Vale da Lula – Chapada dos Veadeiros

No outro dia, acordamos bem cedo e seguimos em direção ao Parque Nacional. Depois de levantar algumas informações, nos foi informado que só era permitida a entrada no Parque com um guia e que ele cobrava 80 reais por dia. Per capita? Não, amigo, calma! Era 80 reais pra um grupo de até 10 pessoas. Nos deram a dica de irmos para a porta do Parque e ficarmos esperando até a hora de aparecer um grupo e depois racharmos o passeio. Ah, legal, do jeito que a cidade tava apinhada de gente, aparecer do nada mais cinco pessoas dispostas a passear no parque ia ser a coisa mais fácil a se acontecer.
Fomos para a porta do Parque e, por sorte, havia um grupo de cinco cariocas por lá que também estavam esperando gente pra poder rachar um guia.
O grupo completo

Cara, o parque é um passeio muito agradável. O lugar é muito bem preservado e com várias cachoeiras. Antes de sairmos fazendo o passeio, Ivyson e Marie-Line gastaram litros de protetor solar e me ofereceram. Qual foi a minha resposta? “Não, que eu não preciso, que eu sou macho pra caramba e pá pá pá. Isso é coisa de fresco. Que maranhense não usa creme nenhum, o único creme que maranhense usa é creme dental e só porque senão os dentes caem e pá pá pá”. Não precisa nem dizer o que ocorreu no outro dia, né? Lógico que minhas costas ficaram mais ardidas que passar pimenta no… Bem… Fica aí o exercício de imaginação pra você imaginar que parte do corpo humano que arde passar pimenta…


As piscinas naturais que existiam por lá eram simplesmente sensacionais e cristalinas. Fiquei um tanto triste de não ter levado alguns óculos pra poder mergulhar e admirar melhor aquela benção, até porque havia vários peixes nas piscinas. A única parte que eu posso falar que foi até certo ponto ruim, foi a temperatura da água. Rapaz, mas aquilo era gelado!! A água era gelada que só pinguim de geladeira! Cara, pular numa daquelas lagoas doía os ossos de tão gelado. Por isso que a estratégia da gente era simplesmente se jogar dentro da água (juro que me sentia que nem naqueles desenhos animados, quando o cara pula na água e fica boiando dentro de um cubinho de gelo) ao invés de ir entrando aos pouquinhos, só assim pra poder encarar aquele “picolé cachoeirístico”.
Na segunda lagoa que visitamos, foi a mesma novela pra poder entrar na água. Entre um dos principais problemas, o fato de termos entrado em uma lagoa gelada que só o diabo (o que? Você acha que o inferno não pode ser frio? Leia isso aqui http://robertoleite.assisfonseca.com.br/?p=207), nos acostumados com a temperatura da água, saído da lagoa, nos desacostumarmos com a temperatura da água e agora ter que se adaptar à geleira novamente. Já que estávamos lá, o jeito era pular na água mesmo. Pulamos na água (menos a Marie-Line, que não teve coragem de enfrentar aquilo novamente), ficamos de boa e fomos nos preparar pra caminhada de volta. Ãhn? Como assim se preparar? Cabra, estávamos falando de cinco quilômetros de caminhada em sol escaldante e relevo acidentado. Era mais ou menos uma hora, uma hora e meia pra poder fazer o percurso.
Vantagens de ser pequeno. Ao passar por alguns galhos não é preciso baixar a cabeça…

Pra poder agüentar melhor o calor, resolvi molhar a minha camisa. Eu já estava em cima das pedras e Marie-Line estava lá embaixo próximo a uma das corredeiras. Como eu não tava muito a fim de ir lá embaixo, descer, pra depois subir de novo. Joguei minha camisa na água e pedi pra Marie-Line poder pegar. Quando ela enfim conseguiu ouvir o que eu estava pedindo, que pedia que ela pegasse minha camisa, o Che Guevara já tinha afundado e descido a corredeira. Perdi a minha camisa do tempo em que eu era comunista!! Depois de exatos dez anos que eu havia comprado aquela camisa, ela seguia enfim o seu destino, perder-se no meio do mato como o sonho de todo bicho-grilo. Vá em paz, Che Guevara! Acho que ela ficou bem mais feliz na eternidade dentro de um parque nacional do que vivendo dentro do meu guarda-roupa escuro.


Vale da Lua

Depois do passeio do parque, a gente tava tão, mas TÃO cansado que acabamos não fazendo quase nada. Além disso o povoado meio que fechava também oito da noite e não havia nada pra fazer pros caretas que nem eu que não queriam ficar chapados na Chapada. Acabou que o único fim que restou a mim e a Ivyson foi tomar uma cerveja num barzinho que havia por lá, um boteco xexelento, feio e sujo, do jeito que eu gosto, onde o dono era um senhor que, segundo nos disseram, morava em São Jorge há mais de cinqüenta anos e adorava contar histórias da cidade para os forasteiros. Fomos eu e Ivyson lá pra poder conversar com o veio, mas acabou que ele nem deu moral pra gente. Legal mesmo foi só encontrar no bar com um dos caras que havia feito o passeio com a gente. Um antropólogo de esquerda (acho que é até pleonasmo falar “antropólogo de esquerda”, mas tudo bem) que trocou uma ideia com a gente sobre os diversos movimentos sociais que ele participou, uma visão bem diferente do que a mídia nos mostra todos os dias (eu tou me sentindo que nem o Lula xingando).

O antropólogo e seu inseparável cajado, que ele carregava pra todo canto…
Acabou que nós fomos dormir cedo pq no outro dia estávamos planejando ir para o Vale da Lua, um lugar bem interessante que havia por lá. Acordamos cedo no outro dia, tomamos um café (não sem antes sair batendo de buraco em buraco perguntando se eles vendiam juçara, ou açaí como vocês conhecem, pra Marie-Line, que queria porque queria) e fomos em direção ao Vale da Lua, lugar que tem esse nome devido às pedras que tem por lá.

Ivyson e a bendita juçara em lata da Marie-Line. Eu gostei mesmo foi da cara dele na foto. Me lembrou uma foto mais antiga que temos...

Chegamos ao Vale da Lua e, como tudo nessa região, nos enfiaram a faca pra poder nos deixar entrar. Dez conto cada um e não se fala mais nisso. Entramos e já no caminho nos deparamos com uma placa com um pedido, digamos, meio não-usual.

O lugar era realmente bem legal. As pedras de lá realmente pareciam como se tivessem sido esculpidas em outro planeta, lembrando a superfície da Lua como conhecemos. Isso ocorreu devido a que por um bom tempo o leito do rio era bem maior e as corredeiras foram esculpindo as pedras daquela maneira. Por que o rio ficou bem mais raso, isso eu não sei afirmar, mas que as pedras ficaram num visual bem legal, isso você pode ter certeza.
Foto batida pela Marie-Line. Bicho, era impressionante como ela gostava de bater foto de calango…

Inicialmente Ivyson foi o único corajoso a banhar e a enfrentar aquela água gelada que só a Sibéria. Depois de um tempo vendo aquela água cristalina, eu acabei me rendendo e também fui nadar com o bicho. A Marie-Line acabou sem coragem e não foi. Depois de um tempo nadando, Ivyson me falou que tava com sede. Eu fiquei tentando como alguém poderia ficar com sede nadando em um rio com uma água límpida como aquela! Perguntei pra ele porque diabos ele não bebia logo a água do rio mesmo e ele me respondeu:

Cristais que emergem do solo na Chapada dos Veadeiros…

– Tá louco? Pode fazer mal! Já viu alguma coisa que vem da natureza fazer bem?
Essa galera da cidade me deixa cada dia mais impressionado!


Estava nos nossos planos além de ir no Vale da Lua, posteriormente seguir para uma outra cachoeira, mas estávamos tão cansados, o sol tão quente, a água tão gelada que a gente acabou mudando de ideia. Resolvemos capar nosso gato e voltar logo pra Brasília.

No caminho, de interessante, foram só alguns pequenos tornados que se formavam por todo o caminho, chegamos até a passar poder debaixo de um. Outra coisa engraçada que eu vi também foi que uma fazenda tinha faixas e faixas, oferecendo um tal de bóia-cross, chamando as pessoas pra entrar. Se bem que com a secura que tava lá na Chapada, acho que o único bóia-cross que ia ter era alguém colocar uma bóia na cabeça e sair correndo, só se fosse assim.
Chegamos em casa e no outro dia era dia de tentar tomar posse na ANAC, mas paramos por aqui e vamos voltar à viagem de volta ao mundo no próximo post…

Chapada dos Veadeiros

Opa… voltei…
Então, galera, pra vocês aí que achavam que eu estava morto, volto aqui pra poder dar o ar da graça e deixar claro que volto ao blog novamente. Tomei esse chá de sumiço durante essas semanas pq minha vida mais uma vez virou de pernas pro ar. Pedi exoneração do meu emprego passado no Ministério das Comunicações pra poder assumir o meu novo cargo na ANAC. Nessa semana e meia que fiquei sem trabalhar, resolvi dar um pouco de tempo na vida e viajei pra Chapada dos Veadeiros com o Ivyson (meu companheiro de apartamento) e com uma belga do Couchsurfing que ficou lá em casa mais ou menos uma semana e meia. Entre esse tempo de assumir um emprego, sair do outro e viajar, acabou que eu tive que comprometer as postagens do blog. Mas fiquem tranqüilos que agora voltaremos a programação normal.
Pra poder pedir desculpas, dar uma variada nas histórias sobre Europa e como a viagem foi bem engraçada, resolvi escrever sobre ela e postar aqui no blog. Espero que vocês gostem…

Chapada dos Veadeiros

A parte mais conhecida da Chapada dos Veadeiros é o Parque Nacional da Chapada dos Veadeiros. Situada no norte do Estado de Goiás, a reserva possui uma rica variedade da flora e fauna típicas do Cerrado Brasileiro. Por ser uma região rica em diferentes tipos de cristais que, literalmente, brotam do chão (com destaque para o quartzo), a Chapada dos Veadeiros adquiriu um caráter meio esotérico.

Cristais que podem ser encontrados na região

Milhares de malucos belezas do Brasil inteiro descem pra lá todos os anos pra poder ficar, como dizemos aqui em Brasília, “chapados na Chapada”. Devido a esses “malucos magrelos, de cabelos amarelos que gostam de cogumelos”, como dizia o Ventania, a Chapada possui uma das maiores concentrações de malucos por metro quadrado do planeta, talvez perdendo só pro Partido da Causa Operária (aquele que defende salário mínimo de 2500 reais).

Sim, a galera aqui lombra bastante, amigo!

Irmãos gêmeos…


Chapada, here we Go

Como estava numa época de “transição de concursos”, resolvi folgar uns 10 dias e viajar pra algum lugar do Brasil que ainda não estivesse visitado pra poder espairecer um pouco, já que os últimos dois meses eu estava estudando pro MPU. Como fui meio que de surpresa pego pela nomeação da ANAC, não pude me programar melhor pra poder viajar pra algum lugar mais distante, já que as passagens aéreas estavam um pouco mais caras. Fui conversar com Ivyson e ele também me falou que estava a fim de viajar pra algum lugar pra comemorar que havia acabado de formar e também que o concurso do MPU tinha acabado. Como nunca tínhamos ido à Chapada, foi ela a primeira opção que veio na nossa cabeça e começamos a planejar como faríamos pra ir. No meio tempo uma belga do Couchsurfing.org pediu pra poder ficar no meu apartamento e disse que também estava querendo viajar. Apesar de tentarmos por diversas vezes conseguir mais gente pra poder pelo menos lotar o carro e assim deixar um pouco mais barata a viagem, não havia desocupados o suficiente para poder deixar o trabalho numa segunda feira de manhã e voltar na quarta-feira. No final só iria mesmo eu, Ivyson e a Marie-Line, a belga do Couchsurfing.

Os três incautos a caminho de São Jorge


Na segunda feira tentamos acordar cedo pra poder sairmos antes da hora do almoço, mas isso infelizmente estava fora de questão. Acabamos pegando o carro só umas duas da tarde. Sair de Brasília foi até sussa, difícil mesmo foi pra poder conseguir pegar a estrada correta em direção a Alto Paraíso (a última cidade antes da Chapada) e depois São Jorge (povoado que fica na entrada do parque). Mas isso não seria lá um problema, era só a gente tentar traçar o mapa no Google Maps e, caso algo desse errado, perguntar pra alguém na estrada qual seria o caminho em direção a São Jorge. E foi o que acabou ocorrendo.

Imagina pra quais ervas esse caminho vai te levar..

Alguns minutos depois de saírmos do Distrito Federal, começamos a suspeitar que havíamos pego uma estrada errada e resolvemos perguntar pra primeira pessoa que vimos qual era a estrada pra Alto Paraíso. Avistamos ao longe, um cidadão caminhando ao lado da estrada com algo que parecia ser um carrinho de mão. Encostamos do lado dele e fomos pedir informação. De repente a surpresa. O cidadão confessou que não poderia muito nos ajudar, entre uns dos motivos porque ele não era dali. De onde ele era? Era do Rio Grande do Sul. Pra onde estava indo? Pra Fortaleza. Onde ele estava? No meio de Góias. Sim, isso mesmo que você pensou, o cidadão estava viajando do Rio Grande do Sul até Fortaleza com carrinho de mão. Ruim? Bem, se você pensar bem, tecnicamente, ele já tava no meio do caminho, né? Só não dava era pra dar informação pra gente. Enfim, de qualquer maneira conseguimos chegar de boa em São Jorge.

Cara, engraçado como a gente já está tão acostumado com bomba de álcool que nem mais se dá conta que isso só tem no Brasil, né? Depois que eu fui ver que a belga tinha batido foto, boto fé que pra mostrar quando estiver na Europa…


São Jorge

Chegando a São Jorge a primeira coisa que pareceu é que não havia ninguém no povoado além da gente. Cara, como já falei, poucas são os vagabundos que podem se dar ao luxo de viajar numa segunda-feira pra Chapada. Enfim, nós já estávamos lá e como não havia quase ninguém, pudemos barganhar e conseguir apartamentos mais baratos. Acabamos conseguindo um preço bem barato pelo quarto pra gente. No final ainda foi engraçado. A pousada era de dois andares. Eu pedi pra gerente da pousada um quarto de cima, porque era mais ventilado, sei lá. A menina olhou pro quarto do segundo andar, olhou pra cama reserva que ela ia ter que carregar pra colocar no quarto… Ficou pensando que não tinha mais ninguém na pousada… Acabou que ela resolveu nos alugar dois quartos pelo preço de um. Filé…

Ateliê de “boas vindas” da cidade. O será que esse figura toma antes de ir pintar?

Largamos nossas coisas na pousada e resolvemos descer para um local onde havia várias piscinas termais. Já era noite, portanto a temperatura seria ideal. Pegamos o carro e fomos em direção ao lugar. Dezessete quilômetros de estrada de chão. Não precisa dizer que Ivyson, dono do carro, foi o único que realmente não gostou da ideia de irmos lá.

Piscinas termais

Chegamos lá e parecia não ter NINGUÉM no lugar. Ah, cumpade, depois de quase meia hora de estrada de chão (sim, fi, meia hora pra andar 17 quilômetros. A estrada era ruim DEMAIS), tudo o que a gente não iria fazer era voltar sem pular nessas drogas dessas piscinas. Começamos a gritar até a hora que apareceu uma veia de pijama com aquela cara de “cambada de corno, você acabaram de me acordar”, perguntar o que era que a gente queria fazendo tanto barulho. A gente falou que queria descer pras águas termais.
Ela abriu o lugar e fomos indo em direção à piscina. Achamos que o lugar seria simplesmente atrás do portão que a mulher abriu. Nada! Caminhamos quase uns dez minutos dentro de uns matos, no mais profundo breu, até chegarmos à piscina. O detalhe era que um gato malhado nos acompanhava o caminho inteiro. Pulamos na piscina e o gato ficou do nosso lado só nos observando. Dez, quinze, vinte minutos e esse gato não mudou de posição, ficou lá, estático e nos olhando. Começamos a comentar que aquele gato parecia um pouco diabólico, já que ficava estático olhando pra gente e sem emitir nenhum som.

Depois de umas duas horas, saímos da piscina e fomos em direção a saída, mas dessa vez o gato não nos seguiu de volta. Não, melhor, ele preferiu ficar do lado da piscina e quando saímos de perto, aí sim começou a dar medo. O gato começou a miar loucamente. Mas não era um miado fininho e fofo que estamos acostumados a ouvir dos gatos. Era um miado grosso, parecido com um uivo de um lobo, algo como “eu quero a alma de vocês!”. Cara, era horripilante. Só sei que a gente meio que apressou o passo. Claro não que estávamos com medo, mas… Pra que arriscar, né? No final quando estávamos próxima a saída quem cruza com a gente? O mesmo gato? Não, um gato preto!! Sim, um gato preto cruzou na nossa frente. Cara, sem noção, aquelas piscinas eram diabólicas.

O gato na pose estática que ficou nos observando

No caminho de volta, naquele breu imenso, a gente voltou no carro, mas claro, o tempo todo atentos pra ver se um gato cruzava na nossa frente. Graças a Deus nada disso aconteceu. Engraçado só mesmo a belga checando na sua máquina e a gente perguntando pra ela o que ela tava vendo lá. A resposta?

Eu só queria saber o porquê da cara de felicidade de Ivyson. O carro dele era branco, pode acreditar…

– Rapaz, eu só quero ter certeza que o gato realmente saiu nas fotos enquanto eu fotografava ele. Imagina como ia ser bonito a gente fotografá-lo e ele não aparecer?
Macabro…