Era chegada a hora de visitar meu quarto país no Caribe: São Vicente e Granadinas. E, como já vinha acontecendo nessa sequência de viagens, era mais um daqueles países que eu praticamente nunca tinha ouvido… Mais
Barbados vale a pena? Minha experiência completa na ilha mais cara do Caribe

Com a Copa do Mundo acontecendo nos Estados Unidos e no Canadá, resolvi aproveitar minhas férias para ir lá. Como não gosto muito da ideia de simplesmente voar do ponto A para o ponto B quando ainda existem países pelo caminho que eu não conheço, decidi transformar o deslocamento em parte da aventura e fazer algumas paradas pelo Caribe antes de seguir para o norte do continente.

Dos países das Américas, já visitei toda a América do Sul e também todos os países da América Central continental. O que ainda falta para completar a região são basicamente algumas ilhas do Caribe. Então pensei: já que vou passar por ali mesmo, por que não começar a diminuir essa lista?
O primeiro país escolhido foi Barbados. Não houve uma grande razão estratégica ou emocional. Simplesmente era um dos países que eu ainda não conhecia e que tinha uma ligação aérea conveniente pela Copa Airlines, do Panamá. Às vezes o planejamento de uma viagem nasce de um sonho antigo. Outras vezes nasce porque o voo encaixa direitinho. Mala pronta e vambora.
Uma chegada surpreendentemente tranquila
A primeira coisa que me fez gostar de Barbados foi algo que muita gente talvez nem perceba: o Uber funciona normalmente na ilha. Pode parecer um detalhe bobo, mas depois de passar por países onde você precisa negociar cada corrida, discutir preço, combinar pagamento e ainda torcer para não estar pagando três vezes o valor justo, abrir o aplicativo, chamar o carro e pronto é um luxo que a gente aprende a valorizar. Em menos de um minuto eu já tinha um motorista vindo me buscar e não precisei pechinchar absolutamente nada.

Outra coisa que me surpreendeu positivamente foi a eficiência da imigração. Antes mesmo de chegar ao guichê, você preenche seus dados em terminais eletrônicos, de modo que quando finalmente encontra o agente de imigração boa parte do trabalho já está feita. O resultado é que o processo anda muito mais rápido do que eu esperava. Sem filas intermináveis, sem formulários misteriosos e sem aquela sensação de que você está participando de uma prova de resistência burocrática.

Passei pela imigração, chamei um Uber e segui para o Airbnb. Depois de algumas viagens recentes cheias de pequenas complicações, parecia até estranho quando as coisas simplesmente funcionavam como deveriam. Foi desembarcar, entrar no carro e começar a aproveitar a viagem. Só alegria.
Como Barbados se tornou um dos países mais desenvolvidos do Caribe
A história de Barbados é um pouco diferente da maioria dos países do Caribe. Enquanto várias ilhas da região passaram por sucessivas ocupações de espanhóis, franceses, holandeses e britânicos, Barbados permaneceu sob controle inglês até ficar independente Os ingleses chegaram em 1627 e transformaram a ilha em uma gigantesca produtora de açúcar, um dos motivos que levaram a quebrar a indústria de açúcar do Nordeste Brasileiro. Durante séculos, a economia foi baseada no trabalho de escravos africanos. Na verdade, os povos originários de Barbados foram todos dizimados, por isso que a maioria da população hoje é de descendência africana. A escravidão foi abolida em 1834, mas os descendentes dos antigos proprietários continuaram concentrando grande parte do poder econômico por muitas décadas.

Ao longo do século XX, Barbados passou por reformas políticas graduais e conquistou sua independência do Reino Unido em 1966. Diferentemente de muitos países recém-independentes, a ilha conseguiu construir instituições relativamente estáveis, investir em educação e desenvolver uma economia baseada em turismo, serviços financeiros e negócios internacionais. Quase todas as crianças estão na escola e o alfabetismo foi virtualmente banido. Isso permitiu que Barbados alcançasse um padrão de vida superior ao de muitos de seus vizinhos caribenhos. Até 2021, inclusive, o chefe simbólico do país era o monarca britânico, já que Barbados faz parte da Commonwealth.

A bandeira de Barbados também conta um pouco dessa história. Ela é formada por três faixas verticais: duas azuis nas extremidades e uma amarela no centro. O azul representa o mar e o céu que cercam a ilha, enquanto o amarelo simboliza as praias de areia dourada. No centro aparece um tridente negro quebrado. Originalmente, o tridente era um símbolo associado ao deus romano Netuno e aparecia em emblemas coloniais britânicos da ilha. Quando Barbados se tornou independente, o tridente foi mantido, mas com o cabo quebrado, representando a ruptura com o domínio colonial. As três pontas também costumam ser interpretadas como os princípios de governo do povo, pelo povo e para o povo.
O choque dos preços em Barbados
Uma das coisas que mais me chamou atenção em Barbados foi o custo de vida absurdamente alto. E não estou falando só para turistas. Restaurantes simples, mercado, transporte, aluguel, energia elétrica… tudo parece custar mais do que você imagina que deveria custar numa pequena ilha do Caribe. Para quem vem de países como Brasil ou mesmo dos vizinhos caribenhos, a sensação é constante de estar pagando caro por praticamente qualquer coisa. Em alguns momentos eu tinha a impressão de que os preços estavam mais próximos dos encontrados em cidades dos Estados Unidos ou da Europa do que dos praticados no restante da América Latina.

O mais curioso é que esse custo elevado também pesa para os próprios habitantes da ilha. Barbados importa grande parte do que consome, desde alimentos até combustíveis e produtos industrializados, o que encarece praticamente toda a economia. Conversando com moradores, ficou claro que moradia, contas domésticas e supermercado são preocupações frequentes. A diferença é que, enquanto o turista sofre por alguns dias, o barbadiano convive com esses preços o ano inteiro. Talvez por isso tenha ficado tão comum ver as pessoas reclamando do custo de vida, mesmo em um dos países mais estáveis e desenvolvidos do Caribe.

Para você ter uma ideia de como Barbados é caro, a corrida do aeroporto até o Airbnb que eu aluguei — um trajeto de apenas 16 minutos — custou cerca de 140 reais (26 dólares). Cara, é surreal. Em alguns momentos eu tinha a impressão de que os preços estavam competindo diretamente com cidades dos Estados Unidos ou da Europa Ocidental. Depois dessa primeira corrida, aprendi rapidinho que, se quisesse manter alguma dignidade financeira, teria que descobrir como funcionava o transporte público da ilha.

Felizmente, não é tão complicado. A principal avenida acompanha boa parte do litoral, então minha estratégia era simples: aparecia uma van, eu entrava e acompanhava o trajeto pelo Google Maps para saber onde descer. Funcionou tão bem que até para voltar ao aeroporto eu fui de transporte público. O problema foi que o motorista da van parecia estar participando de uma seletiva para a Fórmula 1. Rapaz, o homem dirigia como se estivesse fugindo de alguma coisa. Curva, ultrapassagem, acelerada… tudo ao mesmo tempo. Eu paguei por transporte e recebi de brinde uma volta de montanha russa.

Ah sim, não tinha cinto de segurança. Nem os passageiros. Nem o motorista. Absolutamente ninguém. Ah, e essa aventura não era exatamente barata: a passagem custava a bagatela de 9 reais (cerca de US$ 1,75). Nove reais para andar numa van sem ar-condicionado, sendo conduzido por um psicopata. Depois disso, confesso que comecei a olhar com muito mais carinho para o preço da passagem de ônibus no Brasil. Porque os preços em Barbados são realmente de outro planeta.
A terra da Rihanna… que parece ter esquecido disso
Antes de viajar para Barbados, uma das primeiras coisas que me vinha à cabeça era: “essa é a terra da Rihanna”. Afinal, ela é de longe a pessoa mais famosa já nascida na ilha e uma das artistas mais conhecidas do planeta. Eu imaginava encontrar fotos dela no aeroporto, outdoors, estátuas, propagandas, lojas vendendo lembranças e todo tipo de homenagem possível. Afinal, não é todo dia que um país de menos de 300 mil habitantes produz uma celebridade desse tamanho. Imaginava (e ainda imagino) que ela fosse uma heroína nacional.

Mas o curioso é que, durante boa parte da viagem, eu não vi NADA relacionado a ela. Andei por Bridgetown, praias, mercados, centros comerciais e atrações turísticas e fiquei surpreso com a ausência de referências. Eu esperava uma presença muito maior e no final não encontrei presença nenhuma. Tou impressionado com isso até agora. Só sei que, se eu não soubesse que estava na terra da Rihanna, dificilmente teria descoberto isso apenas caminhando pelas ruas
Cuidado com a sua camiseta do exército
Uma das curiosidades mais engraçadas de Barbados é que roupas com estampa de camuflagem são proibidas para civis. Sim, aquela bermuda camuflada que você compra numa loja de esportes, aquela camiseta estilo militar ou até mesmo uma mochila com padrão de exército podem arrumar uma bela dor de cabeça. A regra existe porque a camuflagem é considerada de uso exclusivo das forças armadas e das forças de segurança. A ideia é evitar que alguém possa ser confundido com militares ou policiais.

O mais curioso é que isso pega muitos turistas de surpresa. Afinal, em boa parte do mundo roupa camuflada é apenas moda ou roupa de trilha. Eu mesmo fiquei imaginando a cena de um turista chegando feliz da vida com sua bermuda comprada em promoção e descobrindo que ela é tratada quase como contrabando de alta periculosidade.
Eu vi um cara falando para não levar nada com camuflagem pro país e depois que eu vi que isso era verdade. Pior que deve haver outros países que eu viajei que são assim e eu não me toquei. Já aconteceu duas vezes em dois países diferentes de pessoas na rua me perguntarem se eu era militar porque eu tenho um chapéu com estampa de camuflagem que eu comprei em uma loja de pesca. Não é exatamente o tipo de problema que a gente espera enfrentar durante uma viagem ao Caribe. Então fica a dica: em Barbados, deixe o visual de soldado para os soldados. É uma das poucas situações em que uma simples escolha de roupa pode acabar gerando mais conversa com as autoridades do que você gostaria. Acabei deixando o meu chapéu em Brasília.
Os cavalos de Pebbles Beach

Uma das atrações mais curiosas de Barbados acontece todos os dias bem cedo em Pebbles Beach. Os cavalos de corrida que ficam alojados nas cocheiras próximas ao hipódromo são levados até a praia para tomar banho de mar e fazer exercícios na água. A tradição existe há décadas e faz parte da rotina dos treinadores locais. A água salgada ajuda na recuperação muscular dos animais após os treinos, enquanto a resistência da água permite que eles se exercitem sem o impacto que teriam correndo em solo firme. O resultado é uma cena bastante diferente: dezenas de cavalos entrando no mar do Caribe enquanto o sol começa a nascer.

Como eu queria ver isso de perto, tive que fazer um pequeno sacrifício: acordar às cinco da manhã. Não sou exatamente um entusiasta de madrugadas, mas confesso que valeu a pena. Quando cheguei à praia, já havia vários cavalos entrando e saindo da água acompanhados pelos tratadores. Era curioso ver aqueles animais enormes nadando tranquilamente no mar enquanto turistas e moradores observavam tudo da areia. E o mais engraçado é que para cada cavalo sendo lavado, parecia que tinha outros 5 para os turistas baterem fotos e passearem a um preço módico de 15 dólares.

Depois de passar um tempo observando os cavalos e batendo algumas fotos, aproveitei que já estava acordado e resolvi continuar explorando a ilha. Voltei para Bridgetown e passei o restante da manhã caminhando sem muita pressa pelas ruas da cidade, observando o movimento dos moradores, as construções coloniais e o ritmo tranquilo da capital. Àquela hora, a cidade ainda estava despertando, o que tornou o passeio especialmente agradável e bem diferente do movimento mais intenso que aparece ao longo do dia.
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VIAGEM A BOTSUANA | Interrogatório policial, babuínos assassinos e polícia secreta #gaborone
Depois dos apagões na Zâmbia, mosquiteiros contra malária e safáris cheios de imprevistos, chegar a Gaborone, capital de Botsuana, foi quase uma terapia. Ruas organizadas, trânsito civilizado, aplicativo de transporte funcionando perfeitamente, shopping center cheio de classe média local e uma sensação rara na África Subsaariana: estabilidade urbana total.
Mas a paz durou pouco.
Logo na chegada percebi que tinha deixado no país vizinho uma sacola inteira com cuecas e meias — sim, todas elas. O resultado foi uma corrida emergencial para um shopping em busca de roupas íntimas, o que acabou revelando uma das coisas que mais me surpreenderam em Botsuana: uma classe média negra forte, consumindo normalmente, algo que contrasta bastante com o imaginário que muita gente ainda tem sobre a África.
Neste episódio, além de explorar a moderna Gaborone, eu conto:
como Botsuana se tornou uma das democracias mais estáveis da África;
a curiosa história do Monumento aos Três Chefes;
o dia em que fui parado por policiais à paisana perto do parlamento;
o museu nacional mais decepcionante da minha vida (cuja grande atração era… sushi);
e minha épica subida à Kgale Hill, cercado por lendas sobre babuínos assassinos que, segundo a internet, transformariam a trilha em um filme de terror.
Spoiler: sobrevivi. E os babuínos também.
Entre paranoia digital, exageros da internet e histórias absurdas de viagem, Gaborone acabou se revelando uma das capitais mais interessantes — e inesperadas — que já visitei na África.
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Viagem a Lesoto, história, capital e Thaba Bosiu, a fortaleza natural

A história moderna de Lesoto ganha forma a partir da chegada dos britânicos no século XIX, quando o território passou a atrair o interesse de potências coloniais e de vizinhos expansionistas. Nessa época, surgiu a principal figura central da identidade nacional de Lesoto até hoje: Moshoeshoe I, o líder que unificou diversos clãs sotho sob uma única autoridade política. Ele é tão importante pro país que o único aeroporto de Lesoto tem o nome dele. Ele nasceu com o nome Lepoqo, mas adotou o nome Moshoeshoe (pronunciado Mon-shwé-shwé) após um episódio em que, usando estratégia e astúcia, conseguiu derrotar inimigos de forma tão eficiente que “raspou” suas fileiras. Por isso, adotou o barulho de uma lâmina cortando (shoe shoe) no nome dele. Sim, sem zoeira, é por conta disso mesmo. Ele conseguiu unir as tribos basotho consolidando um território próprio, tornando-se um dos poucos grupos africanos a conseguir criar um protoestado para poder negociar com os ingleses.

A partir de meados do século XIX, Moshoeshoe percebeu que precisava buscar proteção formal para evitar ser conquistado pelos bôeres, colonos brancos que vinham do norte e avançavam sobre as terras basotho. Ele pediu ajuda ao Império Britânico, transformando o futuro Lesoto no Protetorado da Basutolândia. Os britânicos viram que ao criarem um protetorado no meio da África do Sul conseguiriam enfraquecer os bôeres — e mais tarde a própria África do Sul — impedindo que eles ganhassem ainda mais poder regional. Por conta disso hoje Moshoeshoe I é considerado o “pai da nação” de Lesoto.

Quando os britânicos começaram a desmantelar seus domínios africanos no século XX se recusaram a entregar Basutolândia para a África do Sul, tanto para evitar fortalecer o poder dos colonos sul-africanos quanto para manter influência estratégica na região. Assim, em 1966, Basutolândia se tornou o Reino do Lesoto, um país completamente independente e totalmente cercado pelo território sul-africano.


Hoje, o Lesoto vive numa relação dúbia com a África do Sul. Oficialmente é um país independente, mas na prática funciona quase como um Estado sob influência direta da África do Sul. Quando qualquer crise política começa a escalar no Lesoto, seja disputa entre facções, tentativa de golpe ou tensão entre a polícia e o Exército, a África do Sul intervém. Isso já aconteceu várias vezes desde a independência, e virou quase um padrão: o caos começa, os sul-africanos entram, estabilizam a situação e vão embora. O curioso é que grande parte da população de Lesoto não vê isso como algo negativo — pelo contrário. Para muitos basotho, essa interferência externa evita que o país mergulhe em guerras civis, golpes prolongados ou violência generalizada. É uma espécie de “seguro-político” informal.

A África do Sul, por sua vez, não faz isso por altruísmo. O principal motivo é geopolítico: não interessa ao governo sul-africano ter um país instável completamente encravado dentro de seu território. Um Lesoto em colapso significaria fronteiras vulneráveis, aumento de tráfico, migração descontrolada e risco de grupos armados se instalarem ali. Além disso, o Lesoto abriga as principais fontes nascentes de água doce que abastecem parte da África do Sul — especialmente a província de Gauteng, onde ficam Joanesburgo e Pretória, duas das principais cidades da África do Sul. Projetos como o Lesotho Highlands Water Project tornam o país vital para a segurança hídrica sul-africana. Ou seja, manter Lesoto estável é interesse estratégico direto: protege a região, garante água e evita crises maiores.

Apesar de ser muito mais pobre que a África do Sul, o povo de Lesoto prefere manter sua independência capenga porque isso garante aos basotho algo que eles perderiam imediatamente se fossem incorporados pelo país vizinho: um país para chamar de seu. Se Lesoto se juntasse à África do Sul, os basotho se tornariam apenas mais uma entre muitas minorias étnicas, sem peso real num sistema dominado por grupos muito maiores, como zulus, xhosas e sotho do sul. No reino, eles têm um Estado próprio, uma monarquia que simboliza sua história e instituições que, com todos os problemas, ainda respondem a um povo específico. Integrar-se à África do Sul significaria diluir essa identidade, perder autonomia e virar uma província a mais, sem voz significativa em um país muito maior e mais complexo. Para os basotho, ser pobre e independente é preferível a ser absorvido e invisível.

A diferença econômica entre os dois países é gritante: enquanto a África do Sul tem um dos maiores PIBs do continente, ultrapassando 400 bilhões de dólares, o Lesoto mal passa de 3 bilhões, o que faz a economia basotho ser praticamente uma gota d’água ao lado do gigante vizinho. Essa desigualdade ajuda a explicar porque a capital, Maseru, funciona quase como uma cidade-satélite da África do Sul. Ela fica literalmente colada na fronteira, separada apenas por um rio e por uma ponte movimentada que liga os dois lados. A dependência é tão grande que uma parcela significativa dos moradores de Maseru trabalha diariamente na África do Sul, cruzando a fronteira todas as manhãs para empregos que o mercado de trabalho local não consegue oferecer. Fora as pessoas que trabalham e moram nas casas de ricos em Joannesburgo, Cidade do Cabo ou Pretória e mandam dinheiro para os parentes em Lesoto. É uma relação econômica assimétrica, mas que mantém o país funcionando.


Perambulando por Maseru: a capital que muda de cara em cinco quadras

Depois de passar a tarde inteira esperando a boa vontade do pessoal para me entregar o visto — e ainda perder mais uma hora até uma tia bem descansaaaaada me vender um chip de celular — resolvi sair caminhando para conhecer Maseru, capital do Lesoto.

Andar por Maseru é curioso porque a cidade muda de cara em minutos. No centro, você vê prédios de concreto, bancos, ministérios e alguns edifícios modernos que lembram qualquer capital africana em desenvolvimento. Em certos pontos, até lembra uma cidade europeia menor, bem organizadinha.

Mas basta caminhar quatro ou cinco quadras para o cenário virar completamente: casas improvisadas, barracos de madeira e plástico, ruas de terra e bairros onde a infraestrutura não acompanhou o resto. Essa transição brusca — do formal para o informal — é praticamente um retrato da desigualdade do Lesoto, onde a modernidade convive lado a lado com áreas sem serviços públicos básicos.

Mesmo assim, Maseru é surpreendentemente segura para caminhar. Diferente da África do Sul, não há clima de tensão, nem aquela sensação de que alguém pode te esfaquear a qualquer momento. Você anda sem ser importunado, vê muita gente simples vendendo o que pode para sobreviver, mercados funcionando, e um cotidiano tranquilo. O trânsito é organizado, há presença policial constante e, no geral, a cidade passa uma calma que contrasta com o que a gente imagina de um país tão dependente da África do Sul.

E tem um detalhe que, para mim, já melhorou 50% da experiência: os táxis são claramente identificados com placa no teto. Pode parecer bobagem, mas Zâmbia, Zimbábue e Malawi não tinham isso. Quando você precisava de um táxi, tinha que ficar perguntando carro por carro, o que era bem chato e inseguro. Em Maseru não — é ver a placa e entrar.

E, sim… lá também tem Igreja Universal do Reino de Deus. Porque, claro, se existe um lugar habitado no planeta, a Universal dá um jeito de chegar antes de você.

Conhecendo Thaba Bosiu: a fortaleza natural que fundou um país
Aqui foi um ponto alto da viagem, um local que eu não dava nada e que eu curti bastante. Thaba Bosiu é o marco que levou a fundação de Lesoto.

Ela deve ser a maior fortaleza natural da África. É uma montanha gigantesca, com topo plano e cercada por penhascos abruptos por todos os lados, o que a torna praticamente inexpugnável. Na história do Lesoto ela não era apenas um ponto de defesa: ele chegou a ser uma verdadeira cidade suspensa. Milhares de pessoas viviam lá em cima durante períodos de conflito, com vilas espalhadas pelo platô, fontes de água próprias, áreas de vegetação para manter o gado, espaço para plantar e tudo o que uma comunidade precisava para sobreviver meses isolada. Por isso, durante o governo de Moshoeshoe I, Thaba Bosiu virou o centro militar, político e espiritual dos basotho.

Esse conjunto de vantagens naturais fez com que nenhum inimigo jamais conquistasse Thaba Bosiu — nem bôeres, nem tribos rivais, nem forças coloniais. O terreno simplesmente inviabilizava qualquer ataque surpresa. A montanha virou símbolo absoluto de resistência, sobrevivência e inteligência estratégica. É considerada o berço do Lesoto moderno porque foi ali que Moshoeshoe unificou os clãs, consolidou seu povo, resistiu à expansão dos colonizadores e lançou as bases do reino que existe até hoje. Ali você consegue entender como geografia e estratégia podem salvar um povo inteiro da aniquilação.

Assim como Masada é um marco para Israel, Thaba Bosiu o é para o Lesoto. As duas são fortalezas naturais erguidas no alto, difíceis de escalar, e serviram como última linha de defesa de povos sob ameaça. Cada uma abrigou comunidades com água, espaço para animais e condições de sobrevivência durante cercos. A diferença é que, no caso basotho, a montanha não caiu — e virou o coração da identidade nacional.

Lá também estão enterrados Moshoeshoe I e outros reis basotho que deram continuidade ao reino, transformando a montanha num verdadeiro panteão. Além da realeza, líderes militares e figuras históricas que ajudaram a defender o país também foram e ainda são sepultados ali.
A primeira parada antes de subir o platô é um museu que explica a importância histórica da montanha e uma vila cenográfica que… sinceramente, não vale muita coisa. O museu, porém, é ótimo — principalmente a parte sobre o famoso chapéu do Lesoto, o mokorotlo, um dos maiores símbolos culturais do país. Ele é inspirado em uma montanha que fica ao lado de Thaba Bosiu. Feito tradicionalmente de palha tecida, era símbolo de autoridade entre chefes locais. Com o tempo, virou marca cultural dos basotho — está no brasão do país, nos prédios públicos, nos souvenirs… só não está na cabeça das pessoas, que hoje preferem boné.


Depois fui subir Thaba Bosiu de verdade. Imaginei que seria aquele passeio rápido: sobe, tira umas fotos e desce. Ledo engano. Todo visitante é obrigado a subir com um guia, e isso muda completamente o ritmo. Em vez de ir direto ao topo, você para em cada ponto histórico, ouve histórias de batalhas, vê antigas aldeias, cavernas, fontes e relatos sobre Moshoeshoe. E como vivia MUITA gente ali em cima, o lugar é imenso. Depois que chegamos ao topo, nem parecia um platô — parecia chão normal, só que elevado. Quando percebi, já estava há mais de duas horas caminhando por todos os cantos. Foi aí que entendi por que Thaba Bosiu é tão importante: não é uma trilha, é uma aula de história a céu aberto.

Enquanto eu vivia meu “Discovery Channel Tour”, o pobre taxista que ficou me esperando lá embaixo começou a entrar em pânico. Ele tinha certeza de que eu iria subir, tirar duas fotos e voltar em quinze minutos. Quando viu que o tempo estava passando e nada de eu aparecer, começou a mandar mensagem perguntando se estava tudo bem. Quando finalmente desci, ele já estava com a cara de quem perdeu a manhã inteira à toa. Mas, sinceramente? Valeu cada minuto. Thaba Bosiu não é um passeio rápido — é um lugar que faz você ficar, porque a história ali em cima é grande demais para ser vista com pressa.

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Lesoto: o reino encravado, a burocracia infernal e a fortaleza de Thaba Bosiu
Lesoto seria o úĺtimo país nesse meu giro pela parte sul da África. Era o país que faltava para eu completar todos os países do sul da África, a exceção talvez de Angola (que na verdade já é quase que no centro da África). Lesoto é um reino e, junto com San Marino e Vaticano, um dos três únicos países do mundo totalmente cercado por outro país. Levando em consideração que San Marino e Vaticano são micropaíses, Lesoto na verdade acaba sendo o único com essa característica. Além disso, é o único país do mundo em que todo seu território está acima de 1000 metros de altura, sendo o país mais frio da África. Ele é um país relativamente isolado e, todo o desafio para chegar lá, mais uma vez, começou pelo visto de entrada no país.

A burocracia do Lesoto explicada: envie documentos para o visto e reze
Mais um capítulo da minha saga com vistos africanos. Para entrar no Lesoto, também precisamos de visto. Antes eles tinham um sistema online todo bonitinho para você aplicar para o visto, mas ele foi simplesmente desativado. Hoje, para conseguir o visto, você tem que mandar seus documentos para um e-mail. Sim, um e-mail. Eles analisam quando querem, respondem quando querem e você fica ali, rezando para alguém abrir a caixa de entrada.

Eu mandei um e-mail perguntando quais documentos eram necessários e… silêncio absoluto. Esperei um mês, reenviei o e-mail e aí sim eles responderam, listando tudo o que eu tinha que mandar. Um dia depois, eu enviei tudo certinho. Receberam, mas responderam dizendo que não iriam emitir o visto naquele momento porque, quando o visto fosse aprovado, eu teria apenas 21 dias para entrar e sair do Lesoto. Ou seja: pediram para eu enviar tudo de novo “mais perto da viagem”. Repare na loucura: enviar de novo para o mesmo e-mail que eles respondem quando querem, sem prazo, sem previsão, sem garantia de nada. E para completar, só emitem o visto se você já tiver comprado passagem de ida e volta e hospedagem.


E se não derem o visto a tempo?
Problema seu. Você perde tudo e dane-se.

Longa vida à burocracia africana.
Enviei tudo de novo e pedi, educadamente, um e-mail de confirmação — só para eu saber que alguém vivo tinha recebido minha mensagem. É claro que não falaram nada. Como sempre, respondem quando querem. A viagem foi chegando, eu mandando e-mail todo dia perguntando se precisavam de mais algum documento. Nada. Nenhuma resposta.

Cheguei até a pedir ajuda para um cara de Lesoto que conheci no Couchsurfing. Todo santo dia ele tentava ligar para todos os números disponíveis no site do visto — nenhum funcionava. Todos caíam, chamavam eternamente ou estavam desativados. Quando eu já estava prestes a cancelar minha passagem do Malawi para Lesoto e comprar uma do Malawi direto para a África do Sul, PLIM, recebo uma carta de autorização para entrada no Lesoto na minha caixa de entrada. Cara, eu comemorei aquilo como se o Brasil tivesse acabado de ganhar uma Copa do Mundo.

Viajar pela África é sempre assim: teste cardíaco gratuito.
E eu achando que a novela tinha acabado ali.
Mal sabia eu que a dor de cabeça estava só começando.

E você achou que tinha acabado? Quando o visto depende de uma sala cheia de papel e frango frito

Ainda no aeroporto da África do Sul, apresentei a carta de visto que o Lesoto tinha me enviado. A atendente da companhia aérea analisou, pediu minha cópia e saiu. Quando anunciaram o embarque, todo mundo foi chamado… menos eu. A moça voltou dizendo que precisava ligar para o Lesoto para confirmar se o meu documento era real antes de me deixar entrar no avião. No fim, deu certo — seguir viagem virou quase um prêmio. Reitero, isso foi ainda na África do Sul.

Ao chegar ao único aeroporto do Lesoto, descobri outra novidade: apesar de ter enviado tudo por e-mail, o visto não ficava pronto ali. Eles só te dão um carimbo temporário de entrada e você tem 72 horas para se apresentar pessoalmente no Ministério de Assuntos Internos para concluir o processo. Ah, detalhe: o lugar não abre fim de semana, fecha para almoço e às 15h encerra o expediente porque, afinal, ninguém é de ferro.

E se você não for?
Basicamente, você vira um problema diplomático ambulante e não consegue nem sair do país.
Quando perguntei no aeroporto onde regularizar isso, o povo arregalava os olhos e mandava: “Vá lá o mais rápido possível”. Nem chip de celular eu pude comprar.

Como eu tinha chegado numa quinta, fui direto ao ministério — vai que eles resolviam que a semana só ia de segunda a quinta e na sexta eu ficava ao léu. Cara, do jeito que as coisas eram, tudo podia acontecer.
O aeroporto é tão pequeno que existe apenas uma vanzinha que busca todos os passageiros. Me avisaram: se eu perdesse a van, só pegaria outra quando chegasse o próximo voo. Entrei na van junto com um grupo de africanos. Depois de alguns minutos ouvindo o papo, algumas palavras soaram familiares. Português. Eram moçambicanos. Ficamos conversando o trajeto todo — admito que foi um alívio falar português depois de tantos dias improvisando inglês.

Cheguei ao meu Airbnb, deixei as malas e parti para o tal ministério.
E aí começou o calvário.
O prédio parecia cenário de série feita para zoar serviço público. Móveis empilhados pelos corredores, poeira acumulada e aquele ar de abandono absoluto — mas com gente circulando, então tecnicamente estava “funcionando”. Me encaminharam para uma salinha e: era um mar de mesas marrons e pilhas absurdas de processos em papel. Pilhas e pilhas. Naquele momento eu compreendi por que eles não respondiam e-mails: quem vai parar a vida para catar processos em montanhas de papel para responder e-mail?

As senhoras do setor foram até simpáticas. Depois de uns 15 minutos escavando papelada, acharam meu processo e me mandaram para outra sala para “pagar o visto”.

Cheguei na tal sala e encontrei três mulheres enormes. Parafraseando um antigo presidente, elas deviam pesar algumas arrobas. E lá estavam elas sentadas, batendo papo como se nada no mundo fosse mais prioritário. Quando me viram, disseram para esperar no corredor porque ia demorar. E realmente foi. Eu via pela fresta da porta, e, cara, mesmo sabendo que eu estava esperando do lado de fora, elas simplesmente ficaram batendo papo e me deixaram esperando. Era necessário aguardar acabar o bate-papo. Depois de meia hora, uma delas finalmente percebeu a fila crescendo e começou a atender.

Quando entrei, o impacto veio pelo nariz: um cheiro fortíssimo de frango frito impregnado em tudo — paredes, papéis, mesas. Os documentos tinham manchas de gordura. Elas conversavam entre si enquanto faziam meu atendimento, riam, comentavam histórias, como se eu nem estivesse ali. Depois de 45 minutos, paguei a taxa e voltei para a primeira sala.

Ali, as funcionárias disseram que agora o supervisor precisava assinar, mas ele estava em uma reunião. Imagino que fosse do mesmo nível de produtividade da sala do frango frito. Me mandaram sentar e esperar.
E assim foi:
5 minutos.
10.
15.
30.
45.
1 hora.
1h10.
Só então o supervisor apareceu, assinou meu papel e me liberou. Três horas depois, eu finalmente saía com o visto. E não, não estava lotado. Éramos apenas eu e um chinês acompanhado por um despachante do Lesoto. Era pura burocracia, misturada com um certo prazer institucional de mostrar poder — fazer o estrangeiro esperar porque podem.

Para piorar, quando saí, eles me deram um recibo do pagamento. Normalmente jogo isso fora, mas esse achei “bonito” e guardei. No dia seguinte, recebo uma ligação desesperada: era o despachante do chinês dizendo que eu tinha levado o recibo do cliente dele. Conferi e, sim, as funcionárias tinham me entregado o recibo errado. O cara implorou dizendo que precisava daquele papel “com urgência absoluta” e que iria me encontrar onde eu estivesse. Falei que estava num supermercado. Cinco minutos depois, o homem brotou no meio das prateleiras.

Comentei com um taxista e ele disse que, no Lesoto, todo mundo tem medo dos chineses. Segundo ele, os chineses tentam de tudo para não te pagar, e se houver qualquer erro de recibo, eles se negam a pagar e ainda chamam a polícia. Vendo o desespero do despachante, acredito que já tinha policial no calcanhar dele.
E olha… não duvido.
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Viagem ao Malawi – Perambulando por Lilongwe: quando a capital parece uma cidade sem centro
Cara, por mais que eu tenha tentado encontrar alguma coisa realmente interessante para fazer em Lilongwe, vou te dizer… foi difícil, viu? Mesmo assim fiz meu roteirinho e saí andando pela cidade para ver o que dava.

A primeira parada foi o Lilongwe Wildlife Centre, o principal santuário de vida selvagem do Malawi e um dos projetos de conservação mais importantes da África Oriental. O centro fica bem no meio da capital e funciona como hospital, creche e casa de recuperação para animais vítimas de tráfico, armadilhas ou maus-tratos. Já passaram por lá pangolins, macacos, cervos, aves e todo tipo de bicho que o ser humano dá um jeito de maltratar.



Eles tratam, reabilitam e, quando possível, devolvem os animais à natureza. Também fazem um trabalho bem forte de educação ambiental com escolas e visitantes. Eu fui achando que seria algo meio sem graça, mas acabei gostando bastante — especialmente pelos macacos soltos andando entre a gente, inclusive o lendário macaco da bola azul. Sim, ele mesmo. Tava lá, pleno. Infelizmente não consegui tirar uma foto que fizesse jus às… bem… às azuis dele.





Depois disso, continuei perambulando pela cidade tentando achar algo para ver ou fotografar. Cara… complicado. Ainda bati foto do Banco Central, de uns prédios governamentais, mas nada que valesse escrever um “uau”. De qualquer forma, eu estava a caminho do ponto que, teoricamente, era o mais famoso da cidade: o Memorial da Primeira Guerra Mundial.

O memorial foi construído pelos britânicos durante o período colonial para homenagear os soldados africanos que lutaram na Campanha da África Oriental ao lado do Exército Britânico — muitos deles do King’s African Rifles, uma tropa formada majoritariamente por povos da região. Sim, teve malawiano lutando contra tropas alemãs em território que hoje é Tanzânia, Moçambique e Malawi. A estrutura permanece até hoje não só por ser herança colonial, mas porque representa um capítulo importante — e pouquíssimo falado — da história do país: milhares de africanos foram enviados para uma guerra que não era deles, mas cujas consequências atingiram profundamente o continente. Além disso, o memorial tem umas das maiores torres do Malawi, então teoricamente daria para ver Lilongwe inteira lá de cima.


Pus no Google Maps e fui. Rapaz… de repente as construções começaram a sumir, o asfalto acabou e me vi cada vez mais cercado por mato, mato e mais mato. Fui ao memorial achando que era no centro — e… era no meio do nada.

Para ajudar, começou a chover. Quando tentei subir as escadarias, estavam fechadas com cadeado. Aí surge um sujeito sorridente do nada dizendo que, se eu desse uma “gorjeta”, ele abria. Mano, os caras trancam de propósito só para arrancar uns trocados de quem aparece. Fui ver o livro de visitas: quase quatro da tarde e eu era o único turista do dia. Vida que segue. Subi assim mesmo e, chegando no topo, descobri que não dava para ver quase nada, porque a cidade fica longe do memorial.


O “guia” me contou que a maioria dos turistas que visitam ali são do Quênia, da África do Sul e… da Malásia. Sim, Malásia, lá do outro lado do mundo. Vai entender.



Quando comecei a descer, tava reparando na fiação exposta que parecia ter sido instalada durante a própria Primeira Guerra. Eu já estava com medo de levar um choque quando, de repente, vi um clarão enorme. Pensei: “eita, curto-circuito!”. Nada disso: era um raio, que caiu quase do nosso lado. Foi aí que eu concluí que meu dia já tinha dado tudo o que tinha para dar. Peguei um táxi todo molhado e voltei para o Airbnb que, sim, obviamente, continuava sem energia quando cheguei.
O Malawi funciona… mas continua pobre: entendendo essa contradição
O Malawi é um caso curioso porque, ao mesmo tempo em que é um país extremamente pobre, ele também é surpreendentemente organizado em alguns aspectos. Tem bolsa de valores, instituições relativamente estáveis, um governo que funciona e um ambiente político previsível — o que, convenhamos, já coloca o país na frente de muito vizinho. À primeira vista, parece contraditório: como um país com mercado financeiro, sistema bancário razoável e estabilidade continua entre os mais pobres do mundo? A explicação está, basicamente, na economia. O Malawi não tem saída para o mar, tem pouca indústria, depende pesadamente da agricultura de subsistência e vive sofrendo com eventos climáticos, especialmente secas e enchentes. A estabilidade evita o caos institucional, mas não gera riqueza — e o país simplesmente não tem motores suficientes para crescer.

Essa contradição aparece claramente no dia a dia. Como eu já tinha percebido na prática, a vida no Malawi é marcada por apagões intermináveis, que param restaurantes, hotéis, comércio, hospitais — tudo. E a própria capital, Lilongwe, representa bem essa mistura de ordem com precariedade: é uma cidade espalhadíssima, com bairros distantes, poucas áreas densas e praticamente sem “centro”. Você passa mais tempo cruzando estradas vazias do que caminhando de um bairro ao outro. Parece que você está atravessando várias pequenas cidades em vez de uma capital de verdade. A estabilidade existe no papel, mas ainda não virou desenvolvimento — e o Malawi fica preso exatamente nesse limbo.

Quando eu tentava encontrar alguma atração turística para visitar, cara… complicado. As pessoas são gentis, acolhedoras — o país não tem o apelido de “Warm Heart of Africa” à toa — mas realmente não tem muita coisa para ver na capital. Todo mundo fala maravilhas do Lago Malawi, mas eu via as fotos e parecia… um lago normal. Nada de um Titicaca boliviano. Além de ser relativamente difícil chegar até ele. Então desisti de inventar moda e fiquei pela capital mesmo. Pela capital sem luz, diga-se.

Uma curiosidade foi quando eu estava indo embora no aeroporto. O cara do raio-X me perguntou de onde eu era. Eu falei que era do Brasil, esperando aquele bingo de sempre — Ronaldinho, Rivaldo, Neymar, essas coisas. Nada disso. O cara abriu um sorriso e perguntou: “País do Bolsonaro?”. Vocês que gostam de político, me falem se isso é bom ou ruim.

Mas, sinceramente, a pior parte da viagem não foi o apagão eterno, nem o memorial no meio do nada, nem a ausência de Uber. Foi o fato de que o Malawi virtualmente não tem Coca Zero. Mano… eu não bebo álcool, não tomo refrigerante com açúcar e evito doce. Me sobra o quê? Coca Zero. E ela simplesmente… não existia.


Aí sim, meu amigo, aí foi sofrimento real.
= (
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Viagem ao Malawi: pobreza extrema, apagões constantes, coca zero inexistente e um país que tenta funcionar
O Malawi sim, foi um país que eu só decidi visitar porque eu já tava pela região. Nunca tinha ouvido falar em qualquer coisa referente ao país e na verdade vez ou outra eu pegava me confundindo dizendo que eu ia viajar pro Mali e não pro Malawi. As passagens aéreas para lá era bem complicadas, mas acabei conseguindo achar algumas razoáveis com conexões na África do Sul. Depois que eu fui descobrir que o Malawi é o sétimo país mais pobre do mundo. A título de comparação, o Brasil tem uma renda per capita quase 15x maior que a do Malawi e a própria Zâmbia, que eu achei muito pobre, tem 3x mais renda per capita do que o Malawi.

A título de curiosidade, teve uma noite que eu fui tomar banho e comecei a sentir um cheiro de queimado. E isso é estranho, porque, ao contrário do surto esquizofrênco do Brasil que mistura eletricidade e água para ter chuveiro quente (sim, na gringa chamam o chuveiro brasileiro de suicide shower), o chuveiro no Malawi era a gás. Além disso, era um cheiro estranho, parecia cheiro de carvão. Depois fui comentar com o dono do Airbnb e ele me falou que isso ocorria porque os vizinhos usavam carvão para poder cozinhar. Sim, o fogão ainda era a carvão. Isso porque eu tava em um dos bairros mais nobres de Lilongwe, a capital do país.

Isso explica muito os perrengues que iriam acontecer comigo na viagem ao Malawi.

Como é chegar ao Malawi: visto fácil, transporte difícil e os primeiros perrengues

O visto para o Malawi, inacreditavelmente, foi fácil de tirar. Sim, fácil — uma palavra que eu não achava que combinava com vistos africanos depois da novela Zâmbia/Moçambique. Os caras me deram um prazo de até cinco dias úteis e, veja só, em cinco dias úteis o visto estava na minha caixa de entrada, prontinho, online, bonitinho, só para apresentar na chegada. Eu ainda acho que teve algum erro no universo, porque, depois de pagar duas vezes pelo KAZA Visa da Zâmbia e nunca receber resposta de Moçambique, conseguir um visto do Malawi quase como num passe de mágica foi praticamente uma experiência espiritual.

Achar hospedagem, por outro lado, já foi um desafio à parte. Já não sou mais aquele moleque de 20 anos que dorme em qualquer espelunca porque “o importante é viajar”, mas também ainda não virei fresco de hotel cinco estrelas (ainda — ênfase no ainda). Só quero o básico do básico: ar-condicionado, wi-fi e uma cozinha para eu poder fazer minha comida e evitar passar mal com restaurante duvidoso. Cara, achar um lugar com esses três requisitos no Malawi foi quase uma gincana. Mas no fim encaixei um Airbnb que atendia o mínimo existencial que eu precisava, e de lá peguei meu voo na África do Sul rumo ao Malawi.

A novela já começa no aeroporto. No Malawi não existe Uber, Indrive, Yango ou qualquer outro app de transporte. Zero. Você olha pra tela do celular, aperta o aplicativo no automático… e nada funciona. O jeito foi negociar com meu host para ele ir me buscar. Na rua, os taxistas cobram 30 dólares por corrida — sim, TRINTA. Coisa de 170 reais para andar uns poucos quilômetros. É facada, machadinha e serrote tudo junto no turista. Mas beleza, era o que tinha para hoje. Se eu quisesse sair do aeroporto, ou pagava, ou passava a noite fazendo amizade com mosquitos.

História do Malawi: Colonialismo, autocracia e dependência externa
A história moderna do Malawi começa sob domínio britânico, quando a região foi incorporada ao Protetorado da Niassalândia no final do século XIX. Os britânicos estabeleceram ali uma administração colonial voltada principalmente para agricultura e extração de recursos, mas sem grandes investimentos em infraestrutura ou indústria. O país só conquistou sua independência em 1964, adotando inicialmente um sistema de partido único liderado por Hastings Kamuzu Banda, que governou como autocrata por três décadas. O ditador se acha tanto, que mandou até fazer um Mausoléu para ele que até hoje está presente no meio da capital do país, Lilongwe. Fica do lado do Parlamento do país, inclusive. Apesar da independência formal, o Malawi saiu do período colonial com pouquíssimo desenvolvimento econômico, forte dependência externa e uma população majoritariamente rural — características que continuam marcando o país até hoje.




Mesmo após a redemocratização nos anos 1990, o Malawi segue entre os países mais pobres do mundo por uma combinação de fatores: falta de acesso ao mar, baixa industrialização, agricultura extremamente dependente do clima, explosão demográfica, desmatamento severo e governos sucessivos sem capacidade de modernizar a economia. A dependência de ajuda internacional é alta, e choques climáticos — como secas e enchentes — afetam diretamente a produção de alimentos e a renda da população.

O país até tem algumas indústrias, cujos donos são parte da minúscula elite branca que ficou por lá. Por lá também tem bastante indianos, que formam a elite comercial do país. Cara, se tem um comércio ou um supermercado, certeza que o dono é um indiano. Sim, mas podia ser o supermercado que fosse, por mais que eu procurasse nunca achava Coca Zero. Impressionante.
Por agora também tem começado a aparecer bastante chineses. Na verdade, os chineses estão cada vez mais presentes na África inteira.

O apagão interminável que me fez repensar o valor da eletricidade
Cara, foi só eu pisar no Airbnb e fuuuuuuuuuuuu. Acabou a luz. Depois de quatro dias sem saber o que era um ar-condicionado ligado à noite na Zâmbia, eu já nem me abalei. Meu corpo tinha virado oficialmente “resiliente ao calor”. O dono do Airbnb me explicou que ali era sempre assim: quedas constantes de energia, mas tinham baterias para manter pelo menos as luzes funcionando. Só não teria ar-condicionado. Nem fogão. Nem TV. Nem… geladeira. Vida que segue.

Aí começou a contagem. Uma hora sem energia. Duas. Três. Nada. Quatro, cinco, seis… nada. Sete… oito… nove… e quando bateu dez horas sem energia, você acha que voltou? Não: eu é que desisti e fui dormir sem ar-condicionado mesmo, igual na Zâmbia. Ainda bem que não estava calor.
Acordei no outro dia e… cadê a luz? Exatamente: não tinha voltado ainda. Tomei café, saí para andar pela cidade, passei o dia fora e… Cadê a luz? Continuava na mesma. A essa altura, até as baterias de luz solar do Airbnb tinham ido para o espaço, então nem luz, nem wi-fi, nem tomada para carregar celular tinha mais. (Ainda bem que eu tinha comprado 10 GB de internet 4G local senão era isolamento total.) O dono do Airbnb ficou com tanta pena que foi no mercado comprar umas lâmpadas recarregáveis e ainda me trouxe um powerbank para eu ao menos carregar o celular quando acabou a bateria.

Quando já era noite, quase hora de dormir de novo, finalmente a energia voltou. Cara… vou te contar: essas viagens servem para a gente aprender a dar valor às coisas mais simples da vida. Eu juro que, depois disso, toda vez que eu chego em casa, aperto o interruptor e a lâmpada acende, eu penso: “rapaz… isso aqui é luxo puro”. Pode parecer bobagem, mas ficar esse tempo todo sem energia é MUITO ruim. Não desejo pra ninguém.

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Viajando a Botsuana – o alívio da chegada a Gaborone
Depois da decepção monumental que foi Kasane, voltei para Victoria Falls e peguei meu voo para Gaborone, a capital de Botsuana. Cara, chegar em Gaborone foi quase terapêutico depois dos perrengues de Victoria Falls e Livingstone. A cidade é moderna, organizada, limpa, pavimentada… um verdadeiro spa urbano depois de ficar negociando preço com taxista na rua, dormindo com mosquiteiro e rezando para a energia não cair por seis horas. Em Gaborone, era só abrir o Indrive (o Uber russo que funciona lá), chamar o carro e pronto. Ar-condicionado ligado 24h, estabilidade, paz espiritual. Até o cérebro agradeceu.

Mas a maré de azar resolveu me acompanhar fielmente em Botsuana. Cara, eu simplesmente esqueci uma sacola com todas as minhas cuecas e meias no Zimbábue. Todas. Cheguei em Botsuana literalmente com a cueca do corpo e dois pares de meia: um vestido e o outro… bem… ruim, por assim dizer. Aí entra o momento em que o ChatGPT brilhou: expliquei que precisava de uma loja estilo Mesbla (sou velho mesmo, paciência), mostrei onde eu estava hospedado e pedi um lugar para comprar cueca e meia barata. ChatGPT mandou direto: “vai no shopping tal e entra na loja tal. Você deve pagar tanto por isso”. Rapaz, tiro e queda. Fui, comprei meia e cueca suficiente para passar o resto da viagem digno — ou algo perto disso.

E foi ali, no shopping, que tive minha primeira surpresa real em Gaborone. Nas cidades da África Subsaariana onde eu tinha ido, shopping normalmente era vazio, um ou outro estrangeiro comendo hambúrguer, uns expatriados trabalhando no notebook, famílias indianas ou árabes andando devagar pelos corredores. Em Gaborone, não: só classe média negra, consumindo, comprando, rindo, almoçando, como qualquer shopping no Brasil. Aquilo me chamou muita atenção porque não é exatamente a “imagem clichê” que associam à África — mas Botsuana é Botsuana. Democracia funcionando, mina de diamante, economia estável… e, ali, um shopping lotado de gente vivendo sua vida normalmente. Foi uma das primeiras coisas que me fez pensar: rapaz, Botsuana é diferente mesmo.


O contraste de Botsuana: estabilidade política, hipersegurança e o museu do sushi
No outro dia saí andando pela cidade batendo fotos dos prédios, do memorial aos três líderes que garantiram a independência de Botsuana e por aí vai. No memorial, inclusive, foi engraçado ver que tinha um grupo de meninas que desfilava, e batia foto, e dançava… Ah pronto, a la a geração Tik Tok. Depois que eu vi, atrás do monumento, tinha sacos e sacos de roupa, acredita? As meninas ficavam trocando de roupa para poder fazer vídeo no TikTok, Rapaz…



Sai de lá e continue passeando pela cidade. Só uma coisa me chamava a atenção. Cara, tinha uns veículos de combate imensos pelas ruas da cidade. Achei estranho, já que Botsuana é um país estável e seguro. Quando eu cheguei no prédio do parlamento para bater foto, mano, era viatura de polícia que não acabava mais. Resolvi perguntar para uns caras engravatados o que estava ocorrendo.

Rapaz, para que, os caras já mandaram um “para que você quer saber?” e na hora eu saquei que eles eram policiais a paisana. E começa os caras a me interrogar. Quem eu era, de onde eu vinha, porque eu tava ali, quando eu tinha chegado em Botsuana… Só sei que na hora deu uma vontade de ir embora, rapaz… Depois que eles viram que eu era só um turista que me explicaram que estava tendo um evento e quatro presidentes africanos estavam presentes, por isso todo aquele aparato policial. Inclusive pediram para eu não bater foto, deixar para bater foto no outro dia. Bater foto? Eu caí foi fora logo. Tá louco. Saí de lá e fui para o museu nacional de Botsuana. Se quiserem ver foto do parlamento baixem na internet.

Pô, do lado de fora do museu um prédio mó bonito. Tinha tudo para ser bem legal. Tinha o que lá dentro?

Nada
Literalmente nada
Não tou zuando, a única exposição que tinha era da história do Sushi
JURO
Provavelmente estava sendo bancada pela Embaixada do Japão, já que tinha um japonês lá explicando como se faz sushi. Decepção define.


Depois que saí de lá resolvi ir para um safári que tinha dentro da cidade de Botsuana e aparentemente dava para ir a pé. Sim, a pé. Não tinha carnívoros, só zebras, avestruzes, impalas, essas coisas. Cheguei lá, uma chuva da moléstia. Mais uma vez o azar. Nem desci do carro, pedi pro motorista me deixar no Airbnb de volta pagando o dobro do preço da corrida. Desci do carro, encostei as costas na cama e…? Abriu o sol. Chama outro Indrive e vamo de novo pro safári. Rapaz, não foi eu chegar lá e descobrir que eu não podia fazer o safári a pé? Sim, você podia ir sozinho, podia descer do carro, bater fotos, mas não era como caminhar no Ibirapuera, também não era bagunçado assim. Rapaz, o jeito foi eu pedir de novo pro motorista do Indrive não ir embora. Pedi para ele me deixar em um shopping para eu procurar algo para comer e acabar aquela maré de azar. Cê tá louco, o primeiro dia deu tudo errado.


Subindo a Kgale Hill, a maior montanha de Gaborone
Como em um dia eu já tinha visto tudo o que eu queria em Gaborone, no segundo dia resolvi subir a Kgale Hill. Com cerca de 1.300 metros de altitude, ela se destaca no meio da paisagem e funciona como um mirante natural da capital. Tem uma trilha até o topo que muita gente da cidade já fez. Ela é curta, mas íngreme, então já dá para dizer que você fez “uma aventura” sem sofrer muito. Pois bem, lá fui eu.

Quando fui pesquisar como era subir a tal da Kgale Hill, quase desisti só de ler as barbaridades. Metade da internet dizia que a trilha era “extremamente difícil”, a outra metade estava em pânico absoluto por causa dos supostos babuínos odiadores de humanos que supostamente atacavam quem subia a colina. Aí, pra completar o terror psicológico, cometi o erro de perguntar pro ChatGPT. Rapaz… ele me descreveu praticamente a sucursal do inferno: disse que antigamente davam comida pros babuínos e hoje qualquer pessoa com mochila virava alvo. Se tivesse cheiro de comida, já era: mochila rasgada, bolso rasgado, dignidade rasgada — um autêntico arrastão babuínico. Disse também para não abrir embalagem nenhuma (porque poderia fazer os babuínos acharem que você estava com comida) e ainda mencionou um tal de babuíno alfa lendário, que se implicasse com você sentava no meio da trilha e te obrigava a andar de ré calmamente — porque se corresse, era perseguição e morte.

Beleza, obrigado internet.
Pra fechar o combo do pânico, o motorista do Indrive resolveu colaborar. No meio do caminho, ele perguntou o que eu ia fazer ali. Eu falei que ia subir a colina. Aí veio o golpe final:
— Sozinho?
Quando eu disse que sim, ele respirou fundo, me olhou pelo retrovisor e soltou um “tenha cuidado… o caminho é muito desafiador”. Perfeito para acalmar qualquer um, né? Quando ele me deixou no pé da colina, tinha uma patrulha de babuínos me encarando. Eu olhei pra um lado, pro outro… pensei em desistir… mas aí o carro já tinha ido embora. Pronto. Começou oficialmente o modo survival horror Botsuana edition.

Pensei: pronto, arrumei pra minha cabeça. Uma trilha que, pelo que eu tinha lido, era praticamente o Everest versão Botsuana, com babuínos psicopatas armando emboscada. Já estava ali mesmo — então bora. Na pior das hipóteses, era só um fim de semana normal no Rio de Janeiro. Decidi que só ia caminhar por trilha bem marcada e, no primeiro sinal de encrenca — trilha fechando, bifurcação suspeita, mato com cara de “vai te perder sim”— eu dava meia-volta, voltava para a entrada da trilha e fingia que nunca tive essa ideia. E fui com uma pedra na mão, porque vai que eu encontrava o tal babuíno macho alfa mitológico? Eu não ia provocar, mas se ele resolvesse ser doido, eu já estava pronto pra ser doido em dobro.


Fui indo.

E indo.

E indo.

E…
Cheguei no topo.
Na hora bateu aquela sensação “é só isso mesmo?”. A trilha era toda demarcada, e em vários trechos até cimentada. E pra ver o nível de civilização da coisa: o Google Maps mostrava o caminho certinho, como se eu estivesse indo comprar pão. Não vou mentir: é subida e cansa um pouco. Mas, sinceramente? 30 minutos andando e pronto, estava lá em cima vendo Gaborone inteira. No meio do caminho até cruzei o caminho de um gordinho descendo com camisa da Alemanha, enquanto eu estava com a do Brasil. Clássico.

E os famosos babuínos assassinos?
Além dos que estavam no pé da colina, quantos eu vi?
Absolutamente nenhum.
No meio da trilha larguei até a pedra da “autodefesa”. Já estava era torcendo pra aparecer ao menos um babuíno pra justificar o drama todo — nem isso. A trilha foi tranquila, sem ataque, sem bicho, sem caos, sem arrastão. Valeu pelo passeio, pela vista e pela história… mas a real é que foi bem mais tranquilo do que qualquer pessoa (ou qualquer ChatGPT) tinha me avisado.


Ficou para outro dia o encontro com o babuíno alfa demoníaco. Quem sabe na lua cheia da sexta-feira 13.
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Botsuana: Democracia, Gaborone, Chobe e Kasane: como é viajar pelo país mais estável do continente
A primeira coisa que eu tenho que dizer é que, se na viagem Zâmbia/Zimbábue eu tive uma maré absurda de sorte, em Botsuana foi exatamente o oposto. Impressionante como absolutamente tudo resolveu dar errado ao mesmo tempo. Nada sério, nada envolvendo saúde ou segurança — graças a Deus — mas todo o resto parece que entrou num complô pessoal. Depois eu vou detalhar essa novela, mas já adianto: foi um festival de azar.


Inicialmente, meus planos para Botsuana eram simples: visitar só a capital, Gaborone. Mas quando eu estava montando o roteiro para Zâmbia/Zimbábue, descobri que dava para fazer um bate e volta, um passeio de um dia, de Livingstone até Kasane, em Botsuana, para conhecer o famoso Parque Nacional de Chobe. Pensei: “Uai, é agora!”. E paguei pelo day tour. Antes de contar como esse passeio virou uma comédia de erros, deixa eu explicar um pouco da história de Botsuana — porque esse país é bem mais interessante do que parece no mapa.
Botsuana: o país africano que transformou tradição, política e diamantes em estabilidade

A história moderna de Botsuana começa com a chegada dos britânicos no final do século XIX, quando o território passou a ser administrado como o Protetorado de Bechuanalândia. Nessa fase crucial, três líderes locais — Khama III, Sebele I e Bathoen I — enxergaram o risco de serem anexados pela Rodésia de Cecil Rhodes (hoje Zimbábue), que avançava agressivamente pela região. Os três viajaram até Londres e conseguiram convencer a Coroa britânica a manter Botsuana como protetorado separado, evitando que suas terras fossem tomadas. Essa negociação foi decisiva para o futuro do país e hoje é lembrada no Monumento aos Três Chefes, em Gaborone, que simboliza coragem política e visão estratégica.



Botsuana conquistou sua independência em 1966 e deu início a uma trajetória singular no continente africano. Ao contrário de muitos países vizinhos, que enfrentaram golpes militares, guerras civis e ditaduras logo após a saída dos colonizadores, Botsuana adotou uma democracia estável desde o primeiro dia. O país era pobre, praticamente sem infraestrutura, mas possuía algo raro: uma liderança pragmática, comprometida e com visão de longo prazo. O primeiro presidente, Seretse Khama — neto de Khama III — combinou tradição local com governança moderna, criando instituições sólidas e um ambiente político que valorizava consenso em vez de confronto.

Além disso, Botsuana investiu os recursos dos diamantes em escolas e universidades e mandou estudantes estudarem na Europa. Quando eles voltaram, eles já eram engenheiros, médicos, administradores públicos, criando uma forte classe média negra que é raro você ver em outros países subsaarianos.

O resultado dessa combinação foi extraordinário. Botsuana se tornou um dos países mais estáveis e bem administrados da África, com crescimento econômico consistente, baixa corrupção e serviços públicos que funcionam melhor do que a média regional. A descoberta e o uso responsável dos diamantes impulsionaram o desenvolvimento, mas não criaram a dependência predatória que arruinou outros países. Hoje, Botsuana é considerado um modelo de democracia africana: segura, previsível e com instituições fortes. Para quem visita a região, a diferença é nítida — é um país que escolheu o caminho da estabilidade e colhe os frutos até hoje.


As etnias de Botsuana formam um mosaico cultural organizado em torno de grupos conhecidos como Tswana (ou Batswana), que deram origem ao nome do país. Esses grupos são divididos em chefias tradicionais que ainda hoje têm influência política e social, mesmo dentro da estrutura moderna do Estado. Cada etnia possui seu kgosi (chefe), responsável por decisões comunitárias, resolução de conflitos e pela manutenção de tradições. Apesar das diferenças entre os grupos, existe uma identidade coletiva forte e valores compartilhados, elementos que ajudaram Botsuana a manter estabilidade política desde a independência.

O clima do país é semiárido, com longos períodos de seca, solos pobres e chuvas imprevisíveis. Nesse contexto, a água sempre foi um recurso extremamente valioso, essencial para o gado e para a vida no deserto do Kalahari. É por isso que a palavra “pula”, que significa literalmente chuva, se tornou tão simbólica a ponto de virar o nome da moeda nacional. Isso faz lembrar que cada gota conta. Eu só não vi esse semiárido todo que falaram, porque eu não consegui lavar a roupa quando estive por lá do tanto que choveu todos os dias e não ia ter como secar.
Safári no Chobe: a parte épica, a parte frustrante e a parte engraçada

Como eu já estava na Zâmbia e existia um bate-volta bem famoso até o Parque Nacional de Chobe, em Botsuana, pensei: por que não? Chobe é um dos parques mais conhecidos da África — criado em 1968, tem quase 12 mil km² e abriga a maior concentração de elefantes do continente, mais de 100 mil vivendo soltos. O rio Chobe corta o parque garantindo água o ano todo, e por isso atrai de tudo: búfalos, hipopótamos, girafas, crocodilos e uma infinidade de aves. Tem o combo completo: safári terrestre de manhã, safári de barco à tarde. Clássico.

O day tour funciona assim: sete da manhã a van já está buzinando na porta da sua pousada em Livingstone. Te levam até a fronteira com Botsuana, você carimba saída, carimba entrada, troca de carro e pronto — já começa o safári terrestre. A promessa era épica: centenas, milhares de elefantes caminhando a centímetros do carro. O guia falava como se fosse quase um tsunami cinzento andando pela savana. A expectativa era grande.

Quantos elefantes eu vi? 100 mil? 1.000? 100?
ZERO.
Cara, acredita nisso? Me venderam o apocalipse elefantídeo e eu não vi um único elefante. Depois descobri que, nessa época do ano, ainda restam várias lagoas pelo parque por causa das chuvas, então os bichos ficam dentro da mata, escondidos, sem precisar ir até o rio beber água.

Claudiomar triste.
O safári até começou promissor: em cinco minutos encontramos um leopardo no topo de uma árvore com sua refeição — um antílope recém-abatido pendurado ali como um troféu. O bicho estava deitado no galho como se fosse a melhor rede do mundo. Pensei: se começou assim, imagina o resto. Mas não teve resto. Depois disso, vimos alguns búfalos, uns antílopes tímidos e… nada. O safári ficou tão parado que eu literalmente dormi no carro. Claudiomar triste, novamente.

À tarde veio o famoso safári de barco no rio Chobe, o mais esperado do passeio. Ali é o momento em que, teoricamente, os elefantes atravessam o rio, os hipopótamos brigam na água e os crocodilos ficam à espreita. E… adivinha? Zero elefantes de novo. Pelo menos hipopótamos e búfalos apareceram em quantidade, e conseguimos ver uns dois crocodilos sem graça.





Foi melhor que nada. Interessante é que o rio delimita a fronteira entre a Namíbia e Bostuana. No lado de Botsuana é um parque, não pode plantar, criar animal, pescar… no lado da Namíbia… bem… dane-se. A gente passava de barco e via os bois pastando na margem do rio e um vaqueiro espantando eles da margem para eles não serem comidos por crocodilos.



A única parte realmente engraçada foi uma menina que, toda vez que aparecia um animal, se agarrava no namorado como se o leopardo fosse pular dentro do barco. Pensei: deve ser americana, sueca, suíça… Não. Era a única menina zambiana do barco. A ironia da vida.

No fim do dia voltamos pra Livingstone. Foi legal? Olha… acho que fiquei mais animado por ter passado pela minha primeira quádrupla fronteira (Namíbia, Botsuana, Zimbábue e Zâmbia ao mesmo tempo) do que pelos próprios animais. Hipopótamos eu já tinha visto indo pra Piscina do Diabo, crocodilo eu já vi aos montes no Pantanal… então digamos que foi frustrante.
Mas pelo menos não choveu nenhum dia e consegui fazer tudo o que tinha programado nessa viagem maluca.
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ZIMBÁBUE | Victoria Falls, babuínos na rua, Mugabe e as Cataratas Vitória #zimbabwe #zimbabue
Queria a vista completa das Cataratas Vitória, e pra isso tive que ir até o Zimbábue. No caminho, encontrei muito mais do que uma das maiores quedas d’água do planeta: vistos complicados, uma cidade que existe só por causa da cachoeira, histórias políticas pesadas e um país que passou por um dos maiores colapsos econômicos da história recente.
As Victoria Falls ficam exatamente na fronteira entre Zâmbia e Zimbábue. Apesar da maioria dos voos internacionais chegar pelo lado zimbabuano, eu optei por me hospedar em Livingstone, na Zâmbia, que é maior, mais estruturada e oferece os principais passeios — como a Piscina do Diabo e o safári a pé com rinocerontes.
Victoria Falls, no Zimbábue, é praticamente uma cidade-monotema: tudo gira em torno da cachoeira.
Ainda assim, é no Zimbábue que você tem a vista mais impressionante e cinematográfica das Cataratas Vitória. É dali que vêm as imagens clássicas de documentários, livros e cartazes de viagem: o paredão de 1,7 km de água despencando, a névoa subindo como fumaça e o barulho que faz o peito vibrar.
Neste vídeo, além da visita às cataratas, eu conto:
– Como funciona a travessia de fronteira entre Zâmbia e Zimbábue
– Por que ficar hospedado em Victoria Falls costuma não valer a pena
– A história do Grande Zimbábue, da colonização britânica e da Rodésia
– A ascensão e queda de Robert Mugabe
– A hiperinflação absurda que destruiu o país
– Como é o Zimbábue hoje, com economia dolarizada
– E várias situações que ninguém te conta sobre viajar por lá
Se você quer entender o Zimbábue além da cachoeira, fica até o fim.
Perambulando pelo Zimbábue: javalis, babuínos e um cotidiano mais tranquilo que o da Zâmbia
Separei pouco tempo para ficar em Victoria Falls, no Zimbábue, porque — como já expliquei — preferi me hospedar em Livingstone. Acabei passando só um dia cheio por lá para ver as cataratas do lado zimbabuano e, mesmo assim, me arrependi. Eu devia era ter ficado em Livingstone o tempo todo e só cruzado a fronteira para ver as cataratas do lado do Zimbábue e voltado no mesmo dia para Zâmbia. A cidade de Victoria Falls não tem absolutamente nada pra fazer, a não ser servir de base para as quedas d’água. A única vantagem real é que tudo é bem mais barato que na Zâmbia — eu comi um prato decente por menos de dez reais. Além disso, lá funciona o Indrive, que é tipo um Uber russo, enquanto na Zâmbia você depende de sorte e boa vontade. Ah, e no Zimbábue a luz caía menos, então deu para usar mais o ar-condicionado (um luxo depois de Livingstone). E o inglês? MUITO mais fácil de entender que o da Zâmbia. Pensando bem, talvez o Zimbábue tenha sido até menos perrengue que a Zâmbia, kkk.


Outra coisa boa: meu chip comprado na Zâmbia funcionou perfeitamente no Zimbábue, então economizei na compra de outro chip. Caminhar por Victoria Falls também tem seu charme porque ali tem bem mais vida selvagem na rua do que em Livingstone. Em Livingstone eu não vi um único animal andando solto. Em Victoria Falls, eu não cheguei a topar com elefantes, búfalos ou hipopótamos — mas vi javalis estilo “Pumba” e babuínos pra dar e vender.




Eles andam no meio da rua como se fossem cachorros e os moradores precisam trancar portas e janelas, senão eles entram e roubam comida. Tem gente que cria cachorro só para espantar babuíno.

Outra coisa divertida foi minha hospedagem: fiquei num quarto de uma casa, e no outro quarto estavam dois caras do Benin que tinham ido participar de uma conferência africana sobre prevenção de desastres naturais. Os dois eram gente boa, super cultos, mas era nítido que um era o chefe do outro. O chefe sentava à mesa, abria o laptop, e lá ia o subordinado: pegava a garrafa de água, guardava as chinelas do chefe, ligava o carregador do chefe na tomada… só depois ele ligava o próprio laptop. Eu assistia isso e dava risada sozinho. No meio desse convívio, teve um dia que a internet caiu e eu não consegui chamar um táxi para ir ver as cataratas. Os dois me salvaram: o ônibus do evento chegou para buscar eles e eles me deram carona até o centro da cidade, me poupando meia hora de caminhada no sol forte.


Entenda por que o Zimbábue oferece a experiência mais “cinematográfica” das Cataratas Vitória
No Zimbábue é onde você realmente vê as Cataratas Vitória completas. Aquelas imagens de documentário, de livro de geografia e de cartaz de agência de viagem? Todas são feitas do lado zimbabuano. Isso acontece porque a água cai do lado da Zâmbia: quando você visita Livingstone, você está quase em cima das rochas de onde o rio despenca. É legal, tem a Piscina do Diabo, tem emoção, mas a vista é lateral — você vê o abismo bem na sua frente, mas não vê a catarata inteira. Já no Zimbábue, você está exatamente de frente para o paredão de água. É ali que a catarata ganha escala: 1,7 km de queda contínua, uma muralha branca de água se desfazendo, a névoa subindo como fumaça e o estrondo que parece não ter fim.



O parque do lado zimbabuano tem uma trilha leve com vários mirantes que acompanham praticamente toda a extensão das cataratas. Cada ponto revela um ângulo diferente: em um, a queda principal; em outro, um arco-íris perfeito surgindo no meio da névoa; mais adiante, o desfiladeiro engolindo o rio como se fosse um funil gigantesco. A visita fica muito mais visual, ampla e imersiva — é realmente a experiência mais cinematográfica das cataratas. Mas, dito isso, admito: a Piscina do Diabo na Zâmbia ainda foi meu momento favorito.



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