabava entrando no quarto.

Mas acho que o pior nem foi isso.

Foi a altitude.

O ar um pouco mais rarefeito fazia com que eu nunca conseguisse entrar naquele sono realmente profundo. Eu acordava várias vezes durante a noite e, no dia seguinte, parecia que tinha dormido apenas algumas horas. Depois de três dias nesse ritmo, eu já estava completamente esgotado.

Quando cheguei ao aeroporto para seguir viagem, já estava preocupado. Meu estômago continuava estranho, eu me sentia extremamente cansado e comecei a cogitar que talvez tivesse comido alguma coisa estragada.

Felizmente, não era nada disso.

Foi só desembarcar no próximo destino, Seychelles, ao nível do mar, para tudo voltar ao normal. Meu estômago melhorou, a disposição voltou e a sensação de mal-estar simplesmente desapareceu. Era como se meu corpo tivesse dito: “Agora sim.”

Estava na hora da próxima aventura.

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VIAGEM A BARBADOS | Cavalos no mar, vans malucas e preços absurdos

Barbados começou me surpreendendo antes mesmo de eu sair do aeroporto. Imigração rápida, Uber funcionando normalmente e uma sensação rara em algumas das viagens que eu vinha fazendo: tudo simplesmente funcionava. Só que essa tranquilidade tinha um preço — literalmente.

O país é caro. Muito caro.

Uma corrida de Uber de apenas 16 minutos até o Airbnb custou cerca de 26 dólares. Restaurante, mercado, transporte, aluguel, energia… praticamente tudo me pareceu mais caro do que eu esperava para uma pequena ilha do Caribe. E foi aí que comecei a entender melhor como funciona a vida em Barbados: um país pequeno, organizado e relativamente tranquilo, mas extremamente dependente de importações.

Como eu não estava disposto a gastar uma fortuna toda vez que precisasse me deslocar, fui descobrir o transporte público local. E a técnica era simples: aparecia uma van, eu entrava e acompanhava o trajeto pelo Google Maps para saber onde descer. Funcionou bem — pelo menos até o dia em que peguei uma van para o aeroporto com um motorista que parecia estar disputando uma vaga na Fórmula 1.

Sem cinto, sem ar-condicionado, música alta e ultrapassagens que faziam a corrida parecer muito mais cara do que os 2,5 dólares que eu tinha pago.

Mas Barbados também me surpreendeu por outro motivo.

Antes de chegar, eu imaginava que encontraria Rihanna por todos os lados. Afinal, estamos falando de uma das artistas mais famosas do mundo nascida em um país com uma população pequena. Eu esperava fotos, outdoors, souvenirs, estátuas, qualquer coisa.

Só que praticamente não vi nada.

Se eu não soubesse de antemão que Rihanna nasceu em Barbados, dificilmente descobriria simplesmente caminhando pela ilha.

Também conheci uma curiosidade local que pode causar problema para turista: roupas camufladas são restritas. Bermuda, camiseta, mochila ou chapéu com esse tipo de estampa podem chamar atenção das autoridades porque o padrão é reservado às forças de segurança. Meu velho chapéu camuflado, portanto, ficou prudentemente em Brasília.

E ainda havia uma experiência que eu realmente queria ver: os cavalos entrando no mar em Pebbles Beach.

Todos os dias bem cedo, cavalos treinados nas cocheiras próximas ao hipódromo são levados até a praia para entrar na água. Cheguei ainda de madrugada e encontrei vários deles nadando no Caribe enquanto o sol começava a nascer. Uma cena bastante diferente de tudo que eu tinha visto até então.

Claro que onde existe turista também existe oportunidade comercial. Ao lado dos animais que realmente estavam ali para exercício, havia cavalos preparados para fotos e pequenos passeios pagos.

Depois disso, caminhei por Bridgetown enquanto a cidade ainda despertava, conheci melhor a capital e comecei a perceber que Barbados tinha muito mais personalidade do que eu esperava.

Também conto um pouco da história da ilha: o longo período de domínio britânico, a economia baseada no açúcar e na escravidão, a independência em 1966 e a transformação definitiva em república em 2021.

No fim, Barbados foi exatamente o tipo de lugar que mais gosto de conhecer: não porque entregou o que eu imaginava, mas porque desmontou algumas expectativas.

Um país caro, organizado, com transporte público eficiente, regras curiosas, praias belíssimas, cavalos entrando no mar de manhã cedo e muito menos Rihanna do que eu esperava.

E foi justamente isso que deixou a viagem interessante.

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VIAGEM A ETIÓPIA| Addis Abebba, glacial, moderna e sem Coca Zero. Primeiro dia já teve confusão e um taxista feliz (sempre eles)

Poucos países da África despertavam tanta curiosidade em mim quanto a Etiópia. Era um destino que estava na minha lista havia muitos anos. Além de sua história milenar, a Etiópia ocupa um lugar especial no imaginário africano por ter sido o único país a resistir à partilha da África promovida pelas potências europeias no século XIX. Com exceção da breve ocupação italiana durante a década de 1930, o país conseguiu preservar sua independência e acabou se tornando um símbolo de resistência e orgulho para muitos povos africanos.

Já fazia tempo que eu tinha vontade de montar um roteiro aproveitando uma conexão da Ethiopian Airlines. A companhia aérea permite fazer escalas longas em Addis Abeba, e eu sempre achei que seria um desperdício simplesmente trocar de avião em uma cidade com tanta história. A oportunidade apareceu quando um amigo meu se mudou para lá. Aproveitei a viagem entre Luanda, em Angola, e Mahé, nas Seychelles, comprei a passagem pela Ethiopian e programei uma conexão de quatro noites em Addis Abeba.

Infelizmente, meu amigo acabou voltando para o Brasil antes da minha chegada. Então, no fim das contas, tive que explorar a cidade sozinho.

E, cara, vou te falar…

Poucas cidades, entre todas as que já visitei pelo mundo, me deram tanta satisfação quanto Addis Abeba. Foi um daqueles lugares que superaram minhas expectativas praticamente desde o primeiro dia.

Chegando no aeroporto achei que era golpe… e mandei embora o motorista que eu mesmo tinha pedido

Pousei em Addis Abeba e, assim que liguei o celular, já apareceu uma mensagem no WhatsApp. Era um motorista, com foto e tudo, dizendo que estava me esperando no estacionamento número 9 do aeroporto.

Na hora pensei:

“Golpe.”

Respondi que ele devia estar me confundindo com outra pessoa, porque eu não tinha reservado traslado nenhum.

Achei que ele ia espernear, discutir, mas… que nada… Ele respondeu apenas “ok” e foi embora.

Uns dez minutos depois, enquanto caminhava pelo estacionamento, me bateu um estalo.

“…não é possível.”

Abri os e-mails e descobri que eu realmente tinha pedido para o hotel mandar alguém me buscar no aeroporto. Simplesmente tinha esquecido completamente.

Saí correndo para tentar alcançar o motorista.

Quando cheguei ao estacionamento… obviamente ele já tinha ido embora.

Respirei fundo e pensei:

“Beleza. Sem problema. Vou voltar no aeroporto, comprar um chip de celular, sacar dinheiro e chamar um Uber.”

Plano perfeito. Não tinha como dar errado.

Ou quase.

Entrei em direção à porta do terminal e um policial já levantou a mão mandando eu voltar.

— Onde o senhor pensa que vai?

— Acabei de desembarcar. Só vou comprar um chip de celular e sacar um dinheiro.

— Não pode.

— Como assim?

— Quem sai do aeroporto só entra de novo pelo embarque. E, mesmo assim, apenas com cartão de embarque.

Tentei explicar que eu tinha acabado de chegar, que só tinha saído para procurar o motorista e que precisava resolver essas coisas antes de ir para o hotel.

Não adiantou absolutamente nada.

A regra era simples: saiu do aeroporto, não entra mais.

Só depois fui lembrar que a Etiópia passa por um período de instabilidade política e conflitos internos. A segurança no aeroporto estava extremamente rígida e ninguém fazia exceções.

Resultado: fiquei do lado de fora sem chip de celular, sem dinheiro local e sem ter como chamar um carro por aplicativo.

E já passava das nove da noite.

Para piorar, Addis Abeba fica a mais de 2.300 metros de altitude. É uma das capitais mais altas do mundo e, quando o sol vai embora, o frio aparece sem pedir licença.

Lá estava eu, parado na calçada, no frio, sem internet, sem moeda local e começando a repensar todas as minhas escolhas de vida.

Foi quando apareceu um sujeito oferecendo táxi.

Lá vou eu fazer uma das coisas que mais odeio em viagens: barganhar com taxista.

O rapaz falava um inglês surpreendentemente bom e me levou até outro carro, onde estava o motorista de verdade.

Olhei para ele.

Era um cara baixinho, magrinho…

E pensei comigo mesmo:

“Bom… se ele tentar me sequestrar, pelo menos com esse eu consigo sair na mão”

Perguntei quanto ele cobrava.

Na verdade, nem esperei a resposta.

Já lancei logo minha proposta:

— Dez dólares.

Na minha cabeça ele iria pedir uns cinquenta. Taxista de aeroporto costuma ter um talento especial para identificar turista cansado.

Mas, para minha surpresa, ele respondeu na mesma hora:

— Fechado.

Achei estranho.

Estranho até demais. Ele não quis nem barganhar, mano!

Suco de abacate. Sim, é tão ruim quanto parece

O rapaz que fez a intermediação ainda me pediu uma gorjeta pelos “serviços prestados”. Lá se foram mais cinco dólares.

Durante o caminho fomos conversando. O motorista falava um inglês muito bom, era simpático e acabou contando que era formado em engenharia hidráulica. Como não tinha conseguido emprego na área, trabalhava dirigindo táxi para sustentar a família.

Ou seja, não é um fenômeno exclusivamente brasileiro. Na Etiópia também existe o engenheiro dirigindo Uber.

Só muito depois fui entender por que ele aceitou minha oferta sem negociar nem por um segundo.

Descobri que a corrida entre o aeroporto e o hotel normalmente custava…

Dois dólares.

Isso mesmo.

Dois dólares.

Enquanto eu comemorava por ter conseguido uma corrida por dez dólares, o motorista provavelmente estava comemorando por ter encontrado o turista mais generoso de Addis Abeba naquela noite.

Foi ali que caiu a ficha.

A Etiópia não era apenas barata.

Ela era absurdamente barata.

E tudo estava apenas para começar.

Fui bancar o esperto e passei o dia procurando um chip e uma Coca-Cola Zero

Cheguei ao hotel, deixei as malas e saí para procurar alguma coisa para comer. Antes, passei em um caixa eletrônico para sacar dinheiro. Foi aí que tive meu primeiro grande choque com Addis Abeba.

Cara… a cidade é muito mais moderna do que eu imaginava.

Havia avenidas largas, prédios enormes, edifícios modernos de vidro e aço e, para minha surpresa, praticamente toda a fiação elétrica era subterrânea. Eu estava caminhando por uma grande metrópole e não por uma cidade que, no imaginário de muita gente (inclusive eu antes de pousar lá), ainda é associada apenas à fome e às guerras.

Quando a gente pensa em Etiópia, normalmente lembra das imagens das grandes secas das décadas de 1980 e 1990, dos campos de refugiados e da pobreza extrema que rodaram o mundo inteiro. Quando criança, tinha um amigo meu que era magrinho e o apelido dele era Etiópia (sim, na década de 90 a gente podia fazer essas coisas). Então chegar a Addis Abeba e encontrar uma cidade moderna causa um choque enorme.

Sim, eu sei que capital não representa um país inteiro. Também sei que existem regiões muito pobres na Etiópia. Mas isso não muda o fato de que a primeira impressão que Addis Abeba passa é completamente diferente da imagem que muita gente, inclusive eu, tinha antes de chegar.

Outra coisa que me chamou muito a atenção foi o custo de vida. A Etiópia é absurdamente barata.

E havia mais uma surpresa.

Apesar de a língua oficial ser o amárico, praticamente todo mundo conseguia se comunicar em inglês. Da recepcionista do hotel ao motorista de táxi, do garçom ao segurança do shopping, sempre havia alguém falando pelo menos o básico. Uns eram praticamente fluentes, outros se viravam como podiam, mas era raro encontrar alguém que não conseguisse manter uma conversa simples.

Perguntei para várias pessoas onde tinham aprendido inglês.

A resposta foi sempre a mesma:

— Na escola.

Cara… isso sempre me impressiona.

Como é que a gente passa mais de dez anos estudando inglês no Brasil e tanta gente termina a escola sem conseguir manter uma conversa básica? Enquanto isso, na Etiópia, um país muito mais pobre que o nosso, boa parte da população consegue se comunicar razoavelmente bem com turistas.

Na manhã seguinte comecei a missão que tinha ficado pendente desde a noite anterior: comprar um chip de celular.

Encontrei uma loja de telefonia perto do hotel.

Só tinha um pequeno problema.

A fila era gigantesca.

Parecia agência bancária em dia de pagamento ou loja de operadora no centro da cidade quando todo mundo resolveu reclamar da mesma conta.

Olhei aquela fila e pensei:

“Eu sou mais esperto que isso.”

Saí andando pela cidade procurando outra loja.

Não era possível que existisse apenas uma.

Detalhe importante: eu estava sem internet, sem mapa e andando completamente no instinto.

Entrei em três shoppings diferentes.

Perguntei para algumas pessoas.

Andei durante mais de uma hora.

Resultado?

Volta o cão arrependido, com suas orelhas tão fartas, com seu osso roído e com o rabo entre as patas

E a fila…

Parecia ainda maior.

Não teve jeito.

Sentei, esperei e fiquei pensando que aquilo era um castigo merecido.

Se eu tivesse feito o chip no aeroporto na noite anterior, teria economizado horas da minha viagem.

Mas não…

Resolvi inventar moda.

Depois de cerca de uma hora e meia, finalmente saí da loja com internet funcionando.

Missão número um concluída.

Faltava a missão número dois.

Encontrar uma Coca-Cola Zero.

Passei em algumas vendinhas perto do hotel.

Nada.

Pensei:

“Normal. Vou em um supermercado grande.”

Entrei em um.

Nada.

Depois outro.

Nada.

Mais um.

Nada.

Foi aí que descobri uma informação que mudou completamente minha viagem. Não existe Coca-Cola Zero na Etiópia. Na verdade, não era só Coca Zero. Praticamente não existia refrigerante sem açúcar. Cheguei ao ponto de perguntar ao próprio ChatGPT onde eu poderia encontrar. Ele indicou alguns supermercados especializados em produtos importados para expatriados. Fui em todos.

E…

Nada.

Cara, isso me deixou genuinamente impressionado. Pode parecer uma reclamação boba, mas eu não tomo café, não gosto de chá e faz tempo que praticamente parei de beber cerveja. No fim do dia, minha única “frescura” é tomar uma Coca-Cola Zero gelada. E, pela primeira vez em muitos anos de viagem, nem isso eu consegui encontrar. No fim das contas, a busca por um chip de celular e por uma simples Coca Zero consumiu praticamente um dia inteiro da minha estadia em Addis Abeba.

A única bebida zero açúcar que pude achar em toda Addis Abebba. Ainda assim só em um restaurante. Nem em supermercado consegui achar

Pelo lado positivo, acabei conhecendo a cidade muito mais do que teria conhecido se tudo tivesse dado certo logo de primeira. Às vezes, perder tempo também é uma forma de viajar.

História da Etiópia, a nação africana que Roma e a Pérsia tratava de igual para igual

Para entender a Etiópia, é preciso esquecer quase tudo o que normalmente imaginamos sobre a África. Enquanto grande parte do continente passou por sucessivas invasões e colonizações, a Etiópia preservou uma continuidade histórica impressionante. Sua origem podemos dizer que começa com o poderoso Império de Axum, que floresceu entre os séculos I e VII e controlava importantes rotas comerciais entre a África, a Península Arábica e a Índia. Eles eram tão poderosos e importantes que o erudito persa (hoje Irã) Mani, fundador do maniqueísmo, chegou a citar Axum como um dos quatro maiores impérios do mundo de sua época, ao lado de Roma, Pérsia e China. E, sim, Roma respeitava o Império dos Etiópes de igual para igual.

A Etiópia também é um dos países cristãos mais antigos do planeta. O cristianismo tornou-se religião oficial ainda no século IV, séculos antes de boa parte da Europa, dando origem à Igreja Ortodoxa Etíope, uma das tradições cristãs mais antigas e singulares do mundo. Como eles se desconectaram da Europa por conta do Império Árabe-Muçulmano, o cristianismo etípoe acabou por preservar costumes que desapareceram em outros lugares da Europa, como longos períodos de jejum que, somados, podem ultrapassar duzentos dias por ano para os fiéis mais devotos. A tradição etíope também atribui enorme importância a personagens bíblicos como a Virgem Maria, o anjo Gabriel e São Jorge, padroeiro nacional. Segundo a tradição local, a Rainha de Sabá era etíope e teve um filho com o rei Salomão, origem lendária da antiga dinastia imperial. Se isso é verdade ou não, é um fato de que emissários etíopes eram recebidos constantemente na corte de Salomão, refletindo a importância que eles tinham no mundo antigo. Os etíopes também afirmam guardar a Arca da Aliança na cidade de Axum. Alguns acreditam, inclusive, que um dos três Reis Magos era etíope, mostrando como a narrativa bíblica faz parte da identidade nacional.

São Jorge matando o dragão

Talvez o mais impressionante seja que, apesar de toda essa longa história, a Etiópia conseguiu preservar sua própria identidade cultural. O idioma oficial continua sendo o amárico, escrito em um alfabeto próprio, o ge’ez, um sistema de escrita com quase dois mil anos de história. Pouquíssimos países mantiveram uma continuidade cultural tão antiga; além da Etiópia, vêm à mente apenas civilizações como China, Japão, Irã e, em parte, o Egito — que preservou muito de seu passado, mas acabou adotando a língua e a cultura árabes. A Etiópia ainda é considerada o berço do café. Segundo a tradição, foi ali que um pastor chamado Kaldi percebeu que suas cabras ficavam mais agitadas depois de comer os frutos de uma determinada planta. Verdadeira ou não, a história simboliza a profunda ligação entre o país e a bebida, que continua fazendo parte da vida cotidiana dos etíopes e da imagem que o país projeta para o mundo.

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Porém, nenhuma figura marcou tanto a história moderna da Etiópia quanto Haile Selassie I, imperador entre 1930 e 1974. Descendente da dinastia que afirmava ter origem no rei Salomão e na Rainha de Sabá, ele tornou-se um símbolo mundial de resistência ao denunciar, na Liga das Nações, a invasão da Etiópia pela Itália fascista de Benito Mussolini em 1935.

Rainha de Sabá indo encontrar o Rei Salomão

Após a Segunda Guerra Mundial, voltou ao trono e promoveu reformas para modernizar o país, embora também tenha sido criticado por seu governo autoritário e pelos problemas econômicos que culminaram em sua deposição em 1974.

Curiosamente, sua importância ultrapassa em muito as fronteiras da Etiópia. Antes de ser coroado, seu nome era Ras Tafari Makonnen, origem do movimento Rastafári, surgido na Jamaica na década de 1930, cujos seguidores passaram a venerá-lo como a manifestação de Deus, ou Jah, na Terra. Foi a partir dessa crença que a Etiópia ganhou um significado espiritual para milhões de pessoas, enquanto símbolos como os dreadlocks, as cores da bandeira etíope e a filosofia de valorização da identidade africana se espalharam pelo mundo, principalmente graças às músicas de Bob Marley, o mais famoso divulgador da cultura rastafári.

Haile Selassie I

Cultura na Etiópia – o país que ninguém me contou que existia

Cara, uma das coisas que mais me impressionou na Etiópia foi o quanto os etíopes são educados. Não, eu não esperava encontrar uma sociedade tribal vivendo isolada do mundo e gritando “uga uga”. Esse estereótipo nunca fez sentido. Mas também não esperava encontrar um povo que, em vários aspectos, me pareceu anos-luz à frente da maior parte da América Latina quando o assunto é educação, cordialidade e interesse pelo mundo.

Como já comentei, praticamente todo mundo falava inglês. E quando eu digo todo mundo, é praticamente todo mundo mesmo. Recepcionistas, garçons, motoristas de Yango, policiais,vendedores deê rua… teve até pedinte me abordando em inglês (isso só tinha acontecido antes na Eslovênia. Confira o post aqui). Uns falavam melhor, outros pior, mas quase sempre era possível manter uma conversa. Isso tornou a viagem absurdamente fácil para um estrangeiro.

Mas o episódio que mais me marcou aconteceu dentro de um Yango. Assim que o motorista descobriu que eu era brasileiro, abriu um sorriso e disse que adorava o Brasil. Pensei comigo: “Lá vem Neymar, Pelé, Ronaldinho…”

Que nada.

A primeira pergunta dele foi:

— Você já voou em um avião da Embraer?

Na lata.

Fiquei até sem reação.

Depois começou a falar da Amazônia e da importância dela para o planeta. Tudo bem, repetiu aquela história de que ela é “o pulmão do mundo” — que tecnicamente não é bem assim, mas vamos dar um desconto. Em seguida comentou sobre a Guerra das Malvinas e disse que tinha sido um enorme erro a Argentina enfrentar militarmente o Reino Unido. Eu já estava tentando entender de onde aquele sujeito tinha tirado tanta informação sobre a América do Sul quando ele emendou outro assunto.

Falou dos carros fabricados pela Volkswagen no Brasil.

E ainda fez questão de explicar:

— Você sabe que Volkswagen significa “carro do povo”, não sabe?

Como se eu fosse o estrangeiro desinformado da conversa.

Depois contou que ainda era possível encontrar alguns Volkswagen Brasília rodando pelas ruas da Etiópia. Sim, depois que ele falou isso eu fiquei LOUCO para achar uma Brasília Amarela e bater uma foto. Infelizmente não consegui =(

Eu só ficava ouvindo e pensando: “Rapaz… esse motorista sabe mais sobre o Brasil do que muito brasileiro.”

Enquanto isso, muita gente no Brasil mal consegue apontar a capital da Bolívia no mapa.

O mais curioso é que ele não foi uma exceção. Várias pessoas perguntavam de onde eu era e, quando eu respondia “Brasil”, a reação não era “Ah… Rio de Janeiro?”. Muitas simplesmente perguntavam se eu era de Brasília ou demonstravam conhecer outras regiões do país. Pode parecer um detalhe pequeno, mas para quem viaja bastante isso chama muito a atenção. Em um dos meus diários de viagem, por exemplo, contei a história de um holandês que perguntou se eu era de Buenos Aires. Então encontrar gente na Etiópia com esse nível de conhecimento sobre o Brasil foi algo realmente inesperado.

Tudo isso me fez pensar bastante.

Sinceramente, ainda não entendo como a Etiópia não conseguiu se desenvolver economicamente muito mais do que já se desenvolveu. Porque potencial humano ela claramente tem. Durante toda a viagem encontrei pessoas educadas, curiosas, respeitosas e interessadas em conversar sobre o mundo.

E a cidade reforçava essa impressão o tempo todo.

Por onde você olhava havia guindastes.

Mais guindastes.

E mais guindastes.

Era uma quantidade impressionante de prédios sendo construídos. Muitos países ricos em petróleo possuem uma ou duas avenidas cheias de arranha-céus para impressionar o visitante, mas basta virar duas esquinas para a paisagem mudar completamente. Em Addis Abeba, não. A sensação era de uma cidade inteira crescendo ao mesmo tempo. Você andava quilômetros e continuava vendo edifícios modernos, novos empreendimentos e obras espalhadas por todos os lados. Era evidente que a cidade estava passando por uma transformação profunda.

E, talvez, parte dessa confiança venha da própria história do país. Os etíopes têm um orgulho enorme da sua identidade nacional. Não é difícil entender o motivo. Afinal, eles, mais uma vez, pertencem ao único país africano que conseguiu preservar sua independência durante a corrida imperialista europeia do século XIX. Essa história de resistência está presente em monumentos, museus, conversas e até na forma como eles falam do próprio país. É um orgulho que não parece arrogância; parece apenas a consciência de que eles carregam uma das histórias mais antigas e fascinantes de toda a África.

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VIAGEM A ANGOLA| Aventuras em Luanda: Do Miradouro à Fortaleza

O Miradouro da Lua é uma das paisagens naturais mais impressionantes de Angola. Localizado a cerca de 40 quilômetros de Luanda, o lugar recebeu esse nome porque suas falésias, esculpidas ao longo de milhões de anos pela erosão da chuva e do vento, lembram a superfície da Lua. O cenário é formado por cânions, ravinas e camadas de rochas em tons de amarelo, laranja e avermelhado, criando um visual quase surreal e único. Apesar da aparência árida e desértica, a região fica bem próxima ao litoral, tornando o Miradouro da Lua um dos cartões-postais mais famosos e fotografados de Angola. Cara, não é jeito de falar não. Eu realmente nunca tinha visto nada parecido com isso na minha vida.

Fiquei na dúvida se conseguiria ir ao Miradouro da Lua. Meu desarranjo intestinal ainda não tinha passado completamente e o passeio ficava a cerca de uma hora e vinte minutos de onde eu estava hospedado. Se acontecesse alguma emergência no meio do caminho, não haveria muito o que fazer. Mesmo assim, resolvi arriscar.

Chamei um Yango e, quando o motorista chegou, fiz uma proposta: ofereci 150% a mais do valor da corrida para que ele me esperasse no Miradouro da Lua, depois me levasse ao Museu da Escravatura, aguardasse novamente e, por fim, me deixasse em outro ponto de Luanda.

No total, paguei cerca de 200 reais (40 dólares) pelo dia inteiro de transporte. Sinceramente, achei muito barato. Afinal, eu teria um carro praticamente à minha disposição durante várias horas, percorrendo uma boa distância.

O mais curioso foi a reação do motorista. Ele agradeceu de um jeito que parecia que eu tinha acabado de lhe entregar uma fortuna. Talvez eu conseguisse negociar um preço menor, mas preferi pagar o que, para mim, parecia um valor justo. E, já que a diferença era pequena, ainda pedi um Yango Comfort, fazendo todo o percurso no ar-condicionado. Não dava para reclamar da vida.

Lá fomos nós. Era cerca de uma hora e vinte de estrada até o Miradouro da Lua. O trajeto, por si só, já vale a viagem. À medida que você vai deixando Luanda para trás, a paisagem muda completamente. Dá para ver um pouco da Angola rural e vários baobás espalhados pelo caminho, aquelas árvores gigantes que parecem ter sido plantadas de cabeça para baixo.

No meio da viagem percebi que o motorista estava meio perdido. Foi só então que ele confessou que nunca tinha ido ao Miradouro da Lua.

Pô… um dos principais cartões-postais de Angola e o sujeito nunca tinha visitado. No fim das contas, achei até bacana. Sem querer, eu estava proporcionando o passeio para nós dois. Depois de quase uma hora e meia de viagem, finalmente chegamos. E a primeira coisa que vimos foi uma cerca fechando a entrada.

Baobá

Sim. O miradouro estava interditado para visitação. Enquanto eu tentava entender o que estava acontecendo, o motorista foi conversar com os guardas. Super gentis. Um tinha um fuzil. O outro uma escopeta. Eles explicaram que a área estava fechada por causa de uma obra e que o responsável não autorizava a entrada de visitantes. Não dava para abrir exceção.

Os dois guardas armados deixavam a conversa com um certo ar de seriedade. Mas, conforme a conversa foi andando, ficou claro que havia um detalhe não dito naquela história. Em determinado momento, o motorista virou para mim e perguntou discretamente:

— Será que dá para resolver com uma gasosa?

Demorei um segundo para entender.

No Brasil a gente fala em dar um cafezinho. Em Angola, a expressão é dar uma gasosa. Ou seja, um “refrigerante”… que, na prática, é apenas um jeito mais simpático de pedir uma propina.

Falei para o motorista resolver a situação, porque eu preferia não me envolver diretamente nessa conversa.

Depois de alguns minutos, ele voltou e falou, com a maior naturalidade do mundo:

— Cara, acho que se você der cinco reais (um dólar) para cada um, eles deixam a gente entrar.

Eu olhei para ele e praticamente gritei:

— CINCO REAIS?!

Ele ficou sem entender minha reação.

— Ué… é muito?

Mano… eu comecei a rir.

Na minha cabeça, se aquilo fosse terminar em propina, eu já estava preparado para perder, no mínimo, uns cinquenta reais por guarda. Afinal, era um dos principais pontos turísticos do país, os caras estavam armados e tinham acabado de dizer que a entrada era proibida.

Aí a “gasosa” custava cinco reais.

Era inacreditável.

Essa era justamente a Angola que eu tinha passado anos ouvindo dizer que era um dos lugares mais caros do mundo.

No fim, todo mundo saiu satisfeito. Eu consegui conhecer o principal cartão-postal do país. O motorista do Yango finalmente visitou o Miradouro da Lua pela primeira vez. E os dois guardas ficaram felizes com os cinco reais de cada um.

Sinceramente, é difícil imaginar uma negociação mais ganha-ganha do que essa.

E, sim, o Miradouro da Lua faz jus à fama que tem. Cara, foi, de longe, o cânion mais bonito que eu já vi na vida. As camadas de rochas esculpidas pela erosão, os tons de amarelo, laranja e vermelho e aquele aspecto quase extraterrestre fazem parecer que você foi parar em outro planeta. É daqueles lugares em que nenhuma foto consegue transmitir direito a sensação de estar ali.

O mais curioso é que, apesar de ser um dos principais cartões-postais de Angola, o lugar ainda não é tomado por turistas. Durante boa parte da visita, eu praticamente tive aquele cenário só para mim. Tudo bem que foi porque eu paguei uma tubaína para cada guarda armado até os dentes, mas ainda assim. Pude caminhar com calma, observar as formações rochosas e simplesmente admirar uma das paisagens naturais mais impressionantes que já encontrei em todas as minhas viagens.

Depois de aproveitar bastante o Miradouro da Lua, voltamos para o carro e seguimos para a próxima parada do dia: o Museu Nacional da Escravatura, um dos lugares mais importantes para entender não apenas a história de Angola, mas também parte da história do próprio Brasil.

Em Angola, até museu fechado abre. Conhecendo o Museu Nacional da Escravatura

O Museu Nacional da Escravatura de Angola é um dos locais históricos mais importantes do país. Instalado em uma antiga capela do século XVII, nos arredores de Luanda, ele preserva a memória do tráfico transatlântico de escravos, que levou milhões de africanos, principalmente angolanos, para as Américas entre os séculos XVI e XIX. Antes de embarcarem nos navios, muitos escravizados passavam por esse local, onde eram batizados à força e obrigados a abandonar suas crenças e identidades. O museu reúne objetos, documentos e relatos desse período, tornando-se um espaço de reflexão sobre uma das maiores tragédias da história da humanidade. Para os brasileiros, a visita tem um significado ainda mais profundo, já que uma parte expressiva dos africanos escravizados trazidos para o Brasil saiu justamente da região da atual Angola, deixando uma influência marcante na formação da cultura, da língua, da música, da culinária e da própria população brasileira. Na verdade, como maranhense tem uma importância maior ainda, dado que lá aparecia o Maranhão como um dos principais portos que receberam escravizados de Angola.

Cheguei ao Museu da Escravatura e… adivinha?

Estava fechado para reforma.

Fechado para reforma

Pensei: “Hoje não é meu dia.”

Mas aí começou aquela conversa daqui, conversa dali, até que me explicaram que, na verdade, o museu não estava exatamente fechado. Era só eu pagar 25 reais (5 dólares) que a visita acontecia.

O ingresso oficial custava cerca de 2,50 reais.

Os outros 22,50 reais… bem… digamos que eram para facilitar a logística.

Depois da experiência no Miradouro da Lua, eu já tinha entendido como algumas coisas funcionavam por ali. Vinte e cinco reais a menos para mim, vinte e cinco reais a mais para o guardinha do museu. No fim, mais uma vez, todo mundo saiu satisfeito.

Quanto ao museu, achei a visita válida, mas o que mais me marcou foi o próprio lugar onde ele está instalado e o peso histórico daquele local, mais do que o acervo em si. As peças expostas são interessantes, mas relativamente simples. O grande impacto vem de saber que você está em um dos pontos ligados a um dos capítulos mais sombrios da história da humanidade.

Uma informação que aprendi lá me chamou bastante a atenção. Segundo o museu, Angola foi o território que mais forneceu pessoas escravizadas para as Américas, enquanto o Brasil foi o país que mais recebeu esses africanos. Isso ajuda a explicar por que a influência angolana é tão forte na formação da cultura brasileira. O que mais me surpreendeu foi descobrir que, somados, os países da América Central receberam um número semelhante ao do Brasil. Considerando o tamanho do nosso país, eu jamais imaginaria isso. Pelo menos era essa a informação apresentada pelo museu.

Depois seguimos para o Memorial Agostinho Neto, dedicado ao primeiro presidente de Angola e uma das figuras mais importantes da história do país. Cheguei lá e… adivinha?

Estava fechado.

Dessa vez, porém, não teve negociação, não apareceu nenhuma “gasosa” salvadora e, para ser sincero, eu também nunca sou de oferecer esse tipo de coisa. Quando dá, deu. Quando não dá, faz parte da viagem.

Então me contentei em tirar algumas fotos do lado de fora e pedi para o motorista do Yango me deixar de volta no apartamento.

Dessa vez não teve gasosa

Foi só na volta que aconteceu uma daquelas cenas típicas de viagem. Vi uma enorme bandeira de Angola tremulando no alto de uma colina e, logo abaixo dela, a silhueta de uma antiga fortaleza dominando a paisagem.

Na mesma hora me caiu a ficha.

Eu ainda não tinha visitado justamente a Fortaleza de São Miguel de Luanda, talvez o ponto turístico mais importante da capital.

Pedi para o motorista mudar os planos e seguir para lá. Afinal, depois de um dia em que metade das atrações resolveu fechar as portas para mim, eu não podia correr o risco de perder justamente a principal delas.

Como Angola me conquistou de vez

A Fortaleza de São Miguel de Luanda é o monumento histórico mais importante da capital angolana. Construída pelos portugueses em 1576, logo após a fundação de Luanda, ela foi durante séculos o principal centro militar e administrativo da colônia, desempenhando um papel decisivo na defesa da cidade e no controle do comércio atlântico, incluindo o tráfico de pessoas escravizadas para as Américas. Após a independência, a fortaleza ganhou um novo significado e passou a abrigar o Museu das Forças Armadas, com canhões, veículos militares e exposições sobre a história de Angola. Além de sua importância histórica, o local oferece uma das vistas mais bonitas da Baía de Luanda, o que faz dele um dos pontos turísticos mais visitados do país, reunindo tanto moradores quanto turistas interessados em compreender a história angolana e admirar a paisagem da capital.

E, sim, a vista da Fortaleza de São Miguel faz jus à fama que tem. Do alto das muralhas, dá para enxergar boa parte da Baía de Luanda, a orla, os arranha-céus e o movimento da cidade. É um daqueles lugares em que vale a pena parar alguns minutos, esquecer a câmera e simplesmente apreciar a paisagem.

Depois que desci da fortaleza, passei em um supermercado para comprar minhas indispensáveis Coca-Colas Zero e voltar para o apartamento. Naquela noite seria a final da Copa do Mundo, e eu queria assistir ao jogo já bêbado de aspartame. Enquanto caminhava pelos corredores do mercado, ainda estava tentando entender como Luanda tinha conseguido contrariar praticamente todas as expectativas que eu tinha criado sobre ela.

No fim das contas, Luanda me encantou. E, curiosamente, em vários momentos ela me lembrou São Luís do Maranhão, minha cidade. Não porque sejam iguais, mas porque compartilham uma característica muito parecida: são cidades de contrastes. Lugares onde a beleza convive com a desigualdade, onde prédios modernos dividem espaço com ruas caóticas, onde riqueza e pobreza estão lado a lado o tempo inteiro. Apesar de todos os problemas, Luanda tem personalidade. É uma cidade que não tenta esconder suas contradições e, talvez justamente por isso, acaba sendo tão interessante.

Na manhã seguinte, já no aeroporto, antes de embarcar para a Etiópia, ainda tive que resolver um pequeno problema no balcão de check-in. Enquanto o funcionário tentava encontrar uma solução no computador, ele soltou, do nada, um:

— “Loucura, loucura, loucura!”

No melhor estilo Luciano Huck.

Eu caí na risada.

Não esperava ouvir um bordão tão brasileiro justamente na minha despedida de Angola.

Achei uma forma perfeita de encerrar a viagem. Saí do país com um sorriso no rosto e com a certeza de que Luanda foi muito diferente da cidade que eu imaginei antes de embarcar. Espero que aquela despedida tenha sido apenas um “até logo”. Porque, se depender de mim, ainda volto para Angola um dia.

Para Luanda, a nossa cidade irmã, deixo os versos que Bandeira Tribuzzi compôs para São Luís e que podem perfeitamente descrever Luanda:

“Ó minha cidade/Deixa-me viver/que eu quero aprender,tua poesia/sol e maresia,lendas e mistérios/luar das serestas e o azul de teus dias

Quero ler nas ruas/fontes, cantarias,torres e mirantes,igrejas e sobrados/nas lentas ladeiras,que sobem angústias,sonhos do futuro/glórias do passado.”

Valeu Luanda!

Epílogo. Como eu consegui ser cancelado em Angola

Rapaz, quando estou viajando, gosto de ir postando alguns vídeos curtos nas redes sociais. Coisas bem rápidas para Instagram, TikTok e YouTube Shorts, mostrando o que estou vendo naquele momento.

Apesar de eu praticamente só ter publicado vídeos elogiando Luanda, teve um em específico em que reclamei de uma coisa bem simples: havia um lugar lindo, que poderia ser extremamente agradável, mas estava com uma música absurdamente alta. Foi só esse comentário.

Rapaz… para quê.

Aparentemente o vídeo viralizou e, por alguns dias, eu me transformei no sujeito mais odiado de Angola. Os comentários eram uma mistura de gente concordando comigo e um batalhão dizendo que eu não entendia nada do país, que eu estava desrespeitando a cultura local e por aí vai.

O mais engraçado é que, quanto mais as pessoas brigavam nos comentários, mais o vídeo era entregue pelo algoritmo. As visualizações não paravam de subir.

Foi ali que eu realmente entendi como funcionam as redes sociais. Engajamento é engajamento. Para o algoritmo, pouco importa se as pessoas estão elogiando ou xingando. Se elas estão comentando, respondendo umas às outras e compartilhando o vídeo para reclamar dele, a plataforma entende que aquele conteúdo é interessante e passa a mostrá-lo para ainda mais gente.

Naquele momento eu percebi como é fácil crescer na internet apostando em polêmica. Bastava eu dobrar a aposta, continuar publicando vídeos falando mal de Angola e provavelmente ganharia muito mais visualizações. Mas esse nunca foi, nem nunca será, o objetivo do canal. Prefiro crescer mais devagar do que transformar minhas viagens em uma fábrica de indignação só para agradar o algoritmo.

Outra coisa que me chamou a atenção foi um efeito completamente inesperado da viralização.

Cara… meu TikTok começou a bombar de mensagens de meninas perguntando se eu ainda estava em Angola, chamando para sair, para conhecer a cidade, para tomar alguma coisa…

Foram dezenas de mensagens.

Eu realmente fiquei impressionado.

Depois fiquei pensando: se comigo aconteceu isso por causa de um vídeo reclamando de música alta, imagina como deve ser a caixa de entrada de alguém como o Neymar ou qualquer influenciador gigantesco. Deve ser um negócio completamente fora da realidade. Não é à toa que muitos acabam ficando meio malucos com fama.

E, antes que alguém resolva mandar mais uma mensagem…

Eu já sou casado.

E minha esposa é bem mais braba do que qualquer algoritmo das redes sociais.

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VIAGEM A ANGOLA | Português na rua e arranha-céus na orla: os contrastes que ninguém me contou sobre Luanda. #Angola #Luanda #TAAG

Angola… Angola… o grande país irmão do Brasil. Um dos países africanos que mais influenciaram a formação da população brasileira. Infelizmente por meio do tráfico de escravizados durante o período colonial e cuja influência não pode ser negada. Durante séculos, milhões de africanos embarcaram dos portos angolanos rumo ao Brasil, trazendo consigo culturas, tradições, religiões, palavras e costumes que ajudaram a moldar o país que conhecemos hoje. Não é exagero dizer que existe um pedaço de Angola em praticamente todo brasileiro. Talvez seja justamente por isso que esse sempre foi um dos países africanos que eu mais tinha vontade de conhecer.

O curioso é que, apesar de eu sempre querer ir para lá, nunca tinha aparecido uma boa oportunidade. Chegar a Angola sempre foi caro, complicado ou exigia conexões intermináveis. Mas isso começou a mudar quando inauguraram o voo direto entre São Paulo e Luanda. Na hora em que vi aquela rota, pensei: “Agora não tenho mais desculpa.”. Fiquei só na espreita esperando uma promoção.

Pouco tempo depois apareceu uma de Black Friday que parecia boa demais para ser verdade. Consegui comprar uma passagem saindo de São Paulo para Luanda e voltando de Nairóbi para São Paulo, com conexão novamente em Luanda, por cerca de 4.000 reais — aproximadamente 750 dólares. Considerando que eu atravessaria o Atlântico, conheceria Angola e ainda encaixaria toda uma viagem pelo leste da África antes de voltar para casa, foi uma daquelas passagens que você compra primeiro e só depois começa a pensar no resto do roteiro.

Convenhamos… por esse preço, estava praticamente de graça

Começando a viagem do jeito tradicional: dando tudo errado

A viagem já começou prometendo

Fiz o check-in do voo de São Paulo para Luanda e, por curiosidade, resolvi dar uma olhada em qual seria o meu assento no voo da volta. Foi aí que levei um susto.

A TAAG simplesmente aboliu o voo que eu pegaria de Nairóbi para Luanda. O voo original saía pela manhã. Agora, simplesmente não existia mais. Sem perguntar nada, remarcaram minha saída de Nairóbi para a noite e, como consequência, empurraram também o meu voo de Luanda para São Paulo para o dia seguinte.

Assim. Sem mais nem menos.

E o mais impressionante foi que eles nem se deram ao trabalho de me avisar. Nenhum e-mail. Nenhuma mensagem. Nada. Se eu não tivesse resolvido olhar o assento da volta por pura curiosidade, provavelmente só descobriria a mudança quando chegasse ao aeroporto de Nairóbi.

E o problema nem terminava aí. O meu bilhete da TAAG ia apenas até São Paulo. De lá, eu ainda tinha uma passagem separada da LATAM para voltar a Brasília. Ou seja, aquela “pequena” alteração tinha um enorme potencial para transformar toda a minha volta em um efeito dominó. Bastava uma companhia mudar um voo sem avisar para começar a bagunçar todos os outros. Afinal, viajar já não é emocionante o suficiente sem esse tipo de surpresa.

Fui até o balcão de atendimento da TAAG preparado para uma boa dor de cabeça. Mas, para minha surpresa, o atendimento foi muito bom. O pessoal foi bastante prestativo, explicou as opções que eu tinha e remarcou meu voo para a alternativa que ainda fazia sentido dentro do meu roteiro.

Como o trecho de São Paulo para Brasília era uma passagem separada da LATAM, eles também se comprometeram a entrar em contato com a companhia para tentar remarcar esse voo sem que eu tivesse que pagar uma nova tarifa. Não era garantia de que daria certo, mas pelo menos alguém estava tentando resolver o problema que eles mesmos tinham criado.

No fim das contas, era uma daquelas situações em que reclamar não mudaria muita coisa. O voo já tinha sido alterado, eu tinha um novo itinerário nas mãos e só restava torcer para que, dali em diante, ninguém resolvesse inventar mais nenhuma surpresa. Enfim… vida que segue.

Se você me perguntar se eu gostei de voar com a TAAG, a resposta é simples: nem um pouco.

Olha que eu já viajei com companhia aérea de tudo quanto é tipo. Companhia excelente, companhia mais ou menos, companhia de baixo custo e até aquelas empresas norte-americanas famosas por tratarem simpatia como um item a parte e caro. Mas poucas vezes encontrei uma tripulação tão mal-humorada quanto essa.

Cara, parecia que todo mundo ali estava trabalhando de castigo. Não sei se aquilo faz parte do jeito deles ou se eu simplesmente dei azar, mas a sensação era de que qualquer interação incomodava. Você pedia um copo d’água e recebia um olhar que dizia: “Sério? Você vai me fazer levantar por causa disso?”

Não era um caso de um ou outro comissário mais fechado. A impressão era que o clima contaminava a tripulação inteira. Faltava aquele mínimo de cordialidade que a gente espera em qualquer atendimento, principalmente num voo de tantas horas.

Foi uma experiência curiosa, porque eu normalmente não sou muito exigente com serviço de bordo, eu só quero chegar. Não preciso que ninguém fique sorrindo para mim o tempo todo. Mas também não espero ser tratado com desprezo pelo simples fato de existir. I´m not dog no.

Talvez eu tenha dado azar e pego uma equipe ruim. Pode acontecer. Mas, se a minha única experiência servir de referência, foi facilmente uma das tripulações mais rudes com as quais já voei. E isso é um feito considerável para quem já passou horas dentro de aviões pelo mundo inteiro.

O primeiro desafio em Luanda: sobreviver acordado e perto de um banheiro

Outra coisa que eu não gostei na TAAG foi o horário desse voo. O avião pousou em Luanda às 5h40 da manhã, o que, para mim, ainda eram 1h40 no horário de Brasília, o fuso ao qual meu corpo ainda estava acostumado. Ou seja, biologicamente, eu tinha acabado de ir dormir.

E, como acontece na maioria dos apartamentos alugados, o check-in só começava às 13 horas. Traduzindo: eu teria mais de sete horas para matar na cidade antes de poder tomar um banho ou deitar numa cama.

Consegui chegar ao apartamento por volta das 8h30 e, pelo menos nisso, dei sorte. O pessoal foi bastante atencioso, guardou minhas malas e disse que eu podia voltar no horário do check-in. Foi uma gentileza que fez bastante diferença, porque passear carregando mochila e mala no calor de Luanda definitivamente não fazia parte dos meus planos.

Então não teve jeito. Com pouco mais de uma hora de sono, que foi tudo o que consegui dormir dentro do avião, fui bater perna pela cidade tentando convencer meu cérebro de que aquele realmente era o começo de um novo dia. Afinal, dormir só dali a algumas horas.

Cara, eu já não tenho mais 20 anos. Tenho 42. Virar uma noite inteira sem dormir já não é uma aventura; é uma agressão ao organismo. Antigamente eu até conseguia passar o dia inteiro funcionando no piloto automático. Hoje em dia, se eu durmo pouco, meu corpo faz questão de me lembrar disso a cada cinco minutos.

Naquela manhã eu simplesmente não podia parar. Fiquei andando o tempo todo porque tinha um medo real de sentar num banco qualquer e apagar. Não era força de expressão. Eu tinha certeza de que, se encostasse por alguns minutos, dormiria ali mesmo.

Como se o sono não bastasse, ainda apareceu um desarranjo intestinal. E isso foi o que mais me surpreendeu. Eu sou extremamente chato com comida quando viajo. Quase nunca como em qualquer lugar, normalmente faço minha própria comida justamente para evitar esse tipo de problema. Até hoje não sei se a culpa foi da sala VIP no Brasil ou da comida do avião. Só sei que meu intestino resolveu entrar em parafuso justamente no primeiro dia da viagem.

Resultado: além de lutar contra o sono, passei a escolher meus passeios com base em outro critério muito importante: onde havia um banheiro por perto. Eu literalmente ia monitorando os cafés pelo caminho para saber onde poderia entrar correndo caso acontecesse alguma emergência. Não era exatamente o tipo de roteiro turístico que eu tinha imaginado para conhecer Luanda.

Depois de umas três horas caminhando, percebi que não dava mais. Voltei para o prédio antes do horário do check-in e fiquei conversando com o porteiro para passar o tempo. Em algum momento, o cansaço venceu. Eu simplesmente dormi sentado na cadeira da portaria, no meio da conversa. Não foi um cochilo planejado. Eu apenas desliguei.

Por volta de 12h30, finalmente liberaram o apartamento. Entrei, larguei a mochila no chão e deitei na cama. Dormi pelo menos duas horas seguidas, completamente apagado. E olha que, para o relógio do meu corpo, ainda eram apenas sete da manhã, no fuso horário ao qual eu estava acostumado. Acho que nunca um colchão foi tão bem-vindo no primeiro dia de uma viagem.

No fim das contas, fiquei bem. Felizmente, a intoxicação — ou seja lá o que aquilo foi — não passou de um grande susto. Mas ela acabou tendo uma consequência que me deixou bastante frustrado.

Eu simplesmente não consegui experimentar a comida angolana.

Como não sabia se meu problema iria piorar ou desaparecer sozinho, resolvi não arriscar. Durante praticamente toda a estadia, só comi comida preparada por mim mesmo, com pouquíssimo tempero, pouca gordura e ingredientes bem simples. Foram três dias a base de pão, peito de frango e banana. Juro. A ideia era não provocar ainda mais o meu estômago e conseguir chegar ao fim da viagem inteiro.

Foi uma pena. Angola sempre despertou minha curiosidade também pela comida, e eu tinha vontade de provar. Mas, dessa vez, achei mais prudente não brincar com a sorte. Viajar já é complicado o suficiente quando tudo está dando certo. Resolver fazer uma aventura gastronômica com o intestino em rebelião me pareceu uma péssima ideia.

Então ficou a dívida. A comida angolana vai ter que esperar uma próxima viagem.

Cara, eu sou fascinado com essas senhoras andando pelas ruas de Luanda com essas bacias na cabeça. Tinham muitas por todas as ruas.

A história de como Angola ajudou a construir o Brasil

A história moderna de Luanda começa com a chegada dos portugueses. Apesar da gente imaginar que tudo era várzea, quando eles chegaram à região onde hoje fica Angola, no fim do século XV, encontraram reinos africanos bem organizados e institucionalizados, como o Reino do Congo e o Reino de Ndongo. Inicialmente, a relação era baseada em alianças comerciais e diplomáticas, mas, com o passar do tempo, Portugal passou a exercer um controle cada vez maior sobre a região. A fundação de Luanda, em 1576, marcou o início da colonização portuguesa de forma mais efetiva. Ao longo dos séculos seguintes, Angola tornou-se uma das principais bases do Império Português na África, principalmente por causa do comércio de escravizados. Milhões de africanos foram embarcados, sobretudo para o Brasil, fazendo com que Angola se tornasse um dos territórios africanos que mais influenciaram a formação da população, da cultura e da identidade brasileiras.

No século XX, o domínio português começou a ser contestado por movimentos de independência, culminando em uma longa guerra iniciada em 1961. Entre as principais lideranças estava Agostinho Neto, médico, poeta e fundador do MPLA (Movimento Popular de Libertação de Angola). Preso diversas vezes pelo governo português por sua atuação política, ele tornou-se o principal símbolo da luta pela independência e, em 1975, assumiu como o primeiro presidente de Angola após a proclamação da independência. Sua figura continua sendo uma das mais importantes e influentes da história do país.

A paz, porém, demoraria a chegar. Logo após a independência, Angola mergulhou em uma guerra civil entre o MPLA, a UNITA e a FNLA, conflito que rapidamente se transformou em um dos principais capítulos da Guerra Fria na África, com União Soviética e Cuba apoiando o MPLA, enquanto Estados Unidos e África do Sul apoiavam seus adversários. A guerra só terminou em 2002, deixando centenas de milhares de mortos e um país devastado. Desde então, Angola passou por um intenso processo de reconstrução, impulsionado principalmente pelas receitas do petróleo e dos diamantes. Hoje, apesar dos desafios econômicos e sociais, é uma das maiores economias da África Subsaariana e mantém uma ligação histórica, cultural e linguística muito forte com o Brasil.

O maior mito sobre Luanda caiu em cinco minutos

Eu sempre tive muito medo de Luanda. Mas muito mesmo. Só que não era medo de assalto, roubo ou sequestro.

Era medo da conta.

Durante anos, Luanda ganhou fama de ser uma das cidades mais caras do mundo para estrangeiros. Eu já tinha ouvido tanta história absurda sobre os preços que comecei a achar que pisaria no aeroporto e imediatamente entraria em falência. Era aquele tipo de lugar em que você perguntava o preço de um café e já fazia uma simulação de financiamento antes de confirmar o pedido.

Essa fama não surgiu do nada. Depois do fim da guerra civil, a economia angolana passou a crescer rapidamente graças ao petróleo. Empresas estrangeiras desembarcaram em peso, junto com milhares de executivos expatriados recebendo salários altíssimos. O problema é que a infraestrutura do país ainda era muito limitada. Faltavam hotéis, apartamentos, restaurantes, produtos importados e praticamente todo tipo de serviço para atender aquela nova demanda. Resultado: os preços explodiram.

Durante vários anos, Luanda apareceu no topo dos rankings das cidades mais caras do mundo para estrangeiros viverem. E as histórias que circulavam ajudavam a alimentar essa fama. A mais famosa era a de um café com um pão custando 30 dólares. Não sei se a história era totalmente verdadeira ou se já tinha virado lenda urbana, mas confesso que cheguei à cidade psicologicamente preparado para vender um rim caso resolvesse tomar café da manhã na padaria errada.

Então desembarquei em Luanda já preparado para o pior. Se eu tinha reclamado dos preços do Caribe, imaginava que aquilo ali seria brincadeira de criança perto de Angola. Na minha cabeça, qualquer gasto seria uma pequena tragédia financeira.

A primeira missão foi comprar um chip de celular. Perguntei o preço e o atendente respondeu:

— Sete gigas por 5.000 kwanzas.

Na hora pensei: “Pronto. Começou.”

Peguei o celular, fiz a conversão e esperei aparecer um valor absurdo. Mas o resultado foi… cerca de 28 reais, ou uns 5 dólares.

Pera aí.

Fiz a conta de novo.

Depois uma terceira vez.

Não era possível. Eu nunca tinha pago tão barato por internet durante uma viagem. Paguei ainda desconfiado, quase esperando alguém aparecer dizendo que eu tinha entendido errado ou que faltava um zero no preço.

Resolvida a internet, veio o segundo desafio: sair do aeroporto. O novo aeroporto internacional fica bem afastado do centro de Luanda, praticamente uma hora de viagem. Pensei: “Agora vem a pancada.”

Comecei pesquisando ônibus. Não gostei muito da ideia. Abri então o Yango, que funciona como o Uber por lá.

Corrida até o apartamento: 12.000 kwanzas.

Lá fui eu pegar a calculadora de novo.

Sessenta reais (12 dólares)

Outra com bacia

Sessenta.

Achei que tinha errado a conversão outra vez. Mas não. Era aquilo mesmo. Para colocar em perspectiva, poucos meses antes eu tinha pago 40 dólares para fazer um trajeto parecido em São Vicente e Granadinas. Em Luanda, a corrida custava menos da metade disso.

A partir daí virou quase uma obsessão. Toda vez que eu via um preço, fazia a conversão. Depois fazia de novo. E, por garantia, uma terceira vez. Eu simplesmente não conseguia acreditar. A cidade que durante anos foi conhecida como uma das mais caras do mundo para estrangeiros tinha se transformado, pelo menos para um turista pagando em reais ou dólares, em um destino surpreendentemente barato.

No fim das contas, Luanda acabou sendo, de longe, a cidade mais barata que eu já visitei na África. Até hoje não sei dizer exatamente o que aconteceu. A queda do preço do petróleo, a forte desvalorização do kwanza e a crise econômica dos últimos anos mudaram completamente aquela realidade que eu tinha ouvido falar durante tanto tempo.

E o mais frustrante é que eu praticamente não consegui aproveitar essa pechincha.

Por causa do desarranjo intestinal, como falei, passei a viagem inteira vivendo de pão, ovo cozido, arroz e peito de frango preparados por mim mesmo. Nada de restaurantes, nada de experimentar os pratos típicos angolanos, nada de aproveitar aqueles preços inacreditáveis. Foi uma pena. Pela primeira vez em muito tempo eu estava em um país onde podia entrar em qualquer restaurante sem medo da conta e pagar de patrão… O pai do Maranhão chegou! Sim, foi justamente quando meu estômago decidiu entrar em greve.

Vai ficar como mais uma desculpa para voltar a Angola um dia.

Amo essa senhoras com essas bacias… olha a facilidade com que elas carregam

Estereótipos caindo por terra

A primeira coisa que realmente me chamou a atenção em Angola foi a questão da língua. Até hoje, foi o único país africano que visitei onde o português é usado de forma predominante até mesmo entre os próprios moradores. Nos outros países por onde passei, a língua oficial de origem europeia era usada normalmente com turistas, no governo e em situações formais. Mas, entre eles, a conversa mudava completamente.

Na África do Sul, por exemplo, eu ouvia muito zulu. No Senegal, wolof. Em Moçambique, apesar de todo mundo falar um português excelente comigo, era muito comum ver os moçambicanos conversando entre si em suas línguas locais. Em Angola foi diferente. Durante toda a viagem, raríssimas vezes vi dois angolanos conversando em outra língua que não fosse o português. Era português no mercado, no ônibus, no restaurante, no Yango, na rua… praticamente em todo lugar.

Isso é consequência direta da política de destruição cultural adotada por Portugal durante o período colonial. Assim como aconteceu no Brasil, as línguas locais perderam muito espaço ao longo dos séculos e o português acabou se consolidando como a língua do dia a dia. Em outros países da América do Sul esse processo foi diferente. No Paraguai, por exemplo, o guarani continua sendo amplamente falado pela população. Na Bolívia, diversas línguas indígenas permanecem vivas e fazem parte da rotina do país. Em partes do México acontece a mesma coisa. Em Angola, porém, minha impressão foi de que o português domina completamente a vida urbana.

Outra coisa que me surpreendeu bastante foi a sensação de segurança em Luanda. Antes da viagem eu imaginava uma cidade complicada, mas praticamente todo angolano com quem conversei dizia a mesma coisa: podia andar relativamente tranquilo, tanto de dia quanto à noite. Claro, sempre existiam aqueles cuidados básicos que qualquer viajante deve ter em qualquer lugar do mundo. Não deixar celular dando sopa em cima da mesa, prestar atenção na carteira, evitar dar bobeira…

Mas eu sempre fazia uma pergunta bem específica:

— Tá… mas existe aquele risco de aparecerem dois caras numa moto, apontarem uma arma e levarem tudo?

A resposta era sempre a mesma: uma risada. Diziam que esse tipo de assalto não era uma preocupação comum em Luanda. Obviamente isso não significa que a cidade seja livre de criminalidade, mas a percepção dos próprios moradores era muito mais tranquila do que eu esperava antes de viajar.

Outra facilidade que encontrei foi a forma de pagamento. Ao contrário do que acontece em várias cidades africanas, praticamente tudo podia ser pago com cartão de crédito. Restaurantes, supermercados, lojas… quase nunca precisei sacar dinheiro.

A exceção era justamente o Yango, o aplicativo de transporte equivalente ao Uber. As corridas eram pagas em dinheiro, então praticamente todo o dinheiro vivo que usei durante a viagem foi para isso. Todo o restante consegui resolver no cartão sem maiores dificuldades.

Já o Google Maps deixou um pouco a desejar. O GPS não era muito preciso, havia poucos estabelecimentos com avaliações e várias lojas simplesmente nem apareciam no mapa. Não chegou a inviabilizar a viagem, mas dava para perceber que a cobertura ainda estava longe do nível que estamos acostumados no Brasil. Ainda assim, com um pouco de paciência, ele quebrava um bom galho.

A Baía de Luanda também foi uma grata surpresa. É um lugar muito bonito para caminhar, especialmente no fim da tarde. A orla fica cheia de famílias passeando, gente correndo, andando de bicicleta, casais conversando e grupos de amigos simplesmente aproveitando o vento que vem do mar. É um daqueles lugares que mostram um lado completamente diferente da imagem que muita gente faz de Angola antes de conhecê-la.

Outra coisa que me chamou a atenção foi a quantidade de arranha-céus. Eu sabia que Luanda era uma cidade importante economicamente, mas não imaginava encontrar tantos prédios modernos espalhados pela cidade. E o mais curioso é que havia guindastes por toda parte, indicando que novos edifícios ainda estavam sendo construídos. A sensação era de uma cidade que continua crescendo e tentando se reinventar, impulsionada principalmente pela indústria do petróleo.

Ao mesmo tempo, Luanda escancara um contraste difícil de ignorar. Você olha para um lado e vê torres modernas de vidro e aço. Olha para o outro e encontra milhares de pessoas tentando sobreviver em condições muito mais difíceis. Essa desigualdade faz parte da paisagem da cidade e aparece o tempo inteiro.

E isso também significa que, andando pelas ruas, você será abordado diversas vezes por pessoas pedindo dinheiro. Algumas apenas fazem um pedido educado e seguem o caminho quando você responde que não. Outras são bem mais insistentes e chegam muito perto, falando alto, acompanhando você por alguns metros e tentando chamar sua atenção a qualquer custo. Eu entendia que eram pessoas em situação de extrema vulnerabilidade, mas confesso que, para quem não está acostumado, algumas abordagens podem assustar.

Como todos os moradores com quem conversei insistiam que Luanda era uma cidade relativamente segura, eu acabava ficando tranquilo. Se uma abordagem parecida acontecesse em algumas cidades brasileiras, provavelmente eu teria levado um susto bem maior. Ainda assim, caminhar por Luanda exige um pouco de jogo de cintura e disposição para dizer “não, obrigado” várias vezes ao longo do dia.

Cara, eu amei Luanda e Angola

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VIAGEM AO LESOTO | Burocracia, fronteiras e a história de um reino improvável

O Lesoto era o último país que faltava para eu completar minha viagem por todos os países do sul da África. Um pequeno reino completamente cercado pela África do Sul, onde todo o território fica acima dos mil metros de altitude e cuja própria existência está ligada à história de Moshoeshoe I, o homem que conseguiu unir os basotho e negociar para que seu povo não fosse engolido pelos vizinhos. Mas antes de conhecer essa história, eu precisava simplesmente conseguir entrar no país. E foi aí que começou a novela. O antigo sistema eletrônico de vistos do Lesoto havia sido desativado e o processo passou a funcionar praticamente por e-mail. Mandei os documentos, esperei, cobrei resposta, mandei novamente e passei semanas sem saber se alguém sequer tinha aberto minha mensagem. Quando a viagem já estava chegando e eu começava a considerar cancelar tudo, finalmente apareceu uma autorização na minha caixa de entrada. Problema resolvido? Claro que não. Ainda na África do Sul, a companhia aérea precisou telefonar para o Lesoto para confirmar se aquele documento era verdadeiro. Depois de finalmente embarcar, cheguei ao aeroporto e descobri que a autorização também não era exatamente o visto: eu tinha apenas 72 horas para comparecer pessoalmente ao Ministério de Assuntos Internos e terminar o processo. Foi quando conheci de perto a burocracia basotho. Pilhas de processos em papel, salas abarrotadas, funcionários procurando meu pedido no meio da papelada, uma longa espera para pagar a taxa e mais de uma hora aguardando apenas a assinatura de um supervisor. Foram cerca de três horas dentro de um ministério praticamente vazio até finalmente sair de lá legalizado. E ainda conseguiram me entregar o recibo de outro estrangeiro. No meio dessa confusão toda, comecei a entender melhor um país que tem uma história muito mais interessante do que seu tamanho sugere. O Lesoto existe em grande parte graças a Moshoeshoe I, líder que conseguiu reunir diferentes grupos basotho, resistir ao avanço dos bôeres e buscar proteção britânica para preservar seu território. A antiga Basutolândia acabaria conquistando a independência em 1966 e se transformando no atual Reino do Lesoto. Neste vídeo mostro como foi essa primeira parte da minha passagem pelo país: a dificuldade para conseguir o visto, a chegada ao pequeno aeroporto, o inacreditável processo dentro do ministério e um pouco da história que explica como um reino conseguiu sobreviver completamente cercado pelo território da África do Sul.

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COPA DO MUNDO| A saga de conseguir assistir um jogo de Brasil x Marrocos

Acabou que com toda confusão que Air Canada fez comigo (entenda mais sobre a história lendo aqui), atrasando por quase três horas o meu voo, eu cheguei na casa do meu amigo, Herbert, por volta de uma da manhã. Ou seja, eu teria menos de 48h em Nova York. Tudo bem, eu tinha viajado para lá só para pegar meu voo de volta pro Brasil depois de todo um rolê no Caribe e também para de alguma forma ou conseguir um ingresso pro jogo da Copa de 2026 Brasil x Marrocos ou ao menos fazer uma fuzarca com a torcida do Brasil. 

Na verdade, descer com a torcida é a parte mais legal da Copa, mais ainda do que o próprio jogo. Eu já tinha acompanhado aquele tipo de movimentação em outras viagens e até mesmo com os bósnios no Canadá. Isso é muito mais interessante do que simplesmente chegar ao estádio, sentar e assistir à partida. É ali que está boa parte da graça: milhares de pessoas andando juntas, cantando, bebendo, cantando e transformando algumas ruas da cidade numa extensão da arquibancada.

Eu no Canadá descendo com a torcida da Bósnia pro Estádio no jogo inicial deles

Na teoria, meu plano para o dia seguinte estava relativamente organizado. Na prática, eu ainda dependia de uma quantidade considerável de coisas darem certo, o que normalmente não é um bom sinal nas minhas viagens.

Infelizmente os astros não se alinharam e nenhuma das duas opções pareciam que iam dar certo, nem o ingresso pro jogo, nem descer com a torcida pro estádio. Era uma burocracia monstra para descer pro estádio, ele nem era em Nova York, era em Nova Jersey, não ia ter concentração. Enfim, não ia ter como chegar no estádio com a torcida.

Acordei meio desanimado 

Parecia que dessa vez não ia rolar.

Fomos dar uma volta na cidade, procurar algo para comer e… rapaz… do nada surgiu a oportunidade de um ingresso para mim.

Rapaz…

Aí deu uma animada.

Fiquei um pouco com uma sinuca moral já que eu só teria um ingresso. E, assim, meio que teria que abandonar o Herbert. Mas, assim, eu abandonava. Sabia que ele faria o mesmo e eu até encorajaria ele a fazer o mesmo caso fosse o contrário.

Depois de toda a incerteza, agora pelo menos eu tinha certeza de que entraria no estádio. E não é que depois de um tempo surgiu um outro ingresso? Perfeito. Tudo resolvido.

O problema era que Herbert estava praticamente sem bateria no celular e nós ainda tínhamos outra missão absolutamente fundamental antes de ir pro jogo: comprar um tênis para a minha esposa, a Bruna. Ai de mim se eu voltasse dos EUA sem aquele tênis. Copa do mundo era periférico, o tênis dela era importante. 

E outra? Como faríamos para chegar no estádio? Não, não tinha metrô e não dava para chegar de Uber, você tinha que conseguir de alguma forma o transporte oficial da FIFA.

Então lá fomos nós resolver tudo ao mesmo tempo. Jogo, ingresso, celular, tênis, transporte, mochila… parecia que eu estava coordenando uma pequena operação militar, só que sem qualquer planejamento e com um nível de competência bastante questionável.

Compramos o tênis. Compramos um carregador externo pro Herbert. Conseguimos na internet comprar duas vagas no ônibus que sairia de Nova York pro estádio. Ida e volta. E, assim, o jogo tava para começar. Corremos para o ponto de ônibus de onde ele saía e, quem disse que a gente conseguia achar? No final conseguimos e quando chegamos na fila do ônibus encontrei um amigo que também estava indo para o jogo. Falei para ele todo feliz que tinha conseguido dois ingressos. Eu estava radiante. Falei para ele que iria correr em uma loja de conveniência pra comprar algumas coisas para comer. Que se ele quisesse eu comprava para ele. Até ele me falar, com a maior tranquilidade:

— Não, não precisa comprar para mim. Eu consegui um camarote de graça com um amigo meu. Eu como lá dentro.

PORRA.

Eu ali preocupado com ingresso, mochila, ônibus, torcida e logística para chegar ao estádio e o cidadão simplesmente tinha conseguido camarote.

Algumas pessoas claramente estavam vivendo aquela experiência de maneira diferente.

Pois é.

E quando chega o ônibus? Era um ônibus de linha? Nada, kkkk. Era um ônibus escolar. Daqueles de filme. Amarelo. Tudo bem, tudo era festa.

Quando chegamos perto do estádio apareceu outro problema: onde diabos eu deixaria minhas coisas? Eu estava com mochila e alguns objetos e não me deixaram entrar. Encontramos um lugar que guardava bagagem.

Preço?

25 dólares.

VINTE E CINCO DÓLARES.

Cara, tenho quase certeza de que o conteúdo inteiro da minha mochila valia menos do que aquilo. Se o sujeito tivesse roubado tudo, talvez tivesse prejuízo tentando revender.

Mas não tinha muita escolha. Quando eu fui pagar, não aceitava dinheiro. Quando eu ia passar o meu cartão, um cara que estava lá na fila perguntou se eu me importava de passar 50 dólares no cartão que ele me dava os 25 que ele tinha em espécie. Claro que não. Passei 50 dólares e fomos para dentro. Guarde essa informação. 50 dólares no cartão.

Finalmente entramos na região do estádio e começou aquela movimentação típica de jogo grande. Muita gente, polícia, segurança, fila, torcida, gente tentando descobrir para onde deveria ir. Achamos o nosso lugar. O legal que foi só a gente sentar que uma galera que estava perto da gente que já tava meio bêbada começou a querer arrumar confusão entre eles. Pronto, só faltava chegar o choque mandando bomba de gás para separar confusão a la Libertadores.

Meu irmão…

Eu só queria assistir ao jogo.

Depois de toda aquela preparação, finalmente começou a partida.

E foi um jogo chato.

É impressionante como funciona Copa do Mundo. Você pode atravessar meio mundo, gastar dinheiro, enfrentar fila, organizar transporte, comprar ingresso, passar horas criando expectativa e, quando finalmente chega o momento pelo qual você fez tudo aquilo, os caras entram em campo e resolvem jogar uma pelada de terça-feira às quatro da tarde.

Sim, todo mundo sabe o jogo horrível que foi Brasil e Marrocos, não precisa entrar em detalhes. É o que eu sempre digo sobre Copa. Só é legal até a hora que você entra no estádio. Depois que você tá lá dentro, você só passa raiva.

Mas beleza.

O jogo foi o de menos. A jornada foi muito mais legal que o destino.

Terminou o jogo e começou uma das partes mais complicadas de qualquer evento gigantesco: ir embora. Dezenas de milhares de pessoas saindo ao mesmo tempo, transporte lotado, fila para tudo e todo mundo tentando chegar exatamente aos mesmos lugares.

Seguimos tentando sair daquela confusão e, em algum momento, conseguimos furar uma fila gigantesca para pegar o transporte. Não tenho orgulho.

Também não tenho arrependimento.

Entramos no ônibus e pensei que finalmente aquela parte complicada tinha terminado.

Claro que não.

Cara, acredita que o motorista bateu o ônibus? A gente tava sentado no banco de repente escuta só um barulhão e o vidro trincando!

Nada grave, mas era exatamente o tipo de coisa que faltava para completar a experiência. Jogo chato, confusão na saída, torcida querendo brigar, fila, mochila e agora nosso próprio motorista resolvia acrescentar um pequeno acidente de trânsito ao roteiro. Descemos no meio de Nova York. Nesse momento estava terminando outro jogo que naquele momento era muito importante para Nova York: a final dos Knicks. Sim, era noite de uma final do time de basquete deles. Título que eles não ganhavam há quase 50 anos.

E sim, os Knicks o time de Nova York, foram campeões.

A cidade começou a enlouquecer.

Na mesma hora pensei:

— Times Square.

Herbert, entretanto, tinha uma visão um pouco diferente. Segundo ele, era melhor não ir porque provavelmente teria gente demais, bebida, confusão, polícia e sabe Deus o que mais.

Exatamente.

Era justamente isso que eu queria ver.

Não queria participar da confusão, obviamente. Mas queria estar lá para assistir. Para mim, aquele era o tipo de coisa que fazia parte da viagem. Eu poderia conhecer a Times Square em qualquer outro dia, mas uma Times Square tomada por bárbaros comemorando um título a la “Godos tomando Roma” era uma coisa que talvez eu nunca mais tivesse oportunidade de presenciar.

Porém, no final, o cansaço venceu e fui dormir.

E me arrependi. 

No outro dia pela manhã (tive que sair seis da manhã do apartamento para pegar o voo) ainda cruzei com gente no metrô que claramente estava completamente virada, tinha virado a noite bebendo. Aquilo só aumentou minha sensação de que eu deveria ter ido para Times Square.

Mas havia um problema importante: no dia seguinte eu precisava pegar um avião. E aeroporto nos Estados Unidos não é exatamente o lugar onde eu gosto de testar aquela estratégia de chegar em cima da hora e torcer para tudo dar certo. Segurança, fila, deslocamento até o terminal… dependendo do aeroporto, aquilo pode consumir um tempo absurdo. Então tentei convencer a mim mesmo de que tinha tomado uma decisão adulta e responsável.

Decisão ruim.

Mas adulta e responsável.

No outro dia, já a caminho de seguir viagem, recebi uma mensagem do Herbert contando o que tinha acontecido durante a comemoração na Times Square.

Tinha dado confusão.

Quebraram carro.

Quebraram ônibus.

Teve tumulto.

E eu lendo aquilo pensando:

POMBAS! ERA EXATAMENTE POR ISSO QUE EU QUERIA TER IDO!

Claro que é muito fácil falar isso depois, lendo a história confortavelmente pelo celular e sabendo que você não tomei uma garrafada na cabeça nem fui preso no meio de uma confusão com a polícia. Provavelmente Herbert estava certo. Provavelmente ir dormir tinha sido a decisão mais sensata.

Mas viagem não é feita apenas das decisões sensatas.

Até hoje, quando lembro daquela noite, não penso no maravilhoso descanso que tive antes de pegar meu voo.

Penso na confusão que perdi de assistir.

Quando cheguei em casa, dois dias depois. Fui ver a fatura do meu cartão e… surpresa… sabe os 50 dólares que eu falei que eu passei para poder guardarem a minha mochila no estádio? Os 25 dólares que era da minha mochila, mais os 25 que um cara aleatório me deu e pediu para eu passar para ele? Então… não sei porque o banco rejeitou a transação. Sabe-se lá porque. Eu fiz tudo certinho. Mas no final não paguei pela miha mochila e ainda ganhei 25 dólares.

E tudo isso em menos de 48 horas.

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VIAGEM AO CANADÁ| Cataratas do Niágara, Copa do Mundo e uma invasão da torcida da Bósnia

E lá vamos nós para o penúltimo país da viagem: o Canadá. De todos os lugares por onde passei nessa aventura, esse era, disparado, o mais conhecido. Curiosamente, eu nunca tinha colocado os pés no país, então aproveitei a Copa do Mundo como desculpa perfeita para finalmente conhecer esse colosso da América do Norte.

A coincidência foi boa: cheguei exatamente a tempo da estreia do Canadá contra a Bósnia. Pensei: “pronto, vou aproveitar e assistir a um jogo de Copa”.

Fui todo animado pesquisar os ingressos e… levei um direto no queixo. O mais barato custava mil dólares. Isso mesmo: US$ 1.000 para assistir ao grande clássico mundial entre Canadá e Bósnia. Rapaz… se fosse uma final de Copa, Brasil e Argentina, eu até pensava no assunto. Mas mil dólares para ver essa pelada? Aí também não. Resolvi prestigiar o espetáculo da forma tradicional: sentado em um bar, comendo alguma coisa e economizando novecentos e muitos dólares.

Como nasceu o segundo maior país do planeta. Por que o Canadá deu tão certo?

A história do Canadá moderno começa com a chegada dos franceses no século XVI, que fundaram colônias às margens do rio São Lourenço e desenvolveram o lucrativo comércio de peles com os povos indígenas. Mais tarde, os britânicos conquistaram a Nova França durante a Guerra dos Sete Anos, em 1763, e passaram a controlar praticamente todo o território. Para evitar revoltas, Londres permitiu que a população francófona mantivesse sua língua, sua religião católica e parte de suas leis, algo que explica por que o Canadá continua sendo oficialmente bilíngue até hoje. Em 1867, várias colônias britânicas se uniram formando o Domínio do Canadá, que aos poucos conquistou autonomia política, até se tornar um país plenamente soberano ao longo do século XX, mantendo, porém, a monarquia britânica como chefe de Estado.

O crescimento canadense foi impulsionado por uma combinação rara de fatores: enorme disponibilidade de recursos naturais, imigração em massa, estabilidade institucional e forte integração econômica com os Estados Unidos. Florestas, petróleo, gás, minérios, agricultura e, mais recentemente, tecnologia e serviços financeiros transformaram o país em uma das economias mais ricas do mundo. Ao contrário de muitos países que conquistaram a independência por meio de guerras, o Canadá fez essa transição de forma gradual e relativamente pacífica, preservando instituições sólidas e um ambiente favorável aos investimentos. Hoje, mesmo ocupando o segundo maior território do planeta, tem pouco mais de 40 milhões de habitantes concentrados principalmente na estreita faixa próxima à fronteira americana, onde o clima é menos rigoroso e se desenvolveu a maior parte da economia do país.

As primeiras impressões do Canadá. O alívio inicial

A primeira sensação que tive ao chegar ao Canadá foi de alívio. Cara, é bom demais desembarcar em um lugar onde você entende o inglês que as pessoas falam. Depois de tantos dias no Caribe tentando decifrar sotaques que pareciam um inglês completamente diferente, conversar com um canadense foi quase terapêutico. Pela primeira vez na viagem eu não precisava ficar pedindo para a pessoa repetir três vezes a mesma frase ou fingindo que tinha entendido só para não prolongar a conversa.

Uma curiosidade que descobri por acaso foi sobre o inglês dos próprios canadenses. A gente costuma pensar que todo canadense nasce falando inglês e francês perfeitamente, mas não é bem assim. Como eu estava na parte francófona do país, muita gente tem o francês como primeira língua e aprende inglês na escola, exatamente como nós aprendemos inglês no Brasil. Descobri isso conversando com um canadense que tinha viajado comigo em São Vicente e Granadinas. Em determinado momento ele comentou, com a maior naturalidade do mundo: “Naquela viagem eu tive um pouco de dificuldade porque meu inglês ainda não era muito bom.” Eu fiquei olhando para ele tentando entender. Como assim o inglês não era bom? Meu amigo… você é canadense! Só depois caiu a ficha de que, para muita gente por lá, o inglês também é uma segunda língua.

Outra coisa que me impressionou foi o nível de organização. Você sai do aeroporto e já encontra um ônibus esperando. O ônibus te deixa exatamente na estação de metrô. Do metrô você faz integração com um bonde e, poucos minutos depois, está na porta do Airbnb. Tudo funciona como se tivesse sido pensado para facilitar a vida de quem usa transporte público. Depois de tantos países onde o planejamento do deslocamento começava com “vamos negociar com o taxista”, aquilo parecia quase ficção científica.

O erro que, por sorte, se resolveu sozinho

Tem uma história que até hoje eu não sei explicar. Eu sabia que queria ir ao Canadá para acompanhar o jogo de abertura da Copa do Mundo. Também sabia que queria chegar na cidade onde a partida seria disputada. E sim, eu sabia que essa cidade era Toronto. Até aí, tudo bem.

O problema é que, na hora de comprar as passagens, fiz exatamente o contrário do que estava pensando: comprei um voo da Jamaica para Montreal. Não me pergunte como. Não me pergunte por quê. Eu simplesmente comprei. Meses depois, revisando o roteiro, olhei a passagem e pensei: “Pera aí… por que diabos eu fiz?”

Minha primeira ideia foi cancelar a passagem e pedir o dinheiro de volta. Fui olhar as regras da tarifa e descobri que a Arajet ficaria com praticamente todo o valor pago. Resultado: não cancelei, deixei a passagem para lá, engoli o prejuízo e comprei outra, dessa vez para Toronto.

Só que aí aconteceu uma daquelas coincidências improváveis que às vezes salvam a vida da gente. Pouco antes da viagem, a companhia aérea alterou o horário do voo para Montreal. E quando a empresa muda significativamente o horário, você passa a ter direito ao reembolso integral. Foi exatamente o que aconteceu. Pedi o dinheiro de volta e, como num passe de mágica, a maior burrada que eu tinha cometido no planejamento simplesmente desapareceu. Dessa vez, a sorte resolveu trabalhar a meu favor.

A última catarata da coleção. Cataratas do Niágara, as cataratas do Pica Pau

De longe, o passeio mais legal para fazer saindo de Toronto é conhecer as Cataratas do Niágara. Se você nunca ouviu esse nome, provavelmente conhece pelo episódio clássico do Pica-Pau nas cataratas. Pois é, são aquelas mesmas. E, para mim, esse passeio tinha um significado especial. As Cataratas do Niágara fazem parte daquilo que eu considero a “tríade” das cataratas mais famosas do planeta: Iguaçu, Vitória (entre Zâmbia e Zimbábue) e Niágara. Como eu já tinha visitado as duas primeiras, só faltava essa para completar o álbum.

Como praticamente tudo no Canadá funciona direito, fazer um bate e volta é muito fácil. Fui até a rodoviária de Toronto, comprei a passagem para o primeiro ônibus que sairia — eles partem praticamente de hora em hora — e duas horinhas depois já estava em Niágara. O melhor é que o ônibus para praticamente na porta das cataratas. Você desce e… pronto. Elas já estão ali na sua frente.

Uma coisa interessante é que as cataratas ficam exatamente na fronteira entre Canadá e Estados Unidos. Dá até para atravessar a pé pela Rainbow Bridge, que liga os dois países. O problema é que eu não podia fazer isso. Meu visto canadense permitia entrada apenas por via aérea. Ou seja, se eu atravessasse para os Estados Unidos, muito provavelmente pisaria em solo americano e nunca mais pisaria no Canadá naquela viagem. Achei melhor continuar admirando a paisagem do lado canadense mesmo, que, diga-se de passagem, é o lado com a melhor vista.

As Cataratas do Niágara não são as mais altas do mundo — esse título fica com as Cataratas Vitória. Também não são as que despejam o maior volume de água — nesse quesito o Iguaçu leva vantagem. Mas elas têm uma característica impressionante: praticamente todo aquele volume gigantesco de água passa por uma garganta relativamente estreita. O resultado é uma muralha de água absurda, concentrada num espaço pequeno, produzindo um barulho constante que impressiona mesmo de longe.

E, claro, existe o passeio clássico de barco que entra praticamente dentro da cachoeira. Eles entregam uma capa de chuva para todo mundo e lá vai você navegar em direção àquele paredão de água. Antes de viajar, eu assisti a um vídeo de uma youtuber brasileira dizendo que, com a capa fornecida pela empresa, “você quase não se molha”. Pensei: beleza, tranquilo.

Rapaz…

Acho que ela confundiu “quase não se molha” com “você sai parecendo que caiu numa piscina de roupa”. Mano, eu saí ensopado. A capa protege um pouco, claro, mas a quantidade de água que bate em você é absurda. Quando desembarquei, parecia que tinha tomado banho vestido.

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Maldita youtuber.

Depois do passeio ainda descobri outra surpresa. Eu imaginava que, ao redor das cataratas, haveria apenas alguns restaurantes e lojinhas de lembranças. Nada disso. Existe um verdadeiro complexo de entretenimento. Tem roda-gigante, kart, fliperama, montanha-russa, museus, hotéis, restaurantes… parece uma mistura de parque de diversões com Las Vegas em miniatura. Achei muito mais interessante do que esperava. Infelizmente, como eu estava completamente encharcado — obrigado novamente, maldita youtuber — e ainda precisava pegar o ônibus de volta para Toronto, não deu tempo de explorar muita coisa. Ficou mais uma desculpa para voltar um dia.

No meio da torcida da Bósnia e quase vendo família turca indo dormir no xilindró

Como eu não tinha conseguido ingresso para o jogo de abertura da Copa, resolvi simplesmente passear por Toronto. Afinal, já que eu estava na cidade, pelo menos queria sentir o clima do evento. Estava andando tranquilamente quando comecei a notar uma quantidade cada vez maior de policiais. Era viatura, bicicleta, cavalo… polícia para todo lado. Pensei comigo: “Onde tem tanta polícia assim, alguma coisa interessante está acontecendo.” Resolvi seguir o fluxo.

Poucos minutos depois descobri o motivo. Era a torcida da Bósnia descendo em massa para o estádio. Sem pensar duas vezes, vesti minha camisa amarela do Brasil no meio daquela multidão azul e comecei a caminhar junto. Rapaz, era uma festa bonita de ver. Cantavam, pulavam, tocavam tambor… até que, em determinado momento, um careca de quase dois metros de altura com uma cara de poucos amigos deu dois tapinhas nas minhas costas e falou:

— O que você está fazendo aqui, rapaz? Cai fora… você não é bósnio!

Na hora passou pela minha cabeça responder:

— Meu amigo, aqui é Toronto, não Sarajevo. Eu fico onde eu quiser.

Mas aí fiz um cálculo rápido. Antes de terminar a frase, provavelmente eu já teria tomado uns cinquenta tapas na cabeça. Achei mais prudente rir, sair discretamente para o lado e deixar os caras curtirem a festa deles.

Cheguei ao estádio e, como não tinha ingresso mesmo, fui dar uma volta por um parque que ficava ali perto. Estava sentado descansando quando chegou uma família de turistas turcos. Eles tiraram um drone da mochila e começaram a preparar o voo. Pensei: “Vai dar ruim.”

E deu.

O drone subiu… voou uns três segundos… bateu em cheio num galho de árvore e caiu igual uma pedra.

Rapaz…

Foi impressionante.

Parecia que tinham apertado um botão secreto.

Começou a surgir policial de tudo quanto é lado. Polícia de bicicleta. Polícia correndo. Polícia de carro. Faltou só brotar policial de dentro do chão.

Os pobres dos turcos ficaram completamente desesperados.

Os policiais cercaram a família e começaram a perguntar se eles tinham autorização para operar um drone naquela área. O pai da família tentava explicar que era só para fazer umas imagens, as crianças olhando sem entender nada e a mãe com aquela cara de “eu falei para você não inventar moda”.

No fim, deu tudo certo. Os policiais perceberam que era apenas uma família de turistas que não fazia ideia das regras, mandaram guardar o drone e explicaram que aquela região era considerada uma zona de segurança nacional por causa da Copa do Mundo.

E, convenhamos…

Os caras resolveram levantar um drone do lado de um estádio onde estava acontecendo a abertura de uma Copa do Mundo.

Realmente não era o melhor lugar do planeta para testar um brinquedo novo.

Família turca se explicando pros policiais

A imigração americana antes mesmo de sair do Canadá

Chegou a hora de seguir viagem. O próximo destino era os Estados Unidos, onde eu tentaria assistir ao primeiro jogo do Brasil contra o Marrocos, em Nova Jersey. Mas, antes mesmo de embarcar, tive uma surpresa que eu não fazia ideia de que existia.

A imigração dos Estados Unidos é feita ainda em território canadense. Isso mesmo. Você passa pelo controle americano dentro do aeroporto do Canadá e, quando desembarca nos EUA, já chega como se estivesse vindo de um voo doméstico. Achei isso muito interessante. O mais engraçado é que fui andando totalmente distraído, entrando nas filas e respondendo às perguntas de um funcionário sem prestar muita atenção. Só depois de alguns minutos caiu a ficha: “Pera aí… esse cara é da imigração americana.” A confirmação veio quando ele pediu minhas digitais. Aí pensei: realmente, acho que não estou mais na fila do embarque.

Depois de passar pela imigração, era só esperar o voo. Ou pelo menos era o que eu imaginava. O embarque atrasou… e atrasou… e atrasou de novo. No total, foram mais de duas horas e meia de atraso. A companhia aérea dizia que o problema era o mau tempo em Nova York. O curioso é que um amigo meu, que morava lá, mandava mensagem dizendo que o céu estava completamente limpo. Vai saber.

E o sofrimento não terminou aí. Depois de finalmente embarcarmos, ainda ficamos mais de uma hora sentados dentro do avião, parado na posição. A explicação da companhia era curiosa: ou esperávamos ali dentro ou o voo seria cancelado. Segundo eles, se todos desembarcassem para aguardar no terminal, a tripulação estouraria o limite de horas de trabalho e o voo simplesmente não sairia naquele dia. Confesso que achei aquilo com uma certa cara de migué, mas também não tinha muito o que fazer. No fim, ninguém resolveu testar a teoria abrindo a porta do avião e, duas horas e meia depois do horário previsto, finalmente levantamos voo rumo aos Estados Unidos.

No fim, deu tudo certo. Consegui comprar dois ingressos para assistir à estreia do Brasil contra o Marrocos em Nova Jersey. Depois de toda a maratona de voos, conexões e países visitados, finalmente chegava o momento que tinha motivado toda essa viagem: acompanhar uma Copa do Mundo de perto. Só de entrar no estádio e ver aquela multidão de torcedores de todos os cantos do planeta já fez valer a pena.

No final deu certo

Agora… que jogo ruim, viu? Eu já tinha desembolsado uma pequena fortuna no ingresso, então pelo menos esperava uma partida memorável. Em vez disso, assisti a um Brasil burocrático, criando pouco e sofrendo muito mais do que deveria contra o Marrocos. Em vários momentos parecia que quem vestia a camisa pentacampeã era o adversário. No fim, saí do estádio feliz pela experiência de viver uma Copa do Mundo, mas com a sensação de que, se o Brasil continuasse jogando daquele jeito, a passagem de volta ia chegar bem antes do que a torcida imaginava.

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VIAGEM À JAMAICA| Piratas, Bob Marley e uma boa dose de decepção

Viajando por Kingston, resolvi visitar um dos principais pontos turísticos de toda a Jamaica, Port Royal.

Port Royal teve uma das histórias mais extraordinárias do Caribe. Fundada pelos ingleses após conquistarem a Jamaica dos espanhóis em 1655, a cidade rapidamente se transformou em um dos portos mais ricos e movimentados das Américas. Sua localização estratégica permitia controlar as rotas comerciais do Caribe, mas a fama veio principalmente por outro motivo: ela se tornou o principal refúgio de piratas, corsários e contrabandistas da região. Figuras lendárias, como o capitão Henry Morgan, viveram ou passaram por ali, gastando fortunas em tavernas, cassinos e bordéis. Não por acaso, Port Royal ganhou o apelido de “a cidade mais perversa da Terra”. Em 1692, porém, um forte terremoto seguido por um tsunami fez cerca de dois terços da cidade afundarem no mar em poucos minutos, matando milhares de pessoas. Muitos contemporâneos interpretaram a tragédia como um castigo divino pela fama de corrupção e libertinagem do lugar. Hoje, as ruínas submersas de Port Royal são consideradas um dos sítios arqueológicos subaquáticos mais importantes do mundo e oferecem um raro retrato preservado da vida no auge da era da pirataria.

O plano era simples: visitar Port Royal pela manhã e, de lá, pegar um barco para Lime Cay. Pelo menos esse era o plano.

Pedi o Uber ainda no Airbnb, em Kingston, e o céu já estava completamente nublado. Pensei: “vai chover”. Só não imaginava que seria daquele jeito.

Poucos minutos depois de sair, começou um temporal daqueles. Mas não era uma chuvinha tropical qualquer. Era água suficiente para eu começar a me preocupar se o carro era anfíbio. Quanto mais nos aproximávamos de Port Royal, mais a chuva aumentava. Em alguns momentos pensei seriamente em desistir e pedir para o motorista dar meia-volta.

Mas já estava ali mesmo.

Vamos até o fim.

Por sorte, perto da chegada a Port Royal a chuva diminuiu um pouco e finalmente chegamos.

Confesso que minha expectativa era completamente diferente da realidade.

Quando eu pensava em Port Royal, imaginava um grande complexo turístico dedicado à era da pirataria. Navios antigos, atores vestidos de piratas, museus, canhões, bandeiras tremulando, talvez até um sujeito de perna de pau andando com um papagaio no ombro.

A realidade era que lá tinha…

Nada.

Absolutamente nada.

Na minha cabeça, Port Royal era uma atração turística. Só depois descobri que Port Royal é, na verdade, um bairro inteiro de Kingston.

Como ainda chovia fraco, as ruas estavam praticamente desertas. O motorista perguntou onde eu queria descer. Minha vontade foi de responder “não tenho a mínima ideia”.

Olhei ao redor e vi uma igreja e algumas construções históricas ao fundo.

— Siô, me deixa por ali.

Por pura sorte, era exatamente onde ficava o antigo forte de Port Royal que eu queria visitar.

Comecei a procurar a entrada e não encontrei uma alma viva.

Depois de caminhar um pouco, avistei uma senhora em uma pequena vendinha.

Perguntei o preço do ingresso.

— Vinte dólares.

Mais de cem reais.

Perguntei o motivo daquele valor e ela respondeu com a maior naturalidade do mundo:

— O guia está incluído.

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Depois percebi que isso era praticamente um padrão na Jamaica. Em muitos lugares você não compra apenas o ingresso; compra também um guia obrigatório. O resultado é que tudo acaba ficando muito mais caro.

O único problema é que entender o guia era quase tão difícil quanto pagar a entrada.

O sotaque jamaicano continua sendo um dos maiores desafios linguísticos que já enfrentei.

Apesar disso, a visita valeu a pena.

O forte é muito interessante e mostra claramente como os terremotos mudaram completamente a geografia de Port Royal ao longo dos séculos. Partes que antes ficavam à beira-mar hoje estão em terra firme por causa das alterações provocadas pelos abalos sísmicos. Algumas construções continuam inclinadas até hoje, preservando as marcas deixadas pelos terremotos que destruíram boa parte da antiga cidade dos piratas.

No fim da visita, o guia perguntou se eu tinha alguma dúvida.

Respondi que não.

Ele permaneceu parado ao meu lado, em silêncio.

Acho que estava esperando uma gorjeta.

Rapaz…

Depois de pagar vinte dólares pela entrada, estava mais fácil ele me dar uma gorjeta do que eu dar uma para ele.

Até hoje ele tá ali parado esperando a gorjeta dele…

Nem Bob Marley salvou Kingston

Depois de conhecer um pouco de Kingston, chegou a hora da atração que praticamente todo mundo me recomendava.

— Você vai visitar o Museu do Bob Marley, né?

Era quase uma unanimidade. Sempre que eu perguntava o que fazer na capital jamaicana, a resposta vinha imediatamente: o museu do Bob Marley.

Então fui todo empolgado.

Antes de contar como foi a visita, vale um pouco de contexto.

O museu funciona justamente na antiga casa onde Bob Marley viveu entre 1975 e 1981, período em que gravou alguns dos discos mais importantes de sua carreira e ajudou a transformar o reggae em um fenômeno mundial. Foi ali que ele compôs músicas que marcaram gerações e recebeu artistas, políticos e personalidades do mundo inteiro. A casa também ficou conhecida por um episódio dramático: em 1976, poucos dias antes do concerto Smile Jamaica, Bob Marley sofreu uma tentativa de assassinato. Homens armados invadiram a residência e dispararam vários tiros. Marley foi atingido de raspão no braço e no peito, sua esposa Rita levou um tiro na cabeça e seu empresário também ficou ferido. Mesmo assim, apenas dois dias depois, Bob Marley subiu ao palco e fez o show, dizendo que “as pessoas que estão tentando tornar este mundo pior não tiram um dia de folga; por que eu tiraria?”. Hoje, a casa foi transformada em museu e preserva parte da estrutura original, reunindo objetos pessoais, fotografias, discos, instrumentos e lembranças de um dos artistas mais influentes da história da música.

Cheguei à entrada e veio o primeiro choque: 25 dólares.

Não, não podia bater foto lá dentro. Então essa é uma das poucos fotos que eu pude bater por lá.

Mais uma vez a Jamaica fazendo o que sabe de melhor: esvaziar minha carteira.

Perguntei o motivo do preço.

— O guia está incluído.

Claro que estava.

De novo era a lei não escrita obrigando todo ponto turístico a colocar um guia junto com o ingresso. Você querendo ou não.

Paguei e fiquei esperando para entrar.

Confesso que minha expectativa era alta.

Estamos falando simplesmente do jamaicano, e provavelmente caribenho, mais famoso da história. Um cara que transformou o reggae em um fenômeno mundial, virou símbolo do país e até hoje movimenta milhares de turistas.

Achei que encontraria uma exposição cheia de objetos pessoais, documentos, curiosidades, vídeos raros, bastidores da carreira…

Rapaz…

Que decepção.

A visita começou e rapidamente percebi que o maior desafio não seria o museu.

Seria a guia.

Ela não explicava as coisas.

Ela gritava.

E não era porque o grupo estava longe.

Era o jeito dela.

Parecia que toda frase precisava ser anunciada como se estivesse apresentando o último capítulo de uma novela.

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O problema é que a casa é composta por cômodos relativamente pequenos. Cada grito ecoava pelas paredes e voltava ainda mais alto.

Para completar, vinha aquele sotaque jamaicano que, depois de alguns dias no país, eu já tinha aceitado que jamais conseguiria entender completamente.

Depois de uns quinze minutos eu simplesmente desisti.

Passei a apenas balançar a cabeça de vez em quando, fingindo que estava acompanhando a explicação enquanto admirava as paredes.

O pior é que não existe escapatória.

Depois que o tour começa, você fica preso ao grupo até o final.

E o final demorou.

Duas horas.

Duas horas ouvindo uma guia berrando em um sotaque que meu cérebro já tinha oficialmente desistido de decodificar.

No fim, ainda fiquei com a sensação de que havia muito pouco conteúdo.

Boa parte da visita gira em torno da própria casa, de alguns discos de ouro e platina, fotografias e lembranças da carreira.

Para alguém que esperava conhecer mais sobre a vida, a música e a importância de Bob Marley para a Jamaica e para o mundo, achei a experiência bastante superficial.

Saí de lá pensando que o maior ícone cultural do país merecia um museu muito melhor.

Principalmente por 25 dólares.

E obviamente uma guia que gritasse menos.

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VIAGEM A JAMAICA| MUITO ALÉM DO REGGAE

Depois de toda a loucura de ficar pulando de país em país pelo Caribe e da excelente experiência que foi São Vicente e Granadinas, chegou a hora de visitar um dos destinos que eu mais queria conhecer havia muitos anos: a Jamaica.

Acho que a Jamaica ocupa um lugar especial no imaginário de muita gente. Comigo não era diferente, mas havia um motivo a mais. Eu sou de São Luís, cidade conhecida como a Jamaica Brasileira, graças à forte tradição do reggae. Então visitar a matriz, a Jamaica original, era uma vontade antiga.

Só que, se nos outros países do Caribe eu tinha dado uma sorte absurda com o tempo — praticamente não vi uma nuvem no céu —, na Jamaica aconteceu exatamente o contrário.

Choveu.

E choveu muito.

Desde o dia em que desembarquei em Kingston até a hora de ir embora, parecia que alguém tinha esquecido a torneira do céu aberta. Além do incômodo de passar boa parte da viagem molhado, ainda perdi a oportunidade de conhecer Lime Cay, uma pequena ilha considerada um dos lugares mais bonitos da região.

Fica aí uma foto do paraíso que eu perdi de visitar

Faz parte. Viajar também é isso. Nem sempre o destino colabora, então o jeito é guardar o guarda-chuva, ajustar os planos e descobrir o que a Jamaica ainda tinha para oferecer.

O primeiro choque com a Jamaica

É impressionante como a Jamaica já começa a mostrar sua personalidade antes mesmo de você sair do aeroporto.

A primeira delas é o preço.

Cara, a Jamaica é absurdamente cara.

Qualquer refeição simples, qualquer passeio ou qualquer corrida de táxi parece custar algumas dezenas de dólares. Pelo menos existe Uber, o que evita a necessidade de negociar preço, mas isso não significa que ele seja barato.

Muito pelo contrário.

Assim que desembarquei, pedi um carro para o Airbnb e tomei um susto: 25 dólares por uma corrida de menos de cinco quilômetros. Algo em torno de 130 reais.

Cheguei até a conferir o aplicativo de novo porque achei que tinha digitado o endereço errado.

Não tinha.

Era isso mesmo.

Visitando um dos principais pontos turísticos de Kingston, o sorvete da Devon House. Assim, é bom, mas nada de outro mundo. Me lembrou a sorveteria Coppelia de Havana em Cuba

Entrei no carro e sentei no banco de trás, como faço normalmente. O motorista olhou para mim pelo retrovisor e perguntou se eu poderia sentar no banco da frente.

Na hora imaginei que fosse algum daqueles casos em que o Uber funciona meio na clandestinidade, como aconteceu comigo na Costa Rica, onde os passageiros costumavam ir na frente para não chamar atenção.

Mas não.

Era apenas um costume jamaicano. Segundo ele, sentar ao lado do motorista é visto como um gesto de simpatia e proximidade.

Achei curioso.

Quando cheguei ao Airbnb, a faxineira ainda estava terminando de arrumar a casa e acabamos conversando um pouco.

Ela era inglesa, mas me contou que tinha se mudado para a Jamaica porque não aguentava mais o custo de vida na Inglaterra.

Confesso que aquilo me surpreendeu.

Ela contou que comprou uma casa anos atrás e que o imóvel hoje vale alguns milhões de reais. Resolveu alugá-lo e viver da renda na Jamaica, onde, segundo ela, o dinheiro rendia muito mais. A limpeza do Airbnb era praticamente um hobby para não ficar parada em casa.

Quando descobriu que eu era brasileiro, abriu um sorriso enorme.

Disse que tinha visitado o Brasil e que nunca tinha conhecido um país tão barato na vida.

É engraçado ouvir isso sendo brasileiro.

Passamos a vida reclamando do custo de vida e, de repente, alguém vindo de um país rico olha para o Brasil como um destino barato.

Ela até arriscou algumas palavras em português antes de ir embora.

Aliás, essa simpatia pelo Brasil apareceu durante praticamente toda a viagem.

Sempre que eu perguntava para qual seleção eles torceriam na Copa do Mundo, a resposta era quase automática:

— Brasil.

E isso antes mesmo de eu dizer que era brasileiro.

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O dono do Airbnb foi outro que demonstrou um carinho enorme pelo país. No fim da hospedagem, resolvi deixar para ele uma camisa da Seleção Brasileira que eu tinha levado.

Rapaz…

O homem ficou emocionado.

Só faltou chorar agradecendo e disse que aquele tinha sido um dos melhores presentes que já havia recebido.

Foi um daqueles momentos simples que acabam ficando na memória da viagem.

A única dificuldade era entender o que eles falavam.

Meu Deus do céu…

O sotaque jamaicano talvez seja um dos mais difíceis que já encontrei.

Perambulando por Kingston

A primeira coisa que me surpreendeu em Kingston foi o tamanho da cidade.

A gente costuma imaginar o Caribe como um conjunto de pequenas capitais tranquilas, mas Kingston foge completamente desse padrão. Com mais de um milhão de habitantes na região metropolitana, é disparada uma das maiores cidades do Caribe.

Outra expectativa que caiu por terra foi a do reggae.

Sim, é uma estátua da lenda, Usain Bolt, no Centro Olímpico de Kingston

Eu não esperava encontrar pessoas tocando Bob Marley em cada esquina ou dançando reggae no meio da rua, mas imaginava que o estilo estivesse muito mais presente no dia a dia.

Na prática, quase não vi ninguém de dreadlock, muito menos aquele visual rastafári que muita gente associa automaticamente à Jamaica.

O que eu mais ouvia eram os ritmos caribenhos modernos, aqueles batidões eletrônicos que lembram um pouco o funk brasileiro.

Em um momento até comentei sobre alguns artistas clássicos do reggae, como Erik Donaldson, e várias pessoas simplesmente não sabiam quem era.

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Depois parei para pensar que talvez não fosse tão estranho assim.

Se um estrangeiro chegar hoje ao Brasil perguntando sobre Adoniran Barbosa, provavelmente também vai encontrar muita gente que nunca ouviu falar dele.

Outra coisa que achei curiosa foi a popularidade do Ludo.

Jamaicanos jogando Ludo no meio de um parque de Kingston

No Brasil ele costuma ser visto como um jogo infantil. Na Jamaica, encontrei diversos grupos de adultos jogando em praças e calçadas. Muitos tabuleiros eram personalizados com o mapa do país e os nomes das paróquias jamaicanas, mostrando que o jogo acabou ganhando uma identidade bem própria por lá.

Tabuleiro de Ludo sendo vendido em Kingston

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