Questão Palestina

Alguém fez um comentário no post passado, acho que a Paulistana, com uma proposta que eu achei bem interessante. Ela pedia que eu desse a minha visão sobre o conflito entre Israel e Palestina. Cara, se posicionar sobre um tema tão delicado como esse é realmente muito complicado. Como falei, desde que o Cristianismo, o Judaísmo e o Islamismo existem, eles estão lutando entre si, com um se aliando ao outro com o passar do tempo.

É complicado falar sobre a Questão Palestina por que, por mais que queiram nos fazer acreditar, esse conflito que está ocorrendo agora, logicamente, não se iniciou com a criação do estado de Israel. Só pra lembrar, as cruzadas nada mais foram do que a tentativa de se recuperar a Terra Santa das mãos dos infiéis muçulmanos que ocupavam Jerusalém há um bom tempo. Por nove vezes os cristãos guerrearam com os islâmicos, algumas vezes obtendo sucessos outras não.

Desde o começo do século e, principalmente, depois do Holocausto, milhões de judeus começaram a comprar terras e a migrar para a Palestina onde começaram a formar os seus kibutzi. Após a declaração de sua independência (o qual o Brasil foi um dos maiores entusiastas), Israel foi atacado por vários países árabes coligados e milagrosamente conseguiu derrotá-los. Com a justificativa que precisava de faixas de terras para se proteger dos próximos ataques, anexou diversas regiões de países vizinhos e no caminho ou expulsou (versão palestina) ou simplesmente assistiu os palestinos indo embora temendo por suas próprias vidas (versão de Israel). Esses palestinos acabaram indo se refugiar nos países vizinhos (Síria, Líbano, Jordânia…). Aí estava feita a panela do diabo.

Os judeus de Israel, por temerem se tornar uma minoria no seu próprio país, não aceitam que os palestinos voltem. Os países árabes não aceitam negociar enquanto os palestinos não puderem voltar para suas antigas moradas. E os pobres dos palestinos ficam sendo usados como massa de manobra por ambos os lados.

O cerne da questão é: – Afinal, a quem pertence as terras? Quem é o LEGÍTIMO dono? Essa resposta é muito difícil de ser respondida por que terras de países não são como o terreno de sua casa. Quando você vai comprar a sua casa, você vai lá, conversa com o antigo morador, ele lhe vende, o Estado lhe confere legitimidade e a casa é sua. Ninguém pode vir, dizer que morava lá há quarenta anos atrás e lhe expulsar de onde você está se você fez tudo de maneira legal, afinal, como falei, há o Estado para lhe garantir a legitimidade. O problema é que com países as coisas não são tão simples…

Num pensamento simplista, poderíamos dizer que os judeus “invadiram” o lugar onde hoje é Israel e expulsaram os Palestinos que lá estavam. Portanto eles “roubaram” as terras e casas dos árabes. Mas quando os árabes lá chegaram, não havia ninguém? Pelo contrário, os árabes também expulsaram os antigos detentores de Jerusalém (se não me engano os bizantinos) e ocuparam a terra por lá ficando. Então, eles também expulsaram alguém pra poder se alojar por lá. Além de que, se você pegar lá atrás na história, vai ver que os judeus são provenientes dessa região (guiados até lá por ninguém menos que Moisés) e foram expulsos pelos romanos há dois mil anos atrás da terra que eles acreditam lhe ser prometida por Deus. Por isso que você ao conversar com um ultra-ortodoxo ele vai argumentar que os judeus estão apenas voltando pra casa, ainda que 2000 anos depois. Você pode falar sobre essa história toda durante horas, mas imagina que você foi expulso da sua casa, da sua cidade? Será se um dia você vai aceitar isso? O Hamas tá aí pra poder te dar a resposta!

Por isso que é muito complicado opinar sobre esse assunto, cara! Israel tem o direito de existir e realmente precisa se proteger dos seus vizinhos hostis (Israel nunca iniciou uma guerra contra um país vizinho, eles sempre foram ameaçados ou atacados primeiro. Se a resposta foi totalmente desproporcional, aí é outra história. Bom lembrar que um dos principais objetivos do Irã e do Hizbollah é empurrar todos os judeus para o mar), mas ao mesmo tempo em que se protege, trata os palestinos como gado. Os palestinos também têm o direito de terem um Estado independente, mas não aceitam o traçado que Israel está disposto a ceder. Como não tem como fazer frente ao poderio bélico de Israel, utilizam o terrorismo para poder atacar. Por isso que eu sempre digo que ambos os lados estão super certos e super errados ao mesmo tempo. Há muita gente querendo pouca terra e esse conflito, infelizmente, tende a se arrastar durante um bom tempo…

SAINDO DE ISRAEL

Depois de passar por altas aventuras com uma turminha do barulho, meu plano era seguir de volta para o Egito e pegar meu avião em direção à Suíça. Pra minha grata surpresa, Helena tinha planos diferentes. Ela e a mãe dela planejavam viajar para a Jordânia para visitar as ruínas de Petra, a cidade perdida, a cidade construída nas pedras da Jordânia.

Tinha ouvido um pouco sobre a história dessa verdadeira pérola do Oriente Médio, mas não tinha feito planos de ir para lá. Na verdade parecia até um pouco difícil de chegar, por isso eu meio que desanimei. Depois do convite da Helena e de descobrir que Petra foi eleita uma das sete maravilhas modernas, não pensei duas vezes e resolvi ir para lá com ela. Só não sabia que ia dar tanto trabalho.

Trabalho pra poder chegar lá? Não, amigo, trabalho pra SAIR de Israel. Raios! Eu querendo sair do país e os caras pareciam que não queriam deixar eu ir embora. Foi quase que a mesma dor-de-cabeça pra poder entrar. Entra aqui, é entrevistado aqui. Entra ali é entrevistado ali. E por aí vai! Cara, isso porque eu tava indo embora! Passei quase uma hora para atravessar uma faixa de terra de uns cem metros. O melhor não foi isso. O melhor foi que fizemos amizade com uma brasileira que estava por lá atravessando também. Essa brasileira nos presenteou com uma das cenas mais engraçadas/sem noção que pude ver em toda minha vida.

Estávamos nós quatro conversando enquanto os guardas checavam os nossos passaportes. Quando eu olho pro lado, tá lá a cena inimaginável! A gente já DENTRO da base militar, olha pro lado e tá a mulher com a câmera ligando e filmando tudo lá dentro! Pra quem não sabe o teor da maluquice que ela estava fazendo, basta lembrar o que aconteceu comigo quando eu fui bater uma foto na RODOVIÁRIA. Cara, sabe quando acontece aquela parada que você não tá nem um pouco esperando? Tipo, imagina que você está andando de boa na rua e um elefante rosa com bolinhas amarelas passa do seu lado fazendo malabarismos! Foi mais ou menos como eu me senti quando eu vi aquela mulher com a câmera ligada! Fiquei uns cinco segundos com aquela cara de “MAS QUE PORRA É ESSA?” olhando pra ela e tentando não acreditar! Fiquei tão confuso que na hora de falar “meu, desliga essa câmera”, errei até a língua e comecei a falar em inglês com ela. Depois que consertei a língua correta, falei pra ela desligar e ela, graças a Deus, desligou primeiro e foi me perguntar depois por quê. Felizmente o guardinha não viu o que ela tinha feito. Perguntei por que ela estava fazendo aquilo e a resposta foi o que coroou aquela noite: – Ah, mas a lua tava tão bonita, resolvi fazer uma filmagem dela! (!!!!!!!!). Nessa hora deu vontade de dar uma chacoalhada e gritar “AMIGA! ISSO AQUI É UMA BASE MILITAR DE UM DOS PAÍSES MAIS PARANÓICOS DO MUNDO! Espera a gente passar pro lado da Jordânia que lá, cem metros depois daqui, vai ter uma lua tão bonita quanto essa!!!!”. Mas fiquei de boa.

Tudo deu certo e escapulimos pro lado da Jordânia, mas não sem antes conversar em português com, pasmem, o último guardinha que checava nosso passaporte. Ele havia morado em São Paulo por um tempo e ainda lembrava algumas palavras em português. Cara gente boa demais. Foi uma das ÚNICAS pessoas simpáticas que pude conhecer em Israel, pra falar a verdade. Na saída de Israel ainda tive que pagar uns 40 dólares de “taxa de saída” (!!!). Pra entrar eu não paguei nada, mas pra sair tive que levar essa facada! Fiquei me perguntando se eles tavam fazendo aquilo comigo só pra eu nunca mais voltar. Se foi pra isso, cara, pode ter certeza, eles chegaram muito próximo disso. Só pra vocês terem um ideia, depois que saí da Jordânia, teoricamente deveria passar por terra por Israel em direção ao Egito. Para evitar toda essa dor de cabeça, preferi pegar um ferry boat da Jordânia, atravessando todo o Mar Vermelho e já descendo direto no Egito. Deus me livre passar por todos esses postos de fronteira novamente. Pode ter sido só um infeliz azar, mas, cara, Israel me entristeceu bastante.

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Massada

Não sabia da existência de Massada e tampouco estava entre os meus planos visitar essa fortaleza encravada no meio do deserto, próximo ao Mar Morto. Depois que li mais um pouco sobre e descobri que Massada era um dos locais mais importantes para Israel e para os judeus, ficava cada dia mais ansioso pra poder visitá-la.
Bem, deixe-me explicar. Durante a destruição de Jerusalém levada a cabo por Tito em aproximadamente 70 d.C., os judeus continuaram lutando e se revoltando contra o Império Romano. Eles foram sendo caçados um a um. Fugindo dos romanos, procurando um local que pudesse servir de abrigo e aproveitando-se da distração dos romanos, os judeus tomaram um palácio do rei Herodes e fizeram dele a sua muralha. O palácio era situado em um morro que se eleva a 500 metros de altura no meio do deserto. Quando eles tomaram o local, viram que estavam de posse de várias toneladas de alimentos e litros de águas estocados pelos romanos para caso ocorresse um cerco ao palácio, além de um bom estoque de armas e chumbo para produção de mais armas, caso fosse necessário. Trocando em miúdos, os romanos quase que construíram um local perfeito para servir de abrigo para os judeus.

Em 73 d.C o local estava sendo habitado por aproximadamente 960 judeus, entre homens, mulheres e crianças. Por dois anos Massada, devido a sua natureza inexpugnável, já resistia às investidas das legiões romanas, se tornando o último foco de resistência judaica. Depois de um bom tempo vendo que não tinham o que fazer, que tentar chegar ao topo subindo pelas trilhas era praticamente impossível devido aos projéteis que os judeus lançavam, os romanos resolveram apelar de vez. Trouxeram uma pancada de engenheiros de Roma e danaram-se a construir máquinas de cerco e uma rampa para que fosse possível jogar lá dentro milhares e milhares de soldados romanos para massacrar qualquer coisa que se mexesse em Massada.

Trilhas que levam a Massada
Os judeus lá de cima ficaram acompanhando cada passo dos romanos e se defendendo da maneira mais desesperada que fosse possível. Quando todo o maquinário para invasão de Massada encontrava-se construído e pronto para ser utilizado, os romanos decidiram esperar o amanhecer para poder atacar.

Por lá havia meio que um viveiro para corvos e pombas. Pra que eles mantinham isso? Porque gostavam de passarinhos? Não, amigo! Porque aves forneciam carne e adubo! É! O negócio de lá era bruto!

No outro dia quando os romanos enfim conseguiram subir e chegaram ao topo, eles estranharam que Massada estava em total silêncio, aquilo que no Maranhão chamamos de “silêncio de cemitério”. Na verdade estava assim porque, veja você, ali estava um imenso cemitério! Os 960 judeus, vendo que não tinham chances mínimas de se opor a uma legião romana dentro do complexo, se suicidaram um a um, preferindo morrer a se entregar aos romanos. Fiquei curioso acerca dessa história e inclusive perguntei a minha amiga Ariel Sharon porque eles fizeram aquilo, já que o suicídio é um grande tabu para os judeus (suicídio é considerado uma morte desonrosa para os judeus. O suicida é enterrado longe dos corpos dos outros judeus, próximo ao muro e de costas para as outras sepulturas). Ela me explicou que, segundo a tradição judaica, há algumas hipóteses em que o suicídio é aceito:

1 – Se estiverem lhe obrigando a praticar incesto;
2 – Se alguém estiver lhe forçando a matar outra pessoa sob risco de matar você se não obedecer;
3 – Se alguém estiver lhe obrigando a deixar de ser judeu ou querendo lhe escravizar até que você aceite deixar de ser judeu.
Como a hipótese 3 cabia perfeitamente no caso ilustrado o suicídio desses judeus não foi considerado uma desonra, pelo contrário, foi considerado um ato heróico. Ainda assim, para evitar o “suicídio honroso” de todos, dez homens foram sorteados para passar a fio da espada todos os outros judeus. Quando eles mataram todo mundo, sortearam um judeu que foi responsável por matar os outros nove. No final, esse foi o único que realmente se suicidou. Massada assim ficou como o grande simbolismo, o último foco de resistência judaica contra o Império Romano e que ainda assim preferiu se matar a viver sobre domínio de outro.
Ainda hoje, toda turma de jovens recrutas das Forças Armadas israelitas, ao se formarem, vão a Massada para prestar um juramento e gritar “Massada não cairá nunca mais”. Tudo bem, não vou entrar no mérito disso tudo. Mas depois fiquei me perguntando, se já iam se matar mesmo, porque eles simplesmente não se jogaram lá embaixo? Imagina a carnificina que não foi você cortar as gargantas de 960 pessoas? Que morte traumática da porra você ter que matar seus filhos, seus pais, seus amigos etc.? Ainda que pular lá de cima ia ser uma morte muito mais emocionante! Ainda assim, a minha amiga Ariel Sharon conseguiu explicar. Ela disse que isso ocorreu porque os judeus ao se matarem lá em cima ainda dariam trabalho para os romanos terem que subir tudo aquilo para irem buscá-los, além de que morreriam mais pertos de Deus. Pode parecer pouca coisa, mas imagina o dispêndio de recursos e tempo que não foi para os romanos ter que deslocar toda uma estrutura daquela pra lá em cima descobrirem que fizeram tanto serviço pra não lutar depois?
A visita foi bem legal e bem enriquecedora. A única hora engraçada foi quando eu já tava quase pra ir embora e, de repente, ouvi uma gritaria danada. Fui lá pra poder ver o que era e tentar entender o que estava acontecendo e quando vi eram uns clérigos gritando e chamando a segurança porque havia uma mochila aparentemente sem dono por lá! Rapaz, mas pense no auê que foi enquanto o dono dessa mochila não apareceu? Ainda pegou uns gritos quando foi buscar, haehhaehae. Pobre coitado! Mas é assim mesmo, cara! País que vive sobre intenso medo de atentado terrorista fica desse jeito! Lembrou-me de um ocorrido com minha bolsa em Mumbai.
Maquete de como era Massada
Outra parada que descobri sobre Massada e que foi relativamente engraçada também é que, pô, é um dos principais pontos turísticos de Israel, né? Você vai pra lá e imagina que lá tem uma infra-estrutura GIGANTESCA com Mc Donald´s, roda gigante, parque aquático, o que for! Não, fi! Tem não! Não tem NADA! Não tou falando de Mac Donald´s e coisas afim, tou falando é que não tem sequer um CAIXA ELETRÔNICO por lá! Mermão, tive que ficar o dia INTEIRO sem comer NADA porque a lanchonete de lá não aceitava cartão e nem tinha como sacar. Só pra você ter uma ideia, pra eu conseguir dinheiro pra poder pagar a volta de ônibus, eu tive que ficar na fila conversando com um por um e perguntando se alguém ia pagar a entrada em dinheiro, pra poder pedir pra me dar o dinheiro e eu passar no cartão, já que o busão também era só no dinheiro! Pra mim foi de boa, só tive que ficar com fome o dia inteiro. Pior foi um brother meu que comprou uma passagem de Jerusalém pra lá de noite, achando que Massada era uma cidade e quando chegou não tinha NADA! Teve que dormir no banheiro de uma casinha que o vigia usava de guarita! E o pior que não deve ter sido o único que passou por isso não! Esse vigia devia estar acostumado com uma galera chegando perdida por lá e pedindo pra poder dormir no banheiro dele. O hotel mais próximo de Massada custa uns 200 reais à noite, totalmente aquém do que um mochileiro pode pagar…
Hotelzinho baratinho do lado

Mar Morto

Uma outra vantagem que existe em ir a Massada é que ela fica muito próxima ao Mar Morto. Na verdade dá pra ir andando de lá até o Mar. Como cheguei cedo em Massada, decidi também dar uma passada no Mar Morto e visitar um dos mais famosos e estranhos espetáculos da natureza. Pra quem não sabe, o Mar Morto possui a maior concentração salina encontrada em um mar no mundo inteiro (30 gramas por 100 ml de água. Os oceanos possuem 3 gramas por 100 ml) e também a depressão mais baixa do planeta, com mais de 400 metros abaixo do nível do mar. Devido a sua concentração salina, nenhum ser vivo pode viver por lá e ocorrem dois fenômenos interessantes. Cara, lá você bóia! Não importa o que você vai fazer, se vai ficar de pé, tentar mergulhar, o que for, você VAI BOIAR! É impressionante, a água mais parece uma geléia de tanto sal que tem nela! A sensação é exatamente essa mesmo! De estar nadando em um grande pote de geléia. São famosas as fotos de pessoas boiando no Mar Morto e lendo jornal ao mesmo tempo. Acredite, dá pra fazer isso sem esforço e sem molhar o jornal!
Todo mundo tem que ter uma foto dessas, rapaz
Outra é que, não importa o quanto pareça que você está bem, ao entrar no Mar Morto, você vai descobrir TODOS os arranhões que existem em sua pele! Sim, aquele arranhãozinho MINÚSCULO! Aquela cutícula de unha que você arrancou muito forte, vai arder MUITO quando o sal começar a comê-la! Por essas e outras que nadar no Mar Morto é uma experiência inicialmente dolorosa! Mas depois fica de boa!
Cara, vou te dizer, É MUITO LOUCO! É MUITO legal, MESMO! Nadar por lá!
Existem umas “praias” que as pessoas fazem (na maioria kibutzs) na beira do lago onde é possível usufruir de toda uma infraestrutura com chuveiros, mesinhas para churrasco, lanchonetes e coisas afins. Eu, LÓGICO, não tava muito a fim de pagar por toda essa frescura e nem tinha muito dinheiro pra isso. Mas só que você não pode simplesmente ir lá no Mar Morto, tomar um banho, ficar de boa e depois ir pegar um busão? Por quê? Bem, cara, se um dia na praia sem uma chuveirada de água doce depois já te deixa meio ardido, assado e queimado por causa do sal da praia, multiplique isso POR DEZ e você começará a ter uma noção do que é o Mar Morto. Sim, se você vai lá no Mar Morto, dá um mergulho e depois vai embora, você pode ter sérias queimaduras na sua pele no decorrer do dia!

Por isso precisava de um plano. Tive que começar a confabular. Meu plano então foi o seguinte. Quando ainda estava na lanchonete de Massada esperando a hora do meu elevador pra subir, comecei a observar o lixo de lá. De repente, tive uma ideia. Havia várias garrafas de refrigerantes vazias por lá. E se, e se eu pegasse essas garrafas, fosse ao banheiro, as enchesse com água da torneira e depois corresse pro Mar Morto? Rapaz, mas eu era um gênio! Comecei a pensar quantas garrafas pegaria, mas antes fui trocar uma ideia com o atendente de uma das barraquinhas e perguntar pra ele qual seria a efetividade do meu plano genial. Ele, óbvio, me chamou só de burro e falou que, além de colocar minha pele em risco, ainda podia ter problemas com a polícia de fronteira se fizesse isso, afinal, o Mar Morto fica na fronteira de Israel com a Jordânia e um maluco nadando sozinho no Mar Morto é tudo o que eles mais querem pra poder brincar de tiro ao alvo. Falou que não valia a pena fazer isso pra poder economizar míseros cinco dólares de entrada mais três dólares de busão pra se chegar de Massada até lá. Ãhn? Sim, o meu livro-guia não dizia, mas lá de Massada tinha um busão que levava direto a uma “praia” do Mar Morto e lá eu pagaria essa mixaria pra poder ter acesso a chuveiros de água doce! Simples assim… Droga, meu plano parecia tão bem mais inteligente! Ainda por cima, ia gerar história de blog! Mas enfim, a prudência falou mais alto!

Peguei o busão e segui para a prainha. Cara, lá apesar do que eu estava imaginando, parecia uma praia mesmo! A água era limpíssima e cristalina. Realmente era um lugar bem agradável pra poder se passar uma tarde. Corri, pulei na água e já comecei a ter aquela sensação de alguém esfregando limão em uma ferida aberta no seu braço! Ah, meu amigo, mas ardia, viu? Se bem que depois de uns dez minutos acabei acostumando e fiquei pra curtir a paisagem! Cara, o Mar Morto é muito legal!
Olha a cor da água, mlk!

Tel Aviv

Além de Jerusalém, precisava visitar também a capital de Israel, né? Como tava com pouco tempo, resolvi fazer uma viagem de apenas um dia a Tel Aviv. Peguei um busão bem cedo e comprei a minha volta para um pouco tarde da noite. Tel Aviv, é uma cidade relativamente nova (tem cem anos) e, portanto, não tem muita coisa pra ser vista. É uma cidade de praia, mas com o frio que estava eu nem animava de cair no mar. Trocando em miúdos, eu achei que ia ser uma viagem meio sem graça, só pra bater foto e pronto. Rapaz, ledo engano. Já no busão, conheci três caras que eram MUITO engraçados. Um deles era equatoriano, o outro etíope e o terceiro, brasileiro e amazonense! Rapaz, mas o amazonense era engraçado DEMAIS!!

Eu e o Equatoriano

Eles três eram de uma congregação cristã e, pelo que entendi, trabalhavam parte em Israel e parte nos seus países de origem. Conhecemos-nos ainda na rodoviária e fomos conversando (o equatoriano falava português) até chegar a Tel Aviv. Como eles também só iam passar um dia por lá, acabou que ficamos nós quatro juntos pra poder dar uma volta na cidade.

Olha o que achamos assim que chegamos lá na praia. Bom que se quisesse o serviço, eu já tinha achado o cardápio

A gente foi pra praia e aí já começou a farofa! Os bichos abriram a mochila e começaram a tirar UM BANDO de sanduíche e comida que eles tinham trago de Jerusalém. Sem noção! Ficamos lá conversando, dando risada e farofando na praia.

O amazonense farofando. Grande figura!

O amazonense começou a me contar as histórias de lá das bandas dele. Rapaz, mas eu ria. Contou-me de uma vez que ele e uns primos foram dormir numa casa de uma vó deles que ficava enfiada no meio do mato. De noite a vó começou a contar uma história de um bicho que tava comendo os cachorros dela e ela não sabia mais o que fazer. Diz ela que a noite, quando estava dormindo, ela ouvia o barulho das asas de um bicho que sobrevoava a casa dela e no final, quando ia ver, mais um cachorro tinha sumido. Ela dizia que era um animal que não lembro o nome, um ser lendário da selva. Quando ela foi dormir, por volta de meia-noite, diz que começou aquela típica conversa de primos querendo um ser mais macho que o outro:
– Rapá, tu acha que esse bicho existe mesmo?
– Que existe que nada, rapaz. Isso é conversa desse povo que vive no mato
– Nada! Tu tá falando isso só porque tá morrendo de medo!
– Que tou com medo nada! Se tu quiser eu vou é naquele mato agora e caço o que você quiser com essa espingarda aqui!
– Pois então vamos nós três agora??!?!?!?
– Vamos, vou te mostrar que não existe bicho de porra nenhuma lá no meio do mato!

Eles se entocaram perto de onde estavam os cachorros da veia e ficaram lá, diz que pra caçar o bicho que tava comendo os cachorros. O narrador da história disse que, não sabia os outros dois primos, mas ele suava frio pensando nesse tal desse bicho alado que tava lá pelas cercanias. Rapaz, mas disse que passou uma meia hora, deu uma ventania forte, as árvores começaram a balançar e eles lá, morrendo de medo, mas tudo fazendo pose de macho. Cara, mas foi só eles ouvirem barulho de umas asas batendo que largaram espingarda, chinelo, dignidade, o que havia por lá, e correram pra dentro da casa o mais rápido que puderam! Diz ele que até hoje não sabe se foi esse bicho comedor de cachorro ou um canarinho qualquer! Também, ninguém quis pagar pra ver!

Tel Aviv

O outro que ele contou foram algumas histórias bem engraçadas sobre um bicho lendário que supostamente habita a Amazônia brasileira. É o Manpiguari, uma criatura coberta de pelos vermelhos, que possui um olho só, quase dois metros de altura, pele a prova de bala e alimenta-se, adivinhem, de carne humana. Diz ele que o Manpiguari é o sonho de consumo de dez em dez caçadores da Amazônia porque é praticamente impossível matar o bicho, a única maneira de matá-lo é atirando no umbigo da criatura. Diz ele que uma vez estava caçando com o pai no meio do mato e até chegou a ouvir o barulho do bicho correndo pela mata. Quando eles tentaram meter a bala no bicho, o Manpiguari correu e até hoje eles não conseguiram o suposto troféu que a cabeça do bicho representaria.

Já ouvi falar em história de pescador, mas história de caçador foi a primeira.
Passamos o dia conversando, farofando e rindo juntos na praia. Quando já estava ficando de tardinha, começamos a ir em direção a rodoviária de Tel Aviv porque o busão deles saía as seis horas. No caminho ainda nos deparamos com uma cena, no mínimo, estranha. Uma mulher começou a andar pelo meio da rua e ficava dando tapas nos carros que passavam por ela. Depois posto o vídeo que fiz dessa cena dantesca.

Eles foram embora um pouco mais cedo e eu fiquei por lá, dando voltas pela cidade e batendo algumas fotos. Depois voltei pra Jerusalém e comecei a planejar a minha viagem para Massada. Manpiguari… Grande figura…

Israel – Impressões sobre o lugar

Bem, antes de continuar escrevendo o blog, prosseguir para Tel Aviv, Massada e depois para a Palestina, tem várias de impressões que tive de Israel que gostaria de compartilhar com vocês! Pra começar, apesar da experiência desagradabilíssima que tive em Jerusalém (depois fui descobrir que aquela menina morava em um bairro ultra-ortodoxo judeu, daí a explicação pra ela ser tão maluca!), sempre admirei a história do povo judeu e de Israel. Cara, em 70 d.C, Tito invadiu e expulsou todos os judeus da Palestina, derrubando inclusive o Templo de Jerusalém. Fugindo de Tito, os judeus migraram para várias regiões do globo. Sofreram diversas perseguições onde aportaram: Pogrom, genocídios, tentativas de eliminação sumária por diversos povos, mas mesmo assim se mantiveram firmes e conseguiram preservar a sua cultura, língua e religião sem nunca abandonar o sonho de um dia voltar para a Terra Prometida. Por dois mil anos eles sempre nutriram o desejo de um dia voltar para onde estão agora, lugar que eles acreditam que os foi reservado por Deus. Por essas e outras que um acordo naquela região é bem mais difícil do que algumas pessoas nos querem fazer acreditar.

Muro das Lamentações, o que sobrou do templo de Salomão destruído pelos romanos. É hoje o lugar mais sagrado para os judeus

Os judeus têm uma característica interessante. Se você não tem religião nenhuma e quer virar católico ou muçulmano, é muito simples. Basta apenas aceitar os ensinamentos da religião, passar por alguns ritos e, pronto, você está convertido. Com o judaísmo, não. Judaísmo é uma religião que é quase como uma etnia. Não sei se é possível “se converter” ao judaísmo, mas sei que o essa religião é meio que hereditária. Para você ser considerado judeu, sua MÃE tem que ser judia. Sim, sua mãe, se seu pai for judeu e sua mãe católica, você não é judeu! Interessante isso, né? Islamismo e Cristianismo são religiões de massa, que tentam conseguir o máximo de fiéis possíveis. O Judaísmo, não! Eles acreditam que foram o povo escolhido por Deus e por isso é mais difícil alguém ser judeu. Eu nunca entendia quando via que era muito fácil você emigrar e viver em Israel se você fosse judeu. Israel é um país rico, logo, eu imaginava que se eu fosse pobre e quisesse morar lá, bastava que eu me “convertesse judeu” e aí mudasse pra lá. Não, é bem mais difícil do que se parece.
Esse aí é sem noção, héin? Até o bonezinho do soldado ele pegou…

Israel não possui uma Constituição propriamente dita. Apesar dos esforços para se escrever uma, nunca foi possível devido a resistência dos judeus em aceitar que um outro livro possa ser mais importante para Israel do que o próprio Torá. Logo, Israel, assim como países como Paquistão e Irã, tem uma forte influência religiosa em suas leis.

Eu não sei o que esse povo tem, mas judeu é um povo que é danado pra saber ganhar dinheiro. Só pra vocês terem uma idéia como esses bichos têm grana e são bem organizados, a Ariel Sharon me falou que quando ela tinha 16 anos, se cadastrou em um programa lá nos Estados Unidos que pagava uma excursão a jovens judeus que desejassem visitar Israel e ver como era o “seu país”. Tudo de graça, “na faixa”, bastava ser judeu! Parece bom, não?
Apesar de ser um país riquíssimo, Israel também possui alguns problemas sociais. Achei interessante que esse senhor pode estar em miséria, mas não sai sem o seu kipá na cabeça..
Outra curiosidade, mas isso foi o namorado de Ariel Sharon que falou não sei se é verdade, é que em uma das leis básicas de Israel diz que “é proibido possuir, ter ou criar porcos na terra santa de Israel”. Judeus não podem comer carne de porco. O que algumas pessoas resolveram fazer pra poder burlar a proibição? Criam porcos em cima de tablados!

 

Deve ser legal ser do Exército de Israel

 

Por último, é impossível falar de Israel sem falar dos Kibutz. Os Kibutz são um tipo de associação que tiveram um importante papel na construção do Estado Judeu. De tendências cooperativas e socialistas (daí o comentário de Ariel Sharon no post retrasado que Israel era um país socialista), um Kibutz é uma forma de coletividade comunitária própria de Israel. No início, como caráter de proteção ou de sobrevivência, os judeus se mudavam para uma grande porção de terra e lá estabeleciam uma associação. Até hoje existem milhares de Kibutz em Israel e eu até troquei uma idéia com um israelense que conheci num ônibus e que havia morado grande parte da sua vida em um. Ele me disse que em um Kibutz moram entre 120 e 150 pessoas e há uma grande divisão de tarefas para se manter a ordem do lugar e, além disso, pasmem, todos doam todo o seu salário para o Kibutz para que depois possa ser dividido igualmente. Tudo isso contribuiu para que os Kibutz fossem bem importantes na construção da identidade nacional de Israel.
Monte das Oliveiras
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Gatos no estômago – Jerusalém

Apesar da mais do que detestável experiência que tive com meu couch, Jerusalém foi uma experiência maravilhosa. Como não poderia mais ficar na casa da minha amiga Ariel Sharon, resolvi entrar em contato com uma amiga da universidade que estava trabalhando como oficial de chancelaria na representação diplomática brasileira na Palestina. Ela morava em Ramalah, que pra minha grata surpresa, era quase que do lado de Jerusalém. Conversamos e ela falou que não havia problema algum se eu ficasse na sua casa. Problema resolvido, resolvemos dar uma volta por Jerusalém. O que tinha tudo pra ser uma experiência super agradável, foi uma das maiores odisséias que enfrentei em toda minha vida. Por quê?

Entrada para a parte árabe de Jerusalém Velha

Cara, eu sou muito de boa com as coisas. Enfrento fosso de jacaré, pulo de precipício e até assisto jogo Vasco X América-RJ, mas se tem uma coisa que me deixa agoniado é quando meu estômago não funciona bem. Em toda minha viagem, não me lembro de ter tido sequer uma indisposição gástrica em qualquer país. Passei um mês e meia na Índia/Nepal, comendo até pão com barata (confira a história clicando aqui) e em momento algum tive uma dor-de-barriga. Conversava isso com mochileiros que também havia conhecido na Índia e os bichos ficavam impressionados com minha virilidade, pois dificilmente alguém passava mais de um mês na Índia sem conhecer a famosa Delhi-Belly (Belly é barriga. Delhi-Belly seria a dor-de-barriga típica da Índia)! Pois é, porque tou falando isso? Bem, cara, porque apesar de todo esse torpor gástrico, uma hora eu iria ter problemas e o sabe se lá por que o destino quis que fosse em Jerusalém. Na noite passada, em um dos quiosques por lá, comprei uma esfiha igualzinha àquelas do Habbib´s. Achei que seria mais ou menos como comer em um shopping qualquer aqui em Brasília. Estava redondamente enganado. Rapaz, essa esfiha tinha um temperozinho lá que foi quase como um vulcão no meu estômago! No outro dia de manhã, quando acordei, após ser expulso de casa, comecei a sentir algo meio estranho pelas minhas entranhas. Cara, sem brincadeira, a sensação era que dois gatos se ENGALFINHAVAM dentro do meu estômago! Rapaz, mas aquilo se remexia por dentro de uma maneira que mais se parecia um saco de gato! Vontade de ir ao banheiro, se é que você entendeu o eufemismo, a todo o momento pra botar esses gatos pra fora!

Esqueça a ONU, o futebol vai salvar o mundo…

Fui me encontrar com a Helena no lugar combinado e quando cheguei a mãe dela também estava lá. Andávamos pra cima e pra baixo lendo tudo sobre os lugares, admirando, olhando. E eu só pensando onde era o banheiro mais próximo pra botar meus gatos pra fora. Pior que o número de gatos parecia só aumentar a cada hora. Tinha uma verdadeira matilha de gatos dentro do meu estômago e eu não sabia o que fazer. Só sei que foi o dia todinho neste aperreio. Até hoje, quando as pessoas me perguntam o que eu lembro quando falam a palavra Jerusalém pra mim, eu só respondo: – Vontade de cagar do caralho!

Perambulando por Jerusalém

Gatos a parte, Jerusalém tem todo o seu charme de cidade histórica. Pra começo de conversa, ela é uma cidades mais importantes e controversas do mundo inteiro. Só pra vocês terem uma idéia, Jerusalém já esteve sob domínio Persa, Judeu, Romano, Otomano, Árabe, Britânico, Israelita… Isso só o que eu consigo lembrar aqui de cabeça. Em toda sua história já foi destruída duas vezes, sitiada 23 vezes, atacada 52 vezes e capturada e recapturada 44 vezes. O albergue que eu dormi trazia nele uma placa que dizia que o prédio havia sido construído há mais de 700 anos!

Estilo, uns nascem com, outros vivem a vida tentando ter…

Jerusalém é uma das mais importantes cidades de três das maiores religiões do mundo: Judeus, Cristãos (aí se incluem Católicos e Protestantes) e Muçulmanos. Judeus porque o rei David a proclamou a sua capital no século X a.C. Pros cristãos porque foi o lugar em que Cristo foi crucificado. Pros muçulmanos (só é menos sagrada que Meca e Medina) porque foi a cidade em que Maomé subiu aos céus (não me pergunte porque ele foi lá só pra fazer isso).

Parece muita coincidência que essas três religiões possuam em comum a mesma cidade sagrada, não? É, mas não é coincidência não! Como já expliquei no post da Síria (confira a história aqui), as religiões judaicas, cristãs e muçulmanas tem um profeta em comum: Abraão. As três religiões, na verdade, tem as mesmas bases e uma foi surgindo, digamos, “em complemento” a outra. O Torá, livro mais importante para os judeus, está contido no Velho Testamento na Bíblia dos cristãos. Não é a toa que Jesus Cristo era chamado de o “Rei dos Judeus”. Por essas e outras que Jerusalém, apesar de tão importante para os três, sempre foi motivo de disputas e sangue desde que essas religiões nasceram. Como dizia um xeique que conheci aqui em Brasília, Jerusalém, em toda sua história, só foi mantida por quem tinha o poder de ocasionar a maior destruição ao outro, o chamado paradoxo sagrado de Jerusalém. Só para lembrar, as cruzadas tiveram como objetivo retomar a “Terra Santa” dos “infiéis” muçulmanos. É meio difícil aceitar dividir um pedaço de chão quando você acredita que Deus o reservou para você.

Igreja do Santo Sepulcro, um dos lugares mais sagrados do Cristianismo

Por essas e outras que tudo o que você percorre, vê ou toca em Jerusalém é santo. Lá está o lugar em que Jesus foi crucificado, o lugar em que Jesus ascendeu aos céus, a via dolorosa percorrida por Jesus para ser crucificado (inclusive é até meio sem graça você andar por lá, porque em Jerusalém há a preocupação de se retratar e representar a história sob o viés religioso, o que acaba por comprometer o rigor histórico de suas construções), isso sem contar os diversos simbolismos de outras religiões que, por eu ter tido uma educação apenas católica, eu não conhecia. Andar por lá requer um certo cuidado, pois você não sabe o que um gesto seu pode significar e o pau pode comer loucamente, como ocorre quase todo dia. Enquanto estive lá, cristãos armênios entraram em atritos (atrito é maneira de falar, foi pau de doido mesmo, com uma galera voando por cima da outra e a polícia tentando desesperadamente separar todo mundo) com outros cristãos dentro do Santo Sepulcro só porque uns estavam empatando o caminhando da procissão dos outros.

Devido ao caráter sagrados para as três religiões, é preciso ter um pouquinho de ordem lá dentro também, ainda que hoje a cidade esteja nas mãos dos judeus aliados aos cristãos (e isso é bem recente, viu? Há alguns séculos atrás os judeus eram os maiores aliados dos muçulmanos. Quando os cristãos tomavam Jerusalém para si durante as cruzadas eles massacravam muçulmanos e, principalmente, judeus). A cidade velha é dividida em quatro setores: o setor judaico, o setor cristão, o setor muçulmano (o maior dos três) e o setor, adivinhe, Armênio. Ué, mas os Armênios possuem uma religião própria? Não, eles são cristãos! E por que diabos tem um bairro só pra eles? Até hoje eu tento descobrir. Alguns me disseram que a Armênia foi um dos primeiros países a abraçar a fé cristã, tanto é que eles construíram o bairro dele no século IV d.C. Outros dizem que vários fugiram pra lá durante o grande genocídio armênio um dos maiores crimes contra a humanidade tal qual o Holocausto. O certo é que Jerusalém é dividida nesses quatro, digamos, bairros diferentes com cada um tendo seus respectivos lugares sagrados.

Há outras coisas interessantes. Primeiro que se você for mulher e bonita, caso da Helena, de dez em dez minutos um árabe vai lhe parar no meio da rua e lhe pedir em casamento. Não, isso não é jeito de falar, isso é sério! A gente ficava andando pelas ruas e vez ou outra um árabe parava a gente, olhava pra Helena e perguntava: – Cê quer casar comigo? – no melhor estilo Silvio Santos! Cara, era realmente bem engraçado isso! Até porque todo mundo sai pensando quando sai de manhã de casa: – “Nossa, hoje eu vou achar o homem da minha vida. Eu vou estar andando, procurando um narguilé e do nada ele vai pedir a minha mão em casamento!”. Se bem que pra uma mulher deve até ser bom se casar com um cara desses. Ele vai te dar casa, comida e roupa lavada. Você não nem precisar trabalhar, só arrumar a casa e de vez em quando pegar uns tapas, mas também, nada é de graça, né?

Rabinos em Jerusalém

Além de que por todo lado que você anda tem gente passeando com rifle pra cima e pra baixo. Cara, sério, quando você olha aquilo na mão dos caras, parece até que é de brinquedo! No começo dá até medo, mas depois você se acostuma. Até na rodoviária o pessoal andava armado. Fui inventar de tirar uma foto do detector de metal que tínhamos que passar pra poder entrar (que nem o de avião) e, rapaz, me arrependi. Na hora voou uma pancada de guarda em cima de mim gritando “apaga, apaga, apaga!”. Eu só fiquei pedindo calma e apaguei na hora a foto. O guarda ainda pegou minha máquina e ficou conferindo foto por foto antes de me devolver a máquina! Lá é tenso!

Sim, tem gente que é sem-noção!

Eilat

Como estava realmente a fim de tentar dormir aquela noite em Jerusalém, procurei não desistir. Chamei um mochileiro que havia conhecido pela fronteira e nós dois fomos tentar chegar de qualquer maneira em Jerusalém. Andando? Correndo? Quase isso, fomos para a saída da cidade e começamos a pedir carona. Bem, não era tão longe assim. Eram uns 350 quilômetros, dava pra fazer de boa se pegasse uma carona.
Chegamos ao lugar que parecia o melhor local para conseguirmos uma carona. Ficamos lá estendendo os braços. Bem, não precisa dizer que estava difícil, né? Sexta feira, dia de Shabat, à noite, dois homens pedindo carona… Só havia situações adversas contra a gente. Passada uma meia hora, um carro parou. Corremos para ver. Era um táxi. Bem, sabíamos que ele não ia nos dar carona, mas fomos ver se de alguma maneira poderia nos ajudar. Inicialmente começamos a trocar uma idéia, conversar com ele o que poderia ser feito e tal. Bem, não precisa falar que isso ia dar errado, né? Não sei se já falei aqui no blog, mas taxista é a raça mais FILHA DA PUTA que existe nesse planeta. Seja na Índia, seja na Síria, seja em Israel, eles SEMPRE vão querer FUDER a sua vida. Com esse não foi diferente. Inicialmente ele parecia ser um cara realmente gente boa. Chegou cheio de sorriso, sorrindo mais que professor de aeróbica, perguntando qual era nosso problema, falando que não queria nada, que ia só nos ajudar e coisas do tipo, aquele papo de filha da puta. Eu sabia como seria a história no final, sabia que ele queria nos enrolar, sabia que era taxista, mas, cara, eu tava tão desesperado e cansado que resolvi tentar acreditar em pelo menos esse. Achar que pelo menos um escapou do inferno e realmente iria nos ajudar.

Devia ter posto essa foto antes. Visão aérea da travessia da fronteira terrestre entre o Egito e Israel

Naquela conversa lá, papo vai, papo vem, ele conquistou nossa confiança. O inglês dele era realmente muito bom e ele era bem simpático. Depois de um tempo conversando com a gente, ouvindo nosso problema, ele falou que era melhor a gente parar de tentar conseguir carona. Falou o óbvio: que já estava de noite, que éramos dois homens, que era Shabat… Falou ainda que era um pouco perigoso ficarmos ali. Disse-nos que semana passada um mochileiro da Inglaterra havia atirado em uma pessoa que lhe dava carona e isso tinha causado uma comoção tremenda na cidade. Segundo ele, era perigoso ficarmos ali, no meio da rua, pedindo carona, em um Shabat, pois as pessoas estavam revoltadas com caroneiros e, além disso, poderiam se ofender por estarmos fazendo isso em um dia santo. Além disso estávamos do lado da fronteira e isso poderia nos dar problema, pois algum soldado poderia simplesmente ligar no rádio, contatar o pessoal da fronteira que havia dois homens suspeitos no meio da rua e com isso nos mandar de volta pro Egito. Começamos a ficar preocupados e desistimos de tentar conseguir uma carona. Bem, aí depois no final descobrimos o que ele queria:
– Oh, mas se vocês quiserem. Eu posso levar vocês lá em casa, vocês tomam um banho, minha mulher faz um jantar pra vocês. Depois os levo até Jerusalém. Cobro só 100 dólares de cada um…
Quando ele começou a falar isso só demos as costas e começamos a caminhar procurando um albergue. Taxistas…
Procurando um albergue
Bem, apesar de tudo, ele realmente tinha razão, era melhor não dar bobeira em uma cidade de fronteira. Começamos a procurar um albergue e achamos um que parecia até jeitosinho. Além de tudo, o dono falou que colocava uns colchões do lado de fora e cobrava só cinco dólares pra quem quisesse dormir neles. Bem, cinco dólares pra uma noite, em um país que tem um custo de vida semelhante ao da Europa, era realmente um ÓTIMO acordo. Resolvemos ficar por lá mesmo e tentar no outro dia chegar a Jerusalém. Depois que coloquei minhas mochilas lá pelo armarinho que me deram, eu comecei a ler uns avisos meios estranhos colado pelas paredes: “Que Deus abençoe a sua noite”, “Lembre de rezar a Deus antes de ir dormir”, “Apenas casais casados podem dividir um quarto no albergue” e coisas assim. Comecei a me sentir como o Gabriel, o Pensador naquela música 2,3,4,5 meia 7, 8:
Quando a esmola é de mais o santo desconfia/ Essa mina deve tá com algum problema…/ Chegando no local que ela escolheu: Não-sei-o-que-lá-do-reino-de-Deus/Olha o nome do filme: “Jesus Cristo é o Senhor!”/ É comédia?/ (Não é filme/, o cinema acabou, /virou igreja evangélica./ E eu só te troxe aqui pra você comprar pra mim uma vaga no céu!)/

Geral dormindo pelo chão

 
Depois de conversar com alguns dos hóspedes, realmente era o que eu estava temendo. Sim, era uma hospedaria de caráter religioso. Cara, eu não tenho nada contra religiões, mas tenho bastante contra pessoas que só ficam te criticando e acham que sabem o que é melhor pra você, como a maioria dos religiosos fundamentalistas são. Bem, enfim, quem tá na chuva é pra se molhar, já tinha pago, agora era ficar por lá.
Por incrível que pareça, apesar desse meu preconceito bobo, o lugar foi MUITO agradável. Eu não sabia, mas sexta-feira a noite era um dia em que ele reunia os vários cristãos pela cidade e faziam uma celebração, todos juntos. Sempre bom lembrar que Israel é judeu, logo não eram muito os cristãos que havia por lá. Como sexta-feira a noite era impossível achar uma balada por Eilat e aquilo parecia que ia ser uma manifestação cultural realmente interessante, decidi ficar por lá a noite e ver o que iria acontecer.
Cara, foi muito legal! Eles reuniram VÁRIAS pessoas, de VÁRIOS lugares diferentes. A zona externa do albergue ficou MUITO lotada! Quando já estavam todos nos seus lugares, os donos do albergue pediram a palavra e começaram a fazer um sermão. Mas, cara, que sermão, viu? Bicho, foi muito interessante. Eles começaram um debate muito interessante, com vários questionamentos sobre o que era moral, sobre o que era ajudar ao próximo, sobre o valor de se viver uma vida correta, coisas assim. Bem parecido com o que se pode ver no Sermão da Montanha. Mas falavam com muita sobriedade, citando vários filósofos e de uma maneira que realmente fazia você pensar. Muito legal mesmo. Além disso, tinha algo que também era muito interessante. Grande parte dos freqüentadores eram africanos sudaneses que haviam escapado de Darfur e estavam asilados em Eilat.

Como eles não falavam inglês, um deles ficava no meio e ia traduzindo o sermão que era feito. Além dele, havia mais um outro traduzindo para o espanhol para que uns latinos que estavam lá também pudessem entender. Ou seja, o sermão era transmitido em três línguas diferentes. Fiquei lá vendo o brilho dos olhos deles ao transmitirem o sermão. No final ainda houve um jantar, de graça, onde todo mundo pôde comer, inclusive a gente que tava se hospedando no albergue. Bem da hora.

Quando acabou o sermão, fui lá conversar com o pessoal do albergue sobre aquela história do taxista. Se aquilo realmente era verdade. Cara, claro que não, né? Era LÓGICO que ele tava mentindo e enrolando a gente e a história não fazia nenhum sentido. Falaram-nos que isso nunca chegou nem perto de ocorrer e pedir carona era algo bem comum de se ocorrer em Israel. Que tudo aquilo é balela. As pessoas só não costumam pedir no Shabat por causa que há poucos viajando, mas de resto era tranqüilo. Gente, pode parecer que eu tenha sido um idiota, mas é que além do taxista falar com tanta, mas TANTA, convicção, estávamos MUITO cansados e desesperados, logo a gente acabou acreditando piamente no que ele tava falando. Mas enfim, trocando em miúdos, aquele taxista que parecia apenas um cara simpático e gente boa, não era nada mais que mais um grande FILHO DA PUTA. Por essas e outras que eu fiquei meio que feliz com o acontecido com a gente quando tínhamos acabado de sair do posto de fronteira ainda na fronteira de Israel com o Egito.

Fila pro jantar
Assim que saímos do posto, um taxista veio nos abordar e perguntou se não queríamos um táxi pra nos levar do posto até a cidade. Bem, eram uns cinco quilômetros e portanto meio longe pra se ir andando. Dissemos que sim, mas ele queria uns dez dólares pra isso. Comecei a discutir com ele e a dizer que se fosse a dez dólares, eu preferia ir andando (típica negociação que eu sempre faço com esse tipo de corja). Ele ficou meio puto e falou que se eu fazia tanta questão de cinco dólares, que ele faria isso pra mim. Bateu a porta meio com raiva e “Vlupt!!”, cortou o dedão da mão. O sangue começou a descer e eu por uns dez segundos fiquei com pena. Mas hoje quando lembro do outro taxista, o que queria nos levar a Jerusalém, me sinto meio que vingado.
Acabei dormindo cedo, porque queria aproveitar a manhã em Eilat. Querendo ou não, a cidade ficava de frente para o Mar Vermelho, um dos melhores lugares do mundo para mergulho e eu não perderia essa. Pela manhã aluguei uns óculos e um snorkel e fui lá. Cara, não me arrependi, viu? Esse Shabat, apesar de ter feito eu me lembrar dos problemas que tive com o feriado turco, pelo menos me deu o prazer de ficar uma noite e uma manhã em Eilat e curti algumas várias histórias que ocorreram por lá.
Peguei meu busão pra Jerusalém umas duas da tarde.