Servidor Público nas horas não-vagas, escritor nas vagas e mochileiro nas horas felizes. Formado em Relações Internacionais na Universidade de Brasília, Claudiomar ainda procura algo pra utilizar os seus conhecimentos adquiridos na graduação. Devido a este fato viaja e escreve análises socio-economicas sobre o Brasil e pelos locais que passa. Enquanto não viaja, destila toda a sua pseudo-intelectualidade sobre política nacional
Então havia chegado a hora do último país do meu giro pela África: o Quênia. E, depois de tudo que tinha acontecido nas últimas semanas, confesso que eu já estava começando a sentir aquele misto de cansaço com sensação de missão cumprida. Tinha passado por Angola, Etiópia, Seychelles, Ruanda, Burundi e agora faltava apenas uma última parada antes de voltar para casa: Nairóbi.
E por que o Quênia entrou no roteiro? Na verdade, de uma maneira bastante simples. Quando fui comprar as passagens para a África, descobri que conseguia montar o itinerário chegando por Luanda e voltando para o Brasil por Nairóbi. Na mesma hora pensei: por que não? Em vez de simplesmente usar a cidade como ponto de saída do continente, poderia ficar alguns dias e conhecer mais um país.
E, nesse caso, não era qualquer país. O Quênia é uma das principais economias da África Oriental, Nairóbi é uma das cidades mais importantes do continente e funciona como uma espécie de centro econômico, diplomático e tecnológico da região. É ali, por exemplo, que ficam as sedes africanas de várias organizações internacionais e dois dos principais escritórios da ONU fora de Nova York e Genebra. Então era uma cidade que eu realmente tinha curiosidade de conhecer, até porque representava uma África bastante diferente de alguns dos lugares pelos quais eu tinha acabado de passar.
E, assim, depois de Bujumbura no Burundi, Nairóbi tinha virado praticamente meu porto seguro. A Nova York africana. Eu olhava para a cidade e pensava: “Uber! Internet boa! Todo mundo fala inglês! Fast-food! Cartão de crédito! Civilização!”. Coisas absolutamente banais começaram a parecer artigos de luxo. Depois de passar dois dias preocupado com polícia querendo dinheiro, falta de gasolina, malária, cartão que não funcionava e hipopótamo que aparentemente você precisava driblar, eu não estava exigindo muita coisa da vida.
Se tivesse um Uber me esperando, internet funcionando e algum lugar onde eu pudesse comer um hambúrguer em paz, o Quênia já começaria com cinco estrelas.
Chegando ao Quênia: O maravilhoso dia em que absolutamente nada deu errado
A primeira coisa que me impressionou quando cheguei a Nairóbi foi o frio.
Rapaz… como é frio naquela cidade.
Aquilo não fazia o menor sentido na minha cabeça. Nairóbi fica praticamente em cima da Linha do Equador, quase na mesma latitude de Macapá. Eu tinha acabado de passar por Bujumbura, onde estava torrando de calor. Algumas horas depois, desembarquei no Quênia e estava procurando casaco.
Eu estava na África. Na Linha do Equador. E com frio.
Depois fui descobrir a explicação: Nairóbi fica a quase 1.800 metros de altitude. É mais alta que Brasília e, por causa disso, tem temperaturas muito mais amenas do que aquela imagem de calor africano que automaticamente aparece na nossa cabeça. Dependendo da época do ano e do horário, a temperatura pode cair bastante, principalmente à noite e de madrugada.
Desci no aeroporto, peguei minhas coisas e fiz uma coisa que, depois do Burundi, me proporcionou uma felicidade completamente desproporcional:
Pedi um Uber.
Meu Deus, que saudade do Uber.
Você abre o aplicativo, aparece um carrinho, aparece o preço, aparece o nome do sujeito, você entra e ele te leva para onde você pediu. Olha que tecnologia maravilhosa! Não precisava negociar preço, procurar motorista, perguntar na recepção, descobrir se tinha gasolina ou entrar num carro com dois sujeitos e acompanhar pelo GPS para conferir se o meu suposto sequestro estava seguindo na direção correta.
Segui para o apartamento onde ficaria hospedado e não aconteceu absolutamente nada. Nada. Cheguei, entrei, guardei minhas coisas e pronto.
Maravilhoso.
Depois de tantos acontecimentos inexplicáveis nos dias anteriores, eu estava começando a descobrir o prazer de uma viagem em que as coisas simplesmente acontecem como deveriam acontecer.
Meu primeiro dia em Nairóbi, inclusive, foi praticamente dedicado a não fazer turismo. Eu já estava viajando havia bastante tempo e começava a acumular aquela quantidade de pequenas pendências que a gente vai empurrando quando está na estrada. Conta para pagar, e-mail para responder, mensagem acumulada, coisa do trabalho para olhar, roupa para organizar, fotos e vídeos espalhados pelo celular e aquela mochila que, depois de semanas de viagem, já tinha deixado de obedecer a qualquer sistema minimamente racional de organização.
Então fui apenas ao supermercado comprar algumas coisas para comer e voltei para o apartamento. Nada de museu, safári, girafa ou atração turística. Passei o restante do dia colocando minha vida brasileira minimamente em ordem.
Pode parecer desperdício passar um dia inteiro em Nairóbi pagando boleto e respondendo e-mail, mas chega uma hora em uma viagem longa em que você precisa parar. Não adianta atravessar metade da África se, quando voltar para casa, descobrir que cortaram sua internet porque você esqueceu de pagar a conta.
Turismo também tem dessas coisas.
Visitando o museu nacional do Quênia e fóssil importantíssimo que parece nome de impressora
No outro dia resolvi visitar um dos lugares que eu estava mais aguardando conhecer em Nairóbi: o Museu Nacional do Quênia. E o lugar é interessante justamente porque funciona quase como uma grande introdução ao país. Tem exposições sobre a história do Quênia, desde o período colonial até a independência, sobre os diferentes povos e culturas que formam o país e uma enorme coleção (sim, ENORME) dedicada à fauna queniana, com aves, mamíferos e outros animais que ajudam a entender a biodiversidade absurda dessa parte da África. É o tipo de museu que eu esperava encontrar na Etiópia. Mas existe uma seção que, para mim, era disparada a mais interessante: a dedicada às origens da humanidade.
Sim, porque o Quênia, junto com a Etiópia e a Tanzânia, é um dos lugares mais importantes do planeta para achados arqueológicos referentes a evolução humana. Foi nessa região da África Oriental que apareceram alguns dos fósseis mais importantes já encontrados dos nossos ancestrais e parentes distantes. A região do Lago Turkana, no norte do Quênia, por exemplo, virou praticamente uma mina de ouro da paleoantropologia, com descobertas de diferentes espécies de hominídeos que viveram ali ao longo de milhões de anos.
E o Quênia também tem, digamos assim, a sua própria Lucy.
É o Turkana Boy, um Homo erectus encontrado em 1984 perto do Lago Turkana e que viveu aproximadamente 1,6 milhão de anos atrás. Apesar do nome “Boy”, não era uma criancinha: as análises dos dentes indicam que ele provavelmente tinha uns oito ou nove anos quando morreu e já media cerca de 1,60 metro. O mais impressionante, porém, é o estado do esqueleto. Estamos falando de um dos esqueletos de humanos antigos mais completos já encontrados. Graças a ele, os cientistas conseguiram entender muito melhor como era o corpo do Homo erectus: pernas relativamente longas, braços proporcionalmente mais curtos e uma anatomia já muito mais parecida com a nossa do que com a dos hominídeos mais antigos. O Homo erectus também é especialmente importante na nossa história evolutiva porque foi a primeira espécie humana conhecida a se espalhar amplamente para fora da África.
Ou seja: o rapaz é importante para diabo!
Só que praticamente ninguém conhece o coitado.
Pergunte para uma pessoa minimamente interessada em evolução humana quem é Lucy e existe uma boa chance de ela saber. Lucy é aquela famosa Australopithecus afarensis encontrada na Etiópia, com cerca de 3,2 milhões de anos, cujo esqueleto ajudou enormemente os cientistas a entender como nossos ancestrais caminhavam sobre duas pernas. Quando estive em Adis Abeba, fui ao Museu Nacional da Etiópia justamente para conhecê-la.
Agora pergunte:
— Você conhece o KNM-WT 15000?
Parece nome de impressora.
E é exatamente assim que o pobre Turkana Boy aparece nos registros científicos: KNM-WT 15000. A sigla vem da catalogação do fóssil: KNM é Kenya National Museums, WT se refere a West Turkana e 15000 é o número atribuído ao espécime. Cientificamente, perfeito. Para criar uma celebridade internacional da paleoantropologia, peśsimo.
E aqui eu tenho uma teoria absolutamente sem qualquer rigor científico: Lucy ganhou a disputa no marketing.
Começa pelo nome. Quando o esqueleto de Lucy foi encontrado na Etiópia, em 1974, os pesquisadores estavam comemorando a descoberta enquanto tocava “Lucy in the Sky with Diamonds”, dos Beatles. Pronto. O fóssil ganhou o apelido de Lucy. Curto, simpático, fácil de lembrar e ainda associado a uma das bandas mais famosas da história.
O Quênia tinha tudo para responder à altura. Tinha um dos esqueletos mais completos de um Homo erectus já encontrado, um sujeito que viveu 1,6 milhão de anos atrás e que ajudou enormemente a entender uma das espécies mais importantes da evolução humana.
E chamou o cidadão de KNM-WT 15000. Parece nome de cyborg.
Aí não dá, Quênia.
É verdade que ele também ganhou o apelido muito mais simpático de Turkana Boy. Mas o estrago já estava feito. Lucy é Lucy. Você vai ao Museu Nacional da Etiópia e fala: “Quero ver a Lucy.” Todo mundo sabe imediatamente de quem você está falando. No Quênia, eu estava indo conhecer um sujeito que, dependendo da placa que aparecesse na minha frente, poderia ser Turkana Boy, Homo erectus ou KNM-WT 15000.
Mas, como atração de museu?
Desculpa, KNM-WT 15000.
Lucy meteu uma goleada no marketing.
Quando finalmente cheguei perto do Turkana Boy, já fui com as expectativas devidamente controladas porque sabia que aqueles não eram os ossos originais do KNM-WT 15000. O que fica exposto ao público é uma réplica extremamente fiel. O esqueleto verdadeiro fica guardado em uma sala-forte do Museu Nacional do Quênia e o acesso é extremamente restrito.
E faz todo sentido. Estamos falando de um esqueleto com cerca de 1,6 milhão de anos e de um dos achados mais importantes da história da paleoantropologia. Não dá para deixar um negócio desses montado no meio do museu esperando algum doidinho tropeçar, cair em cima do Homo erectus e destruir em três segundos o que a natureza levou mais de um milhão de anos para preservar. É basicamente a mesma coisa que acontece com Lucy na Etiópia: o turista vê uma reprodução enquanto os fósseis originais ficam protegidos e disponíveis principalmente para conservação e pesquisa.
Ainda assim, achei muito legal finalmente ficar diante do sujeito. Mesmo sabendo que era uma réplica, era possível ter uma dimensão muito melhor do esqueleto e entender por que o Turkana Boy é tão importante. Depois de passar um tempão falando de Lucy quando estive na Etiópia, eu finalmente tinha conhecido o representante queniano na disputa pelo hominídeo mais importante da minha viagem pela África.
Terminei a visita ao museu e resolvi seguir para o centro de Nairóbi para fotografar alguns dos prédios mais importantes da cidade. A ideia era justamente aproveitar que estava em uma das maiores metrópoles da África Oriental para registrar aquele lado mais urbano e moderno do Quênia.
Só que comecei a encontrar placa dizendo que não podia fotografar aqui, aviso de que não podia fotografar ali e por aí vai. Cara, minha cota de discussão com autoridade africana por causa de fotografia já tinha sido completamente utilizada naquela viagem.
Prédio bonito? Parabéns para o prédio. Ficaria sem a minha fotografia. Depois do Burundi, eu tinha desenvolvido uma espécie de estresse pós-traumático fotográfico.
Desencanei completamente.
Já tinha arrumado confusão internacional suficiente por uma viagem.
Como eu estava sem lenço nem documento — e, principalmente, sem dinheiro para ficar inventando passeio caro —, resolvi sair sozinho para dar uma volta por Bujumbura. A pé, óbvio. Antes mesmo de deixar o hotel, perguntei ao recepcionista se era perigoso andar pela cidade, se tinha muito roubo, assalto ou coisa do tipo.
A resposta dele foi maravilhosa:
— O único perigo aqui é a polícia.
Segundo ele, havia muito policial pelas ruas e eu deveria tomar cuidado principalmente ao tirar fotos. Se algum deles visse um gringo fotografando, poderia aparecer dizendo que eu tinha fotografado alguma coisa proibida e tentar arrancar algum dinheiro. Mas ele me tranquilizou: se acontecesse, bastava dar uma pequena quantia e o problema estaria resolvido.
Dez reais, mano.
O esquema de corrupção aparentemente tinha sido adaptado ao poder aquisitivo do país.
Porquinho-da-índia, crocodilo e o pior Discovery Channel do mundo
Minha primeira parada foi em um zoológico que ficava praticamente ao lado do hotel. “Zoológico”, aliás, é uma maneira bastante generosa de descrever aquilo. Estava mais para um depósito de animais. Logo que cheguei, encontrei um francês passando a mão em um leopardo como quem acaricia um gatinho. O guia perguntou se eu também queria entrar e fazer carinho no bicho. Custaria incríveis cinco reais.
Não quis. E não foi pelos cinco reais. Achei simplesmente errado ficar tratando um animal silvestre daquele jeito para turista tirar foto.
Pouco depois, o guia apareceu com um porquinho-da-índia.
Olha que bonitinho, vocês criam aqui – perguntei
Não, é para alimentar o leopardo. Ele gosta de sangue fresco
E VRAU. Jogou o pobre do porquinho dentro da jaula.
O bichinho bateu no chão, olhou para um lado, olhou para o outro e imediatamente percebeu que aquele definitivamente não era o melhor dia da vida dele. Tentou sair correndo desesperado, naquele passinho frenético de porquinho-da-índia, como se ainda existisse alguma possibilidade de elaborar um plano de fuga. Acho que não conseguiu andar nem dez centímetros.
VRAU de novo.
Já estava na boca do leopardo.
Lembre, o francês tava passando a mão no gatinho tinha nem 10 minutos atrás.
Segundo o guia, eles compravam vários porquinhos na feira justamente para alimentar o leopardo.
O que mais me chamou a atenção foi o que aconteceu depois: antes de comer, o leopardo começou a retirar os pelos do porquinho com uma habilidade impressionante. Fazia aquilo com uma precisão absurda, arrancando os pelos sem praticamente danificar a pele. Por alguns segundos, esqueci até da bizarrice da situação e fiquei só olhando para aquilo pensando: “Rapaz… como esse bicho consegue fazer isso?”. Só depois que ele “limpa” o porquinho que ele come.
Depois fomos conhecer os crocodilos. E foi aí que eu percebi que o guia tinha uma relação bastante particular com o conceito de segurança no trabalho.
Ele simplesmente abriu o recinto de um deles, entrou, caminhou tranquilamente até o crocodilo, chegou por trás e começou a puxar o rabo do bicho.
Sim.
Puxar.
O rabo.
De um crocodilo.
Eu fiquei olhando para aquilo tentando entender se estava diante de um profundo conhecedor do comportamento dos crocodilos ou apenas de um sujeito que tinha sobrevivido tempo suficiente fazendo merda para começar a acreditar que era imortal.
— Viu? Ele não faz nada. Só ataca quando está dentro d’água.
Não fazia a menor ideia de onde ele tinha tirado aquela teoria. Talvez de um livro. Talvez de décadas trabalhando com crocodilos. Talvez das vozes da cabeça dele. De qualquer maneira, eu certamente não pretendia entrar naquela jaula para colaborar com o método científico.
Só que o homem estava disposto a defender sua tese.
Para não sair de mentiroso, levou a gente até outro recinto onde, dessa vez, havia um crocodilo dentro d’água. Eu pensei: “Pronto. Agora ele vai mostrar de longe como o comportamento muda.”
Claro que não.
Pegou um pedaço de pau, chegou perto da água e começou a cutucar o crocodilo.
— Agora vocês vão ver como ele reage dentro d´água, como é diferente.
Meu irmão, eu não queria ver como ele reagia. Eu estava perfeitamente satisfeito em passar o resto da minha vida sem descobrir como um crocodilo reage quando um sujeito fica enchendo o saco dele com um pedaço de pau. Mas o guia parecia empenhado em transformar aquela visita ao zoológico em um episódio do Discovery Channel produzido com um orçamento de oito reais e sem qualquer preocupação com a sobrevivência do apresentador.
VRAU!! VRAU!!! VRAU!!!
Começou dar na cabeça do crocodilo e crocodilo doido querendo arrancar o braço do guia. Viva o Burundi.
A visita continuou até chegarmos ao recinto de um antílope. O pobre do animal estava quieto atrás de uns arbustos quando o guia perguntou:
— Quer ver como o antílope corre?
Antes que alguém pudesse responder…
VRAU!!! VRAU!! VRAU!!!
Deu três cipoadas no pobre do antípole que, ÓBVIO, saiu correndo desesperado.
Uma descoberta científica absolutamente revolucionária. Não podemos reclamar do método científico do sujeito.
Ainda vimos alguns chimpanzés e cobras, que o guia, mantendo o padrão de segurança estabelecido durante toda a visita, simplesmente ia tirando e colocando no pescoço das crianças. A essa altura eu já nem me surpreendia mais. Depois de ver porquinho-da-índia virando almoço, sujeito puxando rabo de crocodilo e antílope tomando carreira de pedaço de pau, uma cobra no pescoço de uma criança parecia quase uma atividade recreativa perfeitamente normal.
Enfim, depois daquela forma, digamos, heterodoxa de lidar com os animais, achei que já tinha visto o suficiente do zoológico de Bujumbura. Estava na hora de voltar para um ambiente teoricamente mais previsível e seguro.
A rua.
Fui dar uma volta pela cidade.
A gravíssima crise diplomática da rua que eu fotografei – conhecendo os homens da lei
Ainda consegui entrar na catedral da cidade. O prédio me chamou a atenção porque tinha aquele teto MUITO alto típico de catedral, mas, fora isso, o interior era de uma simplicidade impressionante. Não lembro de ver grandes pinturas religiosas, altares ornamentados, imagens espalhadas ou praticamente qualquer decoração. Era tudo muito simples. Não sei se aquilo tinha alguma explicação específica ligada à própria igreja, mas, naquele momento, foi impossível não relacionar aquela austeridade com a pobreza que eu estava começando a enxergar no país.
Saí da catedral, voltei para a rua e imediatamente lembrei do aviso do recepcionista:
“Cuidado com as fotos.”
Já tinham me dado exatamente o mesmo aviso quando estive no Saara Ocidental. Lá, no começo, eu andava meio escondendo a câmera, olhando para os lados antes de fotografar, como se estivesse registrando instalações nucleares secretas. Depois percebi que ninguém estava nem aí e terminei andando normalmente, tirando foto de tudo, sem policial nenhum aparecer para encher meu saco.
Imaginei que no Burundi seria a mesma coisa.
Primeira foto.
Tudo tranquilo.
Segunda foto.
MANO.
Do nada apareceu um sujeito com um fuzil enorme perguntando o que eu estava fazendo.
SEGUNDA FOTO!
Nem deu tempo de eu desenvolver confiança.
Expliquei que era turista, que estava simplesmente fotografando a rua e que não tinha nada demais ali. Para mim, pelo menos, era, literalmente, uma rua. Só que ele começou a dizer que eu não podia tirar fotos naquele lugar. O problema é que o sujeito não falava absolutamente nada de inglês, eu não falava francês e nossa conversa rapidamente atingiu aquele nível internacional de comunicação baseado em apontar para coisas e repetir as mesmas palavras cada vez mais alto.
Então ele começou a me conduzir para o outro lado da rua.
Mas não. Ele só estava me levando até outro policial que falava inglês. O problema é que, nesse processo, apareceu mais um e, quando percebi, já havia três policiais em cima de mim discutindo a gravíssima questão diplomática das duas fotografias que eu tinha acabado de tirar.
E existe uma coisa que aprendi viajando: quando aparece polícia querendo complicar alguma coisa, é melhor tentar resolver enquanto ainda tem pouca gente envolvida. Porque, a cada novo sujeito que chega para “ajudar”, aumenta o número de opiniões, de autoridades e o orçamento necessário para encerrar a reunião.
O policial que falava inglês começou a perguntar quem tinha me dado permissão para tirar fotos, que aquilo não podia, que eu estava fotografando um lugar proibido e blá-blá-blá. O problema é que o inglês dele também era bastante limitado, então ninguém conseguia explicar direito o que exatamente eu tinha fotografado de tão sensível. Para mim continuava sendo uma rua.
O pior é que, em algum momento, meu celular desbloqueado foi parar na mão dele. E o sujeito começou a mexer nas minhas coisas. Passava foto, abria coisa, fuçava daqui, fuçava dali. Aquilo começou a me irritar de verdade. Falei que não tinha feito nada de errado, peguei meu celular, virei as costas e comecei a ir embora.
Mano…
O sujeito me agarrou pelo braço.
Aí apontou para o carro da polícia e fez menção de que iria me colocar lá dentro.
Pronto. Acabou minha disposição para discutir princípios jurídicos no Burundi.
Lembrei imediatamente do conselho do recepcionista, tirei o equivalente a uns 30 reais e distribuí democraticamente: dez para cada um. Problema resolvido. Instantaneamente. Ninguém mais queria saber quem tinha autorizado fotografia, o que eu tinha fotografado ou qual segredo de Estado burundinês aparecia naquela rua. Peguei minhas coisas e fui embora.
E sabe o que mais me irritou nessa história? Se o sujeito tivesse chegado logo no começo e falado “me dá dez reais”, eu provavelmente teria dado dez reais e economizado meia hora da minha vida. Mas não. Precisou montar toda uma operação policial, juntar três homens, examinar meu celular, ameaçar me colocar no carro e realizar uma pequena reunião de cúpula para conseguir dez reais de cada.
Depois disso, sinceramente, eu desencanei do Burundi.
Já tinha acontecido chatice demais em pouco tempo. Problema com cartão, preocupação com dinheiro, malária, zoológico maluco e agora polícia me arrancando dinheiro por causa de duas fotos. Resolvi voltar para o hotel e basicamente esperar a hora de ir embora. Tanto que quase não fotografei e praticamente não gravei vídeos na cidade.
E o pior é que, no caminho de volta, cruzei com vários policiais. E, todos, absolutamente todos, me olhavam com a cara de:
“Vai. Pisa com o pé esquerdo no chão. Só pisa. Quero ver.”
Sério. Enchi o saco muito rápido daquilo.
Quando eu achei que já tinha visto de tudo no Burundi…
Não foi uma experiência muito agradável andar pelas ruas de Bujumbura de maneira geral. Senti uma diferença em relação a muitos outros lugares da África por onde passei. Normalmente, quando percebem que você é estrangeiro, as pessoas ficam curiosas, perguntam de onde você veio e puxam conversa. Quando você responde “Brasil”, aí pronto: aparece futebol, seleção brasileira, jogador, alguma história e mais vinte perguntas.
No Burundi eu não senti muito isso. E não foi só por causa da polícia. Tive algumas interações com pessoas que achei bastante secas, rudes ou simplesmente pouco receptivas. Entre os países africanos que visitei foi aquele em que eu me senti menos acolhido.
Talvez eu tenha dado azar. Talvez já estivesse de saco cheio e isso tenha contaminado minha percepção. Provavelmente teve um pouco dos dois.
Mas minha passagem pelo Burundi, definitivamente, não estava deixando saudade.
No outro dia resolvi ficar só pelos arredores do hotel. Não estava nem um pouco a fim de encontrar outro policial e passar novamente por meia hora de estresse por causa de dez reais. Fui então dar uma volta às margens do Lago Tanganica, que é uma das coisas mais importantes do Burundi. O país não tem saída para o mar, então o lago funciona quase como seu grande corredor para o exterior, conectando o Burundi a Tanzânia, Zâmbia e República Democrática do Congo. Além disso, é um negócio colossal: o Tanganica é um dos maiores e mais profundos lagos do mundo e concentra uma biodiversidade enorme.
A região do lago perto do hotel estava meio deserta. Resolvi tirar algumas fotos, fazer umas imagens e sair logo dali. Além da paranoia com a polícia, agora eu também estava com a malária instalada na cabeça. Levantei meu pau de selfie de três metros para conseguir uma imagem mais aberta e…
DO NADA.
Saiu um sujeito do meio do mato
SÓ DE CUECA.
Mano.
Pior que nosso amigo só de cueca saiu na foto
Eu não fazia ideia de onde aquele homem tinha vindo. Não sabia se estava tomando banho no lago, dormindo no mato, morava ali ou tinha simplesmente sido materializado pelo Burundi para acrescentar mais um acontecimento inexplicável à minha viagem.
Tava feita a sensação de que, no Burundi, tudo pode acontecer.
O cara parecia meio alterado e ficou me encarando. Eu fiquei encarando ele.
Ninguém falava nada.
Ele provavelmente estava pensando: “Quem é esse maluco com uma vara de três metros?”
E eu: “Quem é esse maluco de cueca que acabou de sair do mato olhando para minha vara de três metros?”
Ficamos naquele impasse por um tempo. Pelo menos havia uma vantagem estratégica bastante evidente: como o sujeito estava só de cueca, dava para perceber que não estava armado. Se a diplomacia da encarada fracassasse completamente e a situação terminasse na porrada, eu pelo menos não estava em desvantagem.
No fim, não aconteceu absolutamente nada. Cada um seguiu para um lado, ambos provavelmente convencidos de que tinham acabado de encontrar o sujeito mais estranho daquela margem do Lago Tanganica.
Aí já deu, mano.
Uma hora era polícia tentando me arrancar dinheiro. Outra hora era um maluco de cueca surgindo do mato. Eu oficialmente desisti de procurar coisas para fazer no Burundi. Já estava tendo emoção suficiente sem procurar nenhuma.
No Burundi, sobreviver também exigia preparo físico
Voltei para o hotel e o recepcionista perguntou onde eu tinha ido.
— Fui dar uma volta no lago.
Ele respondeu com a maior tranquilidade:
— Ah, legal. Você viu os hipopótamos?
…
— COMO ASSIM TEM HIPOPÓTAMO NO LAGO E VOCÊ NÃO ME FALA NADA?!
Para quem não sabe, hipopótamo não é aquele porquinho gigante simpático que fica boiando nos documentários. É um animal extremamente territorial e perigoso, especialmente quando alguém fica entre ele e a água. E eu tinha acabado de passar um tempão caminhando sozinho na margem do lago, no meio do mato, preocupado com mosquito e homem de cueca.
O recepcionista tentou me tranquilizar:
— Ah, cara, não precisa ter medo. Se um correr atrás de você, é só pular para o lado. Ele é tão grande que não consegue virar rápido para te pegar.
Mano…
No dia anterior o conselho tinha sido basicamente: “Malária? Relaxa.”
Agora era: “Hipopótamo? É só dar uma de Ronaldinho Bruxo e meter um drible”
O plano oficial de segurança do hotel aparentemente consistia em repelente, mosquiteiro e, em caso de ataque de hipopótamo, incorporar a Daiane dos Santos e torcer para dar certo.
Eu só queria sobreviver até meu voo.
Só dei risada, voltei para o quarto, tomei banho e comecei a me preparar para ir embora. Naquela altura, meu objetivo no Burundi já não era conhecer mais nada. Era chegar ao aeroporto vivo, entrar no avião e sair do país sem nenhum novo acontecimento digno de entrar neste relato.
O último perrengue antes de conseguir fugir do Burundi
Cheguei ao aeroporto e encontrei aquele caos. A cada controle, o oficial pegava meu passaporte e começava uma verdadeira auditoria. Folheava página por página, voltava, olhava para mim, olhava para a foto, folheava novamente, examinava um carimbo, depois outro. Eu ficava ali esperando enquanto o cara parecia procurar desesperadamente uma vírgula errada que justificasse mais meia hora de conversa comigo e dez reais a menos.
Mas não tinha.
Passava por um oficial e começava tudo de novo no seguinte. Passaporte. Folheada. Cara do passaporte. Minha cara. Carimbo. Outra folheada. Minha cara novamente.
Depois de vencer todas as fases daquele videogame burocrático, finalmente consegui chegar à área de embarque.
E o aeroporto era bem precário. Tinha buraco no teto, estrutura bastante simples e, para completar, não tinha ar-condicionado naquela área. Era um calor dos infernos. Eu já estava cansado, estressado, de saco cheio e ainda teria que ficar horas sentado naquele forno esperando o voo.
Aí fiz uma coisa que nunca tinha feito na vida: peguei os poucos dólares que ainda me restavam e PAGUEI para entrar numa sala VIP.
Não foi pela comida.
Não foi pela bebida.
Não foi pelo conforto.
Foi pelo ar-condicionado.
Normalmente tenho acesso a salas VIP pelo cartão e jamais me passaria pela cabeça gastar meus últimos dólares para entrar em uma. Mas naquele momento eu olhei para aquele aeroporto, olhei para o calor, pensei em tudo que tinha acontecido nos últimos dois dias e concluí:
“Chega. Eu mereço um ar-condicionado.”
Era estresse demais para uma viagem só.
Tudo o que é ruim de viver é bom de contar
Depois de todos esses perrengues — cartão que não funcionava, medo de malária, polícia tentando arrancar dinheiro, hipopótamo que eu só descobri que existia depois de caminhar tranquilamente na beira do lago — você deve estar imaginando que eu detestei a viagem ao Burundi.
Cara, pelo contrário.
Primeiro porque vale aquela máxima atribuída ao Ariano Suassuna: tudo que é bom de viver é ruim de contar, e tudo que é ruim de viver é bom de contar. E, nesse quesito, o Burundi foi extremamente generoso comigo. Em dois dias aconteceu coisa suficiente para escrever este texto inteiro.
Mas, acima de tudo, visitar o Burundi acabou sendo importante para mim por outro motivo: fez eu dar mais valor à vida que tenho. Anos atrás, quando fui estudar espanhol na República Dominicana, havia um casal de suecos estudando com a gente. Um dia, a sueca me falou que tava gostando de morar por um tempo na República Dominicana porque os pequenos perrengues que enfrentava ali faziam com que ela valorizasse mais a vida que tinha na Suécia.
Na época pensei: “República Dominicana, bicho?”
Às vezes a República Dominicana fica mais rica que o Brasil.
Para mim, brasileiro, aquilo era só realidade. Mas depois do Burundi eu finalmente entendi o que ela queria dizer.
A experiência de visitar um dos países mais pobres do mundo me serviu principalmente para três coisas.
A primeira foi perceber que até a pobreza extrema pode ser diferente da imagem que construímos na cabeça. Eu esperava chegar ao “país mais pobre do mundo” e encontrar algum cenário quase pós-apocalíptico. Não encontrei. Em Bujumbura havia internet móvel, eletricidade, ruas asfaltadas, carros, bancos, hotéis, restaurantes, supermercados e gente levando uma vida absolutamente normal dentro das condições que tinha. Tirando a questão da polícia e algumas particularidades, em vários momentos eu poderia perfeitamente imaginar que estava andando por alguma cidade do interior do Maranhão.
Claro que existe uma diferença importante: eu estava justamente em Bujumbura, a principal cidade e centro econômico do país. E estava comparando com cidades de um dos estados mais pobres do Brasil. Ainda assim, achei interessante perceber que a realidade era muito menos cinematográfica do que a expressão “país mais pobre do mundo” fazia minha cabeça imaginar. Pobreza extrema não significa necessariamente caos absoluto.
A segunda coisa foi finalmente entender aquela sueca da República Dominicana.
O Burundi me fez valorizar muito mais a vida que tenho no Brasil. A gente reclama — e muitas vezes com razão — de segurança, infraestrutura, serviços públicos, salário, preço das coisas e mais uma infinidade de problemas. Mas viajar por lugares muito mais pobres ajuda a colocar algumas dessas reclamações em perspectiva. O Brasil tem problemas enormes, mas também oferece uma estrutura e uma qualidade de vida que muitas vezes a gente só percebe quando sai dele.
Eu já tinha sentido algo parecido quando visitei o Haiti, mas no Burundi essa sensação foi ainda mais forte. Tanto que comprei um chaveiro do país. A ideia é simples: toda vez que eu estiver reclamando demais de alguma coisa, posso olhar para ele e lembrar:
“Calma. Poderia ser pior. Você poderia estar novamente discutindo com três policiais no Burundi por causa de uma foto. Ou dormindo em um mosquiteiro. Ou tentando dar um duplo twist carpado para fugir de um hipopótamo”
E, por último, cara…
Eu visitei um dos países mais pobres do mundo.
E consegui fazer minha viagem.
Fiquei em hotel, consegui me comunicar mesmo sem falar francês ou kirundi, usei cartão de crédito, caminhei pela cidade, visitei lugares, resolvi problemas e, apesar de todos os perrengues, saí de lá inteiro e com história para contar.
De certa forma, o Burundi virou minha prova de fogo. Depois dele, comecei a pensar que dificilmente encontraria uma viagem muito mais complicada.
Claro que essa é exatamente a frase que você não deveria dizer quando ainda pretende continuar viajando pelo mundo.
Mas, naquele momento, eu saí do Burundi pensando:
“Pronto. Se eu consegui viajar aqui, agora eu consigo viajar para qualquer lugar.”
São Vicente e Granadinas entrou no meu roteiro com uma promessa forte: conhecer Bequia e fazer um passeio até Tobago Cays, um daqueles lugares que aparecem em listas de “paraísos do Caribe”, com água azul-turquesa, pequenas ilhas, recifes e até cenário de Piratas do Caribe.
Na prática, a viagem começou me ensinando novamente uma regra importante da região: o Caribe é bonito, mas não tem qualquer compaixão pelo seu bolso.
Assim que desembarquei, descobri que uma corrida de táxi de cerca de vinte minutos até o terminal do ferry custaria 40 dólares. Como era domingo e eu precisava pegar o barco para Bequia, não havia muita margem para negociação. Paguei, cheguei ao porto e descobri que ainda teria horas pela frente até o próximo ferry.
E foi justamente nessa espera que apareceu um dos personagens mais improváveis que já encontrei viajando.
Primeiro ele me surpreendeu dizendo que conhecia Belém, o Mercado Ver-o-Peso e, quando descobriu que eu era maranhense, citou simplesmente Alcione. Nesse momento ganhou toda a minha atenção.
Até explicar que precisava da ajuda do governo brasileiro para resolver um problema com Madonna.
A partir daí começou um enorme dossiê envolvendo Madonna, Lenny Kravitz, Shakira, políticos argentinos, programas de televisão, passaportes antigos, carimbos e recortes de jornal. Segundo ele, existia uma conspiração internacional para sabotar sua vida.
Informei solenemente que colocaria o governo brasileiro à disposição da investigação e ele foi embora satisfeito, convencido de que finalmente tinha conquistado o apoio da maior potência da América do Sul.
Só depois dessa reunião diplomática consegui seguir para Bequia.
O grande objetivo era Tobago Cays. Consegui a última vaga num passeio de catamarã e paguei 130 dólares — sem almoço. Como a refeição mais barata por lá custava cerca de 30 dólares, fiz minha própria marmita no Airbnb e fui preparado para enfrentar o paraíso sem falir completamente.
O problema é que ninguém avisou meu organismo.
Assim que o barco deixou Bequia, comecei a sentir um enjoo absurdo. O mar estava agitado, o vento contra e as três horas previstas de navegação viraram quatro. Foram quatro horas tentando sobreviver enquanto o marinheiro explicava, com toda a delicadeza caribenha, que eu deveria ter tomado remédio antes.
Quando finalmente chegamos a Tobago Cays, fui direto para a água fazer snorkeling.
E aí veio outra surpresa.
Foi bom. Vi quatro tubarões num único mergulho, algo que nunca tinha acontecido comigo. Mas, fora isso, eu esperava muito mais. Depois de quatro horas de barco, 130 dólares e uma travessia que desmontou completamente meu organismo, Tobago Cays ficou longe de experiências que tive em lugares como Fernando de Noronha e Galápagos.
O mais irônico é que, nos dias seguintes, fiz snorkeling ali mesmo em Bequia e gostei mais.
Foi quando estabeleci uma nova regra pessoal de viagem: nunca mais passar oito horas num barco para ficar duas horas no destino.
Depois de quatro dias em Bequia, voltei para a ilha principal e passei duas noites em Kingstown. Eu tinha preparado um roteiro pela capital, mas já estava cansado demais para grandes explorações. Caminhei um pouco pela cidade, encontrei muitas ladeiras e poucas atrações que realmente me animassem.
Na hora de ir embora, tentaram novamente cobrar 40 dólares pelo táxi até o aeroporto.
Dessa vez eu já tinha aprendido.
Peguei uma van local por 2,50 dólares.
Claro que o desconto vinha acompanhado de alguns pequenos detalhes: van lotada, sem ar-condicionado, motorista acreditando estar disputando o Mundial de Rally e música no volume máximo durante todo o trajeto.
Mas economizei quase duzentos reais.
E valeu cada centavo.
No fim, São Vicente e Granadinas me entregou exatamente aquilo que eu mais gosto de encontrar numa viagem: histórias que eu jamais teria conseguido planejar.
Teve ilha paradisíaca, snorkeling, tubarões, táxi caríssimo, marmita improvisada, enjoo em alto-mar, motorista psicopata e um homem convencido de que Madonna fazia parte de uma conspiração internacional contra ele.
Talvez Tobago Cays não tenha sido o paraíso que eu imaginava.
Mas a viagem, como história, foi muito melhor.
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Se Ruanda era um país que eu já tinha vontade de conhecer havia muitos anos, o Burundi estava no extremo oposto. Cara, o Burundi era um daqueles países que eu mal sabia que existia. Eu só sabia que fazia fronteira com Ruanda. Resolvi ir basicamente porque já estaria ali do lado, em Ruanda. Descobri que havia voos relativamente baratos entre Kigali e Bujumbura e pensei: por que não? Quando é que eu estaria novamente naquela região da África com o Burundi a menos de uma hora de avião?
Foi aí que comecei a pesquisar sobre o país e um dado imediatamente chamou minha atenção: o Burundi é o país mais pobre do mundo. E não estou falando do país mais pobre da África ou do Hemisfério Sul. Estou falando do planeta inteiro. Um país pequeno, extremamente populoso para o tamanho do território, sem saída para o mar, com pouca industrialização e onde grande parte da população ainda depende da agricultura de subsistência.
A viagem ainda tinha uma questão interessante. Poucos dias antes eu estava em Seychelles, o país mais rico da África, e agora estava indo para o extremo oposto. Em questão de dias eu sairia de um pequeno país africano insular, relativamente rico, organizado e cheio de resorts de luxo para, bem, pro Burundi. Para quem gosta de observar como sociedades diferentes funcionam, dificilmente eu conseguiria um contraste maior dentro de uma mesma viagem.
E esse dado sobre o Burundi me deixou realmente intrigado porque o país não estava vivendo uma guerra aberta quando eu fui para lá. Você olha para o mundo e encontra países destruídos por conflitos, bombardeios e crises humanitárias gravíssimas e, ainda assim, o Burundi continua aparecendo no fundo. Isso despertou minha curiosidade. Como seria, na prática, visitar o país mais pobre do planeta? Bem… era exatamente isso que eu estava indo descobrir.
Golpes, massacres e crises: a história que afundou o Burundi
A história do Burundi é bastante parecida com a de Ruanda, inclusive na complicada relação entre hutus e tutsis. Antes da chegada dos europeus, a região já possuía um reino organizado, governado por um mwami, uma espécie de rei, e as divisões sociais entre hutus e tutsis já existiam, embora fossem menos rígidas do que se tornariam posteriormente. No final do século XIX, o Burundi passou para o controle da Alemanha e foi incorporado à África Oriental Alemã. Depois da derrota alemã na Primeira Guerra Mundial, o território passou para a administração da Bélgica, junto com Ruanda. Os belgas reforçaram as divisões entre hutus e tutsis e privilegiaram durante boa parte do período colonial a minoria tutsi na administração. O Burundi conquistou sua independência em 1962 mantendo inicialmente a monarquia, mas o rei seria derrubado poucos anos depois e, em 1966, o país virou uma república.
Daí para frente, infelizmente, a história do Burundi virou uma sucessão de golpes de Estado, governos autoritários e massacres entre hutus e tutsis. Em 1972, uma rebelião hutu foi seguida por uma repressão brutal do governo dominado por tutsis, que matou dezenas de milhares de pessoas, principalmente hutus. Em 1993, o país elegeu Melchior Ndadaye, seu primeiro presidente hutu democraticamente eleito, mas ele foi assassinado poucos meses depois por militares tutsis. O assassinato desencadeou novos massacres e uma guerra civil que duraria mais de uma década e deixaria cerca de 300 mil mortos. A paz começou a ser construída com os Acordos de Arusha, em 2000, mas a estabilidade política continuou bastante frágil. Pierre Nkurunziza governou de 2005 até sua morte, em 2020, e a tentativa de conseguir um controverso terceiro mandato em 2015 provocou outra enorme crise política. Ou seja, quando você olha para a pobreza atual do Burundi, começa a entender que ela não apareceu do nada: o país passou boa parte das décadas posteriores à independência pulando de golpe em golpe, massacre em massacre e crise em crise. Difícil construir uma economia desse jeito.
Existe ainda um personagem que parece estar presente em praticamente qualquer país africano que você visite atualmente: os chineses. No Burundi não seria diferente. Mesmo sendo um mercado minúsculo e extremamente pobre, a China está presente financiando ou construindo estradas, prédios públicos e outros projetos de infraestrutura, além de manter relações políticas próximas com o governo. Em Bujumbura, você encontra obras e placas lembrando dessa cooperação sino-burundinesa. É impressionante: você pode ir para Angola, Etiópia, Ruanda, Burundi ou praticamente qualquer outro canto do continente e, em algum momento, aparece uma obra chinesa. Os europeus colonizaram a África, foram embora e, algumas décadas depois, os chineses chegaram com empreiteiras, empréstimos e engenheiros. Mudou bastante a estratégia, mas a disputa por influência no continente continua firme e forte.
Chegando no Burundi e já utilizando a milenar técnica milenar de se fazer de idiota
Para começo de conversa, eu já sabia que não teria no Burundi a mesma facilidade que tinha encontrado em Ruanda para me comunicar. Em Kigali, o inglês resolvia praticamente tudo. No Burundi, a situação seria diferente. Lá o francês e o kirundi são as línguas oficiais. Inglês? Até vem ganhando espaço, mas eu já tinha sido avisado de que, na prática, encontraria quase ninguém falando inglês, muito longe do que vi em Ruanda. E meu francês, bem… digamos que não serve nem para pedir socorro com muita eficiência.
Como eu já tinha sido extorquido ao entrar na Gâmbia, outro dos países mais pobres do mundo, resolvi desembarcar no Burundi preparado para qualquer eventualidade. O visto custava 40 dólares e podia ser tirado na chegada, então levei o dinheiro certinho e trocado. Além disso, deixei separado mais uns 10 dólares separados em outro bolso. Sabe como é: experiência internacional. Se aparecesse alguma “taxa administrativa especial de boas-vindas ao Burundi”, eu pelo menos já estava preparado.
E os sinais começaram antes mesmo de eu embarcar. Teoricamente, antes da viagem era necessário preencher pela internet um formulário de registro para apresentar à imigração. O problema é que o formulário online tinha campos aparentemente trocados: onde você esperava colocar o nome, aparecia sobrenome; onde deveria entrar o sobrenome, parecia pedir o nome. Fiquei olhando para aquilo tentando descobrir se eu estava preenchendo errado ou se o próprio formulário estava errado. No fim consegui completar, mas aquilo já funcionou como uma pequena prévia do que eu imaginava encontrar pela frente. Se até o formulário oficial de entrada estava daquele jeito, pensei: “Rapaz… essa viagem promete.”. Sim, no final não me pediram formulário nenhum.
Cheguei ao balcão do visto no aeroporto e, para minha surpresa, tudo funcionou de maneira extremamente profissional. Pediram meu passaporte, conferiram os documentos, mandaram pagar a taxa do visto e pronto. E detalhe importante: paguei os 40 dólares com meu cartão Wise. Guarde essa informação porque ela ainda vai voltar nesta história. Depois colocaram o visto no passaporte e me mandaram seguir para a imigração. Até ali, tudo perfeito.
Cheguei ao guichê e o agente começou a falar francês comigo. Avisei que só falava inglês e ele passou para um inglês sofrível, mas suficiente para a gente conseguir se entender. Perguntou onde eu ficaria, quanto tempo permaneceria no país, essas coisas normais. Quando terminou e parecia que finalmente iria me liberar, veio a surpresa: perguntou se eu não poderia deixar uma “gorjeta” para ele. Rapaz… o próprio oficial da imigração estava me pedindo dinheiro. Na hora ativei uma das técnicas mais importantes que desenvolvi viajando pelo mundo: fiz cara de idiota, fingi que não tinha entendido absolutamente nada, agradeci, peguei meu passaporte e fui embora.
E isso acabou reforçando uma espécie de lei geral das minhas viagens. Pode ser o país que for, aeroporto internacional normalmente funciona de maneira relativamente profissional. De vez em quando aparece alguém tentando conseguir uma gorjeta — já tinha acontecido comigo até na Mauritânia —, mas, pela minha experiência, quando você simplesmente não entra na conversa, o sujeito desiste e deixa você seguir. Nunca passei por aquela história de ser levado para uma salinha e ficar retido até “molhar a mão” de alguém. Imagino que exista uma razão prática para isso: aeroporto internacional recebe centenas ou milhares de passageiros, tem câmeras, outros funcionários e muito mais controle. É bem diferente de uma fronteira terrestre perdida no meio do nada, onde aparece um estrangeiro a cada duas horas e o funcionário pode pensar: “Rapaz… deixa eu conversar com esse aqui com mais calma.”
Dois motoristas, gasolina a 20 reais e um policial arretado
Como eu já sabia que o Burundi podia ser meio bagunçado, resolvi não inventar moda logo na chegada e paguei para alguém do hotel ir me buscar no aeroporto. Uma corridinha de oito minutos custaria 20 dólares. Achei um absurdo, claro, mas preferi pagar pela tranquilidade de sair do aeroporto já sabendo quem estaria me esperando e para onde eu iria.
Saí do terminal e lá estava um cara segurando uma plaquinha com meu nome. Melhor ainda: ele falava um ótimo inglês. Entramos no carro e ele simplesmente sentou no banco de trás comigo. Olhei para ele e perguntei:
— Ué, você não vai dirigir?
Ele respondeu tranquilamente que não. Quem dirigiria seria um amigo dele.
Rapaz…
Aquilo tinha orelha de golpe, nariz de golpe e rabo de golpe.
Por alguns segundos pensei seriamente em sair do carro e descobrir outra maneira de chegar ao hotel. Só que havia sido o próprio hotel que tinha organizado o transfer, todas as mensagens estavam registradas dentro do Booking e o lugar tinha boas avaliações. Resolvi pagar para ver.
Pouco depois apareceu outro sujeito, entrou no banco do motorista e começou a dirigir. O pequeno detalhe é que ele não falava uma palavra de inglês. Fiquei acompanhando tudo pelo GPS e, quando percebi que estávamos realmente seguindo em direção ao centro de Bujumbura e ao meu hotel, relaxei. Pelo menos o suposto sequestro estava seguindo exatamente a rota do Google Maps.
No caminho comecei a conversar com o rapaz que falava inglês e finalmente entendi a situação. Normalmente era ele mesmo quem buscava e levava os hóspedes usando o próprio carro. O problema é que ele só conseguia fazer isso quando conseguia comprar gasolina.
Sim.
Quando ele CONSEGUIA comprar gasolina.
O Burundi sempre enfrentou dificuldade com combustíveis devido a falta de dólares para importar petróleo e pelas dificuldades logísticas de um país pobre, sem saída para o mar e totalmente dependente de combustível importado. Para piorar, a guerra, do Irã, não, da Ucrânia em 2022, ainda ajudou a bagunçar os preços e o mercado internacional.
Ele explicou que abastecer podia virar uma operação de vários dias. Você deixava o carro na fila do posto e, dependendo da situação, voltava um ou dois dias depois para tentar conseguir gasolina. Durante o trajeto passamos por postos com filas enormes de veículos esperando combustível. Eu até pensei em tirar algumas fotos, mas ele recomendou que não fizesse isso porque a polícia poderia implicar com um estrangeiro fotografando aquelas filas.
Guarde também essa informação sobre a polícia implicar comigo. Ela ainda vai ser importante.
Segundo ele, quem não quisesse esperar precisava recorrer ao mercado paralelo, onde o a gasolina vinha do Congo (sim, do CONGO!) e o litro podia chegar ao equivalente a uns 20 reais (4 dólares). Depois dessa conversa, comecei a olhar de maneira um pouco diferente para os 20 dólares que tinha pago pelo transfer. Talvez não fosse tão absurdo assim.
E finalmente entendi por que havia dois sujeitos no carro. Como ele não tinha conseguido combustível, pediu para um amigo fazer a corrida, mas fez questão de ir junto porque, segundo ele, achava importante que alguém que falasse inglês estivesse lá para receber o hóspede estrangeiro. Continuo achando que ele simplesmente rachou os 20 dólares com o amigo.
Mas tudo bem.
Ele estava no direito dele.
Saímos do aeroporto e eu estava preparado para encontrar um verdadeiro pandemônio. Afinal, eu tinha acabado de desembarcar no país mais pobre do mundo, estava esperando ruas destruídas, caos, carroça passando no meio da avenida, sei lá. Nada disso. Bujumbura parecia uma cidade africana relativamente normal. Carros, engarrafamentos, placas de propaganda, prédios de concreto, ruas asfaltadas, comércio, gente indo e voltando. Era, basicamente, uma grande cidade africana com quase um milhão de habitantes. Se ninguém tivesse me contado que eu estava em um dos países mais pobres do planeta, certamente eu não descobriria apenas olhando pela janela do carro. Mais uma vez, parecia só mais uma cidade grande africana.
No caminho, o rapaz fez a gentileza de parar em um banco que tinha um caixa eletrônico que sacava em dólares porque eu tinha comentado que meu estoque estava ficando baixo. Chegamos lá e havia três caixas eletrônicos. Dois não funcionavam. Obviamente, no único que funcionava havia uma fila imensa. Beleza. Ficamos esperando.
De repente começou uma confusão gigantesca do lado de fora do banco. Dois sujeitos desceram dos carros no meio da rua e começaram a discutir aos berros. Pararam o trânsito, começaram a gesticular, um gritava de um lado, outro gritava do outro e, como sempre acontece nessas situações, surgiu imediatamente uma multidão de curiosos para acompanhar o espetáculo. Entre trocas de “tua mãe não é homem”, “teu pai não é mulher” e outros insultos apareceu também um policial com um fuzil enorme pendurado na bandoleira. O puliça chegou gritando, apontando o dedo na cara dos dois e tentando colocar ordem naquela zona.
Só que ninguém parecia particularmente impressionado com o fuzil. Pelo contrário. A confusão que antes tinha dois, agora tinha três. Sim, um terceiro com um fuzil.
Os dois continuaram gritando, começaram os empurrões e, em determinado momento, um dos sujeitos simplesmente empurrou o policial. Sim. O cara empurrou um policial armado com um fuzil no meio de Bujumbura.
Nessa hora pensei:
“Pronto. Agora vai dar merda.”
Comecei discretamente a procurar um lugar onde pudesse me esconder para quando começassem os pipocos. Me abriguei atrás de uma mureta e esperei o pior. Só que, do nada — mas do nada mesmo —, a discussão acabou. Os três pararam de gritar, começaram a conversar normalmente, vieram os sorrisos, apertaram as mãos e pronto. O policial ainda foi para o meio da rua organizar o trânsito para os dois conseguirem tirar os carros dali.
Cinco minutos antes eu estava procurando onde me esconder de um possível tiroteio. Cinco minutos depois estava todo mundo sorrindo e indo embora como se nada tivesse acontecido.
Só mais uma terça-feira normal no Burundi.
Vivendo como os locais, sem dinheiro no país mais pobre do mundo
Depois desse show, finalmente chegou a minha vez de tentar sacar dinheiro. Eu ainda estava sem internet, mas lembrava vagamente que tinha uns 120 dólares disponíveis na conta da Wise. O caixa eletrônico também não inspirava muita confiança. Travava, demorava, parecia reiniciar sozinho e, a cada operação, eu ficava esperando para descobrir se sairia dinheiro ou se aquela geringonça simplesmente desistiria de viver.
Tentei sacar 120 dólares. Nada. Apareceu uma mensagem mandando entrar em contato com meu banco. Achei que talvez estivesse acima do limite e tentei 100. Nada de novo. Tentei 50. Mesma coisa. Sempre a mesma mensagem. Como dois dos três caixas eletrônicos daquele banco já estavam quebrados, concluí que aquele também devia estar funcionando só quando estava a fim. O problema é que as outras pessoas da fila conseguiam sacar normalmente.
Voltei para o carro, contei o que tinha acontecido e pedi para seguirmos para o hotel. No caminho, pedi para o rapaz compartilhar a internet do celular dele comigo porque queria conferir se aquelas tentativas de saque não tinham sido debitadas da minha conta. Foi aí que veio a bomba.
A WISE SIMPLESMENTE NÃO FUNCIONA NO BURUNDI.
Por quê?
Sabe Deus.
Entrei no site da Wise e descobri que o Burundi estava na lista de lugares onde a empresa não oferecia seus serviços. O mais legal era a lista de países… Irã, Coreia do Norte, Cuba e… Burundi. Sabe Deus por que. Era por isso que o caixa eletrônico recusava todas as operações. E foi nessa hora que eu comecei a me desesperar.
Quando você começa a viajar, leva vinte cartões diferentes, dinheiro em espécie escondido em três lugares, reserva da reserva e provavelmente algum ouro para negociar sua fuga em caso de golpe de Estado. Só que, com o tempo, você vai relaxando, baixando a guarda e simplificando tudo. E aí mora o perigo. Eu tinha chegado ao ponto de viajar basicamente com meu cartão Wise e um pouco de dinheiro vivo para emergências.
Pois bem.
A emergência tinha acabado de chegar.
O dinheiro que eu tinha na mochila não dava nem para pagar o hotel. Quem dirá comida, transporte e todo o resto que eu ainda precisaria durante os dias no Burundi.
Nessa hora eu realmente me desesperei. Comecei a me perguntar o que seria da minha vida naquele país sem conseguir usar meu dinheiro.
Foi então que lembrei de uma coisa: eu tinha trazido outro cartão de crédito do Brasil. Era um Visa do Santander que eu tinha jogado na mochila basicamente para testar se ele funcionava mesmo fora do país. Nem era para ser meu cartão principal. Na hora de pagar o hotel, puxei o cartão, coloquei na maquininha e…
PASSOU.
Mano, eu dei um grito tão alto que o hotel inteiro parou para olhar para mim. Literalmente. Dei um pulo como se o Brasil tivesse acabado de ganhar uma Copa do Mundo. O pessoal começou a perguntar o que tinha acontecido e eu só conseguia apontar para a maquininha e gritar:
— PASSOU!!! PASSOU!!! PASSSOUUUUUUU!!!
Pode parecer uma reação completamente desproporcional por causa de um cartão de crédito, mas, naquele momento, aquilo resolveu a minha vida. O dinheiro que eu tinha em espécie não dava nem para pagar o hotel. Se aquele cartão também fosse recusado, eu sinceramente não sabia nem onde iria dormir, quem dirá como pagaria comida, transporte e o resto da viagem.
Depois desse perrengue, guardei o Wise e passei a usar exclusivamente o Santander. Cê tá louco. Não queria nem olhar para o cartão da Wise novamente até eu ir embora do Burundi.
Só depois me veio uma dúvida: se a Wise não funcionava no Burundi, como diabos eu tinha conseguido pagar a taxa do visto no aeroporto?
Sim. Eu falei para você guardar essa informação.
Eu tinha passado exatamente o cartão da Wise para pagar os 40 dólares do visto e a transação aparentemente tinha sido aprovada. Até hoje não sei explicar direito o que aconteceu. Talvez o pagamento tenha sido processado por alguma estrutura internacional ou existisse alguma particularidade naquela maquininha do aeroporto, embora no comprovante aparecesse algo relacionado ao Bank of Burundi. O fato é que o pagamento do visto funcionou e, pouco depois, o mesmo cartão não servia nem para sacar dinheiro no caixa eletrônico.
Sim, assim como em Ruanda, eles AMAM Skol no Burundi
Por via das dúvidas, guardei o comprovante do visto como se fosse um documento diplomático. Vai que, na hora de sair do país, alguém resolvesse descobrir que aquele pagamento não tinha sido processado direito e viesse me cobrar os 40 dólares novamente. Depois de tudo que já tinha acontecido nas primeiras horas no Burundi, eu não estava disposto a testar a sorte.
E os problemas acabaram de começar
Como eu não sabia o que seria da minha vida dali para frente — se o Wise continuaria bloqueado e até quando meu glorioso cartão reserva do Santander continuaria salvando minha pele —, entrei imediatamente no modo contenção de gastos. A missão agora era simples: sobreviver financeiramente até sair do Burundi, chegar a outro país e descobrir se meu Wise voltaria a funcionar.
Eu tinha combinado com um guia um passeio por Bujumbura, uma visita a uma plantação de chá nos arredores da cidade e ainda uma caminhada por uma área de floresta. Depois fui descobrir que algumas regiões do Burundi, principalmente próximas à fronteira com a República Democrática do Congo, têm alertas de segurança por causa da atuação e das incursões de grupos armados vindos do Congo. Dependendo da área, existe inclusive risco de ataques e sequestros. Como eu não posso morrer, a floresta obviamente saiu do roteiro. Ficariam apenas a plantação de chá e o passeio pela cidade.
No fim, nem isso aconteceu. Com a incerteza sobre o dinheiro, cancelei tudo. Não fazia sentido gastar o que fosse com guia e passeio sem saber se, dois dias depois, eu teria como pagar um prato de comida.
Mosquiteiro, repelente e a vontade de continuar vivo
Depois do check-in, fui para o quarto e reparei que minha cama tinha um belíssimo mosquiteiro. Fui perguntar na recepção se aquilo era por causa de muriçoca, pernilongo ou qualquer outra coisa do gênero. O sujeito respondeu com a maior naturalidade do mundo que, como o hotel ficava praticamente às margens do Lago Tanganica, era melhor dormir com o mosquiteiro por causa da malária.
Assim.
Falou “malária” como quem recomenda colocar um casaco porque de noite pode esfriar.
— O QUÊ?! AQUI TEM MALÁRIA?
— Tem, mas não precisa se preocupar muito. Não é tão sério assim.
Como assim “não é tão sério assim”, mano?
A partir daquele momento, eu praticamente transformei o mosquiteiro em minha residência oficial. Passava o maior tempo possível dentro daquela fortaleza e tomava banho de repelente de quatro em quatro horas. Podia faltar dinheiro, podia faltar gasolina, podia dar problema com cartão.
Agora malária também?
Tá louco.
Eu não posso morrer. Minha esposa já deixou claro que se eu morrer, ela me mata. Então é melhor eu evitar.
Obviamente, o primeiro lugar que eu queria conhecer em Kigali era o Memorial do Genocídio. Assim que acordei, tentei instalar o aplicativo de transporte que funcionava por lá, o Volkswagen Move. Sim, isso mesmo: a Volkswagen resolveu criar uma espécie de Uber próprio em Ruanda. Tentei de todo jeito cadastrar meu cartão, não consegui, dinheiro não aceitava, tinha que pagar com o PIX local. Depois de perder um tempão brigando com o aplicativo, desisti.
Foi aí que descobri o meio de transporte mais popular de Kigali: o mototáxi. E, rapaz, não me arrependi. Eu estava hospedado numa região residencial meio afastada do centro e, ainda assim, conseguia praticamente atravessar Kigali pagando uns 10 reais. Quando muito. Aí você coloca na balança: ir confortavelmente dentro de um carro pagando 40 reais ou subir na garupa de uma moto, arriscar um pouco mais a integridade física e pagar 10. Acho que a escolha é evidente, né? E tem outro detalhe: como Kigali é tomada por mototáxis, você precisa perder rapidamente aquele instinto brasileiro de ficar desconfiado quando aparecem dois caras numa moto. Senão você passa a viagem inteira em estado de alerta.
Durante toda a minha passagem por Ruanda, acho que entrei em um carro apenas duas vezes: para ir e voltar do aeroporto. E olha que eu ainda queria fazer o trajeto até o aeroporto de mototáxi, com a mochila nas costas. Foi o cara do Airbnb que não deixou por motivos óbvios.
E usar algum tipo de transporte em Kigali é quase uma necessidade, porque caminhar pela cidade exige preparo físico. Ruanda é conhecida como a “terra das mil colinas”, e Kigali faz questão de honrar a fama. Mano, sério: a cidade consegue fazer Belo Horizonte parecer plana. Você dobra uma esquina e encontra uma ladeira. Sobe aquela ladeira, vira outra rua e aparece outra ainda pior. Tem rua ali que não foi feita para você subir. Foi feita para você escalar. Depois de algumas horas andando por Kigali, comecei a entender por que o mototáxi não era apenas barato. Era questão de sobrevivência.
Outra coisa que chama muito a atenção é o tanto de gente nas ruas. Ruanda e Burundi estão entre os países mais densamente povoados da África. Para você ter uma ideia, Ruanda tinha mais de 13 milhões de habitantes no último censo vivendo em apenas 26 mil km², um território menor que o estado de Alagoas. São mais de 500 habitantes por quilômetro quadrado. Então você vai andando pelas estradas e parece que nunca existe aquele momento em que a cidade acaba e começa o vazio: sempre tem uma casa, uma vila, alguém caminhando ou trabalhando em algum lugar.
Apesar de Kigali estar praticamente em cima da linha do Equador, o clima é surpreendentemente agradável. Isso acontece porque a cidade fica a cerca de 1.500 metros de altitude. Durante o dia a temperatura é gostosa e à noite chega a fazer aquele friozinho bom. É curioso pensar que Kigali está praticamente na mesma latitude de Belém do Pará, mas climaticamente parece estar em outro planeta.
Outra coisa que facilita demais a vida do turista é o inglês. Ruanda nunca foi colônia britânica — primeiro foi alemã e depois belga — e durante décadas o francês teve muito mais importância. Isso mudou principalmente a partir de 2008, quando o governo decidiu colocar o inglês no centro do sistema educacional, aproximando o país também de seus vizinhos anglófonos e da Comunidade da África Oriental. Assim, decidiu porque decidiu e pronto. O resultado é muito perceptível hoje: entre os mais velhos o inglês varia bastante, mas entre os jovens de Kigali encontrei muita gente falando muito bem. E, cara, para mim o inglês deles era extremamente fácil de entender.
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E uma última coisa me pegou completamente de surpresa: a Skol. Sim, meu amigo, a nossa velha conhecida Skol. Você está no meio da África, em um país sem saída para o mar, e começa a encontrar propaganda da Skol em bar, restaurante e em tudo quanto é canto. Só que ela não chegou ali importada do Brasil. A marca Skol é internacional e os direitos dela na África pertencem ao grupo belga Unibra, que produz a cerveja localmente em Kigali desde 2010. A operação cresceu tanto que a própria empresa afirma que a Skol passou de 25% do mercado de cerveja ruandês. Diz aí: de todas as coisas que você imaginaria encontrar no meio de Ruanda, uma Skol gelada provavelmente não estaria na lista.
Dále SKOL!
Kigali: quando a história deixa de parecer distante e 1994 ainda parece ontem
Infelizmente, visitar o Memorial do Genocídio de Kigali é uma experiência tão ruim quanto parece. É um soco no estômago. O memorial segue um pouco aquela estética que você encontra nos grandes museus dedicados ao Holocausto: ambientes escuros, fotografias, depoimentos, documentos e uma narrativa que vai conduzindo você passo a passo até entender como uma sociedade inteira conseguiu chegar naquele ponto. Só que ali existe uma diferença brutal: você não está apenas dentro de um museu. Do lado de fora estão enormes valas coletivas onde foram sepultadas mais de 250 mil vítimas do genocídio.
Algumas imagens são particularmente difíceis de esquecer. Você vê fotografias das ruas depois dos massacres, carros abandonados e corpos espalhados por lugares que, poucos meses antes, faziam parte da vida cotidiana das pessoas. Algumas cenas parecem retiradas daqueles filmes ou jogos de videogame de apocalipse zumbi, só que aquilo não era ficção. Aconteceu ali, naquela mesma cidade, em 1994.
Poucos lugares que visitei na vida me deixaram tão mal. Talvez Auschwitz, na Polônia, o Museu do Holocausto em Washington, o memorial do genocídio armênio em Yerevan e os locais relacionados ao Khmer Vermelho em Phnom Penh tenham provocado uma sensação parecida. E existe uma característica do genocídio ruandês que me perturbou especialmente. Stálin e Hitler mataram milhões de pessoas. Mas sob eles existia um ideologia. De gosto duvidoso, mas ainda assim uma ideologia. O que mais me chocou no genocídio ruandês é que ele foi realizado sob o simples objetivo de matar outra etnia. Massacre puro e simples. Em muitos casos não era um agente do estado, um soldado desconhecido matando alguém que nunca tinha visto. Eram vizinhos denunciando vizinhos, conhecidos atacando conhecidos e até pessoas da mesma família se voltando umas contra as outras.
Talvez seja justamente isso que torne tudo tão difícil de processar. A violência atingiu praticamente toda a sociedade. Existem sobreviventes que perderam pais, irmãos, filhos, tios e primos e descobriram, quando tudo terminou, que eram praticamente os únicos membros da família ainda vivos. E não estamos falando de alguma tragédia perdida num passado distante. Estamos falando de 1994. Quando eu estava visitando aqueles memoriais, havia milhares de ruandeses andando pelas mesmas ruas que tinham vivido tudo aquilo pessoalmente.
Também me chamou a atenção a quantidade de estrangeiros visitando o memorial. Infelizmente, por mais que Ruanda faça um enorme esforço para construir uma nova imagem, o genocídio continuará fazendo parte do roteiro de quem visita o país durante muito tempo. E não é apenas no Memorial de Kigali. Existem memoriais espalhados por toda a cidade e por todo o país.
E esses lugares não funcionam simplesmente como museus. Muitos são também cemitérios e espaços de luto. Você encontra flores, fotografias e homenagens sobre os locais onde as vítimas estão enterradas. Existem placas indicando áreas onde não se deve caminhar justamente porque existem restos humanos sepultados ali. Não é um simples museu com algumas peças e exposições sobre o acontecido. Há centenas de milhares de pessoas enterradas ali do seu lado. É nesse momento que você percebe que aquilo não é apenas uma exposição contando uma tragédia histórica. Para os ruandeses, aquilo ainda é memória familiar. As pessoas enterradas ali eram pais, mães, filhos, irmãos e amigos de gente que continua vivendo em Kigali hoje.
Dez mortos e um país ainda mais abandonado, o memorial ao massacre que fez a Bélgica sair de Ruanda
No outro dia fui ao memorial aos soldados belgas mortos durante o genocídio. O Camp Kigali fica no antigo quartel onde dez capacetes-azuis belgas da ONU foram levados e assassinados em 7 de abril de 1994, logo no início dos massacres. Eles faziam parte da missão da ONU em Ruanda e estavam protegendo a primeira-ministra Agathe Uwilingiyimana, uma hutu moderada que também seria assassinada naquele dia. A morte dos soldados não foi um acontecimento qualquer: os extremistas sabiam que a Bélgica era o principal contingente militar da missão e esperavam que, depois de perder homens, o país retirasse suas tropas.
Imagina o que iria acontecer. Você, belga, tem tropas em um país “selvagem”, no meio da África, que nunca ouviu falar e de repente 10 cidadãos do seu país são massacrados e mutilados de forma selvagem.
E foi exatamente o que aconteceu. Poucos dias depois, a Bélgica decidiu sair de Ruanda e pressionou pela redução da missão da ONU justamente quando o genocídio estava ganhando força. No memorial ainda estão os antigos edifícios do quartel e dez pilares de pedra, um para cada soldado morto, marcados simbolicamente de acordo com o tempo que cada um teria resistido ao ataque. É um lugar pequeno, mas ajuda a entender como decisões tomadas nos primeiros dias acabaram deixando os ruandeses ainda mais abandonados no momento em que mais precisavam de ajuda internacional.
O dia em que a ONU foi embora e Michel Teló apareceu
Fui também ao Nyanza Genocide Memorial, outro lugar pesado da história de Kigali. Durante o genocídio, milhares de tutsis buscaram proteção na região da École Technique Officielle, onde havia soldados belgas da missão da ONU. O problema é que, depois do assassinato dos dez capacetes-azuis que eu tinha acabado de contar, a Bélgica decidiu retirar suas tropas. Os refugiados ficaram praticamente abandonados. Pouco depois, milhares deles foram levados para Nyanza, onde acabaram massacrados. Hoje o local funciona como memorial e cemitério, com valas coletivas onde estão enterradas milhares de vítimas. O que mais me marcou foi justamente perceber como essas histórias vão se conectando: você visita o memorial dos dez belgas e depois chega a Nyanza e entende uma das consequências daquela retirada. Para quem estava escondido acreditando que a bandeira da ONU significava proteção, deve ter sido desesperador assistir aos soldados simplesmente indo embora e só levando os não-ruandeses com eles.
Cheguei lá e não entendi direito se o memorial estava aberto ou fechado. Só havia um guarda, acompanhado de mais um daqueles fuzis enormes que parecem fazer parte da decoração oficial de Ruanda. Ele me deixou entrar normalmente, mas depois começou a implicar porque eu estava tirando fotos e gravando alguns vídeos. Segundo ele, aquilo não era permitido. Depois começou a fazer perguntas demais e, confesso, me passou pela cabeça que talvez estivesse esperando uma “gasosa”, como tinha acontecido comigo em Angola. Só que o inglês dele era ruim até para pedir uma eventual gasosa. Posso estar cometendo uma tremenda injustiça com o sujeito, então fica aqui o benefício da dúvida. Só achei estranho porque, nos outros lugares onde fotografar era proibido, havia placas deixando isso muito claro. Resolvi não descobrir até onde aquela conversa iria: me fiz de bobo, saí, montei no primeiro mototáxi que apareceu e fui embora.
De lá segui para conhecer provavelmente o hotel mais famoso de Ruanda: o Hôtel des Mille Collines. Foi ali que, durante o genocídio, mais de mil pessoas buscaram proteção, episódio que inspirou o filme Hollywoodiano Hotel Ruanda. No cinema, o gerente Paul Rusesabagina foi interpretado pelo ator Don Cheadle, indicado ao Oscar pelo papel. O filme conta como Rusesabagina teria usado seus contatos, negociações e influência para proteger os refugiados hospedados no hotel. Vale dizer que sua figura se tornou bastante controversa posteriormente, especialmente em Ruanda, onde a versão heroica apresentada pelo filme é contestada por sobreviventes e pelo governo. Mas isso é outra história.
Me hospedar ali estava completamente fora de cogitação. As diárias custavam muito mais do que meu orçamento estava disposto a aceitar. Mas eu sabia que havia um bar próximo à famosa piscina do hotel, que também aparece na história do genocídio: com o abastecimento de água interrompido, a água da piscina teria sido utilizada pelos refugiados para necessidades básicas. Então fui entrando… entrando… entrando… esperando alguém aparecer para perguntar o que aquele maltrapilho o estava fazendo ali. E… Ninguém perguntou nada.
Cheguei ao bar, sentei perto da piscina e pedi aquilo que cabia no orçamento: um chope. E, para minha surpresa, nem foi caro. Paguei algo em torno de 15 reais. Considerando que eu estava tomando uma cerveja em um hotel cinco estrelas, ao lado de um dos lugares mais conhecidos da história recente de Ruanda, achei um excelente negócio. Hospedagem no Mille Collines eu não podia pagar. Mas um chope histórico ainda cabia no orçamento. Ponto alto foi quando eu estava lá observando a piscina, pensando no poder histórico daquele local e começou a tocar “Ai se eu te pego” em português e depois traduzido pro inglês. Obrigado Michel Teló.
Ruanda: muito além de 1994, O país que se recusou a ficar preso ao genocídio
Apesar de eu não querer transformar esse relato numa sequência de genocídio, matança, genocídio, matança, é praticamente impossível viajar por Ruanda sem que o assunto apareça o tempo inteiro. A tragédia de 1994 ainda está muito presente no país. Ela aparece nos museus, nos memoriais espalhados pelas cidades, nas valas coletivas e, principalmente, na história das famílias. Muita gente que você encontra andando pelas ruas de Kigali viveu aquilo pessoalmente.
Felizmente, depois de alguns dias você começa a perceber que Ruanda é muito mais do que o genocídio. E acho que essa foi uma das coisas que mais gostei de descobrir durante a viagem. Os ruandeses que encontrei foram extremamente simpáticos e solícitos e, em vários momentos, curiosos comigo. Alguns vinham perguntar de onde eu era, o que estava fazendo ali e como diabos um brasileiro tinha resolvido parar justamente em Ruanda. E existe também uma sensação muito forte de que o país quer seguir em frente. Não esquecer o que aconteceu, porque esquecer seria impossível e até perigoso, mas também não aceitar que 1994 seja a única coisa pela qual Ruanda será conhecido para sempre.
E eu realmente não gosto muito de ficar elogiando ditador, mas é difícil ignorar o papel de Paul Kagame na reconstrução do país. O sujeito governa de maneira autoritária, está no comando de Ruanda há décadas e existem sérios questionamentos sobre repressão à oposição, liberdade de imprensa e espaço para críticas ao governo. Isso tudo precisa ser colocado na conta. Ao mesmo tempo, também precisa entrar na conta o fato de que ele recebeu um país que tinha acabado de passar por algo próximo de um apocalipse social e conseguiu transformá-lo em um dos países mais organizados e economicamente dinâmicos daquela região da África.
Pensa na situação: uma parcela enorme da população tinha sido assassinada, milhões tinham fugido ou estavam deslocados, a economia estava destruída, as instituições praticamente tinham desmoronado e uma parte da população tinha acabado de tentar exterminar outra. Qualquer país teria enorme dificuldade para simplesmente voltar a funcionar. Ruanda não apenas voltou a funcionar como reconstruiu estradas, instituições e serviços públicos, atraiu investimentos e manteve durante muitos anos taxas elevadas de crescimento econômico. Hoje você anda por Kigali e encontra uma cidade limpa, segura, cheia de construções novas e com uma preocupação quase obsessiva em mostrar que o Estado funciona.
A comparação inevitável é com o vizinho Burundi. Os dois países são pequenos, montanhosos, extremamente densos, sem saída para o mar e possuem histórias coloniais e divisões entre hutus e tutsis muito parecidas. Só que hoje o Burundi é o país MAIS pobre do planeta. Não da África, não do hemisfério sul ou norte. DO PLANETA. Claro que seria simplista colocar toda essa diferença na conta de um único governante, porque história e economia nunca funcionam assim. Mas basta conhecer os dois países para perceber que, nas últimas três décadas, Ruanda e Burundi seguiram caminhos completamente diferentes. E depois de tudo o que aconteceu em 1994, só o fato de Ruanda estar onde está hoje já é bastante impressionante.
Era hora de pisar em um dos países mais tensos que já viajei. Era hora do Burundi.
A companhia aérea me colocou num voo para Saint Maarten, pagou hotel, transporte, café da manhã e almoço e, de quebra, me deu algumas horas para conhecer justamente um lugar que estava na minha lista havia anos: Maho Beach.
Saint Maarten nem fazia parte daquele trecho da viagem. Meu plano era sair de Barbados e seguir direto para Dominica. Só que, quando tentei imprimir o cartão de embarque, descobri que não existia mais voo naquele dia. A solução foi me despachar para outro país e me colocar no voo para Dominica apenas no dia seguinte.
No começo eu só pensava no transtorno. Depois comecei a fazer as contas e percebi que tinha ganhado praticamente uma escala patrocinada em um dos lugares mais caros do Caribe.
Cheguei de madrugada, dormi algumas horas, deixei as malas no hotel e fui conhecer a ilha. Como eu tinha pouco tempo, resolvi focar no principal motivo que sempre me fez querer conhecer Saint Maarten: a famosa Maho Beach.
E sim, os vídeos não exageram.
A praia fica literalmente ao lado do Aeroporto Internacional Princesa Juliana, e os aviões passam absurdamente baixos antes de tocar a pista. Você está sentado na areia, começa a ouvir aquele barulho vindo atrás e, de repente, um avião enorme cruza praticamente sobre a sua cabeça.
Não é efeito de câmera. Não é lente enganando perspectiva. Ao vivo, parece ainda mais absurdo.
Os bares próximos até colocam painéis com os horários dos pousos para que as pessoas saibam quando correr para a praia. E tem também quem fique agarrado na grade do aeroporto esperando os aviões acelerarem para sentir o empuxo das turbinas.
Eu preferi não participar dessa parte.
Existem placas alertando sobre o perigo e já ocorreram acidentes por ali. Mesmo ficando mais afastado, na areia, uma das decolagens gerou uma rajada tão forte que quase me derrubou. Areia voando, toalhas saindo do lugar e gente correndo praia abaixo.
Já estava bom demais ter sido mandado para outro país por um voo cancelado. Não precisava terminar o dia sendo arremessado por uma turbina.
Além de Maho Beach, aproveitei a caminhada até lá para observar um pouco da ilha. Saint Maarten tem uma peculiaridade interessante: a mesma ilha é dividida entre dois territórios. A parte sul pertence ao Reino dos Países Baixos, enquanto o norte é francês. E, na prática, você cruza de um lado para o outro quase sem perceber.
Como eu só tinha algumas horas, não consegui explorar tudo. Ainda assim, foi suficiente para entender um pouco do ritmo local, do trânsito complicado em ruas estreitas e da forte presença de hotéis, resorts e comércio voltado ao turismo.
No fim, aquele cancelamento virou um dos melhores imprevistos da viagem.
Conheci um lugar que queria visitar havia anos, dormi de graça, comi de graça, tive transporte pago e ainda consegui ver Maho Beach sem precisar organizar uma viagem específica para isso.
E o melhor: durante toda a minha passagem por Saint Maarten, gastei apenas 17 dólares do meu bolso.
Para um dos lugares mais caros do Caribe, talvez tenha sido o all inclusive mais barato da história.
Depois de algumas horas, voltei para o hotel, peguei minha mochila e finalmente segui para Dominica, o destino onde eu deveria ter chegado no dia anterior.
Só que os imprevistos dessa viagem pelo Caribe estavam longe de acabar.
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Cara, Ruanda é um daqueles países que eu sempre tive uma vontade enorme de conhecer e que, mesmo agora, depois de ter ido, ainda acho meio surreal pensar: “Caracas, eu realmente fui parar em Ruanda.”
É um país pequeno, encravado no coração da África, sem saída para o mar e cercado por gigantes como a República Democrática do Congo e a Tanzânia. Durante muito tempo, para quem conhecia alguma coisa sobre Ruanda, o país era lembrado pelas montanhas, pelos parques nacionais e, principalmente, por ser um dos poucos lugares do planeta onde é possível encontrar gorilas-das-montanhas vivendo em seu habitat natural.
Infelizmente, porém, outro acontecimento colocou definitivamente o nome de Ruanda nos livros de história.
O genocídio de 1994.
Em aproximadamente cem dias, entre abril e julho daquele ano, cerca de 800 mil pessoas foram assassinadas, segundo a estimativa mais conhecida das Nações Unidas. Outras estimativas, incluindo a utilizada pelo próprio governo ruandês, passam de um milhão. A maioria das vítimas era tutsi, mas também foram mortos hutus moderados e outras pessoas consideradas inimigas pelos extremistas. Estamos falando de algo próximo de 10% da população do país exterminada em pouco mais de três meses.
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E foi justamente por causa dessa história que Ruanda entrou no meu imaginário muitos anos antes de eu sequer imaginar que um dia pisaria lá.
Em 2004, ainda no segundo semestre da faculdade, fui a um Fórum Social em Minas Gerais e encontrei um livro com um título que imediatamente chamou minha atenção:
“Gostaríamos de informá-lo de que amanhã seremos mortos com nossas famílias”, do jornalista Philip Gourevitch.
Com um título desses, obviamente peguei o livro para descobrir do que se tratava.
Foi meu primeiro contato de verdade com o genocídio de Ruanda.
E o livro me marcou profundamente.
Eu já conhecia, claro, o Holocausto judeu e outros massacres da história. Mas havia alguma coisa especialmente perturbadora em Ruanda: a velocidade. Aquilo aconteceu não em décadas ou anos, mas durante pouco mais de três meses, em um país minúsculo, muitas vezes com facões e com vítimas e assassinos vivendo nas mesmas comunidades. Amigos massacrando amigos, vizinhos mutilando vizinhos.
Anos depois, lendo mais sobre o genocídio, encontrei uma comparação brutal atribuída a um sobrevivente: naquele ritmo de assassinatos, os ruandeses haviam conseguido, com ferramentas simples, tornar a bomba atômica obsoleta.
A frase ficou na minha cabeça.
E, desde aquele livro que encontrei por acaso em 2004, eu carregava uma curiosidade enorme de conhecer Ruanda e tentar entender como um país conseguiu atravessar uma tragédia daquela dimensão.
Mais de vinte anos depois, finalmente estava indo para lá.
Depois do genocídio: como Ruanda tentou reconstruir uma sociedade. O país onde vítimas e assassinos tiveram que voltar a viver lado a lado
Para entender o genocídio dos hutus contra os tutis em Ruanda, primeiro é preciso entender uma coisa que eu mesmo demorei a compreender que é sobre as duas principais etnias do país, os tutsis e os hutus.
Eles não eram exatamente dois povos completamente separados. Eles compartilhavam língua, religião, território e boa parte da cultura. Historicamente, as diferenças estavam relacionadas também à posição social e econômica: de maneira simplificada, os tutsis eram mais associados à criação de gado e às elites políticas, enquanto os hutus eram majoritariamente agricultores. Essas categorias já existiam antes da colonização, e havia desigualdades reais entre elas, mas suas fronteiras eram menos rígidas do que se tornariam depois.
Primeiro os alemães e, principalmente, depois os belgas passaram a administrar Ruanda utilizando essas divisões. Influenciados pelas teorias raciais europeias da época, os colonizadores consideraram os tutsis, que eram minoria em Ruanda, racialmente superiores e durante anos favoreceram essa elite na administração e na educação. Na década de 1930, os belgas chegaram a colocar a classificação étnica nos documentos de identidade. Aquilo que antes tinha alguma mobilidade passou a ser oficialmente registrado pelo Estado: você era hutu, tutsi ou twa.
Quando Ruanda se tornou independente, em 1962, o poder estava nas mãos dos hutus, a maioria dos ruandeses, e dezenas de milhares de tutsis já viviam no exílio.
Foi entre os descendentes desses refugiados, principalmente em Uganda, que surgiu a Frente Patriótica Ruandesa, a RPF. Em 1990, a RPF invadiu Ruanda e iniciou uma guerra civil contra o governo. Nos anos seguintes, a tensão aumentou enquanto setores extremistas hutus espalhavam propaganda dizendo que os tutsis representavam uma ameaça existencial ao país e queriam, na verdade, matar todos os hutus.
Então veio 6 de abril de 1994.
O avião que transportava o presidente ruandês Juvénal Habyarimana, um hutu, foi derrubado quando se aproximava de Kigali. Até hoje existem controvérsias e acredita-se que foram os próprios hutus que derrubaram o avião dele para poder ter um pretexto. Só se sabe que no momento seguinte… As barreiras apareceram nas ruas.
As listas de pessoas que deveriam morrer começaram a ser utilizadas. A rádio extremista incitava a população. E começou o massacre dos hutus contra os tutsi.
Durante aproximadamente cem dias, os milicianos hutus incitaram a população a matar os tutsi alegando que ou era isso, ou os tutsi iriam matar os hutus na primeira oportunidade. E, quando vc acha que alguém vai te matar, você fica mais propenso a matar o seu “inimigo” primeiro. Vizinhos mataram vizinhos. Professores mataram alunos. Autoridades locais organizaram massacres. Milícias como a Interahamwe percorriam bairros e estradas procurando tutsis e hutus considerados moderados. A maioria das vítimas era tutsi, mas também foram assassinados hutus que se recusaram a participar ou que eram considerados adversários dos extremistas.
Uma das coisas mais difíceis de compreender é justamente onde muitos desses massacres aconteceram. Igrejas. Escolas. Estádios. Prédios públicos.
Quando a violência começava, era natural que milhares de pessoas corressem para lugares onde imaginavam que estariam protegidas. Em alguns casos, autoridades também orientavam civis a se concentrarem nesses locais. Só que vários deles acabaram se transformando em armadilhas. Uma vez reunidas centenas ou milhares de pessoas em um mesmo lugar, ficava muito mais fácil para soldados e milicianos cercarem o prédio e cometerem massacres. Algumas igrejas que deveriam representar proteção acabaram se tornando locais de algumas das maiores matanças do genocídio.
E existe outra coisa que raramente aparece quando contamos essa história: um país não consegue funcionar enquanto está exterminando a própria população. Quem está numa barreira procurando tutsis não está plantando feijão. Quem está participando de uma milícia não está trabalhando. Quem está fugindo não está produzindo. Quem foi assassinado obviamente também deixou de produzir.
A economia simplesmente entrou em colapso. A produção agrícola despencou, milhões de pessoas abandonaram suas casas e, quando a RPF finalmente derrotou as forças governamentais em julho de 1994, havia um país devastado. Além dos mortos, cerca de dois milhões de pessoas fugiram principalmente para os países vizinhos e outras centenas de milhares estavam deslocadas dentro do próprio território.
A RPF, tutsi conseguiu fazer a paz e voltar a implementar algo parecido com um Estado. Só que então apareceu outro problema quase absurdo: o que fazer com os assassinos?
Porque não eram cinquenta pessoas. Não eram quinhentas. Não eram cinco mil.
A participação no genocídio havia alcançado uma parcela enorme da sociedade. Havia os grandes organizadores, militares e autoridades, mas também existiam milhares de pessoas comuns que foram incitadas a matar, denunciar vizinhos, saquear propriedades ou colaborar com os massacres.
Nos anos seguintes ao genocídio, mais de 100 mil suspeitos chegaram a ficar presos.
Agora pense na situação.
O país tinha acabado de ser destruído. Faltava dinheiro, infraestrutura e funcionários públicos. E Ruanda precisava investigar e julgar uma quantidade gigantesca de pessoas.
Como?
Se cada acusado tivesse um processo criminal convencional, aquilo poderia levar décadas. E manter mais de cem mil pessoas encarceradas também custava uma fortuna. Preso precisa comer. Precisa de instalações. Precisa de guardas. Precisa de atendimento médico. E quem pagaria tudo isso era justamente um Estado que tinha acabado de sair de uma guerra civil e de um genocídio. Lembrando, mais uma vez, preso não produz.
Foi aí que Ruanda recuperou e adaptou uma tradição comunitária chamada gacaca.
Em vez de todos os casos passarem pelos tribunais convencionais, milhares de julgamentos começaram a acontecer nas próprias comunidades. Moradores se reuniam ao ar livre, geralmente uma vez por semana, diante de juízes comunitários escolhidos localmente. Acusados podiam confessar seus crimes, sobreviventes contavam o que haviam presenciado e vizinhos testemunhavam sobre o que tinha acontecido.
Não era um sistema perfeito. Organizações de direitos humanos apontaram problemas sérios relacionados ao direito de defesa, à qualidade das provas e à possibilidade de intimidação de testemunhas. Mas era o que tinha. Entre 2005 e 2012, os tribunais gacaca processaram mais de um milhão de casos, algo que seria praticamente impossível para o sistema judicial tradicional do país.
Talvez por isso uma das coisas mais estranhas para mim tenha sido simplesmente caminhar pelas ruas de Kigali.
Eu olhava para um senhor de 55 ou 60 anos e automaticamente fazia a conta.
“Caracas… esse cara tinha vinte e poucos anos em 1994.”
E imediatamente vinha outra pergunta:
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o que esse sujeito estava fazendo durante aqueles cem dias?
E provavelmente ninguém que estivesse apenas caminhando pela rua teria como saber.
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Essa talvez seja uma das partes mais difíceis de compreender sobre Ruanda. Depois de uma tragédia daquela dimensão, vítimas, parentes de vítimas, testemunhas e pessoas que participaram da violência precisaram voltar a morar nas mesmas cidades, frequentar os mesmos mercados e reconstruir o mesmo país.
O Estado ruandês tomou então uma decisão radical sobre a identidade nacional. Hoje, hutu e tutsi não aparecem mais nas carteiras de identidade, e o discurso oficial procura colocar acima dessas categorias uma identidade única: todos são ruandeses.
Depois do genocídio, quem assumiu o controle do país foi a Frente Patriótica Ruandesa, a RPF, guerrilha comandada por Paul Kagame que derrotou as forças do antigo governo e encerrou o genocídio em julho de 1994. Kagame inicialmente ficou como vice-presidente e ministro da Defesa, embora já fosse considerado o homem forte do novo regime, e em 2000 assumiu oficialmente a Presidência. E está lá até hoje. Ruanda realiza eleições, mas chamar o país de democracia é bastante complicado: a oposição enfrenta enormes restrições, críticos do governo são perseguidos ou presos e organizações internacionais classificam o país como “não livre”. Na eleição de 2024, por exemplo, Kagame oficialmente recebeu mais de 99% dos votos. Então, sim, na prática estamos falando de um regime autoritário. O curioso é que Kagame representa uma figura bem mais complexa do que simplesmente “o ditador malvado”. Sob seu governo, Ruanda conseguiu uma estabilidade impressionante depois de praticamente se destruir, reconstruiu sua infraestrutura, melhorou serviços públicos, combateu a corrupção e manteve crescimento econômico durante boa parte das últimas décadas. Existe também uma percepção de apoio interno ao governo, embora seja difícil medir com precisão o tamanho desse apoio justamente porque não existe um ambiente político plenamente livre onde as pessoas possam criticar Kagame sem receio. A impressão que tive conversando com os ruandeses era justamente essa contradição: você tem um governo extremamente controlador, mas que, ao mesmo tempo, conseguiu colocar um país devastado novamente nos trilhos. É aquele velho problema político que não cabe muito bem em uma frase: Kagame pode ser autoritário e, ao mesmo tempo, ter desempenhado um papel central na reconstrução de Ruanda. Uma coisa não necessariamente anula a outra.
Isso não significa que as diferenças tenham simplesmente desaparecido. Evidentemente, muitas pessoas sabem a origem de suas famílias e a memória de 1994 continua presente. Além disso, a política governamental de restringir discursos considerados divisionistas também recebe críticas quando é utilizada para limitar determinados debates políticos e históricos.
Mas existe um aspecto interessante nesse esforço. As novas gerações cresceram sem carregar “hutu” ou “tutsi” escrito em seus documentos. Pessoas das duas origens estudam juntas, trabalham juntas e se casam. Com o passar das gerações, essas fronteiras familiares tendem naturalmente a ficar cada vez mais difíceis de separar.
Talvez essa seja uma das maiores experiências sociais em andamento em Ruanda.
Durante décadas, o Estado ajudou a transformar uma diferença social em uma identidade rígida.
Depois de 1994, o novo Estado decidiu tentar fazer exatamente o contrário: convencer uma sociedade traumatizada de que, antes de qualquer outra coisa, todos ali são simplesmente ruandeses. E olhar para frente. Vida que segue.
Ruanda: ordem, fuzis e nenhuma sacola plástica
Saí de Seychelles, que fica no meio do nada no Oceano Índico, direto para Ruanda, que fica encravada no meio do continente africano. Mentira. Fiz uma conexão na Etiópia no caminho, mas vamos fingir que foi direto para a história ficar melhor.
Desembarquei em Kigali e uma das primeiras coisas que me chamou a atenção foi o esforço quase obsessivo de Ruanda para transmitir uma imagem de limpeza, segurança e organização. Isso começa na hora que você sai do avião. Todo mundo que chegava precisava passar por um controle onde higienizava as mãos com álcool em gel e tinha a temperatura medida. Um por um. Não era uma recomendação ou uma plaquinha esquecida no canto. Tinha gente ali garantindo que todo mundo cumprisse o procedimento.
Quando você finalmente sai do aeroporto, percebe outra coisa imediatamente: as ruas de Kigali são limpas. Mas limpas mesmo. Não é “limpa para os padrões de uma capital africana”, é limpa para os padrões de qualquer cidade do mundo. Quase não se vê lixo jogado no chão, as avenidas são bem cuidadas e existe uma preocupação enorme com a aparência dos espaços públicos. Depois fui descobrir que isso faz parte de algo muito maior. Ruanda mantém uma tradição chamada Umuganda, um trabalho comunitário realizado no último sábado de cada mês, no qual a população participa de atividades coletivas como limpeza de ruas, manutenção de espaços públicos, plantio de árvores e pequenas obras comunitárias. Até o ditador Paul Kagame participa publicamente de algumas dessas ações.
Essa preocupação com organização aparece em praticamente tudo. Ruanda parece querer lembrar o tempo inteiro que existe um Estado funcionando ali. Nos memoriais e em vários prédios importantes, era comum encontrar militares ou policiais armados fazendo segurança. E não era um sujeito discretamente parado no canto: às vezes tinha um cara fardado segurando um fuzil enorme enquanto você estava simplesmente tentando visitar um museu. Confesso que, para mim, aquilo provocava quase o efeito contrário. Em vez de pensar “que lugar seguro”, eu começava a pensar “caracas, o que será que eles estão esperando acontecer aqui?”.
No aeroporto isso ficava ainda mais evidente. Antes mesmo de chegar ao terminal, o carro passava por uma inspeção de segurança. Todo mundo precisava descer, as portas eram abertas e as bagagens podiam ser verificadas. E atenção: eu não estou falando do controle para embarcar no avião. Estou falando simplesmente de entrar na área do aeroporto. Existe um aparato de segurança muito visível, que parece ter duas funções ao mesmo tempo: realmente controlar possíveis ameaças e transmitir para quem está ali a mensagem de que o Estado está observando e mantendo tudo sob controle.
Essa acabou sendo uma das minhas primeiras impressões de Ruanda. Tudo parecia extremamente limpo, organizado, disciplinado e seguro, mas também muito controlado. Era como se o país tivesse uma preocupação permanente em mostrar ao visitante: “Aquilo que aconteceu aqui em 1994 ficou para trás. Hoje existe ordem.” E, depois de conhecer um pouco melhor a história recente de Ruanda, comecei a perceber que essa obsessão por estabilidade não surgiu do nada.
Você vai ao supermercado e outra coisa chama a atenção: sacolas plásticas são proibidas. Ruanda foi um dos primeiros países do mundo a adotar uma proibição bastante rígida desse tipo de plástico, ainda em 2008. Cheguei a ler relatos de viajantes dizendo que tiveram as malas inspecionadas no aeroporto e as sacolas plásticas retiradas. É mais um exemplo dessa obsessão ruandesa por limpeza e organização.
O próprio presidente-ditador Paul Kagame já falou sobre a ambição de transformar Ruanda em uma espécie de “Singapura da África”. E, guardadas todas as diferenças entre os dois países, de certa forma Ruanda vem seguindo esse caminho: Estado forte, muita disciplina, investimento em infraestrutura e crescimento econômico acelerado. Cara, isso é realmente impressionante quando você lembra que o país praticamente viveu um apocalipse social pouco mais de 30 anos atrás.
A comparação que mais me chamou a atenção foi justamente com o vizinho Burundi. Os dois países são pequenos, montanhosos, sem saída para o mar, possuem histórias entrelaçadas e praticamente as mesmas divisões históricas entre hutus e tutsis. O Burundi também sofreu massacres e uma longa guerra civil, embora não tenha vivido em 1994 um genocídio nas mesmas proporções do ruandês. Mesmo assim, hoje Ruanda possui indicadores econômicos e sociais muito melhores, enquanto o Burundi continua entre os países mais pobres do planeta.
Enfim, uma impressão ficou muito forte durante minha passagem por lá: Ruanda parece fazer um esforço gigantesco para deixar de ser conhecido simplesmente como “o país do genocídio”. Eles querem que o mundo olhe para 1994 como parte fundamental da sua história, mas não como a única coisa que define o país.
E, cara, vou te falar uma coisa: depois que você começa a entender como Seychelles funciona, o país muda completamente. É como desbloquear uma fase secreta de um videogame. Você deixa de viver como um turista e começa a viver, dentro do possível, como um morador. Descobre onde ficam os supermercados, aprende como funciona o transporte público, entende quais lugares são feitos para os locais e quais existem exclusivamente para arrancar dinheiro dos turistas.
Foi aí que Seychelles começou a fazer muito mais sentido para mim.
Em vez de pagar uma fortuna em táxis, eu pegava ônibus junto com estudantes indo para a escola, trabalhadores voltando para casa e senhorinhas carregando sacolas de supermercado. Passava por bairros que dificilmente conheceria se estivesse preso entre um resort e outro. Comecei a observar o cotidiano das pessoas, e essa, para mim, sempre foi a melhor parte de viajar.
E o melhor de tudo era o preço.
A passagem do ônibus custava menos de três reais.
Três reais.
Em um dos países mais caros do mundo.
E não era um sistema ruim, muito pelo contrário. Os ônibus percorrem praticamente toda Mahé e Praslin, as duas ilhas onde fiquei hospedado. Bastava baixar o aplicativo oficial do transporte público para saber exatamente em que horário o próximo ônibus passaria no ponto. Confesso que achei que os horários seriam apenas uma sugestão, mas não. Funcionavam surpreendentemente bem. Quase sempre o ônibus aparecia na hora prevista.
A vista das paradas de ônibus de Seychelles
Outra descoberta interessante foi que o governo mantém uma marca estatal que vende diversos produtos básicos a preços subsidiados. Arroz, farinha, açúcar, sal e outros itens essenciais podem ser encontrados em praticamente qualquer supermercado pelos mesmos valores tabelados. Isso ajuda bastante os moradores a enfrentarem o alto custo de vida do arquipélago.
A partir do momento em que comecei a cozinhar, usar ônibus e fazer compras onde os seichelenses fazem, a viagem ficou muito mais barata. Continuava longe de ser um destino econômico, claro, mas deixava de parecer inviável. Para minha surpresa, encontrei frutas custando praticamente o mesmo que no Brasil. Carne bovina continuava bastante cara, mas peixe era abundante e muito mais acessível, o que faz todo o sentido em um arquipélago cercado pelo oceano.
E tem mais uma vantagem que pesa bastante no orçamento.
As praias.
Elas são públicas.
Não importa se na frente existe um resort de cinco estrelas ou um hotel que cobra milhares de dólares por diária. Você pode simplesmente chegar, estender sua toalha na areia e aproveitar uma das praias mais bonitas do planeta sem pagar absolutamente nada por isso.
O ferry do Satanás – A travessia que me fez entender por que existe avião
Depois de passar dois dias em Beau Vallon, finalmente chegou o momento que eu mais esperava desde que comecei a planejar a viagem: conhecer Anse Lazio. Durante anos ela apareceu em listas das praias mais bonitas do mundo e, pelas fotos que eu via na internet, parecia aquele lugar que alguém inventou no Photoshop. Era justamente por causa dela que eu tinha decidido incluir Seychelles no roteiro.
O único detalhe é que Anse Lazio fica na ilha de Praslin.
“Sem problemas”, pensei.
Era só colocar a mochila nas costas, pegar o ônibus até o porto, embarcar no ferry e, cerca de uma hora depois, estaria do outro lado.
Tudo muito simples.
Até chegar à bilheteria do porto.
O ferry custava…
300 reais.
CADA trecho.
Isso mesmo.
Trezentos reais para ir. Trezentos reais para voltar.
Comentei o preço com o Alex, meu anfitrião no Airbnb.
Esperando ouvir alguma reclamação.
Ele simplesmente respondeu:
— Barato, né
Barato.
Foi nessa hora que percebi que os seichelenses vivem em uma realidade econômica completamente diferente da nossa e começa a entender o custo de vida que eles estão sujeitos.
Enfim…
Respirei fundo, engoli o choro, passei o cartão e fui embarcar.
Dava para ir de avião também. O detalhe é que se o ferry era caro, o avião custava cerca de cinco vezes mais do que o ferry e, considerando o tempo de check-in, embarque, desembarque e deslocamento até o aeroporto, a economia de tempo nem era tão grande assim.
Na hora eu pensei:
“Quem é o maluco que paga tudo isso para economizar tão pouco tempo?”
Algumas horas depois eu descobri exatamente quem.
As pessoas que já fizeram o trajeto de ferry.
Cara, durante boa parte da minha vida eu sempre me considerei uma pessoa tranquila em relação a enjoo em embarcações. Pegava a lancha de São Luís para Alcântara sem problema nenhum. Passeio de barco? Tranquilo.
Só que, de uns anos para cá, alguma coisa aconteceu.
A idade chegou.
Comecei a enjoar em praticamente toda embarcação.
Em São Vicente e Granadinas eu sobrevivi a seis horas em um barco minúsculo sendo sacudido pelo mar o tempo inteiro. Achei que, depois daquela experiência, nada mais conseguiria me impressionar.
Ledo engano.
Quando entrei no ferry de Seychelles, a primeira coisa que chamou minha atenção foi um detalhe curioso. Cada poltrona tinha um saquinho de vômito. Pensei comigo:
“Que povo exagerado…”
Rapaz…
Era eu quem estava sendo inocente.
Enquanto o barco permanecia dentro da baía, a viagem parecia um passeio de domingo. Foi só sair para mar aberto que parecia que alguém tinha apertado um botão. Ou, para ser mais preciso, parecia que Satanás tinha assumido o controle do Oceano Índico.
O ferry começou a balançar de um lado para o outro de um jeito completamente absurdo. Não era aquele balanço gostoso de barco. Era uma pancada para um lado, outra para o outro, depois um mergulho na onda e, em seguida, outra pancada.
Foi aí que tudo fez sentido os saquinhos. Em poucos minutos começaram a surgir uma tia com um saco de lixo grande. Para que. Ela recolhia os saquinhos cheios e já entregava outro novinho para o próximo passageiro que estivesse prestes a contribuir com a estatística. Era uma linha de produção. Eu não cheguei a vomitar. Mas também não fiquei muito confiante.
A tia do vômito
Quando finalmente o ferry atracou em Praslin, minhas pernas estavam literalmente tremendo. Mas eu tinha sobrevivido. E agora, finalmente, era hora de conhecer Anse Lazio.
Anse lazio – Cheguei suando e encontrei uma das praias mais bonitas do mundo
Consegui uma hospedagem muito boa em Anse Volbert, uma das melhores bases para explorar a ilha de Praslin. No outro dia acordei cedo, preparei a mochila de praia, coloquei máscara de snorkel, toalha e lá fui eu seguir o ritual que já tinha aprendido em Seychelles: caminhada até o ponto de ônibus e transporte público para economizar uma pequena fortuna em táxi.
Peguei o ônibus, acompanhei o trajeto pelo aplicativo e desci exatamente na parada que me disseram ser a de Anse Lazio.
Olhei para um lado.
Olhei para o outro.
Cadê a praia?
Cadê Anse Lazio?
Na minha frente havia apenas um paredão gigantesco coberto de vegetação.
Foi aí que um pessoal que estava passando explicou que eu ainda precisava caminhar uns vinte minutos até a praia.
“Caminhar”, no caso, é uma forma bastante generosa de descrever a situação.
Boa parte do percurso é uma subida bem íngreme. Você sobe, sobe, sobe… depois desce tudo de novo até finalmente chegar ao mar.
Vale a pena?
Muito.
A vista até que compensa
Mas ninguém coloca essa parte no Instagram.
As fotos mostram apenas a areia branca, o mar azul-turquesa e os coqueiros. Não mostram o cidadão suando feito uma tampa de chaleira para chegar até lá.
Quando finalmente alcancei a praia, veio outra preocupação.
Quanto iria custar uma cadeira?
Se em Beau Vallon eu já tinha pago cerca de oitenta reais para usar uma espreguiçadeira com direito a banheiro e chuveiro, imaginei que em Anse Lazio, uma das praias mais famosas do planeta, a facada seria histórica.
Fui me aproximando do restaurante já preparado psicologicamente.
Na minha cabeça, qualquer coisa entre quinhentos e oitocentos reais parecia perfeitamente possível. Respirei fundo e perguntei o preço. O rapaz respondeu:
Cinquenta reais.
Pensei que tinha entendido errado.
Perguntei de novo.
Era isso mesmo.
Cinquenta reais.
Pelo mesmo esquema: cadeira, banheiro, chuveiro e estrutura durante o dia inteiro. E não era uma estrutura improvisada, não. O restaurante era limpo, organizado e muito bem cuidado. Depois de passar dias tomando susto com os preços de Seychelles, encontrar uma pechincha justamente em uma das praias mais famosas do mundo foi uma surpresa.
O snorkel na praia também era maravilhoso. Muito peixes, arraias e até uma outra tartaruga que aparecia para dar um alô.
O mais legal era depois pegar o busão. Você pagava por um deslocamento de ônibus e ganhava junto um passeio de montanha russa. Juro, o motorista dirigia como se estivesse disputando uma etapa do Mundial de Rally. As curvas já são fechadas. As estradas são estreitas. O terreno é montanhoso. E eles simplesmente aceleram. Que nem um louco. Que não vive a vida ao máximo perde a oportunidade de ser extraordinário. Naqueles ônibus você aprende rapidamente a segurar firme. Pela janela você vê as pessoas, literalmente, pulando no mato para não serem atropeladas. Eu mesmo pulei no mato umas duas vezes.
No outro dia eu tomei uma decisão que parece quase um crime em Seychelles. Não fui para La Digue. Fazia alguns bons dias que eu só pulava de uma cidade para outro. De um país para outro. De uma ilha para outra. Estava cansado. Poderia ter ido apenas para dizer que fui. Ou podia descansar e aproveitar um dia de Anze Lazio. Preferi descansar em Anse Lazio mais um dia.
Viajar também é saber quando parar.
Curieuse – Tartaruga, jabuti… sei lá. O bicho era gigante
No meu último dia paguei um passeio para La Curiese.
A Ilha Curieuse é uma das atrações mais famosas de Seychelles por reunir, em um espaço relativamente pequeno, algumas das características mais marcantes do arquipélago. Ela abriga uma das maiores populações de tartarugas-gigantes-de-Aldabra vivendo em liberdade, além de extensos manguezais, praias preservadas e uma rica biodiversidade. No passado, Curieuse também teve um papel importante na história do país: durante o século XIX funcionou como uma colônia para pessoas com hanseníase, cujos antigos edifícios ainda podem ser visitados. Atualmente, toda a ilha faz parte do Parque Nacional Marinho de Curieuse, sendo uma área protegida dedicada à conservação da fauna e da flora locais, especialmente do coco-de-mer, a palmeira que produz a maior semente do mundo. E, sim, no passeio tava incluso um snorkel em St. Pierre, um dos melhores snorkels de Seychelles
Mas eu fui mais por conta das tartarugas. As tartarugas-gigantes existiam em praticamente todas as ilhas de Seychelles antes da chegada dos europeus, mas foram caçadas até a extinção entre os séculos XVII e XIX. A única população que sobreviveu foi a do remoto Atol de Aldabra, por ser muito isolado. Entre 1978 e 1982, cerca de 250 tartarugas de Aldabra foram levadas para Curieuse como parte de um projeto de conservação. A ilha foi escolhida porque é protegida, desabitada, possui vegetação adequada, pouca interferência humana e fica muito mais próxima das áreas turísticas do que Aldabra, permitindo tanto a conservação quanto a educação ambiental. Imagina, cada turista que pisa lá paga uma taxa de 100 reais. E eu vi dezenas de turistas chegando sem parar. É mais do que suficiente para financiar a preservação. Tem dessas tartarugas por toda Seychelles. Inclusive no primeiro airbnb que eu fiquei o cara criava uma no quintal. Segundo ele, era costume você ganhar uma tartaruga quando nascia para poder criá-la. E, assim, ela pode durar duzentos anos, então serve para você, seu neto, bisneto e põe gente pelos anos.
Agora, uma coisa me deixou meio confuso. Todo mundo chamava aqueles bichos de tartarugas-gigantes. Mas, convenhamos, tartaruga vive no mar. Quem vive exclusivamente em terra é jabuti. Então, na minha cabeça de brasileiro, aquilo eram uns jabutis gigantes. Enfim… pode chamar do que quiser. O importante é que elas são enormes.
E o mais legal é que elas ficam completamente soltas. Você pode chegar perto, fazer fotos, acariciar o casco e até alimentá-las com as folhas que você acha no chão. Cara… eu vi uma criança simplesmente beijando uma delas. A tartaruga — ou jabuti, escolha o nome que preferir — não pareceu particularmente impressionada. Provavelmente já tinha visto turistas muito mais estranhos do que aquele. Passei quase a manhã inteira brincando com elas. É uma experiência muito diferente de vê-las atrás de cercas ou em um zoológico. Você realmente tem a sensação de estar dividindo o espaço com animais que vivem ali há décadas e que simplesmente aprenderam a ignorar completamente os seres humanos. Eu cheguei a ver algo parecido em Galápagos. Lá também tinha umas tartarugas gigantes. Só que tinha uma cerca e você não podia nem chegar perto. Em Curiese não, como falei, tinha criança beijando as tartarugas.
Depois da visita, serviram um almoço crioulo para o grupo e seguimos para a última etapa do passeio: o snorkel em St. Pierre, supostamente o melhor snorkel de Seychelles. Infelizmente, essa foi a única parte que foi ruim. O mar estava bastante agitado — algo que eu já tinha percebido durante a travessia de ferry — e toda aquela movimentação levantava areia do fundo. Resultado: a água ficou bem turva e a visibilidade caiu muito. Ainda deu para ver alguns peixes, mas passou longe daquela água cristalina que aparece nas fotos de Seychelles.
O país que começou me expulsando e terminou me conquistando
Depois do passeio em Curieuse, era hora de voltar para Praslin, dormir mais uma noite e, no dia seguinte, enfrentar novamente o famoso ferry do Satanás para retornar a Mahé e pegar o voo para o próximo destino.
Confesso que, na hora de ir embora, bateu uma tristeza daquelas.
Minha relação com Seychelles começou da pior forma possível. Primeiro veio a imigração, que parecia um interrogatório policial. Depois, o susto com os preços, que me fizeram pensar que eu teria que vender um rim até o fim da viagem. Mas, à medida que os dias foram passando e eu fui entendendo como o país realmente funciona, tudo mudou. Muito mudou.
Seychelles acabou se tornando o lugar mais próximo de um paraíso que eu já visitei.
É difícil encontrar outro país que consiga reunir tantas qualidades ao mesmo tempo. O clima é agradável praticamente o ano inteiro. O mar é morno, cristalino e de um azul que parece editado no Photoshop. As praias são espetaculares. O país é limpo, organizado, seguro e funciona surpreendentemente bem.
Outra coisa que me chamou a atenção foi a qualidade de vida da população. É claro que Seychelles tem seus problemas — basta lembrar da grave crise relacionada ao consumo de heroína —, mas, de maneira geral, a impressão que tive foi a de um país onde as pessoas conseguem viver relativamente bem. Diferentemente de destinos turísticos como Fernando de Noronha, onde tudo é muito caro, mas a população local vive no veneno, em Seychelles você percebe uma infraestrutura pública funcionando, bairros bem cuidados e um padrão de vida bastante elevado para os padrões africanos.
Normalmente, quando viajo, cada país se destaca por alguma característica específica. Um tem uma natureza extraordinária, outro possui uma história fascinante, outro é extremamente barato, outro é muito seguro. Sempre existe algum ponto forte… e alguma fraqueza.
Seychelles foi um dos raríssimos lugares onde eu tive dificuldade de encontrar essa fraqueza.
No fim das contas, o país me conquistou completamente.
E a maior descoberta da viagem nem foi Anse Lazio.
Nem Curieuse.
Nem Beau Vallon.
Foi perceber que Seychelles fica muito mais interessante quando você larga o roteiro tradicional de lua de mel, coloca uma mochila nas costas, pega um ônibus junto com os moradores, faz compras no supermercado e passa a conhecer o país como ele realmente é.
Mesmo que, aparentemente, a imigração ainda ache essa uma péssima ideia.
Eu não sabia muita coisa sobre Seychelles antes da viagem. Na verdade, praticamente tudo o que eu conhecia do país cabia em uma única frase. Toda vez que eu comentava que iria para lá, a reação era sempre a mesma:
— “Você vai para Seychelles? Rapaz… então você está milionário!”
Se eu ganhasse uma rúpia seichelense cada vez que ouvi isso, provavelmente não ia comprar muita coisa. Seychelles consegue ser cara de um jeito quase ofensivo.
E o pior é que eu estava chegando justamente da Etiópia. Um país que tinha acabado de me surpreender pela beleza, pela história e, principalmente, pelos preços. Durante vários dias eu fiz e refiz conversões para reais porque simplesmente não acreditava no quanto as coisas eram baratas na Etiópia. Toda hora eu pensava: “Não é possível… devo ter feito a conta errada.”
Agora o jogo virava completamente.
Eu estava saindo de um dos países mais baratos que já visitei para desembarcar em um dos destinos mais caros do planeta. Meu medo já não era mais converter errado para menos.
Era converter certo e descobrir que um sanduíche custava o equivalente a um financiamento imobiliário.
Entre o cartão-postal e o interrogatório
Seychelles começa a te conquistar antes mesmo de você colocar os pés no país. A chegada pelo aeroporto é, sem exagero, uma das mais bonitas que eu já fiz na vida. Existem pousos memoráveis. Existe o pouso em Fernando de Noronha. Existe o pouso nas Ilhas Maurício. Existe o pouso nas Maldivas.
E existe Seychelles.
O avião vai perdendo altitude lentamente. Você olha pela janela e vê apenas o oceano.
Água.
Mais água.
Mais água.
A sensação é muito parecida com a de pousar no Aeroporto Santos Dumont, no Rio de Janeiro. O avião continua descendo e, por vários segundos, tudo o que você consegue enxergar é mar. Você começa até a pensar que aquele sujeito errou alguma coisa.
De repente…
Do nada…
Surge uma tripa de terra.
E, praticamente no último instante, aparece a pista.
É um daqueles pousos que fazem qualquer passageiro largar o celular e olhar pela janela. Se o piloto errar a conta por alguns metros, o banho de mar já está garantido.
A chegada já explica por que Seychelles ficou famosa no mundo inteiro. A cor da água é absurda, as montanhas de granito brotam do oceano e você já entende, antes mesmo de desembarcar, que está chegando a um lugar muito diferente.
Só que a beleza da paisagem foi rapidamente substituída pela realidade da imigração.
Com a quantidade de carimbos que já tenho no passaporte, normalmente eu nem me preocupo muito. Geralmente o agente pergunta onde vou ficar, quantos dias pretendo permanecer no país e, no máximo, qual é a minha profissão no Brasil. Foi assim em Moçambique. Foi assim nos Estados Unidos. Imaginei que Seychelles seguiria exatamente o mesmo roteiro.
Rapaz…
Cheguei ao guichê da imigração e tudo começou exatamente como eu esperava. A agente perguntou o motivo da viagem, quantos dias eu ficaria no país, onde estava hospedado, o endereço do hotel… aquele roteiro de sempre. Depois perguntou qual era a minha profissão no Brasil. Respondi simplesmente:
— Sou programador Python.
Já peguei minha mochila e fiz aquele movimento clássico de quem está indo embora.
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Quem disse.
A entrevista estava só começando.
Ela continuou perguntando sobre a viagem, até que soltou:
— Você tem dinheiro suficiente para se manter em Seychelles?
Respondi tranquilamente que sim.
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Ela então respondeu:
— Então me mostra.
Eu confesso que fiquei alguns segundos processando a informação. Minha primeira reação foi pensar que eu tinha entendido o inglês errado. Não era possível que ela estivesse pedindo para eu provar que tinha dinheiro.Mas era exatamente isso.
Abri a mochila e mostrei os dólares que eu carregava em espécie.Ela olhou e respondeu:
— Isso é pouco.
Na minha cabeça só vinha uma pergunta:
“Gente… quem anda com um bolo de dinheiro vivo em 2026?”
Expliquei que praticamente todas as minhas despesas de viagem eram pagas no cartão de crédito.
Ela perguntou:
— E qual é o limite do seu cartão?
Aí complicou.
Respondi, com toda a sinceridade do mundo, que eu não fazia a menor ideia. Nunca tinha decorado o limite porque simplesmente nunca precisei.
Ela ficou alguns segundos me olhando com uma expressão que parecia dizer:
“Meu Deus… o que eu faço com esse cidadão?”
Depois levantou da cadeira e chamou a SUPERVISORA. Oxi, subiu mais um degrau, a coisa começou a ficar séria.
Nessa hora eu já comecei a imaginar que ia inaugurar a estatística de brasileiros deportados de Seychelles.
A supervisora veio, fez mais algumas perguntas, onde eu ia ficar, se já tinha pago hotel, se já tinha pago o ferry para viajar entre as ilhas, olhou meu passaporte, conferiu que eu tinha passagem de saída, reservas de hospedagem, um transfer já me esperando do lado de fora e dezenas de carimbos de outros países. Ficou analisando. Pediu para ver de novo. Perguntou mais algumas coisas e ficou pensando e me encarando.
Depois de um tempo, devolveu os documentos e disse que eu podia entrar.
Confesso que saí da imigração um pouco sem entender o que tinha acontecido.
Eu já tinha entrado em países bem mais complicados do que Seychelles e nunca tinham me interrogado daquele jeito.
Confesso que foi uma das imigrações mais chatas pelas quais já passei. Na hora até fiquei meio sem entender o motivo de tanta desconfiança. Depois, pensando melhor, lembrei que tinha vivido algo parecido nas Maldivas (confira a história aqui). Lá eles chegaram ao ponto de ligar para o Airbnb onde eu estava hospedado para confirmar que a minha reserva realmente existia antes de me autorizarem a entrar no país.
Mais tarde fui pesquisar na internet e descobri que eu não era exceção. Vários viajantes relatavam experiências muito parecidas em Seychelles. Acho que isso acontece porque o perfil de turista que eles recebem costuma ser bem diferente do meu. O visitante típico chega em um voo vindo da Europa, já comprou um pacote completo, entra em um transfer organizado pelo hotel, passa uma semana dentro de um resort e volta para casa. Eu apareci sozinho, vindo da Etiópia, dizendo que ia pegar ônibus, ferry, Airbnb e sair andando pelo país inteiro. Convenhamos… olhando pela perspectiva deles, eu realmente não parecia o turista padrão de Seychelles. Para ter uma ideia do público que o país costuma atrair, foi justamente em Seychelles que o príncipe William e Kate Middleton passaram a lua de mel.
Outro detalhe também ficava martelando na minha cabeça. Antes da viagem eu tinha assistido a uma reportagem da BBC que me impressionou bastante. O documentário mostrava que cerca de 10% da população economicamente ativa de Seychelles era dependente de heroína, uma das maiores proporções do mundo. A matéria teve enorme repercussão internacional justamente porque quebrava aquela imagem de paraíso perfeito vendida pelos folhetos de turismo.
O próprio governo reconheceu a gravidade do problema e parte da imprensa local discutiu o impacto que aquela exposição poderia ter sobre a reputação do país. No fim, o turismo continuou forte, mas ficou claro que, por trás das praias de areia branca, dos resorts de luxo e das águas azul-turquesa, Seychelles também convive com desafios sociais bastante sérios. Talvez justamente por isso a imigração seja tão criteriosa com quem entra no país. Não posso afirmar que uma coisa esteja ligada à outra, mas, depois daquela entrevista, confesso que essa hipótese passou pela minha cabeça.
Então eles tão arrochando qualquer um que eles tenham suspeita disso. Há um tempo atrás eles chegaram a proibir todo e qualquer cidadão da Nigéria de entrar. Daí chega um doidinho, sul-americano, praticamente vizinho de Pablo Escobar, direto da África, com uma cara de fi duma égua, falando que alugou um Airbnb e que vai pegar um ferry para outra ilha sozinho. Com um passaporte cheio de carimbo (exatamente o que você espera de um traficante de drogas internacional). É óbvio que eles dão uma arrochada. Eles não querem turista desse tipo por lá. Eles querem alguém com euros, muito deles, e não alguém com reais na carteira.
Na verdade, além de europeus tem muitos russos também. Rapaz, nunca vi tantos russos fora da Rússia como vi em Seychelles.
O país africano que parece organizado demais para ser verdade
Seychelles é um arquipélago formado por antigos fragmentos do supercontinente Gondwana, uma cordilheira submersa que permaneceu ligada ao bloco da Índia por milhões de anos antes da separação dos continentes.
A história de Seychelles é relativamente curta quando comparada à de outros países. Diferentemente de Madagascar ou das Comores, o arquipélago permaneceu desabitado até o século XVIII. Embora navegadores árabes e suaílis provavelmente já conhecessem aquelas ilhas por fazerem parte das rotas comerciais do Oceano Índico, não há evidências de que tenham criado povoamentos permanentes. Os primeiros europeus a registrar Seychelles foram os portugueses, durante a viagem de Vasco da Gama à Índia, em 1503. Apesar disso, Portugal nunca se interessou em colonizar o arquipélago. Quem efetivamente tomou posse das ilhas foram os franceses, em 1756, iniciando a colonização com plantações e a chegada de escravizados africanos.
Após as Guerras Napoleônicas, Seychelles passou ao domínio britânico em 1814, permanecendo como colônia até conquistar sua independência em 1976. Ao longo desse período, africanos, franceses, britânicos, indianos e chineses contribuíram para formar a identidade multicultural do país e o crioulo seichelense, hoje a língua mais falada do arquipélago. Depois de um golpe de Estado em 1977 e anos sob um regime de partido único, Seychelles iniciou sua democratização na década de 1990. Atualmente é o país mais rico da África com uma das maiores rendas per capita da África, baseada principalmente no turismo e na pesca, e é reconhecido mundialmente por sua política de preservação ambiental.
Coco de Mer. Maior semente do mundo e símbolo das Seychelles
Atualmente, Seychelles é considerada uma democracia multipartidária, realizando eleições livres desde o início da década de 1990, quando abandonou o regime de partido único. Apesar do tamanho reduzido do país e de algumas críticas relacionadas à concentração de poder e à liberdade de imprensa, o arquipélago é visto como uma das democracias mais estáveis da África. Sua economia depende fortemente do turismo, responsável pela maior parte da entrada de divisas, além da pesca, especialmente do atum, e de serviços financeiros internacionais. Graças a essa combinação, Seychelles possui uma das maiores rendas per capita do continente africano. De modo geral, a população desfruta de um padrão de vida elevado para os padrões africanos, com bons indicadores de educação, saúde e expectativa de vida. Por outro lado, o país enfrenta problemas como o alto custo de vida e a forte dependência do turismo que ficou mais clara quando tudo teve que ficar fechado devido a COVID19.
É realmente impressionante como tudo parece funcionar na ilha.
Uma das coisas que mais me chamou atenção foi a limpeza.
Não era apenas impressão.
O país parece fazer um esforço deliberado para permanecer limpo.
Existem políticas específicas para gerenciamento de resíduos, lixeiras por toda parte e uma preocupação constante com a imagem do arquipélago.
Só para você ter uma ideia, a gente acha que o problema do turismo em lugares como o Rio de Janeiro é a violência, mas a principal queixa de turistas na saída do Rio é sobre limpeza urbana.
Em Seychelles, ela parece tratada como patrimônio nacional.
A mesma sensação aparece quando o assunto é segurança. Me explicaram que as penas para crimes, principalmente contra turistas, são bem pesadas, justamente porque eles querem que seja mantido essa visão de paraíso intocado. Enquanto fiquei nas praias e cidades não encontrei vendedores insistentes. Não encontrei caixas de som tocando música merda no volume máximo. Não encontrei pedintes circulando pelas praias.
A lógica é simples. A economia depende do turismo. A reputação do país vale dinheiro.
Mas nem tudo são flores
Existe um detalhe que quase ninguém comenta.
Seychelles é extremamente montanhosa.
No mapa parece tudo perto.
Na prática…
…você descobre que precisa subir e descer morros o tempo inteiro. Então prepare as suas panturrilhas.
Descobrindo como não falir em Seychelles
Antes de sair do aeroporto, fiz a minha primeira anotação para escrita.
“Caro demais. Meu Deus.”
Era um excelente resumo de Seychelles.
E, sinceramente, eu nem consigo culpar os caras por isso. Estamos falando de um pequeno arquipélago perdido no meio do Oceano Índico, a mais de mil quilômetros do continente africano. A população é pequena, o relevo é bastante montanhoso, há pouca terra disponível para agricultura e praticamente tudo o que os moradores consomem precisa chegar de navio ou de avião. Some a isso uma economia baseada no turismo de alto padrão e fica fácil entender por que os preços são tão salgados. Para você ter uma ideia, quando estive lá, o litro da gasolina custava algo em torno de 2 dólares (10 reais). Se até abastecer um carro é caro, imagine todo o resto. Então não adiantava reclamar. Era aceitar a realidade, engolir o choro e seguir viagem.
O problema é que existe um gasto do qual é praticamente impossível escapar: transporte. Seychelles não tem Uber, Bolt nem nenhum aplicativo semelhante. Você acaba completamente nas mãos dos táxis. Logo na chegada, paguei 50 dólares — cerca de 300 reais — apenas para ir do aeroporto até o Airbnb. Na hora achei um absurdo. Depois descobri que, pelos padrões locais, nem tinha sido uma corrida tão cara assim. Em seguida veio o chip de celular, que também custou uma pequena fortuna. E essa sensação se repetia o tempo todo. Cada compra, por menor que fosse, exigia uma pequena preparação psicológica antes de olhar o preço. Em Seychelles, você aprende muito rapidamente que a paisagem é paradisíaca… e a conta acompanha o cenário.
Antes de sair explorando, resolvi ficar duas noites na ilha principal, Mahe. Fiquei hospedado perto de Beau Vallon, provavelmente a praia mais famosa da ilha. A localização era excelente. Bastava caminhar alguns minutos e eu já estava com o pé na areia.
O dono do Airbnb era uma figura sensacional. Chamava-se Alex e era filho de um alemão com uma seichelense. O resultado era um sujeito que chamava atenção por onde passava. Muito alto, pele clara, traços europeus, mas com aquele jeito tranquilo típico das ilhas. Gente boa demais. Vivia praticamente em função do Airbnb. Em mais de uma ocasião me levou de carro ao supermercado para fazer compras e, quando voltei da ilha de Praslin, fez questão de ir me buscar no porto e me deixar na minha hospedagem seguinte. Foi daqueles anfitriões que fazem a diferença na viagem.
No primeiro dia comecei a perguntar para ele como funcionava o transporte público.
Ele me olhou com uma cara que parecia dizer:
— Mas… por que você quer saber disso?
Ele deu risada e respondeu que não fazia a menor ideia de como o sistema funcionava. Sabia apenas que existia um cartão de transporte, mas que não usava há um bom tempo. Pelo que entendi, nem os hóspedes dele costumavam pegar ônibus. Naquele momento comecei até a achar que a agente da imigração tinha um pouco de razão em desconfiar de mim. Claramente eu não era o tipo de turista que Seychelles estava acostumada a receber.
Então fica a dica para quem pretende economizar. Em Seychelles vale muito a pena comprar o cartão do transporte público. Existem opções de quatro dias, oito dias ou um cartão recarregável, que foi o que eu escolhi. O detalhe é que ele não é vendido em qualquer lugar. Normalmente você encontra em alguns supermercados e pontos específicos da empresa de transporte.
Sendo pobre em Seychelles
Cheguei todo confiante ao supermercado perto da hospedagem e perguntei onde comprava o cartão.
O atendente me olhou como se eu tivesse perguntado onde vendia um foguete para ir à Lua.
Depois respondeu, completamente intrigado:
— Mas… pra que você quer isso? Você é turista.
Expliquei novamente que queria andar de ônibus.
Ele então soltou:
— Cartão de ônibus a gente normalmente vende para trabalhador braçal.
Nessa hora eu comecei a rir.
Os caras realmente não estavam acostumados com um turista tentando economizar uns bons dólares usando transporte público. Mas enfim, consegui meu cartão.
Esperando o busão
Passei dois dias hospedado em Beau Vallon e gostei bastante da região. A praia é bonita, o mar costuma ser calmo e o snorkel ali é realmente muito bom. Dá para entrar na água com uma máscara e poucos minutos depois já encontrar uma boa quantidade de peixes.
Outra coisa que achei interessante foi um hotel de frente para a praia que alugava cadeiras e funcionava praticamente como um day use, igual aos que existem em muitas praias brasileiras. Você alugava a espreguiçadeira e podia usar os banheiros, os chuveiros e até guardar seus pertences em um armário enquanto estivesse no mar.
Quando vi a estrutura, pensei:
“Pronto. Lá vêm uns 500 reais.”
Nada disso.
Custava cerca de 80 reais.
Rapaz, barato, não Para falar a verdade, já paguei mais do que isso em Porto de Galinhas no carnaval. E correndo o risco de tomar uns tapas se eu reclamasse.
Depois de perder praticamente um dia inteiro aprendendo, da pior forma possível, que nem sempre vale a pena tentar ser o mais esperto da situação, finalmente chegou a hora de conhecer Addis Abeba de verdade. No fim das contas, aquela saga atrás de um chip de celular e de uma Coca-Cola Zero acabou tendo um lado positivo. Passei horas andando sem rumo pela cidade, o que me permitiu observar com calma as ruas, os bairros e o dia a dia dos moradores. Pelo menos na região mais central e urbanizada, Addis Abeba me surpreendeu pela limpeza, pela organização e pela sensação de cidade em pleno crescimento. Era uma capital muito diferente da imagem que eu tinha formado antes da viagem.
No meu segundo dia, resolvi contratar um guia que tinha sido recomendado pelo meu amigo meu que eu iria visitar. Meu amigo fez questão de destacar duas qualidades: o sujeito conhecia muito bem a história da Etiópia e, principalmente, falava um excelente inglês.
O Gashaw passou para me buscar no hotel logo cedo. Assim que ele começou a falar, eu já senti um alívio enorme. Eu entendia absolutamente tudo o que ele dizia. Não havia aquele sotaque carregado ou aquele inglês truncado que faz você passar o passeio inteiro fingindo que entendeu metade da conversa. Depois perguntei onde ele tinha aprendido a falar tão bem. A resposta veio com a maior naturalidade do mundo: ele era formado em Literatura Inglesa. Aí fez sentido. Dali em diante, o passeio virou praticamente uma conversa entre dois amigos. Além de conhecer muito da história da Etiópia, o Gashaw era um sujeito extremamente simpático o que deixou o dia muito mais agradável.
A primeira parada foi a Igreja de São Jorge (ou St. George Cathedral), um dos templos mais importantes da Igreja Ortodoxa Etíope. Construída no fim do século XIX para celebrar a vitória etíope na Batalha de Adwa, quando o exército do imperador Menelik II derrotou as tropas italianas e garantiu a independência do país, a igreja se tornou um dos maiores símbolos do orgulho nacional etíope. No complexo também estão os túmulos de Menelik II e de sua esposa, a imperatriz Taitu Betul, duas das figuras mais importantes da história moderna da Etiópia. Além de seu enorme significado histórico e religioso, a igreja é conhecida por sua arquitetura octogonal e por abrigar um pequeno museu com objetos ligados à monarquia e à tradição ortodoxa do país.
O mais legal é que a visita ao interior da igreja não é feita por um guia turístico qualquer, mas por um diácono da própria Igreja Ortodoxa Etíope. Enquanto caminhávamos pelo templo, ele ia explicando a história da igreja, o significado das pinturas, dos ícones e das cerimônias religiosas. O único problema era um pequeno detalhe: se eu entendi uns 10% do inglês dele, foi muito. Tinha momentos em que eu sinceramente não sabia se ele estava falando inglês ou se já tinha mudado para o amárico no meio da frase. Ainda assim, mesmo sem compreender tudo, a experiência valeu muito a pena.
Foi ali que tive meu primeiro contato de verdade com o cristianismo etíope. Até então eu conhecia a Igreja Ortodoxa Etíope apenas pelos livros, mas vê-la funcionando na prática foi muito interessante. O que mais me chamou a atenção foi como, apesar de terem seguido caminhos diferentes há muitos séculos, ela continua sendo muito mais parecida com o catolicismo romano do que eu imaginava. Os vitrais e pinturas mostravam São Jorge, o anjo Gabriel, a Virgem Maria, a Santíssima Trindade e diversas outras figuras que qualquer católico reconheceria imediatamente.
Pode parecer um detalhe pequeno, mas para quem cresceu no Brasil isso chama atenção. Em boa parte das igrejas protestantes brasileiras, por exemplo, esse tipo de representação não é permitido.
Mas o momento mais marcante da visita veio quando o diácono caminhou até um dos cantos da igreja, levantou um tapete e revelou uma pesada porta de ferro embutida no chão. Parecia cena de filme de aventura. Ele abriu a porta e apareceu uma escada estreita descendo para uma passagem subterrânea que levava aos fundos da igreja. Naquele instante, tive a sensação de estar entrando em um daqueles antigos mosteiros medievais cheios de passagens secretas e histórias escondidas. Só aquela cena já fez a visita valer a pena.
Cara, a porta era tão pesada que três homens precisaram fazer força juntos para levantá-la. Era uma chapa de ferro enorme, daquelas que passam a impressão de que foram feitas para resistir a qualquer coisa. Não duvido nem um pouco que aquele compartimento suportasse até um bombardeio. Era só torcer para não ter uma pedra gigante rolando ladeira abaixo.
Assim que descemos a escada, chegamos a uma espécie de cripta, onde estão os túmulos do imperador Menelik II e de sua esposa, a imperatriz Taitu Betul, instalados em dois mausoléus monumentais, ricamente ornamentados. O ambiente era escuro, silencioso e transmitia uma sensação de enorme solenidade. Tudo era muito luxuoso, muito nobre, muito da realeza. Os tapetes, as pinturas, a decoração… Enquanto caminhávamos pelo local, o diácono continuava explicando cada detalhe da sacristia, apontando objetos religiosos, pinturas e símbolos da tradição ortodoxa etíope. O problema é que, naquele ponto da visita, eu já tinha desistido completamente de tentar entender o inglês dele. De vez em quando eu ainda fazia um esforço, mas logo percebia que estava mais perdido do que chinelo em enchente.. Passei a simplesmente observar o lugar e deixar a vida me levar. Antes de irmos embora, o diácono fez questão de nos mostrar uma pintura que, segundo a tradição local, teria sido feita por Michelangelo. A história é fascinante, embora a maioria dos historiadores considere essa atribuição extremamente improvável e não haja provas que confirmem que a obra seja realmente do mestre renascentista. Ainda assim, verdadeira ou não, foi uma daquelas histórias que tornam uma visita muito mais interessante.
Subindo mais alto que o Pico da Neblina sem sair do carro – O lugar onde os etíopes treinam para dominar as maratonas
Depois da visita à igreja, voltamos para o carro e seguimos para o Parque Entoto, onde fica um dos mirantes mais famosos de Addis Abeba. A princípio, eu achei que não haveria tanta diferença. Afinal, a capital da Etiópia já está a cerca de 2.400 a 2.500 metros de altitude. Subir mais algumas centenas de metros não parecia algo tão significativo. Mas bastou olhar as placas para perceber a dimensão da coisa. Em poucos minutos de carro, chegamos a aproximadamente 3.100 metros acima do nível do mar. Para ter uma ideia, eu estava a uma altitude superior ao Pico da Neblina, o ponto mais alto do Brasil, que nem chega aos 3.000 metros. Era uma sensação curiosa pensar que eu tinha alcançado aquela altura simplesmente sentado no banco de um carro.
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O Gashaw aproveitou o caminho para explicar que a altitude é justamente um dos grandes segredos do sucesso dos corredores etíopes nas provas de longa distância. Muitos atletas de elite treinam na região do Entoto para aproveitar o ar mais rarefeito. Como há menos oxigênio disponível, o organismo é obrigado a produzir mais glóbulos vermelhos para transportar oxigênio pelo corpo. Depois, quando esses atletas competem em cidades ao nível do mar, onde o ar é muito mais rico em oxigênio, acabam levando uma vantagem fisiológica importante.
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Não é por acaso que a Etiópia produziu alguns dos maiores fundistas da história, como Abebe Bikila (que ganhou duas medalhas de ouro. A primeira correndo DESCALÇO em Roma), Haile Gebrselassie, Kenenisa Bekele e Tirunesh Dibaba. Para eles, subir correndo uma montanha a mais de três mil metros de altitude faz parte da rotina de treinamento.
O mirante em si é espetacular. Infelizmente, no dia da minha visita, o tempo estava bastante nublado e a vista de Addis Abeba não apareceu com toda a grandiosidade que eu imaginava. Ainda assim, o passeio valeu muito a pena. Além da paisagem, o parque é coberto por extensas florestas de eucalipto, uma árvore que, curiosamente, nem é nativa da Etiópia. O Gashaw me explicou que ela foi introduzida no fim do século XIX pelo imperador Menelik II. Na época, Addis Abeba crescia rapidamente e a população já havia praticamente esgotado a madeira das florestas nativas para construção e produção de carvão. Como o eucalipto cresce muito depressa, ele acabou sendo escolhido para reflorestar a região e, desde então, passou a fazer parte da paisagem da cidade.
Como o corte das árvores é proibido, surgiu uma atividade bastante curiosa. Existe uma associação de mulheres que percorre diariamente o parque recolhendo apenas folhas, galhos secos e madeira caída naturalmente. Depois, elas carregam enormes fardos nas costas morro abaixo para vender como lenha nos mercados de Addis Abeba. Confesso que foi uma das cenas que mais me marcou durante a viagem. Eram senhoras já de idade, muitas delas bem pequenas fisicamente, transportando cargas que pareciam pesar quase tanto quanto elas próprias.
Folhas para serem vendidas
É um trabalho extremamente pesado e, pelo que pude perceber, muito mal remunerado. Foi um daqueles momentos em que a beleza da paisagem e a dureza da realidade conviviam lado a lado, lembrando que a Etiópia moderna que tanto me impressionou ainda enfrenta enormes desafios sociais.
Injera, Mercato e o primeiro picolé maranhense da Etiópia
Depois seguimos para um dos restaurantes mais tradicionais de Addis Abeba, o Addis Ababa Restaurant. O restaurante funciona em um casarão histórico construído pelo imperador Menelik II, que foi dado de presente à sua filha, a futura imperatriz Zewditu, quando ela se casou com Dejazmach Wube. Só o prédio já vale a visita. É daqueles lugares em que você tem a sensação de estar entrando em um pedaço da história da Etiópia. Logo na entrada, outra tradição chama a atenção: a cerimônia do café. Uma funcionária coloca carvão em um pequeno fogareiro, torra os grãos de café na hora, mói tudo manualmente e prepara a bebida em uma jarra de barro chamada jebena. No meio tem uns incensos para deixar mais cheiroso. O cheiro do café recém-torrado toma conta do ambiente e, para os etíopes, esse ritual é muito mais do que preparar uma bebida. É uma forma de receber bem os convidados, conversar e celebrar a convivência. Como eu não tomo café, fiquei apenas observando, mas achei muito interessante ver uma tradição tão antiga ainda fazendo parte do cotidiano do país.
Foi ali também que experimentei o prato mais famoso da culinária etíope: a injera. Na verdade, a injera é aquele enorme pão achatado e esponjoso que serve ao mesmo tempo de prato, talher e acompanhamento. Ela é feita de teff, um cereal originário da Etiópia cultivado na região há milhares de anos. Sobre esse pão são colocados vários ensopados, legumes e molhos, cada um com um sabor completamente diferente. Não existe garfo nem faca. Você rasga um pedaço da injera com a mão e o usa para pegar a comida.
A famosa Injera
E, cara… que negócio bom. A injera tem um sabor levemente azedo, resultado da fermentação da massa, que combina perfeitamente com os ensopados bem temperados. Cada pedaço que você rasga acaba trazendo um molho diferente, então praticamente nenhuma mordida é igual à outra. Depois daquele almoço, eu só pensava em uma coisa: comer injera de novo. Se dependesse de mim, teria almoçado e jantado aquilo todos os dias até ir embora de Addis Abeba.
Me ofereceram um suco de abacate por aquelas bandas também. Sim, é tão ruim e intragável quanto parece
De lá seguimos para o Mercato, considerado um dos maiores mercados a céu aberto da África. Durante décadas, ele foi o principal centro comercial de Addis Abeba e até hoje reúne milhares de comerciantes vendendo praticamente de tudo: frutas, temperos, roupas, ferramentas, eletrônicos, artesanato, peças de carro e mercadorias vindas de todas as regiões da Etiópia. O lugar é importante não apenas pelo tamanho, mas porque continua sendo o coração do comércio popular da cidade. É daqueles lugares onde você consegue entender muito mais sobre a vida de um país do que passeando apenas pelos cartões-postais.
Antes mesmo da viagem, muita gente tinha me dito para não visitar o Mercato sozinho. O próprio Gashaw reforçou essa recomendação. Ele falou que não aconselhava nem mesmo etíopes que não conhecessem bem a região a andarem por lá desacompanhados. O problema não era exatamente violência, mas o tamanho do mercado, a quantidade de gente, o risco de furtos e a facilidade de se perder naquele verdadeiro labirinto de ruas e barracas.
Confesso que, por mais que o Gashaw tentasse me passar tranquilidade, eu não consegui relaxar completamente. Cara… é gente para todos os lados. Muita gritaria, vendedores chamando clientes, carrinhos passando espremidos entre as pessoas, ruas estreitas e uma movimentação praticamente ininterrupta. Era aquele tipo de lugar em que você instintivamente coloca a mão no bolso de cinco em cinco minutos para conferir se carteira e celular continuam ali. No fim das contas, gostei bastante da experiência. Foi um dos lugares mais autênticos que visitei em Addis Abeba, mas passei boa parte do tempo em estado de alerta.
Depois de horas andando pelo mercado, o Gashaw me deixou no hotel para descansar. Pelo menos essa era a ideia dele.
Porque, sinceramente, eu não sei descansar quando estou viajando.
Sempre fico com a sensação de que, se eu passar duas horas deitado no quarto, vou perder alguma coisa incrível acontecendo do lado de fora. É quase uma ansiedade de viajante. Eu olho pela janela, vejo a cidade ali me esperando e começo a pensar: “Já descansei o suficiente.” No fim, quase sempre acabo saindo de novo. Afinal, dá para dormir quando voltar para casa. Viajar, não.
Não deu nem meia hora.
Quando percebi, já estava saindo do hotel de novo.
Descansar definitivamente não é o meu forte quando estou viajando. Então pedi outro Yango e saí para conhecer Addis Abeba à noite.
E, cara… não me arrependi nem um pouco.
Addis Abeba fica linda depois que escurece. Os prédios iluminados, o movimento nas ruas e o clima frio dão à cidade uma atmosfera completamente diferente da que eu tinha visto durante o dia.
Alguém tinha me dado a dica de visitar o Friendship Park, onde acontece um show de luzes todas as noites. Lá fui eu, mais uma vez, dentro de um Yango.
Antes mesmo de entrar no parque aconteceu uma das cenas mais curiosas da viagem.
Um morador de rua veio me pedir dinheiro.
Em inglês.
Tudo bem, ele não começou a recitar Shakespeare nem nada do tipo, mas conseguiu manter uma conversa básica comigo, explicou a situação dele e pediu ajuda. Foi mais uma confirmação daquilo que já vinha me impressionando desde que cheguei ao país: na Etiópia praticamente todo mundo consegue falar pelo menos um pouco de inglês. Como falei, até então, a única vez que eu tinha vivido algo parecido tinha sido na Eslovênia. É uma daquelas coisas que só viajando para acreditar.
Entrei no parque e fui assistir ao famoso show de luzes.
Cara…
Muito legal.
Mas muito legal mesmo.
Jatos d’água, projeções, música e um espetáculo visual muito bem produzido. Na hora me lembrei de um show semelhante que eu tinha assistido anos antes, em Jacarta, na Indonésia. Não era exatamente igual, mas me trouxe aquela mesma sensação de estar vendo uma cidade investir em espaços públicos que realmente valem a visita.
Quando o espetáculo terminou, ainda não era hora de voltar para o hotel.
Resolvi caminhar mais um pouco pela cidade para conhecer o Commercial Bank of Ethiopia Headquarters, o prédio mais alto da Etiópia. À noite, todo iluminado, ele domina completamente o horizonte de Addis Abeba. Confesso que me lembrou bastante os arranha-céus iluminados que vi em Baku, no Azerbaijão. É curioso como uma cidade que tanta gente ainda associa apenas à pobreza hoje possui um skyline cada vez mais moderno.
Só que uma hora a realidade bateu.
Já era tarde da noite.
A temperatura despencava rapidamente.
E, a mais de 2.400 metros de altitude, o frio parecia atravessar o casaco e chegar direto nos ossos.
Achei melhor encerrar o passeio antes que eu me transformasse no primeiro picolé maranhense da história da Etiópia.
Meu grande encontro com Lucy durou até eu fazer uma pergunta
No outro dia finalmente chegou o momento que eu mais aguardava desde que comecei a planejar essa viagem: conhecer Lucy, um dos fósseis mais importantes da história da humanidade. Para quem nunca ouviu falar dela, Lucy é o esqueleto parcial de uma fêmea da espécie Australopithecus afarensis, que viveu há cerca de 3,2 milhões de anos. Seus restos foram encontrados em 1974, na Etiópia, e revolucionaram o estudo da evolução humana ao mostrar que nossos ancestrais já caminhavam sobre duas pernas muito antes de desenvolverem cérebros grandes. Não é exagero dizer que ela ajudou a mudar a forma como entendemos a própria origem da humanidade.
Fazia anos que eu queria conhecer Lucy. Sempre gostei desses temas ligados à evolução humana e à pré-história, então entrar naquele museu era quase como realizar um pequeno sonho de infância. Quando finalmente cheguei à vitrine onde ela estava exposta, fiquei vários minutos parado observando cada detalhe. Olhava para aqueles ossinhos tentando imaginar que aquele ser havia caminhado pela Terra milhões de anos antes de qualquer civilização existir. Era uma sensação difícil de explicar.
Até que resolvi fazer uma pergunta ao ChatGPT sobre um detalhe específico da ossada.
Foi um erro.
O ChatGPT resolveu destruir meus sonhos tão mesquinhos sem a menor cerimônia.
Descobri que os ossos que estavam na vitrine não eram os originais.
Aquilo que eu estava admirando era uma réplica em resina.
Na hora bateu uma pequena decepção.
Pô, réplica em resina eu podia ver em São Luís!
Depois fui entender o motivo. Os verdadeiros restos de Lucy são valiosos demais para ficarem permanentemente expostos ao público. Eles permanecem guardados em um ambiente climatizado, sob rigoroso controle de temperatura e umidade, sendo disponibilizados apenas para pesquisadores e estudos científicos. O que os visitantes veem no museu é uma reprodução extremamente fiel, feita justamente para preservar um dos fósseis mais importantes já encontrados.
Confesso que fiquei um pouco triste quando descobri isso. Por alguns minutos senti que tinham roubado um pedacinho da experiência. Mas, pensando melhor, acho que essa é mesmo a decisão mais sensata. Estamos falando de um patrimônio científico insubstituível. Não dá para deixar ali ao alcance de algum maluco para um acidente ou até a deterioração natural causada pela exposição para colocar em risco algo que pertence, de certa forma, a toda a humanidade.
E, para ser sincero, a réplica era tão bem feita que, se eu não tivesse perguntado ao ChatGPT, provavelmente teria saído do museu acreditando que tinha visto os ossos originais.
Eu e a resina dos restos mortais da mãe da humanidade
Do fóssil de 3 milhões de anos ao bife que nem passou pela frigideira
Só sei que saí do museu com um sentimento meio agridoce. Não por causa da Lucy, mas pelo próprio museu. Pô… era o Museu Nacional da Etiópia. Estamos falando de um dos países historicamente mais importantes da África, berço de uma das civilizações mais antigas do mundo e guardião de um dos fósseis mais famosos da humanidade. Eu imaginava um museu enorme, com dezenas de salas, exposições grandiosas e um acervo gigantesco. Na prática, achei o espaço bem pequeno. São poucos andares e a visita acaba muito mais rápido do que eu esperava. Claro que existem peças interessantes e a própria Lucy já faz o ingresso valer a pena, mas confesso que eu esperava muito mais de um museu nacional de um país como a Etiópia, com tanta história para contar.
Depois da visita, saí para almoçar. E, obviamente, fui repetir o prato que tinha conquistado meu coração desde o primeiro dia: injera com algum dos inúmeros ensopados etíopes. Se uma coisa funciona, não há motivo para inventar moda.
Enquanto esperava a comida, porém, uma cena chamou completamente minha atenção.
Na mesa ao lado havia um grupo de senhores muito bem vestidos, todos de paletó, com aquela cara de empresários ou autoridades. De repente, os pratos chegaram.
E eles começaram a comer… carne de boi crua.
Mas não era um carpaccio, cortado em fatias fininhas e temperado. Também não era um tartare.
Era carne crua mesmo.
Daquelas que, se você colocasse em uma bandejinha de isopor e envolvesse com plástico-filme, eu juraria que tinha acabado de sair da seção de açougue do supermercado.
Aquele prato tradicional etíope se chama tere siga. Consiste em cubos ou tiras de carne bovina crua, normalmente servidos com pimenta, mostarda e temperos locais. Para os etíopes, é uma iguaria bastante apreciada, especialmente em ocasiões especiais e comemorações.
Eu olhava para eles completamente intrigado.
Eles comiam com a maior naturalidade do mundo, enquanto eu tentava convencer meu cérebro de que aquilo era apenas uma diferença cultural.
Não consegui.
Confesso que comecei a sentir aquele inconfundível cheiro de açougue invadindo o restaurante e meu estômago imediatamente avisou que seria melhor manter uma distância respeitosa daquela experiência gastronômica.
A injera eu adorei.
O tere siga… acho que vou deixar para a próxima encarnação.
Enfim, cada cultura tem suas tradições culinárias. Algumas a gente experimenta com prazer. Outras a gente admira de longe. E está tudo bem.
Haile Selassie, rastafáris e uma história difícil de inventar – Como um imperador etíope virou Deus na Jamaica
Saí do almoço e segui para o Museu Etnológico da Etiópia. Confesso que ele nem fazia muita parte dos meus planos. Museus de etnologia normalmente não estão entre os meus favoritos e eu imaginava encontrar apenas uma sequência de vitrines com roupas tradicionais, utensílios antigos e objetos do cotidiano. Mas praticamente todo mundo que eu pesquisava fazia questão de recomendar a visita. Como eu também não tinha nenhum outro compromisso para aquela tarde, resolvi dar uma chance.
Ainda bem que fui.
Logo na chegada entendi por que o lugar é tão especial. O museu funciona no antigo Palácio de Haile Selassie, hoje localizado dentro do campus da Universidade de Addis Abeba. Antes mesmo de olhar qualquer exposição, o próprio prédio já vale a visita. Caminhar pelos corredores, conhecer os antigos aposentos da família imperial e imaginar que aquele foi, durante décadas, o centro do poder da Etiópia dá uma dimensão completamente diferente da história do país.
Foi ali também que percebi que os dois principais museus de Addis Abeba acabam se complementando. O Museu Nacional é mais voltado para a história natural, a arqueologia e, claro, para a Lucy. Já o Museu Etnológico mergulha na formação do povo etíope, nas diferentes etnias, religiões, tradições e na própria história política do país. No fim das contas, se eu tivesse tempo para visitar apenas um dos dois, acho que escolheria justamente o Museu Etnológico. Saí de lá com a sensação de que entendi muito melhor a Etiópia do que quando entrei.
Uma das exposições que mais me chamou a atenção foi a dedicada ao movimento Rastafári. Foi ali que finalmente entendi por que tanta gente associa a Jamaica à Etiópia. O movimento surgiu na Jamaica na década de 1930, inspirado pelas ideias do líder negro Marcus Garvey, e passou a enxergar a Etiópia como a terra prometida para os descendentes de africanos espalhados pelo mundo. Nesse contexto, Haile Selassie deixou de ser apenas o imperador da Etiópia e passou a ser venerado pelos rastafáris como a encarnação de Deus, ou Jah.
O mais curioso é que o próprio Haile Selassie nunca aceitou essa condição divina. Pelo contrário, sempre afirmou ser apenas um homem. Ainda assim, mantinha uma boa relação com o movimento, principalmente por enxergar nele um aliado na valorização da identidade africana e do pan-africanismo. Em 1948, por exemplo, doou terras na região de Shashamane para que afrodescendentes da diáspora que desejassem retornar ao continente africano pudessem se estabelecer na Etiópia.
O grande imperador Haile Selassie
Mas a impressão que tive ao ler os painéis do museu é que o imperador encarava toda essa devoção com uma certa perplexidade. Parecia respeitar os rastafáris e reconhecer sua importância política e cultural, mas não dava muito crédito ao que parecia um bando de maluco vindo do outro lado do continente dizendo que ele era deus. Pelo menos essa foi minha interpretação.
Por fim, fui conhecer a Catedral da Santíssima Trindade, considerada a igreja mais importante de Addis Abeba e a segunda mais sagrada da Igreja Ortodoxa Etíope, atrás apenas da Catedral de Nossa Senhora de Sião, em Axum. Construída durante a ocupação italiana e concluída após a libertação do país, ela acabou se tornando um símbolo da resistência etíope e da recuperação da independência nacional. Além de sua importância religiosa, a catedral abriga os túmulos do imperador Haile Selassie e de sua esposa, a imperatriz Menen Asfaw, além de outras figuras importantes da história do país.
Foi um dos lugares de que mais gostei em Addis Abeba. A arquitetura é belíssima, os vitrais deixam a luz entrar de um jeito muito bonito e existe uma atmosfera de paz difícil de explicar. É aquele tipo de lugar em que você simplesmente senta em um banco e fica observando o movimento, sem pressa para ir embora.
Na verdade, gostei tanto de ficar ali que acabei passando um pouco da conta.
Em determinado momento, um senhor que parecia ser o padre ou o responsável pela catedral veio falar comigo. Na minha cabeça, eu já imaginei que ele iria contar mais alguma curiosidade sobre a igreja. Nada disso. Ele apenas me informou, com toda a educação do mundo, que o horário de visitação havia terminado e que eu precisava me retirar.
Então tá bom.
Tecnicamente, fui expulso da Catedral da Santíssima Trindade. kkk
Tudo bem… talvez “expulso” seja um pequeno exagero da minha parte. Digamos apenas que fui gentilmente convidado a ir embora porque fiquei bem mais do que podia e devia lá dentro.
O lugar que eu mais queria conhecer… e achei melhor não arriscar
Infelizmente chegou a hora de me despedir da Etiópia. E a sensação que ficou foi a de que três dias eram muito pouco para um país com tanta história. Consegui conhecer bem Addis Abeba, mas tive que deixar muita coisa de fora. A primeira delas foi o Mosteiro de Debre Libanos, um dos mais importantes centros religiosos da Igreja Ortodoxa Etíope. Fundado no século XIII por São Tekle Haymanot, o mosteiro é um dos principais destinos de peregrinação do país e fica próximo à famosa Ponte Portuguesa e ao desfiladeiro do Rio Jemma. O problema é que ele fica a cerca de duas horas e meia de carro da capital. Somando ida, volta e visita, praticamente consumiria um dia inteiro da viagem. Com o tempo que eu tinha disponível, simplesmente não fechava a conta.
Mas a maior frustração foi outra.
Desde que comecei a planejar essa viagem, o lugar que eu mais sonhava conhecer era Lalibela. Considerada por muitos o maior tesouro histórico da Etiópia, a cidade é famosa por suas onze igrejas escavadas diretamente na rocha entre os séculos XII e XIII. Em vez de serem construídas para cima, como acontece normalmente, elas foram literalmente escavadas para baixo, formando um conjunto arquitetônico único no mundo e reconhecido como Patrimônio Mundial da UNESCO.
Infelizmente, a região de Lalibela vinha enfrentando episódios de conflito armado e instabilidade nos últimos anos. Apesar de a situação oscilar bastante, achei que simplesmente não valia a pena correr o risco.
Afinal, eu tenho um filho pequeno e não posso morrer agora.
Talvez quando ele ficar velho e não quiser mais saber de mim, tudo bem, eu posso morrer. Mas por agora eu não tenho essa escolha
Eu sou muito sensível à altitude. Em Machu Picchu, por exemplo, passei muito mal e quase não conseguia aproveitar o passeio. Em Addis Abeba, que está a cerca de 2.400 metros acima do nível do mar, começou a acontecer algo parecido. Meu estômago simplesmente parou de funcionar direito. Não cheguei ao ponto de passar tão mal quanto no Peru, mas já dava para perceber que meu corpo estava reclamando.
Para piorar, todo mundo dizia que não era necessário reservar um hotel com ar-condicionado porque Addis Abeba é uma cidade fria. E isso é verdade… até certo ponto. Realmente não faz calor, principalmente à noite. O problema é que o ar-condicionado não serve apenas para esfriar o ambiente. Ele também mantém a temperatura estável e permite dormir com as janelas fechadas. Como o meu quarto não tinha ar-condicionado, precisei deixá-las abertas durante a noite. Resultado: barulho de carros, cachorros, gente conversando e tudo o que acontecia na rua acabava entrando no quarto.
Mas acho que o pior nem foi isso.
Foi a altitude.
O ar um pouco mais rarefeito fazia com que eu nunca conseguisse entrar naquele sono realmente profundo. Eu acordava várias vezes durante a noite e, no dia seguinte, parecia que tinha dormido apenas algumas horas. Depois de três dias nesse ritmo, eu já estava completamente esgotado.
Quando cheguei ao aeroporto para seguir viagem, já estava preocupado. Meu estômago continuava estranho, eu me sentia extremamente cansado e comecei a cogitar que talvez tivesse comido alguma coisa estragada.
Felizmente, não era nada disso.
Foi só desembarcar no próximo destino, Seychelles, ao nível do mar, para tudo voltar ao normal. Meu estômago melhorou, a disposição voltou e a sensação de mal-estar simplesmente desapareceu. Era como se meu corpo tivesse dito: “Agora sim.”