Saindo da rodoviária

Assim que cheguei a Vilnius, a primeira coisa que tentei fazer, claro, foi tentar achar o lugar onde a minha host morava, largar minhas mochilas por lá e sair perambulando pela cidade.

Na rodoviária, tentei por diversas vezes ver se alguém falava inglês, mas lá não tinha ninguém jovem e, na Europa Oriental, se você não tem menos de trinta anos, você fatalmente não falará inglês. Depois de várias tentativas frustradas não me restou outra opção senão utilizar uma velha tática que nunca falhava em nenhum lugar do mundo: Escrever em um papel o nome do bairro da minha host, chegar perto de qualquer transeunte, apontar para qualquer busão, apontar pro pedaço de papel e fazer uma cara de bobo do tipo “qual busão eu entro”?

Cheguei pra um tiozão barbudo, careca e que parecia realmente pegar busão todos os dias e fiz a técnica do “pedaço-de-papel-qual-onibus-cara-de-bobo”. Vi que o tiozão meio que ficou achando graça da minha cara de bobo (cara, eu sou muito bom em fazer uma cara assim, pode acreditar!) e depois de algum tempo apontou pra um busão qualquer em que eu entrei sem pestanejar.

Entrando no ônibus, era chegada a hora do segundo round: Descobrir como se fazia pra PAGAR o ônibus. É, pode parecer besteira, mas parece que cada país que ser mais criativo que o outro quando a matéria é cobrança nos ônibus. Em cada país diferente acontece uma verdadeira epopéia para descobrir como se fazer pra pagar a passagem. Assim que entrei, tentei procurar alguém que aparentasse ter menos que 20 anos pra perguntar, mas não foi preciso, uma tiazona veio ao meu encontro chacoalhando o que parecia ser um cilindro de alumínio e pelo som que fazia dentro daquele “chocalho lituano” parecia haver moedas dentro dele. Saquei logo, ela era a cobradora.

Como não tinha a mínima ideia de quanto seria a passagem, peguei o equivalente a 10 dólares em moeda lituana e dei pra mulher. Pô, mais que dez dólares eu tinha certeza que não ia ser! A veia ficou injuriada e vi que ela gesticulava e mandava eu pegar uma nota menor. Peguei o equivalente a cinco dólares e ela a contragosto me deu umas seis notas diferentes de troco!

Pelo menos eu já tinha aprendido a pegar ônibus na Lituânia…

Mostrei pra ela aonde iria e pedi pra ela me avisar o momento certo de descer.

Fiquei sussa e quando foi a hora certa, a tia me cutucou e eu desci na parada que ela me mostrou.

Tentando chegar em casa

Assim que desci do ônibus, peguei o mapinha que tinha imprimido com as coordenadas de como chegar ao apartamento e segui caminhando. Teria que ir rápido, pois já eram rodados 07h50min da manhã e ela falou que tinha que sair de casa às 8h para seguir para o trabalho. Andei até o ponto que ela havia me falado para que assim que chegasse ligasse ou mandasse uma mensagem.

Mandei uma mensagem e esperei um tempinho. Deu uns dez segundos e meu celular começou a tocar, era ela! Quando fui atender, veio a melhor parte: a minha bateria caiu e não teve como atender. E agora? O que eu deveria fazer? Teria ela ligado pra avisar que já tinha ido ao trabalho? Pra avisar que me via da janela do apartamento dela? Pra avisar que estava indo me buscar? Eu não sabia! De uma maneira ou de outra, o melhor a se fazer era esperar e ver o que iria acontecer.

A melhor parte era onde eu estava. No meio de um descampado! Imagina a cena! No meio de um descampado enorme, um latino moreno, com uma mochila nas costas, de pé, olhando pros lados e esperando ser resgatado por a sua host. TODO mundo que passava, aquela galera branquinha e de olhos claros, indo pro trabalho ou levando as crianças pra escola, parava e ficava me olhando com uma cara de “que porra é essa”?

Depois de meia hora, vi que havia ocorrido um problema e resolvi pegar a minha mochila e tentar ligar pra mina de algum lugar pra poder ver o que tinha ocorrido. Comprei um cartão telefônico de uma velha que não sabia falar inglês (tirei o meu cartão de crédito do bolso, apontei para ele e depois apontei pra um orelhão como que dizendo “cartão para o telefone” e ela acabou entendendo) e tentei ligar pra mina, mas sem sucesso. Já era quase nove e deu pra perceber que realmente não ia dar pra eu encontrá-la pela manhã. Peguei minha mochila e resolvi ir dar uma volta no centro.

Tentando chegar ao centro

Aproveitei que tinha uma galera indo pra escola e perguntei pra uns meninos lá que busão eu poderia pegar pra ir ao centro. Eles me apontaram um e eu fui entrando. Entrei, sentei e fiquei esperando o cobrador chegar pra me cobrar a passagem assim como a tiazona tinha feito no primeiro busão que eu pegara na rodoviária. Rapaz, pra que…

Passou uns dez minutos e nada de aparecer ninguém pra me cobrar, como não sabia o que fazer, resolvi descer do ônibus e perguntar pra alguém nas paradas como eu fazia pra pagar o diabo do busão que ia para o centro. Ledo engano…

Rapaz, pela mesma porta que eu ia descendo, subiu um tiozão barbudo NA FEBRE e bufando pra cima de mim. Ele não deixou eu descer e começou a me xingar miseravelmente em lituano e falou que eu teria que pagar pra andar no ônibus (Jura? Na Lituânia vocês pagam pra andar de ônibus? É que no Maranhão não tem isso – deu vontade de falar pra ele quando ele veio me xingando!)!! Chega os olhos verdes dele pareciam duas tochas! Ele babava de raiva e gritava pra mim assim, basicamente, no meio do busão LOTADO, com uma galera indo pro trabalho e, lógico, com uma pancada de gatinha indo pra escola. Eu não merecia toda aquela vergonha…

Tentei explicar pro figura, em inglês, que eu estava apenas esperando algum cobrador que nem ele aparecer (país estranho esse, os cobradores ficam nas paradas e não dentro dos ônibus!) que eu prontamente iria pagar pela passagem. Não adiantou. O tiozão não falava inglês e quando viu que eu não falava lituano, a única palavra que ele falava, ou gritava, em inglês era “PAY, PAY, PAY!!”. Me lembrou até o indiano de Delhi que só sabia falar “Fee, Fee, Fee”. Como não tava afim de ficar pegando grito de graça, resolvi tirar dois dólares do bolso e dar pra ele pra ver se ele me deixava em paz. Quem disse que ele aceitou?? Depois caiu a ficha! O cidadão que tava me xingando e gritando comigo não era um cobrador de ônibus! Não, ele era mais que isso!! Ele era um FISCAL!! Daqueles que sobem pra checar se a galera pagou pela passagem. E não, ele não estava me cobrando pela passagem, ele tava era ME APLICANDO UMA MULTA!

Ah meu amigo, mas aí a gente ia sair no tapa, porque multa eu não ia pagar. Só pra vocês terem uma ideia, todas as informações de como proceder com o tíquete estava em lituano e a última multinha que eu tinha pago por andar sem passagem no ônibus (deve vez de sem-vergonhagem mesmo, pois tava usando o tíquete errado de propósito) foi na Austrália e me custou a bagatela de cem dólares. A multa por andar sem tíquete na Polônia custava 50 euros. Geralmente a multa de andar sem passagem custa de 50 a 100 vezes o preço do tíquete. Devido ao showzinho todo do fiscal, a multa na Lituânia devia ser pra lá de uns 1000 dólares.

O tiozão não parava de gritar “PAY, PAY, PAY”. Eu comecei foi a balançar a cabeça negativamente a e falar pra ele em português: “Pay porra nenhuma”. A gente ficou nessa de “PAY, PAY, PAY” e de “Pay, porra nenhuma” um tempão. Eu tava era esperando ele me dar voz de prisão e me levar pra uma delegacia, porque enquanto eu não achasse alguém que falasse inglês e para quem pudesse explicar que eu não tinha como ADIVINHAR como se fazia pra poder pagar uma porra de uma passagem, eu não ia aquietar. E isso, claro, esqueci de falar, o ônibus parado com o motorista esperando o fiscal descer. Depois de uns dez minutos nessa putaria, veio um moleque lá e começou a intermediar o conflito.

Ele tentou falar com o fiscal, explicar que eu era estrangeiro, mas o fiscal tava irredutível. Sem sucesso com o fiscal, o moleque veio falar comigo:

– Pô brother, o cara não vai livrar essa de você não.

– Amigo, então não tem o que fazer! Não é culpa minha se todas as informações estão em lituano! Até agora eu não sei como funciona esse sistema de passagem – falei pro menino que tentava me ajudar.

– Tou ligado, cara. É complicado mesmo, mas isso não é culpa dele. Ele tá apenas cumprindo o serviço dele que é multar quem tá sem passagem.

– Boto fé, mas também não é culpa minha.

– Cara, vou jogar a real pra você, paga logo o fiscal porque tá todo mundo indo pro trabalho aqui, o ônibus tá parado e ele pode te dar voz de prisão, o que vai acabar sendo bem pior pra você!

– Não quero nem saber! Eu não tenho dinheiro pra ficar pagando multa assim de graça não, amigo!

– Pombas, se esse for o problema, pode deixar que eu pago sua multa e assim podemos seguir viagem!

(Esse cara deve ser muito rico – pensei)

– Não meu, paga essa multa não!

– Ah cara, relaxa, 15 litas não vão me fazer falta.

!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

– ÃHN?!?!?!?! Quer dizer que a porra da multa é só de SETE DÓLARES?!?!??!?!

!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

– Sim! Por isso que eu não entendo porque você não quer pagar!

– Porra, nós tamos nesse auê todo só por causa de SETE DÓLARES?? Eu achei que ia ter que pagar era uns cinqüenta euros!! Pombas!! Toma aqui fiscal imbecil!! Se quiser eu pago é cem multas!!

Sim, cara!! Acredita nisso? Eu quase fui preso (correndo o risco de ser estuprado por uns africanos imigrantes ilegais no xadrez) ou linchado por uma multidão lituana ensandecida querendo ir pro trabalho por causa de quinze reais!! Pô, a multa era menos que quinze vezes o valor da passagem!! Eu hein!!

A Lituânia sempre pronta para lhe surpreender

Se você tá achando que as bizarrices do sistema de transporte da Lituânia param por aí, você está enganado! Até agora você deve estar se perguntando como é que os bichos faziam pra cobrar a passagem naquele busão, né? Eu também desci no centro me perguntando… Tive que ir num quiosque de ajuda ao turista pra poder descobrir como proceder pra fazer uma das coisas aparentemente mais fáceis do mundo: Pagar uma maldita passagem de ônibus. Chegando lá descobri que a mulher do quiosque não falava inglês! Juro que fiquei me perguntando de que serve um quiosque de ajuda ao turista que só sabe uma língua falada por menos de 4 milhões de pessoas! Até o Maranhão tem mais gente que isso!

Um cara que ia passando pelo local, ao notar meu calvário, resolveu me explicar. Era bem simples, cara… Se liga no cara me explicando:

– É bem simples, amigo, basta você prestar atenção na numeração dos ônibus!! Os ônibus de 11 a 20, você paga para o cobrador que estará dentro. Os de 21 a 40 você paga diretamente ao motorista. Os de 41 a 60, você precisa comprar o tíquete com antecedência em um quiosque e entregar para o motorista. Os de 61 a 80 você deve comprar um tíquete na banca, entrar no ônibus e furá-lo numa maquininha que vai ter lá dentro! Por último tem os de número 90, mas esses são apenas para fazer city-tour pela cidade…

Anotaste? Sabe aquela história que eu falei que cada país tenta ser o mais criativo possível quando o assunto é ônibus? Pois é! Na Lituânia é simples como passar raiva em Teresina.

Feito para turista. Se for para Vilnius, alugue um elefante, deve ser mais fácil se movimentar pela cidade…

Melhor, não compre o tíquete! Pague os sete dólares da multa! Confesso que vai valer a pena ver o tiozão na febre pra cima de você…

Param, param, param, param, param, parampampam!!

Galera, estávamos já no fim da festa. Quando achávamos que nada mais de novo iria acontecer (a não ser uma proposta de ir para uma casa de swing), surge uma mina com corações amarrados na cintura e mais louca que o batman se contorcendo feito uma lacraia! Veja com o que nos deparamos no meio do salão:

É amigo!! Tem gente que dança até o final!! Ainda mais com balões em forma de coração amarrados!!! Hehehe

Abraços maranhenses

E casa de swing, como foi?

Acordei pela manhã na febre pra saber o que havia acontecido, o que havia ocorrido na fatídica noite da ida ao swing. Procurei a norueguesa, a acordei e chamei pra sairmos logo. Quanto mais cedo saíssemos melhor seria pra poder conseguir pegar uma boa carona e conseguir chegar a Riga, capital da Letônia.

Ela levantou e enquanto tomávamos café não pude conter minha ansiedade de perguntar como havia sido a noite passada, o que realmente havia acontecido na casa de swing. Fiquei deveras ansioso pra poder saber todos os detalhes, não me contive e saí bombardeando a mina de perguntas:

– Então, como foi? Foi legal? Pegou quantos? E quantas? A putaria foi desenfreada mesmo?

Sabe o que ela respondeu?

– Não, Claudio, não ocorreu nada. Na hora que chegamos o lugar já estava fechando e não pudemos entrar. Apenas pegamos um táxi pra casa e viemos dormir.

Arf, não era o que eu estava esperando ouvir, mas enfim, pra mim tudo é festa.

Pegamos nossas coisas, nos despedimos do casal mais louco de toda a minha viagem e seguimos em direção ao final da cidade para poder esticarmos os braços e tentarmos de alguma maneira chegar até Riga.

No caminho, dentro do ônibus, ainda pude ver dois moleques BÊBAÇOS dormindo encostados em um banco. Não terminou muito e uma tiazona, com uma cara de uns sessenta anos, subiu no busão e pediu o tíquete deles. Como não podia deixar de ser, eles estavam sem e acabaram sendo multados. Ao contrário de como ocorreu comigo quando o tiozão veio bufando pedindo meu tíquete, com eles a tia foi até simpática.

Descemos do ônibus, andamos mais algumas centenas de metros e enfim chegamos ao final da cidade.


Com o braço esticado

Reparem que lá no fundo tem uma outra mina pedindo carona também…


Esticamos o braço e ficamos esperando alguém que nos levasse.

Galera, apesar daquela imagem romântica que a gente tem de pegar carona (o braço estendido, o vento batendo no cabelo, a sensação de liberdade sem fronteiras…) isso às vezes pode ser MUITO chato! Sério, os primeiros dez minutos são até engraçados. Depois de vinte minutos começa a cansar e meia hora depois você já está de saco cheio e começa a pensar na possibilidade de pegar um ônibus mesmo. Comigo não foi diferente.

Enfim, depois de meia hora, comecei a pensar em propor à norueguesa que fôssemos de busão mesmo pra Riga, já que era bem perto.

Passou uns cinco minutos e um carro parou ao meu lado. Dentro da caranga tinha uma cambada de loiro do olho azul de cabelo rastafári, fumando e escutando um reggae no melhor estilo “Maranhão Roots”. Eles pararam ao meu lado, mas assim que viram que estávamos em dois, os caras foram embora sem falar nada. Havia quatro no carro deles e, portanto, vaga pra só mais um. Apesar de ter sido por pouco, aquela parada tinha me dado um ânimo maior e empolguei de novo em pegar carona.

Depois de mais ou menos uns vinte minutos, um simpático casal de velhinhos parou ao nosso lado e nos ofereceu carona. Eles não falavam nada de inglês, mas mesmo assim, através de gestos, “falaram” para entrarmos no carro. Entramos no carro e seguimos, sem eira nem beira, com uma música de James Dean tocando na minha cabeça, em direção à Riga, onde muitas loucuras e presepadas me aguardavam…

Sugestões pro final do post passado

Leonardo Durans sugeriu:

Bicho, quero muito ler o próximo capítulo ;D

a) Ele perguntou se tu tinha dado em cima da mulher dele.

b) Ele saiu logo na porrada.

c) Ele chegou pra te beijar também.

d) nenhuma das anteriores.

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Daniel sugeriu:

“- Claudio, precisamos conversar…”
‘- Maluco, q historia eh essa de dar arroz afrodisiaco pra minha mina, deixar ela toda com vontade, e depois dar pra trás?’ E vai te socar a bota, dizer q tu eh viado..!

EASIUEHASIUEHASIUEHISAUHEIASUEH

Certeza que não deu foi nada!
mas em todo caso, tenho uma música pra vc tbm..:
‘Dói, um tapinha não dóóói..’
;D
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Logicamente todas erradas 😛
Pra quem não entendeu nada, favor checar o post E o dia Amanhece

Final da prosopopéia

Essa foi uma cerveja que me impressionou muito na Lituânia. Mistura de energético e cerveja vendido direto na garrafa. Bom, né?

Ao chegar à festa, assim como falei no post passado, Nedved chegou, me puxou pelo braço e falou que precisava falar comigo. O que se passou na minha cabeça? Uai o que vocês estão pensando também: – Acabou! Morri! Vou comer grama pela raiz! O cara vai me empalar aqui no meio da Lituânia.

Meu coração começou a bater forte e eu estava à espera da minha sentença capital. Ele disse:

– Claudio

Tum, Tum, Tum (dava pra ouvir as batidas do meu coração)

– A Riga

TUM TUM TUM TUM TUM

– Me contou de ontem à noite…

TTTTTTTTTTTTUUUUUUUUUUUUUUUMMMMM…

– Não cara, mas peraí, eu juro que eu não fiz nada! Não foi minha culpa! Sério, eu nunca iria provocar ela!! Mermão, eu juro!! Er… quer saber?? Eu nunca te falei isso, mas eu sou viado!! Isso, VIADO! Nem de mulher eu gosto!! Me caparam quando eu era criança! Eu não queria te falar isso, mas eu sou eunuco!! EUNUCO!! – eu desesperadamente clamava por piedade ao mesmo tempo em que começava a ver o chamado dos meus parentes mortos…

– Não, não, mermão, relaxa! Ela me contou tudo o que ocorreu! Não tem nada de errado. Eu tou ligado que você deve estar assustado com tudo que aconteceu, mas pode ficar de boa. Não há problema algum entre mim e ti. Eu e a Riga mantemos uma relação bem liberal e não haveria problema se algo ocorresse. Estou falando contigo só porque não queria que você ficasse assustado! Pode ficar tranqüilo que está tudo de boa. Toma aqui, bebe essa cerveja!

– Er… Ok! Obrigado!

Ãhn? Como assim? Acabou? Estou vivo? Com os quatro braços? Meu coração ainda está batendo? Obrigado, senhor, por ter piedade de mim!

Pois é, amigo, mas foi isso mesmo. Nada ocorreu. A mina simplesmente queria me pegar e o marido dela não ia encanar com nada. Simples assim…

Após de todo esse aperreio, apenas curtimos a balada. O local era bem agradável e ainda conheci uma galera de Portugal que estava fazendo intercâmbio pelo Eramus.



Assim que cheguei na Lituânia, umas das primeiras fotos que bati foi desse muro pichado escrito “All Cops are Bastards” (todos os policiais são bastardos). Achei engraçado e resolvi bater a foto imaginando que isso devia ser um lema de algum grupo anarquista ou algo do tipo.

Depois descobri que a parada é tipo um lema da galera que gosta de sair à noite e encher a cara. Quando olhei essa tatuagem no braço desse lituano que foi sair com a gente perguntei pra ele o que significava aquelas iniciais. Eles disse: “All Children Are Beautiful” (todas as crianças são lindas). Logicamente eu desconfiei do que era e só posteriormente liguei as iniciais à pichação que havia visto ao chegar em Vilnius



No final, ainda haveria mais uma surpresa


Quando começamos a sair da balada, umas três da manhã, reunimos a galera pra poder ir embora. Pensa que o casal queria ir? Nada…

Depois de um “ataque lituano”, passar o dia inteiro com as costas viradas pra parede temendo pela minha vida e no final sair vivo dessa história toda a gente já começa a achar que nada mais pode ocorrer, correto? Pois é, a noite ainda me aguardava surpresas, meu amigo… Por incrível que pareça!

Mermão, os caras propuseram uma parada massa pra gente. O que vocês acham que foi? Alguém quer chutar? Um cinema? Uma missa? Uma padaria? É bom, né? Tomar um Nescau assim, depois da balada sempre deve fazer bem. Não, claro que não! Eles basicamente propuseram ir para UMA CASA DE SWING! Sim, nos convidaram a ir para uma casa de swing. Mas com uma naturalidade de quem convida pra ir visitar a avó! E eu preocupado com a mulher do cara querendo me beijar…



Achada na balada… Cachaça brasileira...

LOGICAMENTE não aceitei, até porque aí já era MUITA putaria pra mim, meu amigo! Pelamordedeus! Eu tenho valores, e putaria generalizada não é uma parada que me deixe lá tão empolgado! Além disso, teria que acordar cedo no outro dia para poder pegar carona pra Letônia.

Dei uma de “pega-nínguem” e resolvi pegar um táxi para casa. Deixei o casal maluco e a norueguesa lésbica se divertirem por lá e segui o meu caminho pro apartamento pra dormir.

Acordei pela manhã com as malas prontas e, claro, ávido por notícias de como havia sido a noite deles nessa bendita casa de swing. Uma coisa era certa, o potencial para história loucas de um casal maluco e uma lésbica norueguesa em uma casa de swing não deveria ser baixo…

Mas isso são cenas para o próximo capítulo do blog que, como dizia Leo Durans, tá cada dia mais parecendo uma novela, hahahahaha.

Acima alguns comentários de como a história da “conversa com o cara” ia acabar…

E o dia amanhece

No outro dia acordei mais escabreado que peru em véspera de Natal. Assim que fui pra cozinha, Nedved foi saindo pra trabalhar e a mina dele veio falar comigo. Pediu desculpas pelo que tinha ocorrido na noite passada, mas falou que a culpa era minha por ter meio que “provocado” ela. Pensei em pedir desculpas por ser tão irresistível, mas achei melhor falar que tudo tinha ficado de boa. A diplomacia do arroz já tinha obtido sucesso pra fazer amigos, mas fazer uma mulher se apaixonar por mim só porque ela tinha comido do meu arroz (não em duplo sentido nessa frase, cara!), era estranho… Pelo menos era a primeira vez… Meu arroz era meio que um afrodisíaco, pensei…

Depois que eu entrei no banheiro pra tomar um banho que eu comecei a ficar pensando. Êpa, mas peraí, quer dizer que eu estava PROVOCANDO a mina? Ãhn? Como assim?? Eu não fiz nada demais!! E se, ÉGUAS, e se ELA FALASSE ISSO PRA ELE?? Ah mermão, aí o bicho ia pegar!! Imagina o cara ouvindo isso e depois pensando: “Quer dizer que eu dou comida, cerveja, cama e absinto pro cara e ele ainda fica bandeando a minha mulher? Ah, mas ele vai pagar por isso!”. Pronto, agora eu tava feito, pior do que pegar porrada por ter pego a mulher de outro cara, é pegar porrada de um cara e ainda por cima nem ter pego a mulher dele! Mas antes eu tivesse pego!

Enfim, fiquei a manhã e a tarde inteira com o coração disparado! Fiquei imaginando o cara sabendo da história, vindo tomar satisfação comigo e depois me colando na parede a base de pancada. Enfim, uma hora ele iria chegar em casa e eu tinha que pensar no que fazer. Não podia simplesmente pegar minhas coisas e cair fora pra Letônia, afinal, eu tinha combinado com a norueguesa de ir junto com ela. Que desculpa eu iria dar pra não ir? “Ah, tipo, não sei por que, mas me deu uma vontade imensa de ir embora”, não ia colar. O jeito era esperar e enfrentar o urso letão.

O rapaz chegou por volta do final da tarde. Veio falar comigo de boa, naquele jeitão meio louco dele e vi que a mina não tinha contado nada pra ele. Pensa que eu fiquei tranqüilo? Naaadaaa… Pense num menino mais aperreado que moleque correndo de maribondo? Mais aperreado que mãe de astronauta? Pois era eu! Mermão!! Eu chega passei o dia inteiro com as costas viradas pra parede. NÃO TOU EXAGERANDO!! Tou falando sério, mesmo! Eu nunca ia dar minhas costas praquele menino! Não sou nem louco! Ele vinha pra falar comigo eu, CAPLOFT!!!, jogava as costas na parede. Fiquei assim até de noite. Seguro morreu de velho…

Quando foi a noite, ele convidou a mim e a norueguesa para ir a uma balada e fomos nos aprontar. Tomei meu banho, usei uma toalha pra lavar o rosto, outro as pernas e fomos sair. No caminho, claro, o bicho comprou umas cervejas pra gente e descemos pra balada. Chegamos em uma casa que parecia meio abandonada e caindo aos pedaços, mas assim que entramos pude perceber o TANTO de gente que havia no seu subsolo. Uma galera totalmente pirada, dançando e curtindo no melhor estilo “balada Leste Europeu”. Depois de uns dez minutos, Nedved comprou duas cervejas, deu uma pra mim, me chamou no canto e falou: – Claudio, precisamos conversar…

Medo, MUITO medo!


Depois de comermos um arroizão “à maranhensis”, ficamos jogando conversa fora e tomando umas, como já havia dito no post passado.

Começou aí o momento mais emblemático de toda a minha passada pela Lituânia.

A norueguesa depois de um tempo falou que estava começando a ficar com sono e não restou outra alternativa a não ser ir para o quarto dormir. Depois de um tempo, os amigos de Nedved também foram dormir e ficamos só nós três conversando na cozinha. Ficamos um tempão trocando uma ideia. O casal era pirado demais e MUITO gente boa. Conversa daqui, conversa dali, viagem daqui, viagem dali e fomos indo noite adentro. Depois de mais ou menos uma hora, Nedved me falou que tava com sono e que tava muito afim de ir dormir. Perguntou se Riga tava querendo ir também, mas ela falou que não tava com sono e perguntou se eu não poderia fazer um pouco mais de companhia a ela por um tempo. Falei que era de boa, já que eu estava sem sono e fiquei lá.

Nedved falou que tava tudo certo e foi pro quarto. Eu aproveitei pra ir ao banheiro. Quando voltei ocorreu algo que eu tenho na minha cabeça como se tivesse acontecido ontem, ainda agora.

Sentei numa cadeira e quando eu comecei a conversar com a Riga ela começou a olhar fixamente nos meus olhos e sem falar nada. A mulher começou a me encarar de um jeito que eu até comecei a ficar sem graça. Quando eu perguntei o que estava acontecendo, ela nem pensou duas vezes: VLAPT!! VOOU pra cima de mim!! Correu pra cima em um “GO GO FIGHT” sem dó nem piedade. Voou pra cima de mim no famoso “pescoção”.

Eu meio que sem entender o que ela tava fazendo, na hora, instintivamente, achei que ela ia, de molecagem ou brincadeira, tentar me derrubar da cadeira ou jogar cerveja em mim, ou algo assim, por isso desviei. Dei uma de Matrix e por pouco a mina não me beijou.

ÃHN?!?!? Que diabo é isso, doido? A mina tava tentando me beijar? Era isso?? Como assim? Eu estava sendo praticamente atacado! Abusado sexualmente!! Liguem para a polícia!! Chamem a Interpol! Isso é quase um estupro!!

Tentei fazer ela mudar de ideia e demonstrar que eu não queria, mas, pensa que ela desistiu? Claro que não, amigo!! Não é fácil resistir a um corpinho atlético desses aqui. 1,63m de pura emoção!! Não é todo dia que aparece um maranhense desses sarado na sua cozinha!! A mina continuou tentando me agarrar pelo pescoço e a me finalizar e eu desviando no melhor estilo Keanu Reaves.

Por que eu não estava deixando ela me beijar? Não amigo, não é por que eu prezo o matrimônio e a fidelidade entre os casais. Não é por que eu nunca faria um casal feliz e sorridente se desfazer apenas por causa da fraqueza dela perante esse pedaço de mal-caminho aqui não. Ou você acha que eu dei uma de Padre Zezinho e enquanto ela tentava me beijar eu ficava cantando: “Que o casal seja um para o outro de corpo e de mente/ E que nada no mundo separe um casal sonhador/ Que ninguém interfira no lar e na vida dos dois/ Abençoa senhor as famílias, Amém. Abençoa, senhor, a minha também!”? Claro que não, brother!! Também não é devido a falta de masculinidade! Era mais um instinto de sobrevivência mesmo. Ou você esqueceu que um lituano muito do mal-encarado dormia no quarto ao lado? Acho que o cara não ia gostar muito quando descobrisse o que ocorreu e pensasse no outro dia: “Eu dou comida, cerveja, cama e absinto pro cara e ele ainda come a minha mulher?”. Se um cara normal já ficaria puto imagina um cidadão daquele, com aquela cara de psicopata? No mínimo ele iria servir um “maranhense no espeto” mais ou menos como a chinesa da Austrália…

Você aprontando, né seu maranhense?

Depois de um tempo dela tentando me “atacar” eu tive meio que correr pro meu quarto e dizer que ia dormir. Ela falou que tava tudo bem e perguntou se eu não queria que ela arrumasse minha cama. Numa hora tensa como aquela é claro que eu falei que não. Resolvi ir dormir e ver como o outro dia ia amanhecer.

O que ocorreu pela manhã? Bem, nem preciso dizer que isso é apenas o começo de uma presepada cinco estrelas, né peixe? Fica pro próximo post…

Se você acha que já leu tudo podia que ter acontecido em Vilnius, leia este post.

Galera, acabou que de tanto eu escrever sobre Uzupio me esqueci de falar como e por que ocorreu uma mudança de couch enquanto estive na Lituânia. Por que saí do couch da Aistê, onde só fiquei uma noite, e mudei para um outro. Deixa eu explicar…

Assim que eu decidi viajar para Vilnius, sozinho, fiz o que é de praxe no Couchsurfing.org e saí mandando mensagens pra uma galera pedindo pra me hospedarem. Mandei pra umas dez pessoas diferentes e duas me responderam que podiam me hospedar de boa. Acabei decidindo pela Aistê, parte porque o outro couch seria com um casal e o couch da Aistê era só com ela, parte porque o casal parecia ser MUITO louco pros meus parâmetros.

Assim como já expliquei num post passado, um dia antes de eu partir de Varsóvia para Vilnius, uma norueguesa perguntou se eu ainda estava procurando parceiro de viagem. Respondi que sim e ficamos de nos encontrar já pela Lituânia. Como eu sabia que ela não teria onde ficar pedi para o casal que se ofereceu pra me hospedar que hospedasse a norueguesa também. Eles falaram que podiam hospedar e ficou tudo de boa.

Tudo transcorreu bem. Dormi na casa da Aistê, a mina era gente boa demais e no outro dia me encontrei com a norueguesa (gente, eu não lembro o nome dela :P) e fomos dar um rolê por Vilnius. Combinamos que no outro dia iríamos partir de carona para Letônia e ela me perguntou se não seria mais fácil se dormíssemos juntos na casa do casal para assim, pela manhã, sairmos juntos pra pedir carona. Ela ligou pra eles, eles autorizaram e resolvi descer pra lá.

Passei na casa da Aistê, peguei minhas coisas e parti rumo à casa de um dos casais mais LOUCOS que já pude ver em toda minha vida…

CASA DAS LOUCURAS

Assim que cheguei ao apartamento dos caras, vi que a parada ia ser dura. De cara lembrei do apartamento dos horrores em que havia sido hospedado no Havaí (se você não leu este post ainda, leia! Ele com certeza é um dos mais engraçados que já ocorreu). A casa era toda doida as paredes descascadas e mal-pintadas e bagunça pra todo o lado. Comecei a me perguntar se alguém realmente morava por aquele apartamento.

Logo de começo me foi apresentado o casal dono do apartamento: Riga e Nedved. Os caras pareciam ser loucos DEMAIS!! Você via pela cara deles que eles não eram pessoas muito “normais”. Larguei minhas mochilas e fui conversar com os bichos.

Antes de eu começar a contar como foi a história, só para ilustrar, vou contar como era o apartamento em que fiquei hospedado. O banheiro tinha uma banheira igual à do Havaí com o mesmo estilo dégradé da de lá. Não existia chuveiro! O “chuveiro” era uma mangueirinha que você ligava e tinha que ficar segurando enquanto se molhava! Impossível de tomar banho!!

Quando pedi emprestada uma toalha, já que a minha estava molhada, o cidadão foi lá e me trouxe duas, ao invés de uma – Pra que diabos eu vou querer duas toalhas? – Eu perguntei. O bicho foi lá e me explicou:

– Rapaz, é porque aqui em casa eu costumo usar duas toalhas e talvez você pensasse em fazer o mesmo! Com uma das toalhas eu enxugo o meu rosto. Com a outra toalha eu enxugo minhas bolas. Ou você acha que a mesma toalha que eu passo nas minhas bolas eu vou passar no meu rosto?

Rapaz… Não é que a parada faz sentido? Você já parou pra pensar que todos os dias você praticamente esfrega as suas, digamos, “partes baixas” na sua cara quando vai se enxugar depois do banho? Diga aí, você nunca mais vai se enxugar direito depois de uma dessas, né? Pois é, eu também não.

Depois que tomei meu banho, Nedved perguntou o que eu queria comer. Falei pra ele que acho que seria de boa se eu preparasse uma comida brasileira pra galera poder sentir um pouco mais o que era Brasil. Ele curtiu a ideia e me chamou pra ir ao supermercado com ele pra poder comprar os ingredientes.

Sambando na Lituânia

Fomos ao supermercado e começamos a pegar os ingredientes para o “brazilian dish”. Ao chegarmos ao supermercado ele foi pegando as coisas e eu comecei a contar: Uma cebola, um tomate, meio quilo de carne, sal, alho, um pacote de arroz e PRÁÁÁ!! CINQÜENTA DE CERVEJAS!!! O cara começou a LOTAR, sem dó nem piedade, o carrinho de cerveja!! E o pior que ele ia enfiando as cervejas dentro do carrinho e ia contando em voz alta: 1, 2, 20, 30, 40, 50!!! CINQÜENTA!! CERTINHO!!! “É melhor sobrar do que faltar” – ele disse pra mim… Er, com certeza!

Voltamos pra casa e a galera nem perguntou do arroz, foi logo abrindo as cervejas e começando a encher a cara! Eu meio que me senti desprestigiado. Pô! Tava cozinhando pra galera e neguinho só querendo encher a cara!! Enfim, enquanto eu cozinhava o arroz, o casal, a norueguesa e mais uns amigos deles que estavam lá foram detonando as cervejas!! A parada ficou pronta e, como já era de se esperar, foi um sucesso geral! Todo mundo comendo que nem uns bichos o meu arroz, não sei se porque estava gostoso, não sei se era por causa da cerveja mesmo! Depois que terminamos de comer, claro, entrei na onda da galera e comecei a beber também. Rapaz, mas quem disse que deu tempo? Os caras beberam as cervejas MUITO rápido! Só deu tempo de eu beber umas duas garrafas – Devíamos ter comprado 70! – pensei.

Mas acha que tem jogo ruim pra galera? Tem não, amigo!! Lá de dentro dos quartos deles a mina só veio e me apareceu com aquilo que iria marcar a minha noite: Uma mini-garrafa de absinto. Sim, cara, absinto! A fadinha verde, pros mais íntimos!! A galera acho que não tá muito ligada no que estou falando, no que seria absinto. Ela é mais conhecida como a bebida do demônio!! A fada verde! A bebida com maior gradação alcoólica vendida no mundo. No Brasil ela é vendida com a gradação de “apenas” 53% (a legislação brasileira só permite a venda até 54%), mas no exterior ela é comercializada naturalmente a meros 75% de álcool!! DO MAL!!

Olha o que eu trouxe lá de dentro brasileirinho, HUÁ HUÁ HUÁ

Mermão, no início eu fiquei com medo daquela parada, mas quem tá na chuva é pra se molhar. Eita, mas foi a primeira golada e eu já senti a minha alma entrando e saindo do corpo. Parece que você vai virar do avesso!!

Depois de um tempo chegaram algumas bebidas e continuamos conversando e nos divertindo. Após mais ou menos uma hora uma parte do povo foi dormir e eu fui ficando com cada vez menos pessoas comigo na cozinha. Bem, aí você vai pensando… Álcool a rodo, cada vez menos gente ficando na cozinha, todo mundo louco. O que mais pode sair de uma arrumação dessas?

De tanto os caras me falarem como se dizia “Saúde” em lituano e eu nunca decorar, eles foram lá e escreveram no meu braço, hehehe

Enfim, vou deixar vocês curiosos, depois posto o final da história, hehehehe… Mas posso adiantar, a presepada vai ser GRANDE!! Com certeza uma das maiores já ocorridas em toda viagem!! Se não a maior, com certeza a que me fez sentir mais próximo da morte em todo este ano de viagem pelo mundo…

Presepada cinco estrelas, pode contar comigo…

Beba Absinto e tenha o mundo aos seus pés!! Er… Quer dizer, tome absinto e sinta-se aos pés do mundo!!

P.s: Esta é apenas uma peça publicitária. Logicamente eu não capotei embriagado no chão. A garrafa encontra-se quase que totalmente cheia e tampouco fumo, tirei essa foto só pra fazer graça mesmo, hehehehe… Era pra ela ficar parecida com essa foto aqui de baixo:gatochapado.jpg

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Museu do Genocídio

Após o acontecimento com o tiozão com sangue nos olhos, não me restou outra opção senão a de ficar vagando por Vilnius enquanto a minha host não saía do trabalho. Liguei pra ela do skype e ficamos de nos encontrar às 18h numa das praças da cidade.

Desci no centro e fiquei caminhando.

Mais uma vez me chamou bastante a atenção a diferença que parecia haver entre Vilnius e as outras cidades da Polônia que eu já estivera. Parecia haver um precipício imenso entre dois países com histórias tão parecidas (Lituânia e Polônia chegaram a se unir e formar um mesmo país por mais de cem anos) e tão próximos.

Caminhando por lá, acabei indo parar em um tipo de museu que existe em todos os países da Europa Oriental: Museu das atrocidades cometidas pela União Soviética. O museu fica localizado numa das várias ex-prisões da KGB e atende pelo simpático nome de “Museu em homenagem as vítimas do genocídio na Lituânia” Era interessante porque era possível ver as celas onde eles encarceravam os desafortunados da resistência lituana e também os vários brinquedinhos de tortura. Dentre os vários instrumentos de tortura, teve um que me chamou muito a atenção pela simplicidade, mas principalmente pela eficácia. Fiz um esqueminha abaixo pra vocês poderem entender:

Pode parecer idiota, né? É só um cara em cima de um banquinho com um bando de água. E aí? Se ele ficar com sede ele pode até tomar um gole, né? Pois é, agora imagina você tendo que ficar numa sala como essa, em pé, durante dias? Quer piorar? Imagine como deveria ficar agradável durante o inverno? Cinco, três graus… A água vire praticamente um veneno. Não-raro prisioneiros tombavam de exaustão.

Cara, sacaram a genialidade da parada? Você não precisa de carrasco, não precisa se preocupar em gastar energia descendo o cacete no figura e o custo é irrisório. Apenas água e muita determinação. Fiquei de cara com a crueldade da parada, meu…

Também é mostrada no museu a resistência lituana contra a dominação soviética, exaltando os “diversos heróis da pátria” que lutavam numa guerra Partisan, guerra de guerrilhas. Logicamente, tal resistência foi irrisória e apenas serviu para nutrir o sentimento de nacionalismo lituano.

Depois de mais ou menos uma hora na prisão, ainda pude ver no final algumas covas coletivas onde os russos enterravam os corpos de prisioneiros desafortunados.

Assim que saí do museu, conheci uma brasileira gente boa demais que morava na Rússia e tava dando um rolê por aquelas bandas. Ficamos amigos e começamos a andar pela cidade.

Andando com a mina, surgiu essa escultura mais do que louca na nossa frente!! Um bando de torneira jorrando água com uma cambada de pneus jogados. O que seria isso? Uma fonte? Um cérebro (pior que parece mesmo, dá só uma olhada melhor…)? Uma intervenção urbana? Nunca saberemos, amigos…

Depois de alguns minutos e algumas fotos, nos deparamos com uma cena, no mínimo, inusitada.

Vários cadeados de todos os tamanhos, formas e cores encontravam-se dependurados em uma ponte próxima a esta placa abaixo:

Não sabia, mas estava adentrando em outro país, a República Independente de Uzupio, um dos lugares mais interessantes em que estive durante toda a viagem.

Mas isso é assunto pros próximos capítulos…

Saindo da rodoviária

Assim que cheguei a Vilnius, a primeira coisa que tentei fazer, claro, foi tentar achar o lugar onde a minha host morava, largar minhas mochilas por lá e sair perambulando pela cidade.

Na rodoviária, tentei por diversas vezes ver se alguém falava inglês, mas lá não tinha ninguém jovem e, na Europa Oriental, se você não tem menos de trinta anos, você fatalmente não falará inglês. Depois de várias tentativas frustradas não me restou outra opção senão utilizar uma velha tática que nunca falhava em nenhum lugar do mundo: Escrever em um papel o nome do bairro da minha host, chegar perto de qualquer transeunte, apontar para qualquer busão, apontar pro pedaço de papel e fazer uma cara de bobo do tipo “qual busão eu entro”?

Cheguei pra um tiozão barbudo, careca e que parecia realmente pegar busão todos os dias e fiz a técnica do “pedaço-de-papel-qual-onibus-cara-de-bobo”. Vi que o tiozão meio que ficou achando graça da minha cara de bobo (cara, eu sou muito bom em fazer uma cara assim, pode acreditar!) e depois de algum tempo apontou pra um busão qualquer em que eu entrei sem pestanejar.

Entrando no ônibus, era chegada a hora do segundo round: Descobrir como se fazia pra PAGAR o ônibus. É, pode parecer besteira, mas parece que cada país que ser mais criativo que o outro quando a matéria é cobrança nos ônibus. Em cada país diferente acontece uma verdadeira epopéia para descobrir como se fazer pra pagar a passagem. Assim que entrei, tentei procurar alguém que aparentasse ter menos que 20 anos pra perguntar, mas não foi preciso, uma tiazona veio ao meu encontro chacoalhando o que parecia ser um cilindro de alumínio e pelo som que fazia dentro daquele “chocalho lituano” parecia haver moedas dentro dele. Saquei logo, ela era a cobradora.

Como não tinha a mínima ideia de quanto seria a passagem, peguei o equivalente a 10 dólares em moeda lituana e dei pra mulher. Pô, mais que dez dólares eu tinha certeza que não ia ser! A veia ficou injuriada e vi que ela gesticulava e mandava eu pegar uma nota menor. Peguei o equivalente a cinco dólares e ela a contragosto me deu umas seis notas diferentes de troco!

Pelo menos eu já tinha aprendido a pegar ônibus na Lituânia…

Mostrei pra ela aonde iria e pedi pra ela me avisar o momento certo de descer.

Fiquei sussa e quando foi a hora certa, a tia me cutucou e eu desci na parada que ela me mostrou.

Tentando chegar em casa

Assim que desci do ônibus, peguei o mapinha que tinha imprimido com as coordenadas de como chegar ao apartamento e segui caminhando. Teria que ir rápido, pois já eram rodados 07h50min da manhã e ela falou que tinha que sair de casa às 8h para seguir para o trabalho. Andei até o ponto que ela havia me falado para que assim que chegasse ligasse ou mandasse uma mensagem.

Mandei uma mensagem e esperei um tempinho. Deu uns dez segundos e meu celular começou a tocar, era ela! Quando fui atender, veio a melhor parte: a minha bateria caiu e não teve como atender. E agora? O que eu deveria fazer? Teria ela ligado pra avisar que já tinha ido ao trabalho? Pra avisar que me via da janela do apartamento dela? Pra avisar que estava indo me buscar? Eu não sabia! De uma maneira ou de outra, o melhor a se fazer era esperar e ver o que iria acontecer.

A melhor parte era onde eu estava. No meio de um descampado! Imagina a cena! No meio de um descampado enorme, um latino moreno, com uma mochila nas costas, de pé, olhando pros lados e esperando ser resgatado por a sua host. TODO mundo que passava, aquela galera branquinha e de olhos claros, indo pro trabalho ou levando as crianças pra escola, parava e ficava me olhando com uma cara de “que porra é essa”?

Depois de meia hora, vi que havia ocorrido um problema e resolvi pegar a minha mochila e tentar ligar pra mina de algum lugar pra poder ver o que tinha ocorrido. Comprei um cartão telefônico de uma velha que não sabia falar inglês (tirei o meu cartão de crédito do bolso, apontei para ele e depois apontei pra um orelhão como que dizendo “cartão para o telefone” e ela acabou entendendo) e tentei ligar pra mina, mas sem sucesso. Já era quase nove e deu pra perceber que realmente não ia dar pra eu encontrá-la pela manhã. Peguei minha mochila e resolvi ir dar uma volta no centro.


Tentando chegar ao centro

Aproveitei que tinha uma galera indo pra escola e perguntei pra uns meninos lá que busão eu poderia pegar pra ir ao centro. Eles me apontaram um e eu fui entrando. Entrei, sentei e fiquei esperando o cobrador chegar pra me cobrar a passagem assim como a tiazona tinha feito no primeiro busão que eu pegara na rodoviária. Rapaz, pra que…

Passou uns dez minutos e nada de aparecer ninguém pra me cobrar, como não sabia o que fazer, resolvi descer do ônibus e perguntar pra alguém nas paradas como eu fazia pra pagar o diabo do busão que ia para o centro. Ledo engano…

Rapaz, pela mesma porta que eu ia descendo, subiu um tiozão barbudo NA FEBRE e bufando pra cima de mim. Ele não deixou eu descer e começou a me xingar miseravelmente em lituano e falou que eu teria que pagar pra andar no ônibus (Jura? Na Lituânia vocês pagam pra andar de ônibus? É que no Maranhão não tem isso – deu vontade de falar pra ele quando ele veio me xingando!)!! Chega os olhos verdes dele pareciam duas tochas! Ele babava de raiva e gritava pra mim assim, basicamente, no meio do busão LOTADO, com uma galera indo pro trabalho e, lógico, com uma pancada de gatinha indo pra escola. Eu não merecia toda aquela vergonha…

Tentei explicar pro figura, em inglês, que eu estava apenas esperando algum cobrador que nem ele aparecer (país estranho esse, os cobradores ficam nas paradas e não dentro dos ônibus!) que eu prontamente iria pagar pela passagem. Não adiantou. O tiozão não falava inglês e quando viu que eu não falava lituano, a única palavra que ele falava, ou gritava, em inglês era “PAY, PAY, PAY!!”. Me lembrou até o indiano de Delhi que só sabia falar “Fee, Fee, Fee”. Como não tava afim de ficar pegando grito de graça, resolvi tirar dois dólares do bolso e dar pra ele pra ver se ele me deixava em paz. Quem disse que ele aceitou?? Depois caiu a ficha! O cidadão que tava me xingando e gritando comigo não era um cobrador de ônibus! Não, ele era mais que isso!! Ele era um FISCAL!! Daqueles que sobem pra checar se a galera pagou pela passagem. E não, ele não estava me cobrando pela passagem, ele tava era ME APLICANDO UMA MULTA!

Ah meu amigo, mas aí a gente ia sair no tapa, porque multa eu não ia pagar. Só pra vocês terem uma ideia, todas as informações de como proceder com o tíquete estava em lituano e a última multinha que eu tinha pago por andar sem passagem no ônibus (deve vez de sem-vergonhagem mesmo, pois tava usando o tíquete errado de propósito) foi na Austrália e me custou a bagatela de cem dólares. A multa por andar sem tíquete na Polônia custava 50 euros. Geralmente a multa de andar sem passagem custa de 50 a 100 vezes o preço do tíquete. Devido ao showzinho todo do fiscal, a multa na Lituânia devia ser pra lá de uns 1000 dólares.

O tiozão não parava de gritar “PAY, PAY, PAY”. Eu comecei foi a balançar a cabeça negativamente a e falar pra ele em português: “Pay porra nenhuma”. A gente ficou nessa de “PAY, PAY, PAY” e de “Pay, porra nenhuma” um tempão. Eu tava era esperando ele me dar voz de prisão e me levar pra uma delegacia, porque enquanto eu não achasse alguém que falasse inglês e para quem pudesse explicar que eu não tinha como ADIVINHAR como se fazia pra poder pagar uma porra de uma passagem, eu não ia aquietar. E isso, claro, esqueci de falar, o ônibus parado com o motorista esperando o fiscal descer. Depois de uns dez minutos nessa putaria, veio um moleque lá e começou a intermediar o conflito.

Ele tentou falar com o fiscal, explicar que eu era estrangeiro, mas o fiscal tava irredutível. Sem sucesso com o fiscal, o moleque veio falar comigo:

– Pô brother, o cara não vai livrar essa de você não.

– Amigo, então não tem o que fazer! Não é culpa minha se todas as informações estão em lituano! Até agora eu não sei como funciona esse sistema de passagem – falei pro menino que tentava me ajudar.

– Tou ligado, cara. É complicado mesmo, mas isso não é culpa dele. Ele tá apenas cumprindo o serviço dele que é multar quem tá sem passagem.

– Boto fé, mas também não é culpa minha.

– Cara, vou jogar a real pra você, paga logo o fiscal porque tá todo mundo indo pro trabalho aqui, o ônibus tá parado e ele pode te dar voz de prisão, o que vai acabar sendo bem pior pra você!

– Não quero nem saber! Eu não tenho dinheiro pra ficar pagando multa assim de graça não, amigo!

– Pombas, se esse for o problema, pode deixar que eu pago sua multa e assim podemos seguir viagem!

(Esse cara deve ser muito rico – pensei)

– Não meu, paga essa multa não!

– Ah cara, relaxa, 15 litas não vão me fazer falta.

!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

– ÃHN?!?!?!?! Quer dizer que a porra da multa é só de SETE DÓLARES?!?!??!?!

!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

– Sim! Por isso que eu não entendo porque você não quer pagar!

– Porra, nós tamos nesse auê todo só por causa de SETE DÓLARES?? Eu achei que ia ter que pagar era uns cinqüenta euros!! Pombas!! Toma aqui fiscal imbecil!! Se quiser eu pago é cem multas!!

Sim, cara!! Acredita nisso? Eu quase fui preso (correndo o risco de ser estuprado por uns africanos imigrantes ilegais no xadrez) ou linchado por uma multidão lituana ensandecida querendo ir pro trabalho por causa de quinze reais!! Pô, a multa era menos que quinze vezes o valor da passagem!! Eu hein!!

A Lituânia sempre pronta para lhe surpreender

Se você tá achando que as bizarrices do sistema de transporte da Lituânia param por aí, você está enganado! Até agora você deve estar se perguntando como é que os bichos faziam pra cobrar a passagem naquele busão, né? Eu também desci no centro me perguntando… Tive que ir num quiosque de ajuda ao turista pra poder descobrir como proceder pra fazer uma das coisas aparentemente mais fáceis do mundo: Pagar uma maldita passagem de ônibus. Chegando lá descobri que a mulher do quiosque não falava inglês! Juro que fiquei me perguntando de que serve um quiosque de ajuda ao turista que só sabe uma língua falada por menos de 4 milhões de pessoas! Até o Maranhão tem mais gente que isso!



Um cara que ia passando pelo local, ao notar meu calvário, resolveu me explicar. Era bem simples, cara… Se liga no cara me explicando:

– É bem simples, amigo, basta você prestar atenção na numeração dos ônibus!! Os ônibus de 11 a 20, você paga para o cobrador que estará dentro. Os de 21 a 40 você paga diretamente ao motorista. Os de 41 a 60, você precisa comprar o tíquete com antecedência em um quiosque e entregar para o motorista. Os de 61 a 80 você deve comprar um tíquete na banca, entrar no ônibus e furá-lo numa maquininha que vai ter lá dentro! Por último tem os de número 90, mas esses são apenas para fazer city-tour pela cidade…

Anotaste? Sabe aquela história que eu falei que cada país tenta ser o mais criativo possível quando o assunto é ônibus? Pois é! Na Lituânia é simples como passar raiva em Teresina.

Feito para turista. Se for para Vilnius, alugue um elefante, deve ser mais fácil se movimentar pela cidade…

Melhor, não compre o tíquete! Pague os sete dólares da multa! Confesso que vai valer a pena ver o tiozão na febre pra cima de você…