Saara Ocidental – Champions League em Laayoune

Porque se tem uma linguagem que sempre será a mesma onde for, ela é o futebol. Jogo Champion’s League, Arsenal x Bayern de Munique no Saara Ocidental. 

Obviamente queria ir em um bar onde tivesse um chope. Fui no único lugar em toda Laayoune onde há autorização para se vender álcool. Cheguei la,  só uns poucos gringos. Calados. Tomando umas latinhas. Parecia que tavam assistindo desenho animado.

Sai de la e fui em um café onde a galera praticamente fez uma arquibancada para ver o jogo. E eles gritavam e eles torciam e eles dançavam e eles vibravam e eles faziam festa! Mas parecia final de Copa do Mundo!

E o mais engraçado todo mundo tomando só suco, pingado ou coca cola!

Viva os árabes!

Forget UN, soccer will save the world!!

Perambulado por Laayoune – A cidade rosa!

Laayoune, como todo mundo havia me falado, era uma cidade mais tradicional e religiosa do que as outras cidades que viajei pelo Marrocos. Mais ou menos como você viajar para uma cidade do interior do Nordeste onde as pessoas ainda são bem católicas.
Há muito mais mulheres usando véu para cobrir os cabelos e homens caminhando com roupas tradicionais. Também é bem difícil conseguir bebida alcoólica na cidade e só um hotel tinha autorização do governo para vender.
A cidade é toda da mesma cor, rosa (me lembrou inclusive Jaipur na Índia, confira a postagem aqui) e, apesar de ser margeada por um rio, a água que é utilizada por eles vem de um dessalinizador. Achei estranho, já que água dessalinizada costuma ser bem cara.
Andar pelas ruas era muito legal. Laayoune não é uma cidade de receber muitos turistas, por isso eu atraía muitos olhares de curiosos, ainda mais com esse meu cabelo liso e muito longo (em toda minha semana não vi um marroquino sequer de cabelos grandes). Apesar disso, o pessoal era realmente bem legal. Eu passava, eles me cumprimentavam e até um pedido de casamento eu cheguei a receber! A criançada passava por mim e ficava gritando e brincando comigo.
Se liga na zona…

Lá aconteceu algo comigo que nunca havia ocorrido antes. Fui pegar um táxi e perguntei quanto o cara queria para me levar para um determinado local. Eu entendi ele falar seis. Quando dei seis para ele, ele me devolveu um e disse “eu falei cinco!”. Caraca, acredita nisso? Taxista honesto. Ainda que o primeiro taxista que eu tenha pegado tenha tentado me enrolar de todo jeito (normal, taxista é a raça mais FILHA DA PUTA deste mundo).
Por último, Laayoune, assim como o Marrocos, tem algumas características que me lembraram o Brasil.
Primeiro que você anda pelas ruas e tem um bando de caras sentados nas mesas de cafés olhando o movimento e tomando uma. Uma dose de café, é óbvio, pois, como falei, eles não bebem. Porém, eles podem não beber, mas também fumam o dia todinho. Fumam mais que uma caipora! Cigarro que é pior, pode, cerveja que é menos nocivo, não poooooode!
Segundo que eles podem não beber, mas é só passar uma mulher com a roupa um pouco mais justa que o olho dos caras vão direto… bem… você sabe. É amigo, a mulher pode estar vestida até com um saco de arroz que o olho do cara vai lá do mesmo jeito.
Por último, o futebol. Ainda em Marrakesh, estava eu e um brasileiro conversando sobre futebol quando veio um gringo, do nada, conversar com a gente. Ele falou: – “Sei que você estão falando em português, mas é sobre futebol, né?”. Foi lá, emendou uma conversa e perguntou se sabíamos onde ele poderia ir ver um jogo da Champion´s League que eu nem sabia que ia ter. Rapaz, não sei em Marrakesh, mas foi esse jogo começar que em Laayoune… Eu andava pelas ruas e todos os cafés transmitiam o jogo. Parecia final de Copa do Mundo e que a cidade inteira tinha parado para assistir.

Tema do meu próximo post.

Saara Ocidental – Aparato de segurança em Laayoune

Obviamente, ao chegar no hotel, a primeira coisa que fui querer saber era sobre como era a segurança de Laayoune, motivo das minhas preocupações. 
Foi-me explicado o óbvio. Em um lugar sitiado, tudo o que menos pode acontecer de errado com você é algo relacionado a crime. E Laayoune é uma cidade sitiada.

Fui conversando com as pessoas e, ao que entendi, existem quatro tipos de níveis de segurança por lá. A polícia normal, uniformizada, como em qualquer cidade. O exército para guardar a capital. A milícia marroquina local. E, o último, a Inteligência. Lembra de quando eu falei que quando cheguei ao aeroporto tinha um paisano fazendo um policial quase de secretária? Então, ele era na verdade do corpo de inteligência.
Além desses quatro níveis de vigilância (cara, na hora lembrei de GTA e daquelas estrelinhas que ficam piscando com os níveis de polícia atrás de você!) tem também o corpo de paz da ONU que é responsável por checar se está tudo certo pelo país.
Disseram-me que era tudo bem sair batendo foto do que quisesse, evitando o óbvio de sempre: Não bater foto de policiais, de militares, de veículos militares, de bases militares e nem de pessoas na rua sem autorização. 
O máximo que poderia acontecer comigo nas ruas era um policial ou outro me questionar porque eu estava batendo fotos por lá, mas aí era só dizer que era turista que tava tudo bem. No meu caso, teoricamente, seria mais de boa, já que eles não encanam muito com latinos americanos (apesar do Brasil não reconhecer o Saara Ocidental como parte do Marrocos). Se eu fosse espanhol, alemão ou argelino, com certeza iria ter um oficial de inteligência vigiando cada passo que eu desse na cidade. Segundo o que pude apurar, esses são os países mais engajados na causa do Saara Ocidental, o que irrita o Marrocos. 
Além disso, que eu escondesse a minha máquina, pois ela parece profissional e com certeza eu seria questionado na rua o tempo inteiro se ficasse com ela à mostra. Porém não ia ser preso ou sequer conduzido para ser interrogado em outro lugar, pois o governo marroquino tem todo interesse em transparecer uma sensação de normalidade no local.

Tá certo que pela manhã eu acordei com barulho de tiros. Quando fui perguntar no hotel porque tavam trocando bala no meio da cidade, me explicaram que, na verdade, como o rei marroquino iria chegar em poucas semanas para inaugurar a estação de ônibus de frente ao hotel, o exército estava “limpando” a cidade e matando os cachorros que via pelas ruas. A bala. Bem, é uma morte menos dolorosa que a paulada, né?
Estação de ônibus responsável pela matança indiscriminada de cachorros

No começo fiquei meio preocupado de ser questionado pela polícia. Batia a foto com minha máquina e a guardava dentro da minha bolsa. Depois de um tempo e de já ter batido várias fotos, pô, eu tava pensando que podia ser interrogado ao menos uma vezinha, né? Era história para contar depois. Comecei a caminhar com a máquina na mão. Nada. Coloquei a máquina no pescoço e saí caminhando com ela pelo meio dos guardas no melhor estilo gringo. Nada. Bati foto de carro de polícia, de polícia, de carro da ONU. Nada. Fui embora e acabou que nenhum guarda me perguntou de nada.

E fiquei sem história =(


Hospedagem em Laayoune – Quando o hotel é uma das principais partes da viagem


Ao chegar ao hotel, fui recepcionado por um dos caras mais gente boa que pude conhecer em todo Marrocos. Ele era muito simpático, solícito, gente boa, sempre preocupado em me ajudar. Enfim, o árabe médio.
Ao me ver ele já puxou um mapa da cidade, começou a me explicar como funcionava Laayoune e como eram as pessoas de lá. Disse que a população de Laayoune, que fica no meio do deserto, durante milhares de anos foi nômade e dependeu muito da solidariedade alheia para conseguir um abrigo para uma noite, uma garrafa d´água, um lugar para os camelos descansarem e coisas assim. Por isso todos eram muito solidários por lá. Achei que isso era meio clichê, mas quando conheci o dono do hotel pude perceber que isso era verdade. Ele me disse que eu havia pago por um quarto pequeno de uma cama de solteiro, mas como o hotel não estava tão cheio, e eu era o seu convidado, eu poderia escolher qualquer quarto que ele iria me cobrar o preço que eu havia reservado. Parecia fazer isso sem nenhum interesse, mais pelo tipo de pensamento “pô, se tem um quarto melhor para ele ficar, porque eu vou deixar ele em um lugar menos confortável?”. Fiquei um pouco sem-graça, mas ele foi tão gente boa que não tive como não aceitar. Peguei um quarto no último andar, cama de casal e com uma boa vista de Laayoune.
No dia que eu tava para ir embora, ele tava lá na recepção. Perguntou-me onde eu ia e respondi que estava indo ao aeroporto. Ele não pensou duas vezes: “- Pô, tou aqui entediado sem fazer nada. Quer saber? Vou te levar para o aeroporto no meu carro. Precisa pagar nada não!”.
Ao forasteiro que aqui estiver lendo, se você por um acaso for a Laayoune, fica a dica, fique no Grande Care Hotel. Barato, boa localização, confortável e com um pessoal super agradável. Não tinha ar-condicionado, nem ventilador (eles me disseram que vão colocar lá em alguns meses, que o hotel é novo), mas vale pelo tanto que fui bem atendido. Além de tudo, é a vinte minutos caminhando do aeroporto e em frente a nova estação de ônibus que irão inaugurar na cidade. Tema do próximo post.

Na porta do hotel já havia um carro da ONU estacionado, mostrando mais ou menos como seria a realidade da cidade.
Avião da ONU

Laayoune – Enfim chegando ao destino


Desembarcar em Laayoune foi uma das experiências mais lindas da minha vida. O deserto gigantesco pela janela do avião. Você voa um tempão passando por cima de areia, areia, muita areia! Aquela imensidão laranja, infinita. Você olha pelo horizonte e não vê nada, para onde a vista alcança é alaranjado! É mais ou menos como sobrevoar o oceano, para, no final, láááááááá longe, você ver aquilo que parece uma ilha. Umas casinhas e uma pista de aeroporto e a pista de pouso.
Quando cheguei ao aeroporto, fomos separados em duas filas, a dos estrangeiros e a dos locais.
– Eita, é agora que eu rodo! O cara vai perguntar tudo da minha vida!”– pensava. 
Não, na verdade um cara à paisana fez as perguntas de sempre (o que veio fazer, quanto tempo vai ficar, trabalha com o que no Brasil, qual hotel vai ficar) enquanto um guardinha ia anotando meus dados a mão (!!!!!!! Cara, chega me lembrou o aeroporto da Guiana confira a história nesse link aqui) e depois de alguns minutos lá estava eu no saguão de desembarque com um tio segurando uma plaquinha com meu nome. Era o cara do hotel.
Enfim pude respirar em paz. Estava em Laayoune.

Saara Ocidental – Tentando chegar lá

Confesso que o Saara Ocidental foi um dos poucos países onde eu senti medo de viajar. Medo não porque as pessoas diziam que era perigoso. Medo porque não havia quase nenhuma informação confiável sobre o lugar na internet e a única fonte confiável, o Foreign travel advice do Reino Unido, dizia “não faça nenhum tipo de viagem que não indispensável”. Se em algum lugar houvesse escrito “o Saara Ocidental é um lugar perigoso, portanto faça isso, não faça isso, previna-se de tal coisa assim” eu teria ficado mais tranquilo. O que me deixou mais receoso foi porque eu não sabia o que iria encontrar por lá.

Todos os marroquinos com quem eu falava me diziam que lá era super tranquilo “como qualquer lugar no Marrocos”. Outros chegaram a me falar para tomar um pouco de cuidado pois o Saara Ocidental era uma terra de enganadores e trapaceiros. Até aí, tudo bem, já que a zona turística de Marrakesh também era. Eu estava até me tranquilizando.

Até que uma noite antes de viajar para lá falei para uma alemã no albergue que estava indo ao Saara Ocidental. Ela arregalou os olhos e disse “mas todo mundo me fala para não ir para lá! Que lá é super perigoso!”. Pronto, toda segurança que eu tinha sobre o lugar ruiu por terra e eu não conseguia tirar isso da minha cabeça. Uma coisa é o pessoal do país (que fala árabe, não parece turista, sempre fala bem do país onde vive) falando do lugar, outra é um turista andando por lá.

Por último, tinha o principal problema, a capital do Saara Ocidental, Laayoune, estava longe de ser um destino turístico.O que eu iria dizer para a polícia quando chegasse? Que estava indo para uma cidade no meio do deserto, onde não há nada turístico, para turistar?

Fui no caminho pensando no que eu iria dizer caso houvesse uma entrevista. Obviamente não poderia dizer que queria visitar um lugar em conflito e entender um pouco mais sobre a história de lá. Daí inventei a minha história: “Estava viajando e querendo conhecer todo o Marrocos e por isso queria visitar o centro (Casablanca e Marrakech), o Norte (Fes) e o Sul (Laayoune) do país. Além de que todas as outras cidades eram bem turísticas, cheias de gringos, só Laayoune era uma cidade com fácil aeroporto onde havia algo mais parecido com o `Marrocos como ele é´”.

Não sei se iria colar, mas era o que eu tinha.

Desde a hora que pisei no aeroporto até a chegada, foi estranha. Engraçado foi que qualquer coisa que um guarda no aeroporto vinha falar comigo, eu achava que já era para me questionar porque eu estava indo para Laayoune!

Estava na fila de embarque. O guardinha não deixou eu entrar. Mandou-me para outro lugar! Eita, me mandou para a salinha! – pensava. Não, eu tinha pego a fila do embarque internacional, não nacional.

Quando fui ao embarque nacional, o carinha do Raio-X não me deixou passar “Eita, é agora que vão me surrar!”. Não, era só que em Marrakech não há sala de embarque para voos nacionais (!!!!!!) e você passa do raio-X direto para o avião.

Quando cheguei a Casablanca, na fila da conexão, o guardinha não me deixou passar. Apontava para minha passagem aérea e falava “Laayoune!”. “Eita, não vai me deixar embarcar, vou ter que ficar em Casablanca!”. Não, mano, eu tava na fila de conexão internacional, não nacional!. Rapaz, mas parecia filme do Chaplin!

No final embarquei, são, salvo e não-preso para Laayoune.

Sempre, Coca-Cola!

Como chegar ao Saara Ocidental


Conforme já falei, hoje o Saara Ocidental não é mais do que, de fato, uma província do Marrocos. É possível chegar lá de ônibus ou, conforme fiz, de voo direto de Casablanca. No momento quando viajei, a fronteira por terra com Mauritânia estava fechada.
Não há necessidade de visto haja vista que, conforme expliquei, o Marrocos domina de fato o Saara Ocidental. A única checagem de passaporte é quando se chega no Marrocos, onde não precisamos de visto.

Saara Ocidental


Lembro do dia em que vi o Saara Ocidental em um mapa velho da minha casa quando criança.

O nome do país me intrigou (“Saara é um país? Não era um deserto?” – eu me questionava), ficando guardado na minha cabeça por esses anos. Mal sabia eu que algumas décadas depois eu teria a oportunidade de visitá-lo, ainda que sob ocupação do Marrocos.

O Saara Ocidental era uma colônia espanhola. Quando os espanhóis saíram da região, a ONU concluiu que o Marrocos não tinha laços históricos assim tão fortes com eles e que o Saara Ocidental era um país livre. Os marroquinos “interpretaram” diferente e começaram a organizar a “Marcha Verde”. 300.000 marroquinos saem de Marrakesh, ocupam a região, assumem o controle de fato do país e anexam-no ao seu território. Após isso o Marrocos quase dobra de tamanho.

Obviamente isso não foi cedido de forma tão tranquila e os dois países entraram em guerra. Em 1991 a ONU mediou um cessar fogo e ficou-se de organizar um plebiscito para saber se o Saara Ocidental desejaria ou não se tornar independente. O Marrocos, que de besta não tem nada, começou a incentivar que marroquinos mudassem para o Saara Ocidental, de olho no futuro plebiscito, por meio de subsídios a aluguéis e outros incentivos tornando a população nativa minoria em seu próprio país.

Os nativos do Saara Ocidental hoje lutam e negociam para que a ONU realize o plebiscito apenas com a população que morava no Saara Ocidental antes de 1991 e o Marrocos, obviamente, quer que o plebiscito seja realizado com a população atual. Pelo sim, pelo não, tudo continua do jeito que está.

Esse foi o principal motivo da minha passagem de Marrakesh para Laayoune, capital do Saara Ocidental, ser tão barata, o fato do Saara Ocidental ser, hoje, de fato, apenas uma província do Marrocos.

Mas essa anexação está longe de ser uma unanimidade mesmo entre os marroquinos. A região é rica em fosfato. Porém, com a queda do preço desta commodity, hoje se questiona se a ocupação militar, que custa centenas de milhões de dólares anuais aos marroquinos, por um terreno desértico e pobre vale mesmo a pena.

O Saara Ocidental tem um reconhecimento meio errático na comunidade internacional. Não é reconhecido pela ONU, mas é reconhecido pela União Africana.

Bandeiras do Marrocos espalhadas por Laayoune deixam claro quem manda no lugar
 
Praça Marcha Verde
Sede do órgão marroquino responsável pela extração de fosfato, um dos principais motivos da ocupação
Igreja Católica do tempo da colonização espanhola
Nunca vi tantos carros da ONU quanto quando estava no Saara Ocidental