Perambulando pelo Egito – parte 2

Bem, antes de começar esse post eu gostaria de falar com vocês aqui. Não é de hoje que mais uma vez eu atrasei, e MUITO, um post. Realmente isso vem ocorrendo com uma freqüência maior do que eu gostaria e vi que tem uma galera aqui que fica insatisfeita. Bem, eu dou razão a vocês. As postagens aqui estão ficando cada dia mais raras, mas infelizmente isso deve continuar ocorrendo. Gente, a minha vida tá muito atribulada, tou viajando bastante tanto por conta do trabalho, quanto por conta própria mesmo e, infelizmente, acaba sobrando pro blog que fica cada dia com menos postagem. Antes, quando eu não trabalhava, realmente tava dando pra conciliar legal o blog com minhas outras atividades, mas o problema é que por agora tá ficando complicado. Até porque da um trabalho danado escrever um post. Se for pra escrever, quero fazer bem feito, se for pra fazer ruim prefiro nem escrever. Vou tentar ao máximo diminuir os atrasos, mas alguns ainda devem ocorrer. Conto com a compreensão de vocês.

Velha Cairo
É interessante que todos esses protestos no mundo árabe estejam ocorrendo justamente quando estou começando a escrever sobre como foi a segunda parte da minha viagem pelo Oriente Médio. Pra quem mora dentro de um buraco e não sabe do que estou falando, o mundo árabe, os vários países que possuem maioria árabe, estão enfrentando uma onda de protestos depois que o ditador da Tunísia caiu. Tudo começou quando Mohamed Bouazizi, um feirante da Tunísia, ateou fogo ao seu próprio corpo em protesto por ter seus bens confiscados por policiais. Tal ato de protesto e desespero foi o estopim para que milhões de tunisianos, cansados de viverem sobre uma ditadura fratricida durante mais de vinte anos, fossem protestar por melhores condições de vida e contra o ditador. Os protestos foram tomando proporções absurdas. Acabou que no final o ditador da Tunísia não agüentou e deixou o cargo. Os egípcios, seguindo o exemplo dos tunisianos, acharam que seria uma boa idéia fazerem o mesmo e após algumas semanas de pesados protestos na praça Tahrir, mais um ditador, Mubarak, perdeu o poder. Aí cumpade, aí foi tudo como um dominó. A bola da vez agora é a Líbia e o Bahrein, que uma hora ou outra também vão perder os seus ditadores e influenciar outros países árabes que vivem sobre uma realidade semelhante e opressora e assim a “Primavera Árabe” vai caminhando. E tudo isso por causa do desespero de um pobre feirante tunisiano. Quem quiser mais informações de como tudo está acontecendo, favor clicar no item aqui. Acho engraçado que durante a minha visita às pirâmides, tinham acabado de terminar as eleições norte-americanas e Obama tinha sido eleito com toda aquela esperança de mudança que ele carregava. Foi um momento todo interessante, onde todos nós estávamos cheios de esperança de mudança, que Obama seria melhor para o Brasil, para isso e para aquilo, parecia até que a eleição era pra presidente mundial e não dos Estados Unidos. No Egito não foi diferente. Lembro de um vendedor de bugigangas que conversava comigo na pirâmide e falava que o Obama seria muito bom pro Egito. Que com a eleição dele tudo iria mudar. Não sabia ele que estava fazendo uma das mais certeiras previsões que eu já vira na política internacional. Tudo mudou no Egito, mas não foi por causa do Obama, foi por causa deles mesmos (tá, eu sei que ficou meio “Paulo Coelho” essa passagem, mas vocês entenderam)
Crianças em Cairo

Após visitar as pirâmides, aproveitei pra poder dar uma volta pela cidade do Cairo. Como já havia falado antes, Cairo vai muito além das pirâmides. As minaretes, a “Velha Cairo”, todos são lugares fantásticos de serem visitados. A sensação que dá é que você está caminhando por ruas da Idade Média, principalmente quando visita as ruas do mercado da cidade. No meio da cidade ainda conheci um árabe que era formado em geografia e começou a me apresentar a cidade. Como eu tava com medo do bicho ser guia e depois fazer confusão pra eu pagar a ele uma grana, acabei dando um perdido e não sei até hoje se o cara era gente boa ou não! Maldita Índia que me deixou extremamente desconfiado com pessoas na rua.
Portao do mercado de Cairo construido no seculo VIII

O Museu do Cairo é um espetáculo, ou era, já que fica em frente a praça onde ocorreram a maioria dos protestos e foi seriamente danificado. É lá que fica a mais do que famosa máscara mortuária de Tutancâmon. O museu é GIGANTESCO e você passa horas lá dentro lendo e aprendendo sobre a sociedade egípcia de milhares de anos atrás. Uma das várias curiosidades é que os egípcios acreditavam em vida após a morte e por isso se preocupavam tanto com mumificação. Para os faraós eram elaboradas máscaras mortuárias para que assim, quando a alma fosse retornar, reconhecesse mais facilmente o corpo a que pertencia. Para ajudar na longa viagem também eram mumificados alimentos e outros víveres. Isso foi de grande valia, não porque as almas realmente voltaram, mas porque devido a essa preocupação em mumificar alimentos e separar vários objetos pessoais e colocá-los no túmulo, hoje se sabe bastante sobre como eram os hábitos e os alimentos consumidos durante o período dos faraós. Além de que, caso o arqueólogo chegasse com uma fome danada na tumba, tava ali uma costela fresquinha pra ele fazer um churrasco. Não só pessoas eram mumificadas, animais também obtiveram essa “honra”, como pode ser visto no próprio museu.

Depois da visita ao museu, segui para casa do Mr. French e comecei a planejar minha viagem para Israel. Engraçado que chegando lá ele tava hospedando duas chilenas, que não falavam inglês, e ele não falava espanhol. Sobrou pra mim atuar como tradutor.
Vai um pedaco de costela mumificada ai?

Meu busão pra fronteira com Israel era pela madrugada. Mr. French me falou de um taxista que ele conhecia que era gente boa e que poderia me levar. Ligou pro bicho e ele foi me buscar pela madrugada. Cara, acho que de todos os taxistas que eu tive que lidar, esse foi o único que eu realmente gostei. Ele era bem gente boa. Era engenheiro eletricista, tinha três filhos e pela noite trabalhava como taxista pra poder complementar a renda. Deu-me uma dor no coração conversar com aquele cara. Ele era mais uma de uma geração de egípcios que nasceram sob o regime de Mubarak e, apesar de estudarem bastante, não conseguiam uma vida digna. Ele até me perguntou o que eu fazia no Egito, se eu tava lá pra estudar ou trabalhando. Respondi que estava só viajando mesmo e ele ficou um tanto quanto assustado. “Mas você viaja por viajar?” – ele me perguntou. Cara, fiquei sem graça quando ele falou isso. O bicho lá trabalhando de manhã, de tarde e de noite pra dar comida pros filhos dele e eu só viajando. Ele e o outro formado em Geografia devem ter sido um dos muitos egípcios que tavam tacando pedra lá na praça Tahrir protestando contra Mubarak.
Peguei meu busão e segui pra fronteira com Israel.
Fala serio, todo mundo tem uma foto dessa com um Rayban!! Essa eu tirei na fronteira com Israel!
P.s: Tou no em Recife agora, durante o carnaval postando o blog. E’ complicado, isso aqui e’ um vicio!!!

Perambulando pelo Egito

Apesar de em Cairo haver pouquíssimas pessoas que podiam falar inglês, trafegar por lá era relativamente fácil. Como falei no post passado, a cidade tem um metrô (e caso você se perca nas estações nele, basta ler o post passado pra poder saber o que acontece) e, além disso, os taxistas (que por sinal cobram muito barato devido ao baixo preço do petróleo) entendem um pouco de inglês, pelo menos os números (o que dá pra você combinar o preço antes de entrar no táxi) e o lugar pra onde você está indo. Bem, isso era no geral, mas caso você pegasse um busão errado ou começasse a caminhar e não conseguisse voltar ao metrô, aí amigo, aí você tava era enrascado. Porque até você achar alguém que realmente falava inglês naquele mundaréu de árabe era complicado.
Metrô em Cairo

Aconteceu isso comigo uma vez, saí de casa e fui procurar a estação de metrô pra poder ir até as pirâmides. No meio das ruelas acabei me perdendo e no final não sabia pra que lado ir. Rapaz, e como deu trabalho pra poder achar essa estação de metrô. Como falei, as pessoas não entendiam nada de inglês e placas eram praticamente inexistentes. Acabou que eu saí de um lado pro outro tentando gesticular pras pessoas o que seria um metrô e nada de conseguir. No final eu olhei uma mulher loira na porta de um açougue conversando com o pessoal lá dentro. Bem, loira não podia ser outra, ou era gringa ou era parente de gringo, o que aumentava a possibilidade de poder falar inglês. Quando entrei no açougue, me deu até medo. Moscas voavam por todos os cantos, aquela sujeira, SUJEIRA! Um fedor… As paredes descascadas e o chão que, bem, mais parecia um chão de oficina! Como não fosse o bastante, um gordo, de bigode e, apesar de careca, todo peludo, com pelo saindo até do buraco da orelha e do nariz, cortando a carne que vendia e assobiando na maior normalidade. Às vezes eu costumo entender porque a expectativa de vida no Egito é tão baixa. Saudades do açougue T-Bone naquela hora…
Fui conversar com a mulher e acabei descobrindo que ela era francesa e morava no Egito há algum tempo por causa do marido que era engenheiro e mexia com petróleo. Ela falava um inglês meio ruim (franceses ODEIAM falar inglês), mas ainda assim me deu uma carona (de Pajero!) até a estação mais próxima e assim pude pegar o meu metrô em direção às pirâmides de Gizé.
No metrô ocorreu aquela cena que descrevi no post passado quando dezenas de egípcios me cercaram pra tentar me ajudar. 
Taxistas SEMPRE serão Filhos da Puta
Desci na estação do metrô e, segundo orientação do meu livro, eu deveria pegar um táxi e pedir pra ele me levar às pirâmides. Saí da estação e o primeiro táxi que eu achei eu fui entrando e gesticulando que queria ir até as pirâmides. Do nada entrou um outro cara dentro do carro, falando um inglês perfeito e com uma idade semelhante a minha. Ele falou que morava em Alexandria e também estava indo pras pirâmides, perguntou se eu não queria rachar um táxi com ele. Como ele falava um inglês legal, era árabe e, by the way, já tava lá dentro do táxi mesmo, pensei que seria uma boa idéia que ele me acompanhasse. No caminho o taxista começou a falar com ele e ele foi me traduzindo:
– Então, Claudio, o taxista tá me falando uma parada massa que a gente poderia fazer.
– Sério, cara? O que?
– Ele falou que sabe de outro caminho que a gente pode ir pras pirâmides e talz. Disse que é um caminho menos turístico que o que estamos indo, que só os locais sabem onde fica. Lá a gente pode ainda pegar uns cavalos, uns camelos e fazer um passeio bem legal no deserto que no final termina nas pirâmides.

– Er… Obrigado, cara, mas eu não quero ir.
– Mas ele falou que era bem da hora.
– Valeu, mas eu não quero ir.
– Mas pô, pelo lugar que a gente tá indo só tem turista. Vai ser mó turístico.
– Não, obrigado, eu adoro lugares turísticos
– Ah, cara, vamo lá, ele já tá levando a gente pro lugar.
– Cara, não, o-bri-ga-do, eu NÃO quero ir.
– Ah, mas já fechei o preço com ele, nós estamos indo lá.
– Amigo, NÃO OBRIGADO, eu não quero ir!
– Mas ele já tá indo pra lá!
– Amigo, EU NÃO QUERO IR! Fala pra ele parar esse carro AGORA porque senão eu vou começar a gritar quando eu ver o primeiro guarda de trânsito.
– Tá, ok, eu vou falar com ele.
Passou uns dois minutos que eles ficaram conversando em árabe e ele veio falar comigo:
– Sabe, Claudio, ele acabou de receber uma mensagem no celular que a mulher dele tá passando mal. Não vai dar mais pra ele te levar lá na pirâmide. Ele pede desculpas, mas vai ter que deixar por aqui mesmo. Pega um táxi naquela direção…
E me largou num meio de uma avenida de Cairo.

Não era o primeiro e nem seria o último taxista a me roubar. Sendo árabe ou franciscano, aprendam, taxista vai ser SEMPRE FILHO DA PUTA. Pena que dessa vez não teve nenhum cara armado de rifle pra poder me “ajudar” a pegar um táxi (acompanhe essa história que aconteceu na Síria clicando aqui). Graças a Deus aprendi a não confiar nesses miseráveis desde que passei pela Tailândia. Podia ter um fim como esse aqui
Só mesmo um Alcorão pra poder me defender desses taxistas...

Chegando às pirâmides
Desci do táxi e fiquei esperando outro passar. Quando ele passou deixei bem claro através de mímica que eu REALMENTE queria ir até as pirâmides. Ele entendeu e me deixou por lá. Chegando por lá, já tinha lido no meu livro mais um golpe que eles costumavam aplicar. Parece que egípcios não precisam pagar pra poder entrar nas pirâmides, ou pagavam muito barato, portanto o guia falava pra NUNCA dar o seu ingresso pra ninguém que viesse com uma desculpa de checar se você tinha pago a não ser para quem estivesse devidamente uniformizado. Mas foi dito e feito, paguei a entrada, entrei no cercado das pirâmides e foi só eu começar a pisar lá que um cara veio me perguntar onde tava o meu ingresso. Pra poder testar o que ele ia fazer, mostrei pra ele, ele pegou e começou a me explicar e guiar pelo parque. Era um guia. Ele esperava que só depois de um tempo eu percebesse que ele não era guarda, que ele não trabalhava lá checando ingresso de ninguém e depois de uns trinta minutos me explicando tudo, esperava que eu ficasse sem graça e desse uma grana pra ele. Já tinha passado por um golpe desses em Kajuharo (acompanhe a história que aconteceu na Índia clicando aqui) se ele se achava esperto, eu era mais esperto que ele. Pedi o meu ingresso de volta e nada de ele me devolver, eu só gritei que ou ele me devolvia o MEU ingresso ou o bicho ia pegar pro lado dele. Como ele não queria confusão, resolveu me devolver . Meu espírito de Varanasi (acompanhe a história clicando aqui) ainda vivia dentro de mim…
Comecei a dar algumas voltas e resolvi entrar em uma das pirâmides. Cara, eu tenho certeza que se eu perguntar aqui pra 90% das pessoas como elas imaginam como seria uma pirâmide por dentro, elas vão me dizer que seria mais ou menos como um negócio assim:

Aquele negócio gigantesco, com vários cômodos por dentro, aquele verdadeiro palácio dentro da pirâmide. Era o que eu achava e é o que eu acho que todo mundo imagina quando pensa no interior de dela, devido principalmente aos desenhos animados. Cara, depois que eu entrei lá, confesso que fiquei até um pouco desanimado com o que vi por lá. Essa é a pirâmide do lado de fora:

Não, não é permitido escalar as pedras da pirâmide. Se você fizer isso o guardinha vai apitar no seu ouvido até você descer e depois ainda te leva preso...

Isso é TUDO o que há em uma pirâmide pelo lado de dentro:


Ãhn? Isso mesmo, foi exatamente isso que eu pensei quando entrei. “Mas é só isso?”. Cara, depois que eu parei pra pensar. Os caras fazem uma estrutura GIGANTESCA pra depois deixar só uma kitinete lá dentro? Sei não, esse caras parecem japonês, gostam de fazer tudo grande. Deve ser pra compensar algo…
Bicho e você estava esperando mais o que? Elas foram construídas a mais de seis mil anos atrás SEM ARGAMASSA. Como você acha que seria possível aguentar toda uma estrutura como aquela na parte de dentro? Realmente, não dava pra segurar muita coisa. Mas custava pelo menos deixar umas coisinhas a mais por lá que não só uma cova de um faraó?

Engraçado que quando você vê fotos das pirâmides as imagina no meio de um deserto, mais ou menos como essas duas fotos.

Mas olha só se você bate foto pro outro lado…

Acabou que o mais legal mesmo de entrar nas pirâmides foi só que quando eu fui subir as escadas, um grupinho de umas seis sérvias muito, mas MUITO gatas subiram na minha frente. Aí já viu, né? Pati… Só anda de mini-saia… Bem, daí acho que já dá pra você deduzir como foi bem legal a vista da pirâmide. Essas patis só me arrumam problemas…

Essas pirâmides são realmente bem bonitas, não?

Couch no Cairo

Eu sei que isso acabou ficando meio que como um clichê aqui do blog, mas o meu couch de Cairo, sem sombra de dúvidas, foi um dos melhores de todos que tive. Acho que o colocaria entre os três melhores couchs que fiquei em toda minha viagem. Mr. French (Senhor “French”, nome do cara que me hospedou) foi uma das pessoas mais gentis que pude conhecer em minha vida e um cara que eu realmente fico feliz do Couchsurfing ter me proporcionado o prazer de conhecer. O cara era muito gente boa e de uma simpatia indescritível. Uma pessoa boa como hoje é difícil de se conhecer…
Olha o que achei num shopping perto da casa do David
De início, quando planejava viajar para o Egito, eu tinha em mente pedir hospedagem na casa de algum egípcio mesmo para ter uma imersão cultural maior. Ocorre que devido a limitação do tempo, eu tive que sair pedindo couch pra uma galera sem que fosse possível escolher bastante a quem eu iria pedir. No final, o David (primeiro nome, French era sobrenome) foi o único que respondeu a tempo de poder me hospedar quando cheguei ao Egito. Ele era australiano e vinha de uma cidade, ou vila, que, segundo ele, tinha 90 habitantes. Ãhn? Não faltou alguns zeros na hora de dizer o número de habitantes da cidade não? Não, amigo, é isso mesmo! Não eram 90 mil, mas sim NOVENTA pessoas que efetivamente viviam na cidade. Segundo David, a cidade dele era turística e só “funcionava” alguns meses por ano, durante o inverno. Nas outras estações, os donos dos hotéis, pousadas e coisas do tipo fechavam os lugares e só retornavam no próximo inverno novamente, deixando a cidade quase que como uma cidade-fantasma. Escolas, supermercados e outras pequenas lojas de grandes necessidades ficavam na cidade vizinha, que eles iam caso precisassem comprar alguma coisa. Numa cidade como essa, qual seria a profissão do pai dele? Cara, você consegue pensar em algum tipo de trabalho que uma cidade dessas pode oferecer em épocas de baixa temporada que não na agricultura? Pois é, eu não consegui pensar em nenhum, só o pai do French que conseguiu pensar e trabalhava como policial. Fico até imaginando como deveria ser difícil o trabalho dele. Ser policial lá só não deve ser melhor do que ser policial em Uzupio.
Metrô perto do apartamento do David

David mudou-se para Cairo para poder dar aula pra crianças na escola inglesa do Egito (e era por isso que eu o chamava de “Mr. French”, pois era como os seus alunos se referiam a ele). Ele me falou que era um trabalho dos sonhos para qualquer professor com espírito aventureiro. Ele recebia um pouco mais que o salário que tinha em Londres (que é mais ou menos duas vezes mais cara que uma cidade como Brasília, por exemplo) pra morar numa cidade como Cairo [que é facilmente duas vezes mais barata que uma cidade como Brasília, por exemplo (Sim, a repetição foi pra dar ênfase, não foi pleonasmo vicioso :P)]. Fazendo as contas. o bicho ganhava MUITA grana pra poder viver em Cairo. Ele podia manter um estilo de vida que poucos em todo o Egito poderiam algum dia pensar em sonhar. Quando eu saia com ele, pra comprar um sanduíche que fosse, ele não deixava eu pagar, sempre pagava as contas de tudo “Aqui é tudo barato, Claudio, pode ficar tranqüilo…”. Eu fiz as contas quando estive por lá e era mais ou menos como se ele fosse professor e ganhasse um salário de 15000 reais líquidos pra viver em São Luís. Bom, porque eu tou dizendo isso? Ah, amigão, só pra vocês entenderem como o couch do bicho era cinco estrelas. Rapaz… Eu fui chegando na casa dele e ele foi me mostrando: “Aqui tem cereal, aqui tem pão, aqui tem não sei o que, não sei o que, não sei o que… Quero tudo vazio até você ir embora…”. O negócio não foi nem a comida, o negócio foi quando o bicho abriu a geladeira. Lá dentro tinha uma caixa de Heineken com umas 30 latinhas de cerveja e, mais uma vez, ele falou que queria que eu secasse até eu ir embora. Rapaz, seu desejo é uma ordem! A casa do bicho parecia um hotel cinco estrelas! Apartamento gigantesco, comida a rodo, cerveja gelada e um quarto só pra mim com ar-condicionado, faltou só eu “ser amigo do rei e ter a mulher que quero na cama que escolherei”. Meu amigo!
Mas o mais engraçado ainda foi no primeiro dia que eu cheguei. Segue o diálogo:
– Claudio, você chegou a menos de 48 horas no Egito?
– Cara, acabei de chegar do aeroporto, por quê?
– Bem, é que é o seguinte. Aqui perto de casa tem uma Duty Free. Lá só podem entrar diplomatas ou turistas que chegaram com menos de 48 horas aqui no Egito e ainda assim só podem comprar até três litros de álcool. Eu tou a fim de comprar três garrafas de Absolut. A gente faz assim, compramos as garrafas juntos. Você entra com o passaporte, eu entro com o dinheiro e nós dois bebemos. Pode ser?
Eu e Mr. French

Ãhn? É o que, homi? Deixa eu ver… Eu dou passaporte, vou lá e… Bem, FECHADO! Temos um acordo, amigão! Rapaz e lá fomos nós comprar as vodkas. Mr. French, grande cara… Fiquei uma semana na casa dele no saudoso bairro de Maadi.

Egito

Pra ser sincero, acho que depois do Camboja, o país que eu mais tinha vontade de visitar era o Egito. Fala sério, quem aí nunca imaginou quão grandiosas e magníficas seriam as pirâmides e como seria louco estar por lá. Sim, cara, o Egito é tudo isso que você está pensando e bem mais um pouco. Cheguei lá esperando MUITA coisa e acabei ainda assim me surpreendendo.
Esqueça as Nações Unidas, o futebol vai salvar o mundo!

Pra quem acha que o Egito são só as pirâmides, está muito enganado. O Egito é MUITO mais que isso. Pra começar pela sua capital, Cairo, que foi fundada mais de cem anos antes de Cristo e durante muito tempo foi considerada a capital do Islã. No Egito também há as belíssimas praias do Mediterrâneo, ou, pra onde acabei indo, as suas praias do Mar Vermelho, com destaque para Dahab.

Apesar de ser conhecida como a terra dos faraós, hoje pouco sobrou do povo desse tempo. O Egito foi conquistado pelo exército de Maomé há uns 1500 anos e hoje os árabes são a etnia dominante no país. O islã é a religião dominante. Possui uma população de mais de 80 milhões de habitantes (com praticamente todas as cidades às margens do Rio Nilo) e uma das maiores da África (atrás apenas da Etiópia e da Nigéria).
Rio Nilo

A sua capital é a cidade do Cairo, a maior cidade e maior metrópole de todo o continente africano. Cairo é conhecida como a cidade das mil minaretes devido ao seu tamanho e também por ser uma das maiores cidades islâmicas. As pirâmides são na cidade ao lado, Gizé, mas chegar lá do Cairo é muito fácil, é mais ou menos como ir em Guarulhos, morando-se em São Paulo capital. Por Cairo, e por todo o Egito, passa o Rio Nilo, um dos grandes responsáveis por todo o esplendor que foi a civilização egípcia. Saber controlar e se beneficiar das cheias e das secas do Nilo foram um dos determinantes para o florescimento da civilização dos faraós.

Tive realmente uma boa impressão do povo egípcio quando estive por lá. Eles são no geral bem amigáveis. Só pra ilustrar essa história, eu costumo contar que um dos maiores problemas que tive foi uma vez quando estava no metrô (por sinal o único de toda a África. E ah, sim, um pouco caro também. O preço do ticket custava uma moeda. Com um dólar você comprava QUARENTA moedas iguais a aquela), em direção as pirâmides, e abri um mapa pra poder checar se estava descendo na estação correta.

Rapaz, voou uma pá de gente em cima de mim na hora e eu achando que ia ser era roubado. Depois de um tempo que eu fui perceber que na verdade eles tavam querendo era me ajudar. Como viram que eu não falava árabe, foram no fundo do trem, pegaram um universitário e trouxeram pra poder falar comigo. O rapaz veio me perguntando se eu estava com algum problema, se necessitava de ajuda, se sabia pra onde eu estava indo. Eu fiquei foi com vergonha de falar pra ele que não tinha nada errado, que eu só tava checando se aquela era a minha estação mesmo, se eu desceria por lá. Falo isso só pra ilustrar como os árabes podiam ser gente boa na rua e o melhor, sem querer nada em troca. Outra que ocorreu comigo foi quando eu estava em uma estação de trem e procurando uma maneira de poder conseguir um busão pra viajar para a fronteira com Israel. De maneira alguma a mulher da rodoviária sabia falar inglês, até que uma hora apareceu um árabe lá e o bicho não arredou o pé do meu lado enquanto não achou o guichê certo pra eu poder comprar a passagem, até em outra estação de ônibus ele foi comigo pra poder me ajudar. E eu desconfiando o tempo todo que ele queria algo em troca. Nada, quando enfim comprei a passagem ele só falou boa sorte e foi embora, não me pediu foi nem um dólar. Fiquei impressionado como eles podiam ser gentis comigo.

Depois do Egito segui para Israel.
P.s: Semana que vem não teremos posts, estarei no Maranhão. Agradecemos a compreensão 😉