Biblos – Onde nasceu a moderna escrita

Há apenas alguns quilômetros de Beirute, fica a impressionante cidade de Biblos. Eu tenho certeza que alguns de vocês já ligaram o nome da cidade à palavra Bíblia e isso não é uma mera coincidência. Biblos é uma das cidades mais antigas do mundo, disputando o título com Damasco. Escavações arqueológicas comprovaram que a cidade foi fundada por volta do ano 5000 A.C. Em árabe a cidade se chama Gebal, que é seu antigo nome fenício, sendo chamada por nós ocidentais de Biblos devido a esse ter sido o nome que os gregos deram à cidade por ela ser um importante centro produtor de papiros egípcios (Bublos, em grego) e também pelo alfabeto grego ter sido inspirado no alfabeto fenício que, acredita-se, foi desenvolvido nessa cidade. O alfabeto fenício foi inspirado nos hieróglifos egípcios, aquela linguagem simbólica que vemos em filmes sobre faraós e coisas do tipo. A grande sacada que os fenícios tiveram, motivo do sucesso do seu alfabeto, foi a sua abstração dos símbolos do hieróglifo egípcio. Como assim? Bem, antes dos fenícios, todos os alfabetos existentes eram baseados em ideogramas (assim como ainda é hoje na China e no Japão). Se você quisesse dizer que um gavião pousou na sua casa, você “desenhava” um gavião e uma casa do lado e isso criava um significado. Isso podia deixar tudo mais fácil de entender, mas por outro lado, você tinha que decorar MILHARES de símbolos diferentes para poder ser alfabetizado. O que os fenícios fizeram? Bem, pegaram 26 símbolos diferentes, tiraram alguns traços, abstraíram e, bingo, criaram um alfabeto! Só pra vocês terem um ideia da genialidade disso, os alfabetos hebraico, grego, árabe e latino (os alfabetos mais utilizados no mundo) tem como base o alfabeto fenício. Além disso, o que faz ser tão difícil aprender chinês ou japonês não é nem a língua em si, mas ter que decorar milhares de ideogramas diferentes. A cidade também é um grande centro arqueológico pelo fato de várias civilizações terem conquistado a cidade e se apoderado dela devido ao seu ponto estratégico. Escrevendo assim não parece muito, mas cara, eu fui num centro lá que mais parecia um parque de diversões arqueológico. Em um local que eu seria capaz de chutar com não mais do que dois quilômetros quadrados era possível ver pilastras romanas, um castelo do tempo das cruzadas, ruínas de um castelo persa, um anfiteatro grego e construções de outras civilizações que eu não tinha tanto conhecimento. Isso tudo num espaço de alguns quilômetros quadrados, sempre bom repetir. Quer conhecer o mundo inteiro numa caminhada? Vá a Biblos!!Depois de um bom tempo caminhando e curtindo tudo o que Biblos tinha para oferecer, resolvi voltar para Beirute pra poder ver como iria fazer pra poder conseguir um busão pra Síria, pra depois seguir para Turquia novamente, pois meu voo para Eslovênia estava marcado pra uma semana depois. No caminho de volta resolvi parar pra poder comprar uma coca e ocorreu um dos momentos mais legais de toda a minha viagem de volta ao mundo. Um fato ocorrido que eu lembro com carinho até hoje quando lembro dessa história.Ao entrar no estabelecimento pra poder comprar o refrigerante, eu estava com um agasalho do Brasil nas costas. Assim que eu entrei, o balconista me perguntou se eu era brasileiro. Quando falei que sim, ele foi atrás do balcão e pegou a imagem de uma santa de cor negra e perguntou se eu sabia quem era. Respondi na lata que era Nossa Senhora Aparecida, a Santa Padroeira do Brasil e fiquei surpreso com o fato de ele ter uma imagem dela perdida no meio do Líbano. Ele me falou que era devoto da santa e que por isso tinha aquela imagem sempre no balcão. Além disso, ele me falou que a sua irmã estava bastante doente e que iria passar por uma cirurgia complicada em dois dias e ele estava com medo dela não conseguir sobreviver. Por isso, rezava todos os dias para Nossa Senhora Aparecida pedindo graças e que sua irmã fosse agraciada com a cura. Fiquei triste com a história que ele estava me contando, disse a ele que esperava que sua irmã melhorasse e que tivesse bastante fé naquilo que acreditava. Depois de um tempo conversando com ele, lembrei que eu tinha amarrado ao tornozelo algumas fitinhas coloridas de Nossa Senhora Aparecida e que eu ando com elas há mais de cinco anos. Achei que tinha alguma guardada na mochila e comecei a procurar pra poder dar de presente pra ele. Infelizmente eu não tinha mais e disse que não seria possível eu entregar pra ele uma nova como lembrança. Ele falou que não tinha problema e perguntou se seria possível eu tirar uma das que eu já havia amarrado na perna e dar para ele:
– Mas essas estão sujas e desgastadas, cara!
– Não há problema! Tudo bem!
– Ok – peguei uma faca, cortei a pulserinha e dei a ele
– MUITO OBRIGADO, AMIGO!! MUITO OBRIGADO MESMO!! Amanhã vou amarrá-la no braço da minha irmã doente e eu tenho certeza que ela vai se curar.
– Quanto é a coca mesmo?- Nada, filho! Nada, é de graça!! Pegue pra você!! Leve o que você quiser da minha loja. Nada pode pagar o favor que você está me fazendo. Cara, acho que lendo vocês não conseguem perceber o quão emocionante foi pra mim tudo o que ocorreu nesse curto espaço de tempo em uma lojinha que eu havia entrado apenas pra poder comprar uma coca-cola. Saí de lá me sentindo tão bem, sabe? Um gesto tão pequeno como esse, arrancar uma fitinha de algodão de alguns centavos do tornozelo e entregar pra um cidadão foi o suficiente pra eu ter certeza que ele nunca mais vai me esquecer. Foi muito legal mesmo…No final ainda cheguei a ver uma loja pegando fogo e uma pancada de jipe do exército pra ver o que havia ocorrido. Sabe como é, num país como aquele, qualquer fumacinha a galera já sai desesperada achando que foi ataque terrorista. E, ah sim, antes que vocês perguntem, eu só levei a coca-cola do bar dele, viu? Não aproveitei o estado emocional do figura pra encher a minha mochila de comida pra semana inteira não…
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Perambulando por Beirute/Líbano

Acesso a zona mais turística de Beirute

Como eu já havia falado, Beirute é conhecida como a “Paris do Oriente Médio”. Como já estava por lá mesmo, resolvi dar um rolê e ver de qual é em uma cidade que almeja um “título” tão ostentoso. A cidade é realmente bem interessante e bonita, é impressionante a diferença que você percebe entre caminhar por uma cidade como Damasco e Beirute. Beirute parece uma cidade europeia, com várias praias de águas cristalinas e pessoas caminhando de sunga e biquíni nas suas areias, algo que eu sei que pode ocorrer numa praia da Síria, mas eu só não imagino. Uma grande diferença existente também entre Beirute e Damasco é que Beirute parece uma cidade sitiada. Bicho, o patrulhamento pelas ruas por tropas do exército é ostensivo. Cada esquina que você vira, dá de cara com um tanque com alguns soldados armados até os dentes.
Praça dos Mártires, principal símbolo de Beirute
A estátua, lógico, com várias marcas de bala
Teve um dia que a gente foi sair que eu achei muito engraçado. A gente tava andando de boa pela rua indo para uma balada (sim, existem baladas. MUITAS baladas em Beirute) e do nada para um carro da polícia próximo onde estávamos. De repente desce um policial carregando um rifle GIGANTESCO e começa a sair correndo que nem um louco. Eu não sei como é aí na cidade de vocês, mas no Maranhão quando você vê alguém do exército ou da polícia correndo e carregando um rifle no meio da rua é porque uma merda MUITO grande deve ter ocorrido. O que eu pensei na hora? Uai, nessa hora você só pensa o pior: Ataque terrorista! Como eu vi que os caras que estavam do meu lado pareciam nem se importar com o que estava ocorrendo e ninguém na rua sequer mudou a feição dos rostos, fiquei de boa e continuei caminhando. O que aquele policial foi fazer? Bicho, o rapaz simplesmente passou a bandoleira (algo como a alça que você usa pra apoiar o rifle nas costas) no pescoço, jogou o rifle nas costas, pegou um APITO e começou a ORGANIZAR O TRÂNSITO!! Mermão!! Imagina só isso!! Se o guardinha de trânsito caminha com um rifle nas costas, eu fico imaginando o que um soldado do exército deve utilizar. É de bazuca pra cima! Eu realmente fiquei impressionado e fui perguntar pra alguém da nossa galera o porquê daquela ignorância. Ele simplesmente me falou: “Claudio, isso aqui é um país em que um espirro pode detonar uma guerra civil pelas ruas da cidade. Por essas e outras que qualquer guardinha desses anda sempre bem armado”.
Soldadinho no meio da rua com seu rifle

Essa noite foi uma das duas que pude sair pra balada quando estava em Beirute. As baladas lá eram bem legais, com uma população jovem, vibrante e animada. Eu não sei se fica muito chato eu enfatizando o tempo todo “Balada, Balada, Balada”, mas é que o que faz o Líbano realmente ser um país tão interessante quando viajamos é devido a essa despreocupação com preceitos religiosos, algo que dificilmente pude ver em outros países árabes que viajei. Acho que é por causa da grande influência católica do país. De todos os países árabes, o Líbano foi o mais ocidentalizado que conheci. Só pra vocês terem uma ideia do que falo, foi o único país árabe que viajei que cheguei a sair pra alguma baladinha, pois nos outros isso simplesmente não existia.
Outra parada que eu achei muito legal de Beirute são essas duas fotos aqui. Você pode estar caminhando de boa no centro da cidade e, do nada, se depara com diversos sítios arqueológicos do tempo dos romanos.

Teve uma noite que foi até engraçado. A gente marcou com um galera do Couchsurfing em um bar e depois fomos pra uma balada. Como era encontro do Couchsurfing, havia meninas de vários países diferentes com a gente. E foi aí que um dos libaneses que estavam com a gente começou insistentemente a cantar uma das minas que estavam com a gente. O pior que o bicho parecia uma criança querendo chegar na menina. Me lembrou até um amigo nosso na Tailândia. Quem quiser relembrar, favor clicar aqui, aqui e aqui.
Coisas que só se vê nas ruas de Beirute. Imagens de Jesus Cristo e carros com a assinatura de Ayrton Senna no vidro…
Vocês conseguem ver alguém fumando nessa foto?
O bicho tava tão chato que a gente teve que fingir que todo mundo tava voltando pra casa e marcarmos de nos encontrar em outro lugar pra poder nos ver livres da peste. No final acabou dando certo. Descemos todo mundo pra outra balada e por lá ficamos o resto da noite. Quando foi no outro dia, fomos dar um rolê pela cidade e pelo museu histórico de Beirute com várias esculturas de antes de Cristo. Caminhamos bastante pela cidade e depois de um tempo resolvemos parar em um dos cafés do centro de Beirute, numa das zonas mais turísticas e caras de lá. Bem, se fosse pra só uma cerveja não ia sair lá tão caro, né?
Museu de Beirute
Sol de lascar na cabeça o dia inteiro

Pedimos um chopp pra cada um e ficamos tomando de boa. De repente o garçom chegou com uma garrafa de água e largou na nossa mesa. Oba, os caras fornecem água de graça pra gente tomar, os bichos são gente boa – pensamos. Depois de mais ou menos uns dez minutos veio o garçom novamente e trouxe uns amendoins e uns petiscos pra gente comer. Rapaz, os caras realmente são bem gente boa aqui. A gente pediu só uma cerveja e eles já trouxeram até petisco? – mais uma vez pensamos. Comemos os amendoim e logo veio o garçom alegre e sorridente trazendo outro. Rapaz, aquilo não parecia estar ocorrendo bem. Por via das dúvidas, resolvemos continuar dando nosso rolê pela cidade e pedimos a conta. Quando o cara veio com a conta, a singela surpresinha!! A minha parte deu SETE DÓLARES e eu só havia pedido UMA CERVEJA!! Por quê? Ora, amigão, o figura havia me cobrado TUDO o que ele havia colocado na mesa AINDA QUE não a gente não tivesse pedido. Espertão, não? A gente ainda tentou argumentar, mas ele falou que a gente não tinha pedido, mas tinha comido, por isso deveríamos pagar. SAFADO!!

Eu e minha cerveja de sete dólares
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Procurando lugar pra ficar em Beirute…

Assim que descemos do ônibus já foi aquele choque na primeira parada. Ao contrário da Síria, país islâmico com uma ditadura sanguinária e repressora, Beirute é uma cidade que respira liberdade em um Oriente Médio onde as liberdades individuais parecem ser repreendidas cada vez mais. Como não havia conseguido um couch a tempo (culpa minha, pois comecei a procurar com pouco tempo de antecedência. Ah sim, o Líbano foi o ÚNICO país em que não consegui ficar de graça em nenhuma de suas cidades), tive que procurar um albergue com os outros dois amigos do Matt. O canadense, Dino, como era bem mais esperto, já tinha reserva em um albergue super da hora e nós fomos conferir se havia vagas nele para que pudéssemos ficar também.
Tanque com soldados em cima no meio da rua de Beirute (sim, eu bati a foto meio mal porque eu não podia bater uma foto abraçado com o tanque, né cara? Se os militares vissem que eu tava batendo fotos poderiam encrencar…) 
Infelizmente ao chegar no albergue onde o Dino possuía as reservas ele se encontrava lotado e tivemos que sair à procurar de um lugar pra ficar. Estávamos na região central de Beirute e achávamos que não seria muito complicado conseguir um lugar para ficar. Repararam na ênfase no verbo “achávamos”, né? Sim, porque foi isso que aconteceu mesmo. Cara, saímos que nem um bando de loucos pra poder achar um lugar pra ficar e todo lugar que a gente ia sempre tava lotado. Só nos restou um último albergue que nós REALMENTE não queríamos ficar…
Bem, por quê? Cara, leitores MMMUIIITOOO antigos do blog podem lembrar de uma descrição que eu fiz do albergue que fiquei em Fiji. Mas, mermão, esse era MUITO pior. Primeiro que o lugar parecia uma casa mal-assombrada, tudo mal-iluminado com paredes descascadas. A porta de ferro que os caras usavam pra fechar o albergue de noite era crivada de bala (reflexo das inúmeras guerras civis que ocorreram por lá) e além de tudo o tiozão, com uma bela barriguinha de chopp, que atendia lá era mais fedorento que arroto de corvo. Afe maria…
Parte de trás do prédio do albergue
Bicho, os quartos era totalmente abafados e o banheiro, bem, o banheiro não merece comentários, vamos apenas naquela do “uma imagem vale mais que mil palavras”:
“Mas se tava ruim, porque você resolveu ficar por lá?”. Cara, no final não tive escolhas, ou era ficar naquele albergue ou dormir na rua, já que, como falei, todos os outros albergues estavam lotados. O tiozão ainda teve a cara de pau de querer cobrar pra gente o mesmo tanto que os caras cobravam no albergue do Dino que, comparado com o nosso, mas parecia um hotel cinco estrelas… No começo eu achava que ele tava era tirando onda com a gente quando falou quanto que custava a noite naquele pardieiro, mas ele REALMENTE estava falando sério. Cara, aí já era demais, tudo o que eu menos esperava era além de ter que ficar naquele pardieiro, ainda ter um tiozão daquele querendo me roubar. Pensei em voar na jugular dele e brincar de “guerra civil libanesa”, mas apenas fomos BEM duros com eles e o cara acabou fazendo por metade do preço que, real, saiu MUITO caro, pois aquela espelunca dele não valia nem os cascos da parede.
Só sei que fiquei lá por uma noite. Quando foi no outro dia, o Dino me passou o bizú que abriu uma vaga no albergue dele. Se eu queria ir? Opa, na hora! Fui só buscar minhas coisas lá no albergue mal assombrado e desci pra ficar lá no albergue do Dino.
Quando fiz meu check-in, acabei ficando amigo dos donos do albergue. Bastante simpáticos, eles me explicaram que antes daquele lugar ser um albergue, ele foi um campo de concentração há mais ou menos trinta anos atrás e por isso ele tinha conseguido comprar tão barato. Além disso, tinha outra curiosidade também. Pra poder tomar banho, você tinha que pedir autorização na recepção pros caras poderem liberar o registro do banheiro. Cada hóspede tinha direito a dois banhos por dia de sete minutos cada, o que eles REALMENTE levavam muito a sério. Se você tivesse se ensaboando e terminasse seu tempo, ele falava que era pra tirar o sabão com a torneira da pia, porque eles realmente não iriam liberar mais água pro chuveiro. Perguntei se teria como a gente negociar, de eu pegar parte das cotas de outras pessoas, já que eu tinha quase certeza que uma pancada dos caras do meu quarto não chegavam nem perto de utilizar sua cota diária, os caras fediam demais, hehehehe. Mas não teve jeito. Os caras não liberavam mesmo e eles SEMPRE cortavam a minha água enquanto eu tomava banho, pois eu sempre esquecia que tinha essa maldita cota, afinal, o calor lá era de lascar e nada mais confortável que um banho.
Teve outro fato engraçado também. Como a recepção sempre tinha uma galera lá, eu gastava um bom tempo conversando com geral. Uma vez, eu fiquei conversando em inglês com um figura por quase trinta minutos pra depois descobrir que ele era brasileiro também, hahaha. Cara, a gente REALMENTE não reparou que éramos do mesmo país. Eu jurando que ele era árabe e ele achando que eu era italiano. O nome dele infelizmente não lembro, mas ele era correspondente da BBC Brasil no Líbano e estava lá desde os bombardeios de 2004. Disse que cobriu o conflito e diariamente ele via caças israelenses sobrevoando a sua cabeça. Imagina que vida mais pacata…

Como chegar ao Líbano – Perrengue

Pra falar a verdade, quando ainda planejava a minha viagem de volta ao mundo, a Síria não estava nos meus planos. O país que mais me fascinava no Oriente Médio (além de Israel) era sem sombra de dúvidas o Líbano. Por quê? Cara, não sei dizer… Talvez pela grande influência libanesa na cultura brasileira. Talvez por ter conhecido alguns libaneses na Austrália que eram apaixonados por Beirute (quando ela não estava sendo bombardeada, é lógico) e a imagem da Paris do Oriente Médio. Talvez por me fascinar um país com metade da extensão do menor estado brasileiro (Sergipe) ou o dobro da área do Distrito Federal possuir tanto conflitos e religiões. Enfim, o Líbano me fascinava. Eu acabei indo pra Síria quase que na inércia mesmo, pois a única fronteira terrestre possível de ser cruzada para o Líbano é a fronteira com a Síria (já que a fronteira com Israel é fechada). Inclusive, uma curiosidade que eu acho que eu ainda não contei pra vocês. Quando você vai entrar na Síria ou no Líbano eles fazem poucas perguntas e quase não lhe importunam. A ÚNICA coisa que eles procuram com bastante seriedade é se você tem traços de que passou por Israel, ou seja, se você viajou pra Israel antes de ir para a Síria ou para o Líbano. Se você tiver uma passagem aérea com trechos passando por Tel-Aviv ou um carimbo da imigração israelense no seu passaporte demonstrando que você entrou no país, você é barrado antes de entrar nesses países. E não só no Líbano e na Síria. Possuir um carimbo da imigração de Israel no seu passaporte automaticamente o impede de entrar também no Irã, no Afeganistão, na Argélia, Iraque, Kuwait, Líbia, Arábia Saudita, Somália, Sudão, Iêmen… Ou seja, planeje bastante a sua viagem pro Oriente Médio pois senão você pode ser barrado numa fronteira de um país sem nem saber porque (eles não falam inglês. Então a única coisa que eles irão fazer é apontar para o outro lado da fronteira e mandar você voltar. E ah sim, sempre bom lembrar, eles tem rifles, e os caras que possuem rifles sempre possuem a razão, como eu já falei diversas vezes no blog nessas histórias aqui e aqui). Como eu consegui ir a Israel e a esses países pedreiras ao mesmo tempo? Bolei um plano… Primeiro fui pra Síria e pro Líbano por terra, vindo da Turquia, regressei a Turquia, voltei para a Europa, da Europa fui de avião pro Egito e do Egito atravessei, por terra, a fronteira de Israel. Sem problemas, certo? Errado! Você até pode entrar em Israel tendo carimbos de países hostis como Líbano e Síria, mas pode ter certeza que passará por um looonnngooo interrogatório na fronteira, tal qual ocorreu comigo, mas isso é história, muito engraçada por sinal, pra posts lá na frente.Quando estava na Síria, alguns amigos europeus do Matt também estavam planejando ir ao Líbano em alguns dias. Acabei ficando mais dois dias na Síria além do esperado, mas no fim valeu a pena, haja vista que os amigos do Matt falavam um pouco de árabe e isso tornava tudo sempre mais fácil. Fomos à rodoviária, a mesma do Servicio del taxi, e lá começamos a recolher informação de como nós poderíamos seguir para o Líbano. “Nós” é jeito de dizer, pois a única função que foi delegada ao latino burro aqui foi ficar cuidando das mochilas enquanto os caras saíam perguntando qual ônibus deveríamos pegar. De qualquer maneira fiz o meu melhor pra guardar as mochilas e elas se comportaram direitinho, no final, o que me ajudou bastante. Depois de um bom tempo sem sucesso, conseguimos falar com um cara que sabia como era o esquemas e resolveu ajuda a gente. Rapaz, esse cara só faltou pegar a gente pela mão. O bicho foi num guichê, foi em outro, foi no outro, achou o guichê que vendia a passagem pro Líbano, começou a barganhar pra ver se o cara fazia mais barato (éramos quatro no total), enfim, o cara fez tudo pra gente. No final, nos entregou a passagem e eu já estava me preparando pra tirar a grana da carteira que eu tinha certeza que ele ia pedir uma comissão pra ele… Que nada… O cara só falou que tava tudo certo, nós agradecemos e ele foi embora. Nada mais que isso. No final ainda perguntei pros caras: “Pô, o bicho foi mó gente boa, a gente não vai dar nenhum troco pra ele em agradecimento?”. Rapaz, fui seriamente repreendido por eles. Eles me falaram que é esse tipo de pensamento do tipo “se você me ajuda, eu te dou dinheiro” que contaminam as relações entre as pessoas quando você viaja mundo afora. Por isso que vários lugares turísticos, você não pode contar com as pessoas porque certamente elas irão tentar te enganar pra poder pegar um pouco de dinheiro de você. Rapaz, os caras ficaram brabos comigo. Mas pô, foi o que eu aprendi quando estava viajando, tratar as pessoas que nem foca: Foca faz uma pirueta? Toma um peixe! Ela bate palma? Toma outro peixe… Só estava contaminado, hehehehe.

Eu e Dino em Beirute
Entramos no busão e seguimos em direção ao Líbano. Lá conhecemos um canadense, Dino, MUITO gente boa, que virou nosso amigo e que ia nos ajudar bastante no Líbano, já que ele falava francês e quando os caras não conseguiam falar em árabe com os libaneses (já que o sotaque era diferente da Síria), o canadense desenrolava pra gente em francês. Além disso, eu, como estava com um agasalho do Brasil, acabei chamando a atenção de um molequinho que estava dentro do ônibus! Rapaz, esse guri ficou doido pra brincar comigo! A mãe dele falava algum inglês e me explicou que o menino era doido pelo Brasil. Que ele tinha várias camisas da seleção, sempre assistia os jogos do Brasil e coisas do tipo. Eu como gosto de criança e, pra agradar, fiquei brincando com ele enquanto viajávamos. Chegamos à fronteira e todo mundo teve que descer do ônibus. Rapaz, que inferno.
Descemos do ônibus e nos dirigimos ao guichê de imigração. Ninguém do busão precisou apresentar nada, só a carteira de identidade, nós, como éramos os únicos estrangeiros, tivemos que ir pra longa fila e o ônibus inteiro ficou nos esperando e olhando já com uma cara de raiva. Peguei a fila que eu julgava ser a menor. Rapaz, pra que? Só depois que eu vi que uma das mulheres que estava no balcão tinha era um BOLO de passaportes do IRAQUE na mão e o soldado do guichê foi lá pra poder carimbar, um por um, as DEZENAS de passaportes que ela trazia com ela. Depois eu fiquei pensando: Que guerra civil que nada! Pra quem mora no Iraque, o Líbano deve ser seguro como as ruas da Suíça.Pra facilitar e agilizar a nossa vida, nos separamos em diversas filas e combinamos que quem chegasse no guichê primeiro, pegava os passaportes de todos os outros e assim a gente passava logo. Bem, iríamos fazer exatamente como a iraquiana com milhares de passaportes e todos os outros estavam fazendo.Ficamos esperando na fila por quase uma hora. E a galera do busão querendo MATAR a gente, pois, enquanto não resolvêssemos nosso problema, ninguém chegava em Beirute. Até que chegou a hora do Dino e ele pegou nossos quatro passaportes e deu pro cara carimbar pra gente poder passar. Rapaz, eu não sei o que aconteceu, o que foi que o cara do guichê viu no Dino que na hora que ele pegou os nossos quatro passaportes, ele jogou de volta e disse que não ia fazer aquilo. Que só ia carimbar se fosse um por vez. Por quê? Vai perguntar lá pra ele porque eu não tenho a MÍNIMA ideia! Só sei que na hora nós quatro tentamos sair das nossas filas e ir pro lugar do Dino pro soldado no guichê ver nossas caras uma por uma. Os outros caras que estavam na fila não nos deixaram passar. Resultado? Mais UMA HORA na fila com a galera no ônibus esperando doida pra achar um cinto de bombas e explodir a gente…
Só sei que no final o rapaz resolveu enfim carimbar os nossos passaportes e nos deixar passar. Quando entramos de volta no busão, a galera chega nos fuzilava com o olhar! A galera tava era FUMAÇANDO de raiva por causa de todo esse tempo de demora! Resolvi nem trocar olhares com ninguém, sentar e esperar até chegar em Beirute e cair logo fora dali. Na hora que eu fui sentar eu comecei a procurar o meu casaco. Não tava no meu banco, quando eu fui achar olha onde ele tava…
Era o meu “bem vindo ao Líbano” 🙂

Líbano


Depois da Síria, era chegada a hora de seguir para o próximo destino: Líbano.
O Líbano é um país situado no Oriente Médio e ilustra perfeitamente o mosaico de religiões e conflitos que se desenrolam pela região. Ao contrário de seus vizinhos que possuem maiorias incontestáveis de uma ou outra religião (Israel é um país judeu e Síria, Iraque, Irã, entre outros, são países muçulmanos), o Líbano não possui uma maioria religiosa que consegue se impôr. É interessante, mas o Líbano possui a maior comunidade católica entre os árabes! Sim, árabes católicos! Sabe aquele esterótipo que a gente tem dos muçulmanos? Barbudos, morenos e com rostos de traços robustos? Pois é, há vários desses, mas que professam a fé cristã assim como nós! Isso pode ser uma vantagem ou até bonitinho para as pessoas dizerem “olha só, são várias religiões reunidas!!”, mas na verdade esse é o grande problema do Líbano. Como nem católicos, nem muçulmanos conseguem se impor uns aos outros, o pau sempre come solto por lá, com guerras civis sendo tão constantes como Copas do Mundo.
Para se tentar conseguir algum tipo de paz ou estabilidade, amplos governos de coalizão necessitam ser formados para que as várias correntes possam ser representadas. Durante boa parte do século passado isso até funcionou, pois a população se dividia basicamente em metade católicos, metade muçulmanos. O problema é que as taxas de natalidades das famílias católicas costumam ser menores do que as das famílias muçulmanas. E isso desequilibrou a frágil estabilidade religiosa no país. Eu cheguei a ouvir que hoje provavelmente o Líbano possui 70% de muçulmanos contra 30% de católicos e outras minorias. Para evitar que o pau coma solto mais ainda, que essa proporção seja oficializada e assim os árabes clamem por mais poder e por transformar o Líbano em um país muçulmano assim como a Arábia Saudita ou a Síria, nunca mais houve um censo oficial para que seja atestada essa proporção. Apesar das diversas demonstrações de força, pressão e apoio popular do Hezbollah, o acordo de repartição dos poderes entre católicos e muçulmanos se mantém como há décadas atrás.

Devido a todo a sua instabilidade, o Líbano foi palco de diversas guerras civis e bombardeios israelenses que sempre comprometem a infraestrutura do país. O país foi sede de vários massacres (com Sabra e Chatila o seu mais famoso. Quem quiser ler o massacre, basta clica nesse link aqui, a reportagem está sensacional, vale a pena gastar uns minutos lendo) e de guerras que muitas vezes nem tem relação com o povo libanês.
Isso ocorre porque durante muitos anos o Líbano foi quase uma “terra de ninguém”, com tropas israelenses, sírias, francesas e americanas estacionadas no seu território. Se aproveitando desse vácuo de poder, diversos grupos terroristas ali se abrigam para poder atacar Israel. Como nenhum país árabe é páreo contra o poderio militar da nação judia (na verdade Egito, Síria, Jordânia, Iraque, Arábia Saudita, Sudão, Argélia e Kuwait chegaram até mesmo a se juntar para lutar contra o pequeno país judeu e levaram um cacete TREMENDO), diversos países fornecem armamentos a grupos terroristas que atuam no Líbano e, de suas fronteiras, atacam o norte de Israel. O maior e mais poderoso entre eles é o Hezbollah que, acredita-se, recebe um grande apoio de tropas e armamentos da Síria e do Irã. Não sei se vocês lembram de 2006, quando Israel bombardeou mais uma vez o Líbano e mais uma vez comprometeu a infra-estrutura de Beirute. Isso ocorreu por causa de ataques terroristas provenientes do território libanês. Quem acabou pagando o pato foi o Líbano inteiro.
Foto da internet

Devido a essa história marcada por sangue e guerras constantes, grande parte dos libaneses (principalmente os cristãos) migraram para o Brasil para buscar uma vida melhor e com um pouco mais de paz. Chegando aqui encontram um país miscigenado e com grande aceitação a estrangeiros. Por aqui ficaram e deixaram as suas marcas como grandes comerciantes e, er…, políticos: Rua 25 de março, Hospital Sírio-Libanês, Paulo Maluf, Gilberto Kassab, Geraldo Alckmin…
Mas nem tudo é sangue nesse belo país. O Líbano foi um dos berços de toda a civilização ocidental. Uma de suas cidades (onde estive e escreverei sobre ela) chama-se Byblos, não por coincidência parecido com o a palavra Bíblia. Byblos em grego significa “livro” e foi o nome que eles deram a essa cidade libanesa que segundo se acredita foi uma das cidades que criou o alfabeto grego que depois evoluiu para o nosso. Posteriormente falarei sobre ela. Além disso, Beirute (capital do Líbano e principal cidade com quase dois milhões de habitantes), devido ao seus diversos cafés, também foi durante muito tempo conhecida como a “Paris do Oriente Médio”.

Bem, acho que já falei demais. Vou parando por aqui, falarei mais das cidades quando estiver escrevendo sobre elas.