Casablanca – “Lá só tem a mesquita”

Se Marrakesh é a cidade marroquina mais visitada por turistas, Casablanca é a mais famosa e a única que eu conhecia de nome. Isso ocorre porque há um filme famosíssimo que foi filmado lá e que também tem o nome de Casablanca.
Ela é a maior e mais importante cidade do Marrocos. É uma cidade grande como São Paulo, com vários atrativos, porém poucos deles turísticos.
Todo mundo me falava que em Casablanca só tinha a mesquita. Isso é um pouco estranho, pois uma cidade que foi fundada pelos fenícios há mais de 2500 anos dificilmente teria pouco a oferecer.
O curioso da cidade é o nome. Obviamente Casablanca é um termo latino e a cidade foi nomeada por nada mais nada menos que os portugueses. Pelos idos dos anos de 1500, aquela região era apinhada de piratas que aterrorizavam todo navios que viajavam por lá. Obviamente Portugal tinha interesse que ali estivesse pacificado (pois era o caminho das Índias) e cinquenta navios com 10.000 homens enviados para combater piratas serviu para demonstrar isso. Eles combateram os piratas por décadas até conseguir expulsá-los de vez e fundar um forte que foi chamado de “Casa Branca” dando origem ao nome atual da cidade. Porém, um forte terremoto no  século XVIII destruiu a cidade e os portugueses a abandonaram. Posteriormente ela foi ocupada pelos espanhóis que mudaram o nome para Casablanca, que se mantém até hoje. Infelizmente acabei ficando pouco tempo por lá.
Eu e Caio, um brasileiro que conheci no caminho, fomos conhecer essa “só tem a mesquita”. Mano, quando você chega lá…
O rei Hassan II queria deixar a sua marca e bancou a construção de nada mais nada menos que a terceira maior mesquita do mundo (só perde para as de Meca e de Medina) com a maior minarete do mundo de impressionantes 210 metros de altura. Acomoda 25.000 crentes nos seus pisos, 5.000 mulheres no segundo andar (já que mulheres e homens rezam em lugares diferentes) e quase 80.000 nos seus pátios.
Sim, ela é monumental o suficiente para ser comparada com Angkor Wat (confira o post aqui) no Camboja e a Basílica de São Pedro em Roma (confira o post aqui). Foi edificada em cima de uma rocha na beira da praia ecoando um verso constante no Corão de que o trono de Deus foi erguido sobre as águas. Ela é simplesmente monumental e sensacional. Vale demais a viagem a Casablanca para poder conhecê-la. É uma obra de encher os olhos. “Só tem a mesquita…”
Uma construção faraônica como essa é bonita de ver, só que custa dinheiro, muito dinheiro. Ela consumiu em recursos quase meio bilhão de dólares (mais ou menos como o Estádio Mané Garrincha de Brasília) e hoje questiona-se quem deve arcar com a conta de manutenção do lugar (mais ou menos como o Estádio Mané Garrincha de Brasília) já que ela já começa a dar sinais de que necessita de reformas. Está à beira do mar que vai danificando as suas estruturas. Essa reforma não vai sair nem um pouco barata e um país não democrático esse não é um debate tão fácil…
Ficamos um tempo por lá e depois voltamos no hotel para buscar nossas coisas.
Próxima parada, Brasil.
Para se ter uma noção do quão monumental é a mesquita, dá para levar o caminhão a esquerda em consideração
Espelho d´água dentro da mesquita. Originalmente servia para que os muçulmanos se lavassem antes ou depois das preces, porém nunca foi usada

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Fes – Cidade marroquina do couro e maior zona de exclusão de automóveis do mundo

Depois de Laayoune lá vou eu pegar mais cinco horas, entre voos e conexões, e passar a terceira vez por Casablanca em menos de cinco dias. Estava a caminho de Fes.
Se muitos dizem que a Marrakesh é a cidade turística do Marrocos e Casablanca a cidade dos negócios, Fes é a cidade histórica e também um dos locais mais importantes para os marroquinos.
Foi nesse cidade, fundada no final do século VIII (!!!!!), que iniciou-se a luta pela independência marroquina e foi essa a cidade que por mais tempo foi capital do Reino do Marrocos.
Fes é uma cidade de superlativos e alguns marcos. É a maior cidade medieval islâmica do mundo e tem a maior Medina (aglomerado de edifício históricos protegidos por uma muralha) do Marrocos. Lá dentro não é permitido o trânsito de carros, assim, em Fes há a maior zona de exclusão de automóveis do mundo. Assim, lá dentro, caminhando por aquelas vielas sem carros, você realmente se sente como que transportado para um microcosmo medieval, onde as pessoas comerciam as mesmas coisas há centenas de anos.
Além disso, em Fes foi fundada a primeira universidade do mundo (construída em 859. Obviamente, os europeus  não reconhecem isso) e que se encontra em operação até hoje.
Fes se destaca pela indústria do couro. Ele é trabalhado de forma artesanal com poucas mudanças nessas centenas de anos. Fui visitar uma cooperativas dessas e fiquei impressionado com o quão desumano é o trabalho que eles fazem por lá. Cara, é um cheiro tão insuportável de carne em decomposição (já que eles arrancam o couro do animal e deixam ele de molho em uma pedra especial para retirar restos de carne e pelos) que, antes de você entrar na cooperativa, os caras te dão algumas folhas de menta para você ficar cheirando e disfarçar o cheiro forte.
Setor do couro em Fez

Você olha os caras lá embaixo, maltrapilhos, envoltos em matéria orgânica decomposta, aquela água fétida escorrendo e é impossível não ficar com pena deles. O cara da cooperativa me falou que antes a situação de trabalho era bem pior, apesar de ser difícil de imaginar o que seria pior que aquilo. De qualquer forma, só podemos ver uma pequena parte do que antes era o lugar onde eles trabalhavam. O lugar foi declarado patrimônio da humanidade pela UNESCO que agora está o reformando.

Reforma do lugar de tratamento de couro sendo financiada pela UNESCO. Notem o guindaste na foto
Lembrem de olhar para essa foto toda vez que acharem ruim seus trabalhos. Mano, é muito mais chocante ao vivo, ainda mais por causa do cheiro forte

Outra coisa engraçada foi que no albergue onde eu estava hospedado encontrei uma colega de universidade do tempo de UNB. Que coincidência.
Albergue onde fiquei em Fes

COMPRAS EM FES

Por lá, aproveitei para fazer algumas compras também. Comprei um bom cinto de couro por sete reais, uns bons perfumes por 10, 15 reais, lembrancinhas para dar de presente no Brasil…
Esqueçam preços tabelados, no Marrocos não tem nada disso e você tem que discutir tudo que vai comprar.
Quando eu precisava comprar alguma coisa perguntava no albergue antes “Ow, quanto achas que devo pagar por tal coisa?” e eles me respondiam a faixa de preço que eu deveria negociar. No wikitravel.com tem inclusive uma TABELA com preços de quanto você deve pagar por determinados tipos de produtos, de sapatos a alimentos.
Tabela de preços do wikitravel onde se vê de sapatos a tatuagem de henna
Você descobre mais ou menos quanto é e sai negociando. Eu detesto isso, pois sempre saio com a certeza de que fui roubado, mas é inegável que é engraçado. Com certeza eu ainda conseguiria pagar mais barato pelas coisas que comprei, mas para mim já estava barato suficiente.

DO YOU WANT CHILDREN? CHILDREN ARE CHEAP…

Um amigo meu ao chegar em Marrakech obviamente se perdeu e não conseguiu achar o seu albergue. Matutou, matutou, matutou e nada de conseguir. Decidiu pedir informação a um vendedor que foi super solícito e lhe explicou como era o caminho. Quando ele terminou de explicar o caminho virou para o meu amigo e ofereceu: – “Mas então, você não quer levar uma criança? Crianças aqui são baratas…”. Meu amigo disse que se empaledeceu e se assustou na hora. “Caraca, é tão descarado assim?”. Só depois que ele foi entender que na verdade o comerciante estava oferecendo uma criança para guiá-lo até o albergue, não para ele levá-la como escrava.
Em Fes é a mesma coisa. A Medina é tão gigante e tem tantas vielas, que eu acabei contratando uma criacinha também para me levar ao meu albergue.
Se liga na marra do meu primeiro guia

No albergue havia uma tartaruga de estimação. Era engraçado que vez ou outra a gente ia caminhando pelo albergue e quando via ela tava emborcada de cabeça para baixo sem conseguir se desvirar. Aí a gente ia lá e ajudava bichinha
Cara, por onde você andava tinham esses meninos vendendo pão nesse carrinho. Os caras devem gostar demais de comer isso no Marrocos

Fes vista de cima. Reparem no TANTO de antena parabólica nas casas. O sinal analógico lá não deve ser dos melhores…
Viela onde só cabe uma pessoa? Queriam nem saber! Era sair da frente para não ser atropelado por burros
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Marrakesh – Jemaa el-Fna e suas histórias

A noite, depois de ficar o dia inteiro andando pela cidade, estava com a sensação de ter levado uma surra de paulada. Todo cansado. Porem, tava morrendo de fome, mas com preguiça de sair para comer. Pensei em ir dormir logo, porém sair para comer algo me faria ao menos passear um pouco mais pela cidade. Optei por sair para buscar algo para comer antes de ir dormir.
Coloquei meu agasalho do Brasil e foi só eu pisar na praça central de Marrakesh para os vendedores voarem como gaviões em cima de mim gritando: Brasil!!! Ronaldo!!! Rivaldo!!! Neymar!!! Nossa, nossa, assim você me mata!!! – todos na esperança de, ao serem “gentis” gritando no meu ouvido, me fazerem comprar algo na vendinha deles.
Até que um veio na febre! Lá detrás, correndo e gritando “Brasil” no meu ouvido. O ignorei. Quando passo por ele, só escuto ele gritar: CHUPA ANA MARIA BRAGA!!!
Não sei se ele sabe quem é Ana Maria Braga e menos ainda que ensinou isso para ele, mas é óbvio que parei para comprar algo.
Dormir não dá XP.
O que mais me impressionou em Marrakech foram as apresentações com animais nas ruas. Elas são realmente bem cruéis. Tem uns macacos acorrentados pelo pescoço que são puxados com tanta força que os bichinhos até seguram a corrente com a mão para não enforcá-los. Mas, de longe, o que mais chamou a minha atenção foram os “adestradores” de cobras. Eles são famosos no Marrocos e na praça principal de Marrakech. Achei que era algo que nem desenho animado, que eles colocavam a cobra no cesto e iam tocando uma flauta. Pelo menos aqui não tem nada disso. Eles largam as cobras pelo chão e ficam as provocando com um barulho ensurdecedor de tambores. Se eu já ficava puto com esse barulhão todo, imagina como deve estressar o bicho que não tem a mínima ideia do que tá acontecendo.

As cobras ficam assim pelo chão porque eles arrancam as suas presas e seus bolsos de veneno (tipo o instituto Butantã e imagino que com o mesmo cuidado).

Interessante e triste ao mesmo tempo.
Porém Marrakech é muito da hora!
Estava caminhando pela praça Jemaa El-Fna quando me deparei com uma cena no mínimo curiosa. Dois caras estava com luvas e uma multidão os cercava para vê-los. Quando enfim conseguir ver o que era…
Cara, no meio da Jemaa El-Fna tem uns caras que levam um par de luvas e ficam perguntando pro povo que tá andando se alguém quer desafiar alguém. Daí pega dois caras quaisquer, dá as luvas, e fala para eles saírem na mão. Sim, os caras ficam trocando soco no meio da praça e o dono da luva só fazendo graça e recolhendo dinheiro.
Resumindo, dois lutam de graça para fazer dinheiro para um cara dono de dois pares de luva.
Às vezes é muito barato se fazer dinheiro no Marrocos.
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Palácio Al Jadi e o Sebastianismo – Onde as histórias do Maranhão e do Marrocos se cruzam

Havia vários palácios para serem visitados em Marrakesh, mas nenhum entre eles me foi tão especial quanto o Al Badi.
Ali, as histórias do Maranhão e do Marrocos se misturaram.
O palácio de Al Badi (o incomparável em árabe) foi construído para comemorar a vitória dos árabes na batalha de Alcácer-Quibir ou batalha dos três reis. Um rei marroquino, deposto por outro apoiado pelos turcos, pediu apoio a Portugal. Devido a fatores como interesse comercial, proximidade geográfica, apoio do reino a ataques de piratas a embarcações portuguesas e, principalmente, devido ao fervor religioso, Dom Sebastião, rei de Portugal, resolveu entrar nessa empreitada. Empolgado com as sucessivas vitórias dos portugueses contra os árabes na Península Ibérica, resolveu partir para uma aventura e combater os árabes no Norte da África.
Portugal levou uma pêia que acabou por dizimar o exército português e grande parte de sua nobreza. Dom Sebastião “desapareceu” durante esta batalha e nunca mais foi encontrado. O problema foi que ele não havia deixado herdeiros e, em uma movimentação orquestrada com a nobreza de Portugal, o rei da Espanha reivindicou o trono português e Portugal foi unificado com a Espanha. Isso foi bom para o Brasil, pois, com essa fusão, não havia mais sentido em respeitar o Tratado de Tordesilhas o que acabou por contribuir para a expansão do Brasil rumo a oeste.
Os portugueses inicialmente não acreditaram que Dom Sebastião havia sido morto no combate. Acreditaram que ele só tinha fugido. Isso deu origem a uma crença conhecida como Sebastianismo, onde os portugueses acreditavam que Dom Sebastião a qualquer momento iria voltar para salvar Portugal da dominação espanhola e também para ajudar todos os pobres sofredores daquele reino. A questão é que ele nunca voltou e essa crença perdura até hoje. Para vocês terem uma ideia, Antônio Conselheiro acreditava que Dom Sebastião iria retornar dos mortos para restaurar a Monarquia no Brasil.
E onde entra o Maranhão nessa história? Bem, entre as diversas vilas que existem hoje nos Lençóis Maranhenses está uma com alta concentração de albinos. Sim, albinos! Aquela galera que não tem melanina na pele e é branca demais. É um mistério como eles chegaram e se estabeleceram lá, haja vista que os Lençóis Maranhenses são o pior tipo de ambiente possível para eles viverem. Lá é extremamente ensolarado e eles não tem defesa na pele contra o sol pois são… albinos. Mas o mais curioso dos albinos dos Lençóis Maranhenses, na verdade de grande parte das pessoas que moram nessa região, é que eles são Sebastianistas. Jovens e adultos celebram a presença abstrata do Rei Sebastião, o protetor das terras, mares e areias de Lençóis. Lá é tido como um pai para os nativos e até aparece para eles, montado em um cavalo, na praia ou nas dunas, e um dia voltará de vez para socorrê-los, emergindo, debaixo das dunas e areias dos Lençóis Maranhenses, o seu castelo. É um mistério também porque eles são Sebastianistas, mas acredita-se que isso se deve ao Padre Antônio Vieira que em suas pregações, propunha que o Maranhão seria o lugar mais provável para a volta de Dom Sebastião.
E foi lá onde a história do Marrocos se cruzou com a história do Maranhão.
O palácio foi uma das maiores construções do seu tempo e foi construído em grande parte com os vultosos resgastes pagos para trazer de volta o que restou da nobreza portuguesa. Com o fim da dinastia saadiana, vencedora desta batalha, o rei da nova dinastia, alauita, decretou Méknes como capital e utilizou azulejos e outros materiais deste palácio para construir outro na nova capital. Assim, deixou o Al Badi à míngua para não dar crédito a glórias alheias
A história do palácio de Al Badi serve para demonstrar que a mania dos políticos brasileiros de não continuar obras de seus antecessores (para não dar créditos a eles) é algo bem mais antigo do que muita gente imagina.
Quartos para os embaixadores

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Marrakech, Marrocos – Comprando vestidos em Liquidação

Conforme falei, a principal atração do centro histórico de Marrakesh é se perder por lá sem saber pode para onde se está indo.
Um dia desses me perdendo, caminhando por aquelas vielas e seus diversos vendedores, escutei um cara batendo palmas e gritando algo que não entendi, mas que tava na cara que era aquele famoso gesto de quem grita uma liquidação. Corri para lá e, quando cheguei, pude constatar que realmente era uma queima de estoque.
Lá tava um bando de tia se estapeando e puxando vestido de um lado, de outro, jogando para cima e bagunçando tudo dentro da lojinha do brother. Cara, ele tava vendendo aqueles vestidos por 12 reais. Cada um!!! É óbvio que as tias foram a loucura! E não eram uns vestidos ruins não, eram aqueles bons, que você as vê usando pelas ruas do Marrocos.
Obviamente eu não me fiz de rogado. Joguei-me lá no meio e comecei a procurar uns vestidos para dar de presente no Brasil. Mano, o mais engraçado era que era só mulher no meio daquele bando de vestido. E eu.
Depois que vi os vendedores olhando para mim e pensando “hhhhuumm… esse aí … de cabelinho grande… doiidoo para um vestido… sei não…”. Lembrou experiência parecida que tive tentando comprar uma cueca na China e que relatei no post “Porque todo mundo tem um dia de `gringo solta-franga´”(quem quiser ler, pode visitar o link aqui). Eu não tava era nem aí! Tava barato que tava danado e juro que eu quase comprei para revender, só não o fiz porque ia pesar na minha mochila. Só sei que quem ganhou o vestido ficou mais do que satisfeita (ênfase no satisfeitA antes que a galera ache que o vestido ficou para mim).
Encantador de serpentes na Djemaa el Fna, principal praça de Marrakech
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Hospedagem em Marrakech

Eu tinha conseguido um lugar pelo Couchsurfing para poder ficar em Marrakech.
O cara parecia até ser gente boa. Porém, do nada, uma semana antes de eu viajar, ele me veio com uma história de que estaria muito ocupado e por isso não ia poder me hospedar mais. Mas, claro, que isso não seria um problema já que eu poderia ficar hospedado no albergue em que ele trabalhava e que era bem baratinho. O mal do esperto é achar que todo mundo é besta. Obviamente não fiquei no albergue dele e reportei isso ao Couchsurfing.
Por meio de sugestões de amigos, acabei ficando em um albergue chamado Equity Point. Cara, que boa escolha. Mano, o lugar era cinematográfico, situado no meio da Medina e era uma mansão particular. Tinha um terraço muito da hora onde era possível ver toda a cidade medieval e onde pude bater ótimas fotos. Além de que dentro da casa havia fontes, azulejos, quadros, nossa, irado demais o lugar.
O albergue é tão labiríntico que tem até placas apontando para onde é a saída porque senão você, literalmente, se perde lá dentro. Uma das poucas vezes em que o albergue foi uma das principais atrações da viagem

Fonte
O pessoal que trabalhava lá também era gente boa. Uma menina, toda vez que chegava da rua, estava com véu na cabeça e tirava quando entrava no albergue. Ela me disse que na rua sempre andava de véu, mas que lá dentro não era permitido, haja vista que ela trabalhava com ocidentais. Perguntei por que ela tinha que usar do lado de fora e ela só me explicou que os caras a respeitavam mais se assim ela fizesse. Fiquei imaginando que ela sem véu deva receber o mesmo assédio que uma menina recebe com minissaia no Brasil, por exemplo.

Se forem a Marrakesh, fiquem noEquity Point, sugiro demais.

O albergue é tão labiríntico que tem até placas apontando para onde é a saída porque senão você, literalmente, se perde lá dentro. Uma das poucas vezes em que o albergue foi uma das principais atrações da viagem

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Marrakech – Perambulando pela cidade

O termo Marraquexe vem da língua nativa dos berberes e significa “A terra de Deus”. Ela foi por mais tempo capital que Fez, Rabat, Casablanca ou qualquer outra cidade do Marrocos.

Lógico que na primeira noite eu não tive coragem de sequer pisar fora do albergue. Vai que eu me perdesse e tivesse que sair perguntando novamente?

No outro dia pela manhã andava dois passos, parava, olhava para trás para decorar o caminho. Mais dois passos, olhava para trás. Cara, sério, eu tava pensando em fazer como João e Maria e sair jogando umas pedrinhas no chão para ir marcando o caminho de volta. Depois que fui descobrir que eu estava ficando do lado de uma das mais famosas mesquitas da Medina (centro histórico em Marraquexe), a Moassine. Eu falava em Moassine e o pessoal me apontava o caminho.

Mouassine

E essa acaba sendo a principal atração de lá. Se perder em uma cidade que foi fundada há mil anos. Fui a mesquitas e a zonas turísticas indicadas no guia. Eram até bonitas, mas legal mesmo era ficar perambulando por lá e pensar que há quase mil anos as pessoas trabalham da mesma forma com pouco mudando desde então.Esse receio todo, na verdade, foi só no primeiro dia. Cara, é impressionante, no segundo dia eu já tava me orientando muito bem dentro da Medina. Apesar das ruas apertadas e medievais, já não me perdia mais.

Ferreiros artesanais
Vendedores de artigos de couro

Engraçado que eu passava do lado dos vendedores e eles começavam “Hello, my friend. Como estas, tudo bien? Sa vá? Bongiorno!” iam mandando em várias línguas diferentes até achar qual era a minha para ganhar a minha simpatia e me vender algo. Vez ou outra até um “obrigado” rolava entre essas tentativas, ao que meu sorriso acabava denunciando que eles tinham acertado.Comerciam os mesmos artigos. As cores e o colorido, os diferentes tipos de cheiro de ervas, de especiarias e de sons, a gritaria dos mercantes, tudo era muito interessante. Senti-me tão extasiado quanto o guia da Coreia do Norte me falou que se sentiria se um dia viajasse pela Venezuela (confira a história aqui). A disposição das lojinhas, as vielas, os produtos expostos… Desviar da meninada correndo, das motinhas atravessando no meio da galera, dos burros puxando carroças (!!!) em caminhos que mal passavam três pessoas ao mesmo tempo… parecia demais aquelas cenas de filmes da idade média.

Outro dia eu tava parado do lado de uma mesquita com um mapa aberto e um cara se ofereceu para me ajudar. Pensei que, bem, quem sabe ele não queria só me ajudar mesmo? Lembrei inclusive de um ocorrido no Egito onde todo mundo foi super gente boa e sem interesse (história do Egito aqui).

O cara perguntou de onde eu era, puxando papo, e eu falei que era do Brasil. Depois de um tempo eu fui perceber que ele era um guia e, agradeci, falei que não queria o serviço. Cara, mas foi engraçado. Aí foi até o fim do dia todo mundo falando em um português comigo. Mano, esses bichos só podem ter um grupo do whatsapp onde compartilham “Brasileiro com cara de idiota caminhando pela cidade. Ataquem-no!”.

Fica o recado do nosso amigo

O cara se enfia com a moto mesmo. Tá nem aí

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Marrakesh – A chegada mais estressante do Marrocos

Cheguei ao aeroporto de Marrakesh quase onze da noite e fui pegar um táxi. Já de saída, tive que quase sair na porrada com o taxista para ele me cobrar o preço que era TABELADO no aeroporto. Ele obviamente ele dizia que não iria fazer porque era a noite. Fui deixado na entrada do centro histórico de Marrakesh e ele me disse que dali não poderia me levar, que não passava mais carro e que era só seguir em frente que estava tudo bem.
Tentei discutir, mas ele quase não falava inglês e não adiantou. Eu ia ter que, de qualquer jeito, achar o meu albergue. Na hora que eu paguei o taxista outro cara já voou em cima de mim e começou a gritar. Dizia que iria me levar a meu albergue… pelo mesmo preço que paguei ao táxi. Obviamente falei para ele que não iria dar dinheiro a ele e o mandei ir pastar. Obviamente ele disse que eu não iria conseguir chegar a meu albergue. Obviamente o ignorei. Obviamente ele ficou me seguindo e gritando no meu ouvido que ele podia me levar. Obviamente aquilo foi me irritando. Depois de quase 30 horas entre deslocamentos para aeroportos, voos, esperas em conexões, novos voos, eu estava cansado e, obviamente, irritado. Obviamente o figura continuou gritando no meu ouvido e obviamente não parecia querer me deixar em paz. Pensei que no Marrocos eles podem ter problemas com qualquer coisa, menos com armas de fogos e também que, segundo li, a zona turística de Marrakesh passa semanas sem casos sérios de violência.
Virei e com, sangue nos olhos, comecei a gritar com ele para ele me deixar paz. Mas gritando a plenos pulmões. Obviamente eu NUNCA faria o mesmo em qualquer cidade do Brasil, mas no Marrocos era de boa. Gritei, gritei, gritei o mais alto que pude e comecei a peitar ele. Não foi preciso se preocupar muito em fazer isso. Foi só deixar a raiva ir embora. Eu acho que ele meio que não esperava aquilo, ficou assustado e resolveu me deixar em paz. Um problema a menos. Rapaz, eu fiquei tão bravo que me lembrou algo parecido que ocorreu em Varanasi na Índia (confira a história aqui)
O ruim é que continuava o meu problema principal: Como diabos eu iria chegar no meu albergue? Estava escuro e a parte histórica, a Medina, é assustadora a noite, pois consiste de vielas escuras, labirínticas e claustrofóbicas sem nenhuma sinalização. Saí andando a esmo até que cheguei à praça principal. Bem, eu sabia que o albergue era próximo a praça principal. Comecei a perguntar aos vendedores das lojas vi que estava chegando perto.
Quando percebi que estava chegando bem perto um cara gritou lá de trás “Amigo, você está perdido? Posso te levar para onde está procurando”. Pronto, outro daqueles.
Por mais que eu tentasse, o bicho não me deixava em paz e ficava gritando que me levaria de graça. Fiquei ignorando e ele gritando “Amigo, não quero nada! Só quero lhe ajudar! Não vou lhe cobrar nada” – enquanto eu pensava que esse de graça iria me render pelo menos um assalto. Acabou que teve uma hora que eu parei, virei para ele, falei que eu REALMENTE não tinha dinheiro algum e ele falou que ainda assim só queria me ajudar.
Ele me levou por aquelas vielas e eu só pensando nos meus rins. No final me deixou na porta do albergue e começou um longo discurso de que ele era árabe, que os muçulmanos não são os israelenses para serem traiçoeiros, que eu podia sempre confiar nos marroquinos. Eu agradeci e apertei na mão. No final, ele gritou “Brasil! Esqueci de te falar, se você quiser comprar haxixe, pode falar comigo!”.
Sim, ele era traficante de haxixe. Toda hora que eu saía do albergue, dia ou noite, tava o cidadão na mesma esquina vendendo seu produto.
Trabalhador…
Pelo menos me levou até o albergue. Duvido que um israelense faria isso de graça (/ironic).
Vielas de Marrakesh. Meu albergue tá lááá no fundo da foto. Como eu iria achar isso no escuro?
Engraçado de Marrakesh é que, apesar de ser difícil passar entre as vielas, isso não é um problema para os caras da motos. Cara, às vezes cê tá andando no meio do mundaréu de gente, loja… E quando vê passa uma motinha tirando fino de você. Olha só a velocidade desse cara se metendo no meio de todo mundo. Eles são meio doidos por lá mesmo
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Marrocos – Comendo por lá

Uma coisa que me deixou um pouco preocupado no Marrocos foi a higiene. O país não é um lugar tão ogro quanto a Índia, mas no quesito comida eles são parecidos. Cara, alguns lugares você para para comer e vê o bicho preparando, sei lá, um sanduíche. Obviamente ele não usa luva. Ele vai lá pega o dinheiro e com a mesma mão pega o pão que você vai comer, a carne, o queijo… o que for. Além de que eles são tudo peludo.
Um dia a noite eu tava morrendo de fome em Fes e saí para comprar algo. Não queria comprar pacote de biscoitos ou algo assim de forma que decidi comprar um sanduíche. Cara, quando cheguei na banquinha… O peito de frango era simplesmente exposto cru e eu tenho certeza que tava lá o dia inteiro. O cara fumando dentro do lugar… Encarei, mas até hoje fico com medo de ter um revestério.
Isso quando eu não cheguei em um outro restaurante e tava o cozinheiro lavando os pés. Na pia do banheiro…
Peixe sendo vendido na feira sem nenhuma refrigeração. Olha o tanto de moscas no recipiente

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Marrocos – A terra dos bérberes

O Marrocos tem uma história incrível com fenícios, romanos, bizantinos, árabes, portugueses, espanhóis… já tendo se estabelecido por lá. É um dos países africanos com história mais próxima de Portugal e, por tabela, do Brasil.
Nos tempos romanos, o Marrocos já chamava a atenção e gerava riquezas por ser a única província que conseguia sintetizar e vender um corante de cor roxa proveniente das conchas de caracóis marinhos. Havia várias corantes diferentes no Império, porém, com o grama desse corante valendo 15 a 20 vezes mais que o quilo do ouro, só os muito ricos tinham roupas com essa tonalidade. Caracol ostentação.
Os romanos nomearam o povo nativo como bérberes. Inicialmente esse era um termo pejorativo, já que vem da palavra “bárbaro” em latim, porém, com o passar dos anos, os marroquinos adotaram o termo bérbere como uma identidade nacional.
O Marrocos durante muito tempo foi uma colônia da França com essa influência sendo muito visível em todos os lugares. É engraçado. Você está andando por algumas vielas milenares e dá de cara com uma confeitaria com tortas e bolos com glacê, chantili, diversas caldas, sabores e coberturas que parecem ser tirados diretamente de um filme franco além de que o francês é quase que falado por todo mundo.
A europeuzada desce em massa para o Marrocos devido as belas praias e preços bem baratos. Isso inclui as drogas. Várias pessoas, quando eu falava que ia viajar ao Marrocos, me falavam “cara, você tem que experimentar o haxixe de lá!”. Fica aí a dica para galera Zé Droguinha, apesar de eu não recomendar isso em países islâmicos.Entre os países árabes e islâmicos o Marrocos é um dos mais liberais e não são muitas as mulheres de véu na cabeça (ainda que eu tenha visto mais mulheres usando aquele véu que só deixa os olhos de fora lá do que no Egito).
Fui surpreendido por uma ótima promoção de passagem aérea para o Marrocos onde paguei a bagatela de 1500 reais ida e volta saindo de São Paulo. Com taxas inclusas. Essa promoção fez tanto sucesso que acabei me deparando com vários brasileiros por lá. Todos que eu perguntava me diziam que tinham comprado a mesma promoção que a minha!
Confesso que o Marrocos é um país interessante, mas achava uma semana muito tempo e fiquei pensando em viajar para algum país diferente nem que fosse para passar só alguns dias. Procurando pelo Google Flights, qual não foi a minha surpresa em ver que era extremamente barato voar para um país bem diferente e esquecido pela comunidade internacional, o Saara Ocidental, onde acabei indo alguns dias depois.

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