Claudio, Claudio, acorda!

P.s: Pessoal, como estou postando da casa do meu tio em São José dos Campos (tive que vir aqui resolver uns problemas) e não da minha casa em Brasília, este post virá sem fotos novas. Resolvi reaproveitar algumas fotos de posts passados pra não deixar o texto apenas corrido. A partir do próximo post voltamos à normalidade.

Depois da balada, pegamos um táxi de volta pra casa e fomos subir para dormir, já que no outro dia ela iria para Estônia e eu estava me decidindo se iria com ela ou voltaria direto para a Polônia.

Mais uma vez, merece destaque o painel do táxi que eu peguei pra voltar pra casa…

Antes de eu começar a escrever a história, é interessante eu explicar um pouco mais da norueguesa caso não esteja tão claro. A norueguesa estava viajando comigo desde a Lituânia. Ficamos muito amigos e depois de um tempo eu fui descobrir que a mina era lésbica. Mas lésbica mesmo, não era bi nem nada, só curtia mulher. Era engraçado sair com ela. A gente ia às baladas e ela ficava zoando comigo tipo: – “Claudio, olha o tamanho do `popozão´ daquela mulher! Nossa, mas eu pegava ela, puxava pelos cabelos e dava uns bons tapas!” ou então “Mermão, que mulher gostosa, pegava fácil!” ou coisas do tipo. Beleza, você já deve ter ouvido vários brothers seus falando isso na balada, mas vou te dizer que ouvir de uma mulher é deveras engraçado e ao mesmo tempo estranho. Sei que depois de um tempo eu já tava tratando ela era mais como brother mesmo, ficava conversando com ela sobre os “atributos” das meninas que passavam pela gente e só faltava sair pra pegar mulher junto com ela, hehehee.

Então, mas por que estou falando isso? Pra vocês poderem entender como a parada foi incomum quando ocorreu.

Beleza, subimos pro apartamento, tomei meu banho e fomos pro nosso quarto pra poder dormir. Iveta tinha separado um quarto só pra nós dois, com um sofá cama de um lado e um colchão de outro. Deitamos, cada um em sua cama, desligamos as luzes, conversamos um pouco e quando o assunto morreu, virei pro lado pra poder dormir de boa.

Quando menos espero, uma voz começa a falar dentro do quarto. Quando vi era a norueguesa falando comigo. Segue o diálogo:

– Claudio, Claudio, acorda!!!

Pronto, quando eu escutei isso eu comecei a pensar: “Diaboéisso, doido?”. Sério, um sussurro desses, no meio da noite, de uma voz feminina, parece muito com aquelas cenas de filme de terror, né? O mocinho dormindo com a mocinha, ela começa a chamar por ele e segundos depois vem o Jason da sexta-feira 13 ou o boneco assassino. Mas depois fiquei pensando, seja o que for, há um maranhense no recinto, tudo está a salvo! Virei pra ela e perguntei o que era. Ela relutou um momento e depois disse que não era nada, que tava de boa. Beleza, voltei a dormir e depois de uns dez segundos escuto a mesma voz:

– Claudio, Claudio, acorda!!

Ai cacete!! O que foi agora?!?!? O que diabos tava ocorrendo, o que diabos essa mina tava olhando ou sentindo? Seria uma parada cardíaca, um ataque alienígena, um gol do flamengo? Sério, eu já tava ficando de saco cheio da parada. Perguntei o que era e mais uma vez ela falou que não era nada. Deitei e comecei a dormir. Dali a dez segundos escuto a mina falando novamente:

– Claudio, Claudio, acorda!!

– Mermão, que que foi?? Caramba, fala o que diabos te aflinge!!!!

E o momento sublime veio. Era o Jason? Não, uma parada um pouco mais inesperada:

– É que eu queria te beijar…

!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

– Ãhn?? Quê quê o quê?? Bê o que menina?? Tu não era lésbica, caralho???

– Eu sou, mas eu quero te beijar!

– Er, hum, como assim??

Na hora eu fiquei pensando: Mais uma vez, o meu charme irresistível de maranhense atacava mais uma donzela incauta. Dessa vez a parada era mais séria. O que eu deveria responder? O que eu deveria falar? Como eu deveria agir? Ah, cara, sossega, que no trato com as mulheres eu sou mestre:

– Então vem aqui que eu não vou aí não!

– Nossa, mas como você é um cavalheiro, hein?

– A gente aprende essas coisas no Maranhão…

Hehehahehaha, juro por Deus que eu falei isso. Gente, eu falei uma parada dessas pra ela, não porque eu sou mal-educado, mas sim porque eu precisava meio que quebrar o clima que começou a se formar e arrumar uma maneira de falar que não queria, sem ser grosseiro ou deixar um clima ruim entre a gente. Depois dessa apenas demos risadas e ela foi dormir, acredito eu que levando na brincadeira o que eu tinha falado. Por que eu fiz isso? Ah, cara, a mina era muito brother e muito gente boa! Eu meio que coloquei na minha cabeça que ela seria quase como um amigo homem e depois acho que ficaria meio estranho ficar com uma pessoa que na minha cabeça era um brother. Seria mais ou menos como beijar um homem. E o pior que a mina era até bonitinha 😛 Ficamos tão amigos que fico até um pouco sem graça de contar essas histórias aqui pelo blog. É por causa disso que nunca coloquei o nome dela aqui, sempre me referi à mesma como “a norueguesa” e também nunca postei uma foto dela. Achei melhor reservar a mina, mas sem perder a oportunidade de escrever sobre as coisas que ocorreram.

De algumas dessas janelas havia um maranhense tentando debelar uma norueguesa ensandecida…

Depois também pensei que seria meio falta de respeito com a Iveta, que tinha sido tão gente boa e nos disponibilizado a chave da casa dela. Acho que seria meio falta de respeito ficar se pegando que nem dois bichos na sala da casa dela…

Enfim, dormimos e quando foi no outro dia fomos dar um rolê pela cidade. A norueguesa até me convidou a pra ir com ela pra Estônia, mas nem rolou. Por quê? Mermão, a mulher tava dando em cima de mim loucamente e eu já tava era ficando sem graça! Brother, mas era uma coisa louca, eu fiquei até com medo dela me atacar quando entrássemos no busão ou algo assim. Mas era um tornado a mina!! Acho que eu revivei o espírito heterossexual reprimido que havia dentro dela de uma maneira que a mina ficou louca!! Pombas, às vezes é complicado ser um pedaço de mal-caminho…

Depois de um tempo fui deixá-la na rodoviária para ela pegar o busão dela e comprar a minha passagem do meu busão pra Polônia. Era chegada a hora de voltar para um dos mais abençoados países desse planeta e curtir uma das mais loucas aventuras que tive por toda a Europa ou pelo mundo…

Depois de um tempo eu fiquei até pensando comigo mesmo. Vê se não tem lógica o que eu vou falar. A mina era lésbica, ok? Se ela era lésbica ela sentia atração pelo lado feminino das pessoas. Se ela ficou a fim de mim, isso quer dizer o que? Quer dizer que eu tenho o lado feminino muito, digamos, protuberante? Seria o meu lado feminino maior que meu lado masculino? Mermão, SERIA EU VIADO!??!?! Sim? Não? Talvez? Não sei, mas juro que fiquei uma noite no ônibus refletindo sobre isso…

Pegando a balada

Depois da troca de culturas do post passado, era chegada a hora de sairmos à noite para uma troca de culturas, digamos, mais interessante. Quem sabe até movida a cachaça, depravações e nudez gratuita, não necessariamente nesta ordem. Era a hora de cair na esbórnia.
Saímos eu, a Iveta e a norueguesa e ficamos dando um rolê pela cidade. Assim que chegamos ao centro, Iveta nos mostrou algumas construções e ficamos procurando um lugar pra tomar uma cerveja. Ao passamos perto de uma baladinha com uma bandeira de Cuba na porta, comecei a ouvir um som um tanto quanto característico. Parecia ser uma salsa, só que bem mais rápida. Convidei as duas pra entrar e quando entramos constatei a melhor das minhas expectativas: os caras cantavam em português!!

Mermão, que felicidade! A primeira balada brasileira que eu ia desde a Polônia há menos de uma semana atrás (sacou a piada? Áh Áh?)! Entramos e os caras já foram mandando ver um “Trem das Onze” na nossa chapeleta! Mermão, foi o suficiente pra eu já começar a me empolgar!
Começamos a dançar, nós três e depois de um tempo a Iveta falou que tava cansada e que estava indo embora. Deu-nos a chave de casa e falou que podíamos voltar a hora que quiséssemos. Filéééé…
Peguei a norueguesa e comecei a mostrar a ela como se dançava forró e a mina curtiu pacas. Depois de um tempo ela reconheceu uma galera do couchsurfing.org por lá e qual não foi a minha surpresa quando dentre eles estava um dos melhores amigos de um grande amigo meu da UnB. Muita coincidência, achar um cara conhecido no meio da Letônia. Ficamos todos curtindo a valer na festa. Depois que a bandinha parou de tocar, fui falar com os caras da banda. Saber de onde eles eram e talz…
O negão da banda veio falar comigo e me falou que era do Rio de Janeiro. Foi trago de lá por alguém que queria que ele fizesse uma apresentação na Letônia e acabou que ele foi ficando… Nessa, ele já tava há mais de seis meses e não tinha a mínima vontade de voltar. O outro cara era estrangeiro, não lembro ao certo de onde. O terceiro, o que tocava só com as mãos era, surpresa, MARANHENSE!!!! Pombas, o cara era maranhense, brother!! Pô fiquei feliz pacas quando ele falou isso. Ele foi o primeiro maranhense que havia conhecido desde que havia começado a viajar. Pra falar a verdade ele acabou sendo o único (em Portugal eu conheci uma maranhense de Barra do Corda, mas não conta porque trocamos apenas algumas palavras…).

Os maranhenses
 
A galera em si era gente boa demais. Conheci um mineiro que era casado com uma letã (felicidade danada – ele dizia. Hehehe), uma paraibana casada com um letão (conheceram-se em Natal), dois cariocas que vieram pra jogar bola na Letônia (os caras são muito perna-de-pau, mané – eles falavam acerca dos letões) e por aí vai. Várias figurinhas que marcaram aquela minha noite pela Letônia e que infelizmente não consegui o contato de nenhum deles.

A paraibana
E o seu príncipe letão…
Depois de algumas horas resolvemos ir embora. Pegamos um táxi e já dentro do mesmo havia sugestões de onde você poderia ir caso se sentisse entediado.

O cara sem conseguir falar uma palavra em inglês tentando xavecar uma mina. Esse bicho era muito engraçado, brother…
 
Enfim, chegamos em casa eu e a Norueguesa e fomos nos preparar pra dormir. Ao entrarmos no quarto ocorreu algo que, esse sim, foi uma das noites mais engraçadas da minha vida, pode apostar que a presepada foi boa…

Trocando uma ideia com a host

Chegamos mais ou menos umas três da tarde em Riga. Como nossa host estava trabalhando, ficamos de nos encontrar às 18 horas na praça principal da cidade.

Comemos alguma coisa, aproveitamos pra trocar algum dinheiro e ficamos dando um rolê até o horário combinado. Quando foi às 18h, como combinado, nos encontramos e seguimos de ônibus para a casa de Iveta.

Casa da Iveta, bati foto do apartamento dela caso me perdesse 😛

Ao chegarmos à sua casa nos foi apresentado o quarto em que iríamos dormir. Tomamos um banho e depois fomos conversar com ela. Iveta era uma simpática letã na casa dos quarenta anos que trabalhava em uma empresa de alta tecnologia. Ela era um dos milhares de habitantes dos países bálticos que trabalham em empresas de ponta nórdicas que abrem fábricas no território báltico devido à proximidade com Noruega, Suécia e Finlândia, mão-de-obra qualificada disponível e salários ridiculamente mais baixos que os praticados na Escandinávia. Trocando em miúdos, Suécia e, principalmente, Finlândia investem pesadamente e mantém o crescimento da economia dos Bálticos. Ela falava um inglês muito bom, porque no passado havia sido tradutora. O que mais me marcou nela foi a intensa troca de culturas que tivemos nos poucos momentos que ficamos juntos (uma noite pra ser mais exato :P)

Iveta havia vivido o auge da cortina de ferro (pra quem não sabe o que foi a cortina de ferro, clicar aqui pra mais informações). Foi educada numa escola soviética em russo, aprendeu a língua letã apenas em casa, ainda assim em segredo, pois, segundo ela, era perigoso. Na escola, aprendeu que o capitalismo era o pior das modelos econômicos, pois as pessoas trabalhavam demais (não deixa de ser verdade :P), algumas vezes até 18 horas por dia e nunca podiam ser felizes, pois sempre trabalhavam pra enriquecer os donos das fábricas. Qualquer tipo de manifestação contra o governo era punida severamente e pessoas desapareciam constantemente. Basicamente tudo o que ela me falou está relacionado ao que sabemos do terror soviético, mas foi a primeira vez que pude conversar com alguém que realmente viveu aquilo, que presenciou e que se criou sobre uma ditadura. Foi muito interessante poder conversar com ela e ter cada pergunta pacientemente respondida.

Ela disse que foi muito engraçado quando a cortina de ferro caiu e as informações começaram a chegar à Letônia e ela pode descobrir que havia um mundo MUITO grande e diferente lá fora. No início ela até ficou com medo do capitalismo malvado que estava por chegar, mas fala que prefere mil vezes viver agora a viver em outra ditadura comunista outra vez.

Monumento à liberdade feito para comemorar a independência da Letônia à URSS

Ela me contou também que era praticamente impossível viajar para fora da União Soviética e impossível viajar para países fora da influência soviética, tais qual França ou Inglaterra. Um passaporte era uma burocracia absurda e eles vasculhavam a vida inteira da pessoa antes de conceder um para viajar para a Polônia, por exemplo. Apenas pessoas da mais alta burocracia, atletas e artistas conseguiam permissão para poder viajar para bem longe da cortina de ferro.

Ela contou que, apesar de tudo, sentia saudade de algumas coisas boas dos tempos de União Soviética. Primeiro ela fala que sente saudades principalmente das manifestações artísticas. Como naquele tempo a TV passava programas bem mais inteligentes e interessantes do que o lixo americano/europeu que chega às nossas casas todos os dias. Era um humor inteligente, ver TV naqueles tempos era realmente algo que engrandecia as pessoas e não apenas as emburrecia. Mas o mais interessante foi ela me contando como era viajar dentro da União Soviética:

– Era bem interessante viajar por dentro da federação. Não precisávamos de passaporte, vistos ou qualquer autorização especial. Bastava apenas pegar um trem e podíamos já estar em Moscou. Era como viajar dentro do mesmo país.

Exatamente isso, “era como viajar dentro do mesmo país”. Estranho, né? A gente aprendeu na escola que a União Soviética era um só país, mas para ela a Letônia sempre existiu. Foi como aquele letão/russo do post passado me falou “etnias são o eu importam”. Não importa se oficialmente a Letônia era parte da União Soviética, se alguém perguntasse de que país ela era a resposta sairia rápida: Letônia. Nunca na minha vida eu ia saber disso, na minha cabeça era todo mundo a mesma coisa! Pombas, mesma moeda, mesmo time de futebol, mesma língua oficial!! Chegávamos até a chamar os mesmos de “russos”, quando na verdade a Rússia era apenas uma das nações que faziam parte do imenso território soviético. Só pra lembrar, a “Rússia” de hoje tem como nome oficial “Federação Russa”, sendo, ainda hoje, a Rússia apenas uma das nações. Engraçado demais isso…

Por último ela me falou da incerteza de quanto tempo mais a Letônia ficará independente. Como é complicado você ser de um país pequeno incrustado entre grandes potências que traçam os seus planos, anexando ou deixando independentes os pequenos países segundo seus próprios interesses. Como apesar de toda esse falatório internacional acerca de auto-determinação dos povos, as grandes potências podem fazer o que querem e às pequenas nações só resta rezar a Deus. Como exemplo citou a Sérvia que perdeu parte do seu território (virou Kosovo) ou a Geórgia que levou um cacete dos Russos, perdeu 30% do território e tudo ficou por isso mesmo. Ela conta que até hoje sente um grande receio da Rússia.

Quanto você dá pela Geórgia? Cartaz espalhado pelas ruas de Riga, Letônia, fazendo alusão às grandes potências (Rússia e EUA), traçando o mundo à sua maneira. Foi colocada para estimular o debate acerca do tema que a Iveta falava comigo…

Lembrou-me até eu conversando com uma lituana sobre a invasão da Rússia na Geórgia:

– Cara, pode ter certeza, o próximo alvo da Rússia após a Geórgia vai ser um país báltico – ela me disse.

– Mas como assim, a Rússia não seria louca de invadir outro país – eu respondi.

– Não, hoje, mas isso é só uma questão de tempo. Primeiro a Geórgia, depois a Ucrânia e depois eles vem pra cima da gente de novo. Eles querem de volta o território perdido.

– Não, minha filha. Pode ficar despreocupada. Eu lhe dou 150% de certeza que a Rússia NUNCA faria isso.

– Por que não?

– Ora, por que não. A Lituânia hoje faz parte da União Européia e da OTAN. Um ataque a um país membro de uma dessas alianças é considerado como um ataque a toda aliança.

– Isso é o que você pensa, no primeiro momento que a Rússia atacar a gente, os europeus ou a OTAN vão falar assim “Ups, a Lituânia não é mais OTAN, podem fazer o que quiser com eles!”.

Seria cômico se não fosse trágico vê-la falando essas coisas. Imagina se uma aliança militar que é feita, dentre outros motivos, para proteger os países da aliança, ia simplesmente chutar um país membro assim. Além de ser uma grande humilhação para a aliança, ninguém iria querer fazer parte, afinal, se fizeram isso com os outros, farão com o seu país também.

Isso é só pra ilustrar o que é MEDO, cara! O pavor que a Rússia até hoje desperta no imaginário popular dos países bálticos e também dos países que um dia viveram as atrocidades de Stálin. Como as pessoas deixam até de pensar racionalmente frente a uma ameaça como essa se aproxima.

Enfim, depois de mais ou menos umas duas horas conversando com Iveta, fomos nos arrumar para pegar a balada em Riga.

Letônia

A Letônia faz parte dos países bálticos juntamente com a Lituânia e a Estônia, situando-se no meio das duas. A sua língua oficial é a Letã que guarda muita semelhança com o idioma lituano, mas é completamente diferente da língua estoniana (Esta absurdamente semelhante ao norueguês – dizia a norueguesa). Junto com o lituano, são as únicas duas línguas de raízes bálticas remanescentes na Europa. Engraçado que o nome do país em inglês é bem diferente da pronúncia que utilizamos nas línguas latinas, já que dizemos Letônia em português e Latvia em inglês. Pode parecer pouco, mas demorou um tempo pra eu descobrir que falávamos de um mesmo país quando conversava em inglês. Achava que estavam se referindo a uma outra cidade ou algo do tipo…

 

 

A sua moeda é o “Lats” que dentre outros motivos me deixou deveras impressionado com a valorização da mesma! Só pra vocês terem uma idéia do que falo, um dólar comprava apenas 50 centavos de Lats!! A moeda era mais valorizada que a libra inglesa! O que isso quer dizer, trocando em miúdos? Bem, quer dizer que a Letônia acabou sendo um dos países mais caros que visitei!! Algo parecido com a Suécia! Imagina, se um dólar compra 50 centavos, um real compra 20 centavos! E não havia nada lá que custasse menos que um Lat!! Coisa de louco!! O Jonas havia me pedido que trouxesse uma moeda de cada país pra ele. Eu sempre pegava de vários valores diferentes pra ele, mas o Lat não teve jeito, hehehe! Ficou só com uma mesmo e por que não deu pra trocar!! Moedazinha valorizada da égua, meu!

 

Yes, nós trocamos reais aqui!

 

A Letônia hoje é um país membro da OTAN e também da União Européia, mas nem sempre a vida foi fácil assim pra eles. A minha host, me explicou que a Letônia nunca havia sido independente de fato até 1991, data que o Império Soviético se esfacelou. Antes disso eles haviam saboreado um breve período de independência no período Entreguerras (1919 – 1939), mas foram logo tomados de volta pelos soviéticos, sendo obrigados a sentir o doce sabor de serem governados pela tirania de Stálin e dizimados pelos alemães nos períodos subseqüentes (os alemães mataram uma pancada de judeus na Letônia. Cinco por cento do país em números da época). Só pra vocês terem uma ideia do que estou falando, durantes cinco anos, os letões travaram uma guerra de guerrilha contra os nazistas. Em 1944, as tropas russas chegaram e impuseram uma grande derrota ao que restava do exército de Hitler. A Letônia foi tomada por uma euforia inicial, mas quando eles perceberam que as tropas de Stálin haviam chegado para ficar, os guerrilheiros letões chegaram ao cúmulo de se unir aos alemães nazistas para tentar expulsar os soviéticos. Como já sabemos o fim da história, isso não deu certo e, ambos, letões combatentes e alemães, foram dizimados.

 

O povo na Letônia é meio estranho, cara!! Eles se casam não com mulheres, mas sim com carros! Se bem que com uma Mercedes dessa eu casava fácil! Tem até nome de mulher já!

 

A economia da Letônia vinha indo bem, com uma das maiores taxas de crescimento da Europa, devido principalmente a investimentos externos diretos. Mas com a crise mundial e posterior retração do fluxo de capitais na economia internacional, a Letônia foi dos países que mais sofreram com a crise em toda Europa, com o seu PIB no primeiro trimestre de 2009 caindo TREZE por cento! A maior queda em toda zona do Euro.

 

 

São Luís? Ponte Bandeira Tribuzzi? Não, Riga mesmo 😛

 

Apesar do país se chamar Letônia, um em cada quatro habitantes são russos, falam russo e detêm passaporte russo. Mesmo que tenham nascido e crescido na Letônia, não se sentem letões e se orgulham de ser russos. A minha host havia me falado deles, mas eu fui ver o que ela realmente falava quando conheci um brother desses na Síria. O moleque tinha passaporte letoniano, mas se dizia russo e ficava realmente muito puto quando o chamávamos de letão!

– Mas você não nasceu na Letônia, cara?

– Sim!

– Então você é Letão!

– Não, eu não sou! Eu sou russo!! Não importa onde você nasceu, mas sim a etnia dos seus pais! Na Europa o que importa é o sangue que você tem!! É por isso que as pessoas ainda se matam por lá!

E realmente, a grande porcentagem de russos dentro da Letônia é motivo de cada vez mais choques com os letonianos. Para eles o passado e as atrocidades de Stálin ainda estão bem claros na memória e cada vez que uma estátua de Lênin ou uma “memória a um soldado russo morto lutando contra os nazista” é arrancada de uma praça, o pau costuma comer feio!

Noivo sendo carregado por amigos no meio da rua em Riga!

Chegando a Riga…

Entramos no carro e seguimos em direção à Riga, capital da Letônia.

Assim que o cara começou a dirigir, tentei ser simpático e puxar assunto:

– Poxa, cara, obrigado por estar levando a gente. Estávamos a algum tempo esperando por carona já e pá pá pá…

Depois de um tempo sem respostas que eu fui me tocar que os dois não falavam NADA de inglês! Os caras estavam dando carona pra gente não por que procuravam alguém pra conversar ou fazer companhia, como a maioria das caronas que peguei por aí, mas sim pelo simples e singelo prazer de ajudar mochileiros desesperados em tentar chegar a algum lugar.

Devido a isso, eu e a norueguesa aproveitamos pra descansar um pouco, já que estávamos exaustos da noite passada.

A viagem prosseguiu tranqüila, a única coisa que merece destaque foi só quando passamos pelas instalações abandonadas do antigo posto de fronteira entre a Lituânia e Letônia que hoje, devido a União Européia, não serve mais pra nada.

Assim que avistamos as placas de “Bem-vindo a Riga” não entendi o que, mas parecia que o casal tentava falar algo pra gente. Não deu pra compreender o que era, mas gesticulamos meio que dizendo “o que quer que seja, pra gente está tudo bem” e seguimos. Depois que fomos entender. Eles não iriam entrar na cidade. Fomos indo cada vez mais longe até a hora que paramos numa casa no meio de uma floresta de eucaliptos. Era a casa de campo deles!

Quando chegamos foi aquela cena típica de filme americano. Um carro entrando, um cachorro chamado Bob saindo de uma casinha amarela e uma cambada de crianças correndo pra abraçar o avô. A gente ficou meio que sem entender o que diabos tava rolando. Depois de um tempo ele falou com uma mina lá e ela veio explicar pra gente, em inglês fluente, que os avós delas não estavam com planos de irem pra Riga, mas iriam levar a gente pra lá. Ela explicou que, quando novos, os avós dela sempre viajavam de carona e devido a isso iriam quebrar esse galho pra gente, deixando a gente no centro da cidade.

Achei bem interessante e legal essa parada. A solidariedade entre duas gerações de mochileiros diferentes. O mesmo tipo de solidariedade que tenho com as pessoas quando as hospedo em minha casa.

O figura nos colocou em outro carro e começou a dirigir pra Riga. No caminho, através de gestos, ele falou que queria ligar pro hotel em que ficaríamos hospedados. Demos o telefone da Iveta e, através do seu celular, ele ligou pra ela e vimos que ele mudou de caminho. Não, o cara não estava satisfeito em apenas nos levar de Vilnius a Riga, ele ainda iria nos deixar NA PORTA DE CASA. Melhor que isso só pagando o nosso almoço.

Chegamos à casa de Iveta e o cara, não satisfeito, ainda nos ajudou a subir com algumas malas da norueguesa, hehehe.

Figura demais…

Conseguindo couch em Riga

Acabou que depois de toda aquela loucura que rolou na Lituânia, acabei esquecendo de falar pra vocês como foi que conseguimos um couch na Letônia.

Fui deixando pra última hora a missão de começar a pedir couch e quando foi dois dias antes de chegar à Riga, me toquei que estávamos sem ter onde dormir. Meio que me desesperei e saí mandando mensagem pra Deus e o mundo implorando às pessoas que alguém me concedesse um teto para poder ficar embaixo. Só pra vocês terem uma ideia, a mensagem tinha o título de “Salvem um pobre brasileiro”.

No outro dia, uma simpática letã nos ofereceu vaga em seu apartamento. Nos comunicamos e ficou tudo bem. O nome dela era Iveta e parecia ser um amor de pessoa.

Tou escrevendo isso pra vocês só pra demonstrar como o Couchsurfing.org é uma ferramenta poderosa. Dois dias antes, você pode estar sem lugar pra ficar, manda uma mensagem pedindo ajuda e momentos depois já consegue um lugar super-aprazível pra poder ficar. Deus, abençoe o couchsurfing!

É interessante como é fácil hoje ficar viajando por aí, cara! Com ferramentas como o Couchsurfing.org e solidariedade de gerações de mochileiros atrás o mundo fica pequeno demais. Chega até mesmo a caber dentro de uma mochila…