Explanações e divagações de um maranhense

Antes de começar a contar os causos que ocorreram pela Coréia do Norte, acho que seria interessante explanar sobre alguns assuntos que eu tenho certeza que despertam a curiosidade das pessoas. Nos próximos posts tratarei sobre diversos temas que eu acho interessante citar antes de começar a narrar a história em si. Um deles é de como parece ser a vida cotidiana, pelo menos em Pyongyang.

PYONGYANG

Como sempre. a galera do nosso grupo pirando para bater fotos

Como todas as residências são disponibilizadas pelo Estado, eles saem construindo edifícios porque é mais barato e cabe mais gente, logo a cidade em si é bem compacta. Não ha casas e todo mundo vive em apartamentos. A cidade acaba sendo toda parecida. É bem aquela parada stalinista de todos os prédios sendo iguais e do mesmo estilo arquitetônico. Isso economiza mais, faz as construções serem mais baratas, mas a cidade em si fica muito sem graça. Eu facilmente me perderia pelas ruas de Pyongyang se tivesse viajando sozinho porque, como falei, todas as ruas são MUITO parecidas. Bom lembrar que Pyongyang foi totalmente destruída durante a guerra, por isso deve ter sido mais fácil reconstruir logo tudo igual.Bem, Pyongyang, a capital, como já falei, é um reino da fantasia. Uma cidade construída apenas para a elite coreana. Nem todos os coreanos podem viver lá, inclusive os residentes de Pyongyang possuem uma carteira de identidade própria escrita “residente de Pyongyang”.

A vida de quem vive em Pyongyang parece bem normal. Eles tem bares, vida noturna, saem a noite e coisas assim. Mas é só sairmos um pouco de lá (como quando fomos a Zona Desmilitarizada na Fronteira) que podemos ver como o padrão de vida cai absurdamente.
Algumas fotos panoramas que fiz de diferentes pontos em Pyongyang. É possível ter uma noção do estilo arquitetônico monótono típico de cidades com arquitetura soviética e edifícios que mais parecem caixas de fósforos.

A NORMALIDADE FORÇADA

Uma coisa que me deixou impressionado enquanto estive lá é que eles fazem um trabalho muito, mas MUITO, bem feito para tentar demonstrar alguma normalidade na vida cotidiana. Cara, se você não já chega lá sabendo que a Coréia do Norte é o país que mais recebe ajuda internacional no planeta, assolado por contínuas crises de fome, realmente jura que ali parece haver uma vida normal. Para vocês entenderem melhor, em um dos dias que estivemos caminhando e batendo fotos, caiu um toró, mas um TORÓ! Era chuva como nunca se vê em Brasília. Apesar de toda aquela água, a cidade seguia sua normalidade e não vimos uma inundaçãozinha sequer apesar de termos ficado o dia inteiro em Pyongyang. Isso era estranho, pois algumas semanas antes uma inundação havia destruído parcialmente Pyongyang e aquela chuva realmente parecia forte.
A vida dentro do hotel era bem normal, agitada até…

Só quando cheguei ao hotel e pude ver notícias (tínhamos acesso a Al Jaazera, um dos melhores canais de notícias do mundo, sediado no Catar), que soube da destruição na cidade e pude ter conhecimento que 250 pessoas haviam morrido naquele dia devido a inundações e enxurradas. Se eu não tivesse visto isso na TV, eu NUNCA acreditaria que havia ocorrido uma inundação, afinal, como disse, não vi uma lâmina sequer de água na cidade. Lógico, eles só andaram com a gente em uma parte minúscula da cidade, não onde o bicho pega, que foi onde inundou.

Um dia depois daquele temporal que enfrentamos em Pyongyang, fomos visitar uma cidade  do interior da Coréia do Norte para podermos assistir a uma apresentação. Lógico que a cidade era bem menos equipada e com menos infra-estrutura que Pyongyang. Quando chegamos, pudemos ver pela janela do ônibus que a população inteira tentava de qualquer forma evitar que a próxima cheia do rio inundasse de vez a cidade. Não havia máquinas, ferramentas, equipamentos, nada. Era todo mundo dando o seu jeito, carregando pedras no braço e nos ombros, desesperados para conter a próxima cheia. Mulheres, crianças, velhos,  o que for. Um retrato do desespero que deve ser MUITO maior em outras cidades que nem é permitido que visitemos.

O trabalho de transmitir normalidade para a gente era muito bem feito. Só depois desse dia que comecei a perceber que, danadinhos, apesar de viajarmos para vários lugares da cidade, óperas, balés, monumentos, restaurantes, sempre passávamos pelas mesmas ruas, lógico, bem asfaltadas e pavimentadas.Falando em monumentos, pra onde você vai na cidade há monumentos louvando alguma feito heroico ocorrido na guerra e a sua “vitória” sobre o Japão. Sim, na cabeça dos coreanos eles ganharam a guerra. Nunca ouviram falar de Hiroshima e Nagasaki e é realmente bem irônico que os Estados Unidos, o grande Satã, foi o responsável pelo Japão ter se retirado da Península Coreana e “libertado” a Coréia e não o fanfarrão do Kim Il Sung que só surfou na onda e aproveitou para montar o seu mundo mágico.

Esse monumento em especial me chamou a atenção devido a riqueza de detalhes. Ficou bom, não?
Arco do Triunfo em Pyongyang “comemorando” a vitória da Coréia do Norte sobre o Japão. Três metros maior que o da França, como o guia gostava de citar…

Mas a maior bronca deles parece ser mesmo, ao contrário do que possamos imaginar, com os japoneses. Nessa, eles tem um pouco de razão, pois eles comeram o pão que o diabo amassou com o Japão. Os japoneses seguiram o mesmo “script” na Coréia do que seguiram na China. Levaram a cabo um programa de “japonização” da Coréia, proibindo a língua coreana, forçando os coreanos a aprender japonês, prisões em massa, sequestro de coreanas para servir como escravas sexuais de oficiais japoneses, utilização de prisioneiros coreanos em experimentos com armas químicas e biológicas e perversões diversas. Só não foram como os nazistas porque não jogavam corpos em fornos crematórios. Por isso a bronca deles ser bem maior com os japoneses. Os americanos eles até citam uma hora ou outra como imperialistas, mas nada que se compara com os japoneses.

Marcha soldado, cabeça de papel, se não marchar direito vai preso no quartel
(essa foto não é minha =P)
Teve até um poema que vimos em um museu, que eu achei bem interessante e importante citar. Ele conta como os coreanos devem ser: Ate as formigas podem derrubar um castelo quando se juntam e vão retirando pedaços da muralha devagarzinho. Uma formiga, sozinha, não é nada, mas quando todas trabalham em conjunto e começam de forma alguma elas podem ser vencidas. Exatamente como a Coréia deve ser em relação ao Japão Imperialista.

FESTAS E VIAGENS

Para viajar para fora do país, você precisa pedir permissão pra sua empresa, que pede permissão ao seu governo. Uma das nossas guias já havia ido para a china, mas só em uma cidade de fronteira e porque o seu pai é um homem de negócios. Diz ela que ficou extremamente impressionada com as luzes e o tanto de shoppings que havia por lá. Disse que nunca viu tanta fartura na vida dela. Lembrar que se a China já é um país pobre, imagina uma cidade de fronteira o quanto não deve ser.

Em um país onde racionamentos de comidas são comuns, perguntei para um dos guias como eles faziam quando queriam fazer uma festa. Ele me disse que cada um levava um pouco de comida e com isso eles celebravam e faziam a festa deles. Mais ou menos como eu já ouvi falar que pessoas de outros países comunistas, como Cuba, também fazem quando querem festejar algo, afinal, não podem esbanjar muita comida.

DAVID

Como já citei, o dono da empresa estava com a gente. Na verdade, na verdade, no melhor estilo Luís XIV, o David poderia dizer “A empresa sou eu”, já que a sua empresa era na sua casa e ele não tinha nenhum funcionário. Como eu disse, ele era bem engraçado e vez ou outra quando eu reclamava que o cronograma estava muito puxado e não sobrava tempo para dormimos, ele respondia:
– Tá reclamando que está dormindo pouco? Você não veio para Coréia do Norte para dormir, cara! Se vocês quisesse gastar 1000 euros pra poder dormir, era só ter me falado que eu te levava pra dormir na minha casa lá em Londres! Servia café e ainda botava minha mãe para tomar conta de você…
Monumento à unificação das Coreias. Sim, os norte coreanos querem isso

Ele contava para gente sobre as reuniões de negócios que fazia enquanto estávamos visitando os pontos turísticos. Diz que as reuniões na Coréia do Norte são bem engraçadas. Eles começam a reunião tomando um shot da cachaça coreana e depois continuam bebendo durante a reunião. Depois de umas duas horas ninguém ta mais falando nada com nada e ta todo mundo bêbado. Por isso, dizia ele, ele tinha que tentar ser rápido, afinal, o tempo em que todo mundo estava consciente para poder negociar algo era bem exíguo. Alguém consegue imaginar de que país eles receberam influência? É, a Rússia não deixou só gasolina subsidiada por lá.

Além do tour que estávamos realizando, o David organiza também um tipo de turismo muito bizarro. Chama-se Aviation Tour e consiste em basicamente levar  turistas para Coréia do Norte para poder voar em aviões da época da União Soviética que hoje só voam por lá. Não estamos falando de caças ou aviões supersônicos, estamos falando de aviões de passageiros mesmo, algo como alguém viajar para o Brasil só pra poder viajar naqueles Fokker 100 da TAM (que devem ser mais velhos que os aviões soviéticos que existem na Coréia). Acha que isso é bizarro e que pouquíssimas pessoas se dispõe a fazer isso? Pois só esse ano o David organizou quatro tours que foram rapidamente preenchidos. Ele falou que gosta desse tipo de tour porque as pessoas meio que já se conhecem (pô, não é todo mundo que tem um hobby bizarro desses, logo os caras meio que se conhecem pela internet) e fica um ambiente meio festivo no avião. Ele falou de um cara que gosta tanto desse passeio que veio nos quatro tours que ele organizou esse ano. Ele voou de Londres para cá especialmente para isso e depois voltou. Outro bem engraçado foi sobre um cara que estava no avião todo serelepe quando ele notou um pequeno detalhe em uma das asas do avião. Ele perguntou pro David qual era o avião e ele falou que era um BS-321-A, o cara diz que só faltou chorar “Ah! Eu achei que era uma BS-312-B. Eu voei num avião igual a esse aqui na década de 70” e ficou a viagem inteira olhando para o infinito e sem falar com mais ninguém, depressivo. Sim, pode ser bizarro como parece. Outra coisa que ele faz é deixar os passageiros visitarem o bagageiro do avião e o abre no meio do ar para que eles possam ficar batendo fotos. Diz que eles só faltam ter um orgasmo quando fazem isso. Pode parecer que é uma parada simples, mas diz que esse é um dos passeios mais complexos de se fazer, que tudo é tal cheio de detalhe que ate a forma que o avião pousa tem que ser especifica (virado para o pôr-do-sol para poder ficar melhor nas fotos).
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Um comentário em “Explanações e divagações de um maranhense

  1. Por isso que sempre vale aquela máxima sobre a vantagem da democracia. Não vai nunca garantir que os “melhores” (em qualquer aspecto ou visão) cheguem ao poder, mas evita que os piores permaneçam lá. Viver na Coreia do Norte pode até ser tranquilo uma vez que não te enfiam muitas expectativas e também não deixam tudo degringolar em abandono e violência, mas de vez em quando vem a enchente, ferra tudo, o seu lider não dá a mínima e você tem engolir esse sapo do tamanho da tragédia sem dar nenhum pio, e isso por décadas e décadas… Tomara que juntamente com o Kim-Jong-Il outros líderes respeitados da “realeza” morram logo e permitam que os mais jovens, como o sucessor, acabem cedendo em prol da abertura do país (desde que não seja o cada-um-por-sí da URSS também, que piorou tudo para depois melhorar parcialmente).

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