O culto à personalidade na Coreia do Norte e a influência da Guerra das Coreias (1950 – 1953) nisso

Vou pecar por ser prolixo, mas tenho que falar! Lá o culto a personalidade atingiu proporções nunca antes vistas.  Os grandes líderes são retratados como seres notáveis, parecem seres divinos, com poderes fantásticos e especiais e tudo que eles fazem ou já fizeram tem um caráter inacreditável. Assim como veneramos Jesus na religião católica por seus feitos sobre-humanos, vi um paralelo semelhante com as diversas histórias sobre os líderes.
Kim Il Sung e Kim Jong Il são quase o “Leonardo Da Vinci” das Coréias. Eles escreveram livros, filosofias, óperas, balés, dirigiram centenas de filmes, ensinaram agricultores a plantar, operários a trabalhar… Só parecem não ter ensinado como fazer dinheiro, pois, com sua renda per capita de meros 1400 dólares por ano, a Coréia do Norte está entre as dez piores rendas do planeta.
Para que ler outro autor se você pode ler apenas sobre os Kims? É impressionante como em todas as livrarias só havia livros deles. Aí fica fácil achar eles um gênio, não tem outro para comparar 😛
É lógico que a biografia dele não caberia em um só volume, né?  Uma vida guerreira merece MILHARES de volumes!!!

Diversas óperas escritas pelo Grande Líder

Todo ato deles é representado por quadros em museus. A casa que Kim Il Sung nasceu é um museu a céu aberto. Saímos da casa fomos tomar água no poço que ele tomava todos os dias.

Casa onde o Grande Líder nasceu, hoje um museu
Todo lugar que visitamos, eles citam “este lugar foi visitado sete vezes por Kim Il Sung!”, Kim Jong Il batizou esse lugar como “…”, andou no brinquedo do parque de diversões.
Só um parênteses. Você aí se achando todo pimpão porque andou em uma montanha-russa com quarenta loopings nos Estados Unidos. Grandes coisas. Quando estávamos lá no parque de diversões da Coréia, o guia perguntou se queríamos ir em um. Proposta indecente! Lógico! Fomos num brinquedo que no Maranhão costumávamos chamar de “Ranger”. Furamos uma fila de , literalmente, milhares de pessoas (estrangeiros não precisam pegar filas, aquela é a fila dos coreanos – falava o guia quando dizíamos que furar fila não era certo) e seguimos. Cara! Que emoção, viu? Quando demos o primeiro looping, o brinquedo fez um BARULHÃO e começou a se tremer! Manutenção não deve ser o forte da Coréia do Norte. Os gritos entoados depois desse barulho não foram de emoção! Foram pela vida! Mas estávamos seguros, antes do brinquedo começar a rodar, veio um dos carinhas do parque e deu um aperto, mas um APERTO, no cinto de segurança que saímos falando fino depois que descemos. Depois vê até onde vai esse cinto de segurança…
As minas piram no parque de diversões da Coreia do Norte
Voltando. Fatos fantásticos ocorreram em sua infância (Kim Il Sung, por exemplo, escreveu “Liberdade para a Coréia” quando ele tinha apenas quatro anos, sendo essas as primeiras palavras que ele aprendeu a escrever), quando criança, Kim Il Sung aprendeu do seu pai diversos ensinamentos sobre como seria a Coréia livre.
Pessoas nos mostravam orgulhosas quadros em que netos e filhos posavam com algum dos líderes (ainda que fosse um quadro com centenas de pessoas ao mesmo tempo).
Olha a felicidade da tia em nos mostrar que seu sobrinho tem uma foto com Kim Jong Il. Sim, ele e outros 150
Os guias contavam como o pai de Kim Il Sung, quando ele já estava bem doente e para morrer, virou pra mulher dele e fez um ultimo pedido. Pediu que ela entregasse o seu par de pistolas para Kim Il Sung para que ele pudesse com elas lutar pela indep da Coréia. Essas foram as primeiras armas do Exercito Revolucionário Coreano e são reverenciadas quase como o Cálice Sagrado dos cristãos.
Meu filho! Eu te entrego a Coréia! Faça o que quiser com ela! Reparem  nas armas sagradas na mão da  mãe. As armas em um vidro abaixo
As armas da Liberdade Coreana
Uma das primas de Kim Il Sung foi capturada pelos japoneses, torturada e por se recusar a dizer a localização do campo rebelde, teve os olhos arrancados pelos japoneses (sim, como falei, os japas eram hardcore). Apesar de tudo, antes de morrer ela disse: “Eu não posso ver nada, mas posso ver a liberdade da Coréia”.
Você fica injuriado porque uma outra rua no Brasil tem nome de um irmão ou filho de político? É porque não foi ainda não Coréia do Norte. Lá existe um “jardim dos mártires” para homenagear todos os heróis que lutaram por uma Coréia livre. Aí meu amigo, é primo do Kim Il Sung, irmão do Kim Jong Il, filho, a prima dos olhos arrancados, vizinho, o que você imaginar, tem gente sendo homenageado. A mãe preparou uma refeição para Kim Il Sung ir lutar? Então foi uma refeição revolucionária! Estátua para ela no jardim dos mártires!
Eles estão no ano 2012? Lógico que não, eles levam em consideração a história antes e depois do nascimento de Kim Il Sung, não parece lógico? Logo, estamos no ano 101 da era Juche (1912 é ano 1 e não ano 0, por isso ano 101 e não 100). Cara, você conseguem perceber o quanto isso é maluco? Até a contagem dos anos é diferente. Acho que é a primeira sociedade moderna que eu conheço que conta o tempo baseado na figura de um líder não-religioso, Kim Il Sung (os muçulmanos contam baseados em Maomé, nós baseados em Jesus Cristo). Como eu falei, eu não duvidaria se depois de alguns dias começassem a nos falar que um deles ressuscitava mortos, curava enfermos ou andava sobre as águas.
E lógico, pode faltar comida no país, mas apenas alguns meses depois da morte de Kim Jong Il, já havia uma gigantesca estátua de bronze ao lado da do seu pai em um dos principais pontos de Pyongyang.
É nóis na Coreia!
Falando sobre essas estátuas, tudo era cheio de frescura. Você tinha que demonstrar respeito, não podia fazer isso, não podia fazer aquilo, não podia bater foto de um jeito, não podia bater foto de outro, mas, principalmente, não podia bater foto dos pés da estátua. E isso, eles falavam de dez em dez minutos! Isso era realmente um assunto sério, cara! Como de uma forma ou de outra queria ir contra o sistema, rage against the machine, deixar voar o meu espírito Che Guevara, saí batendo várias fotos dos pés das estátuas! Fuck the police!! Sei que pode parecer pouco para você, mas me senti satisfeito de deixar o meu espírito transgressor fluir, nem que fosse por um pouquinho… E o medo de eles checarem as fotos da minha máquina na fronteira… rapaz…
Essa foto quase me custou a cabeça. Clique na foto e veja o que eu deixei escrito no livro de visitas de um museu da Coréia do Norte. Cem anos depois, isso estará arquivado como o dia em que um maranhense arriscou a sua vida para deixar uma marca no mundo mágico de Kim Il Sung!!! HUÁ HUÁ HUÁ! Depois o guia não pediu para eu falar em inglês o que havia escrito para ele transcrever em coreano? Rapaz, pense num menino que deu um frio na espinha inventando uma frase “adorei, gostei muito” e tendo que repetir sem gagejar?
Essa já foi mais de boa
Vi uma vez uma guia contando a alguns viajantes que certo dia um estrangeiro perguntou a um menino na rua se ele sabia quantos pesava aquela estátua de bronze de Kim Il Sung. Ele respondeu:
– Lógico que eu sei quanto pesa essa estátua, estrangeiro.
Vamos lá, todo mundo faz fila, prestem reverência!! Toda estátua era assim!
– E quanto pesa – perguntou o pedante estrangeiro.
– Muito simples, caro amigo estrangeiro, essa estátua pesa o mesmo tanto que todos os corações de todos os coreanos somados.
Às vezes é melhor ficar calado…
Esse buquê de flores custou quase uma semana de alimentação, mas vale pelo grande líder!
Acho que dá mais ou menos para perceber o quanto é essa histeria em relação a isso.

Fico olhando aquilo tudo de longe, como eles parecem acreditar naquilo e como parecem felizes em viver aquela realidade e me sinto como um antropólogo que adentra em uma tribo indígena e não pode de forma alguma influenciar o modo de vida deles mesmo sabendo que pequenas adaptações no cotidiano poderiam melhorar e muito a vida deles. A diferença é que o antropólogo não fala nada por causa do seu trabalho, eu não faço nada por causa do meu pescoço. Pior que a gente fica meio que com um grito por dentro, com as palavras entaladas na garganta sem poder falar nada. As vezes da vontade de falar pro guia um pouco mais da verdade, mas pode ser perigoso. Na verdade, as vezes dá vontade de agarrá-lo pelo pescoço e gritar:

Enquanto no Rio de Janeiro todo mundo quer ter uma casa com visto para o Cristo, na Coréia do Norte, todo mundo deve querer ter uma casa com vista para alguma estátua dos Kims!
– “Tudo isso que você está falando é lixo! Kim Il Sung é um facínora que condena o próprio povo dele a morrer de inanição! Este país é uma prisão! Sabe essa idiotice que dizem para você sobre a Coréia do Sul? A Coréia do Sul é um dos países mais ricos do mundo, logo, logo será mais rico que o Japão e eles são basicamente como vocês! Mesma língua, mesma carga genética, mesmos antepassados! Vocês não são livres, não são ricos e não são prósperos! Vocês são apenas uns pobres coitados e todos os turistas que vem visitar esse país, inclusive eu, o vem apenas por um prazer sádico de saber como Kim Il Sung aprisiona vocês no dia a dia.”
Mas como pensei, é melhor ficar calado e voltar com seu pescoço inteiro.
Fico pensando que um dia quando toda essa merda acabar eles vão ficar impressionados como é o mundo lá fora! Como todo esse mundo mágico que Kim Il Sung criou não passa de uma grande baboseira. Fico imaginando a cara deles que nem a cara dos alemães orientais naquela cena do filme “Adeus Lenin” vendo pornografia americana.

OK, VAMOS COLOCAR UM POUCO DE PINGO NO “I”?

Aula de inglês em uma escola de Pyongyang. Bandeira dos Estados Unidos ao fundo? Lógico que não! Retratos dos Kims!
Cara, apesar de ser um dos países mais pobres do mundo, não era difícil achar carros de luxo como esses por todos os cantos

Apesar de tudo, é preciso tentar entender sem julgar. É preciso tentar entender que a Coréia do Norte é um país de história muito sofrida. Eles sofreram durante diversas tentativas de “japonização”, prisões em massa, sequestro de coreanas para servir como escravas sexuais de oficiais japoneses, utilização de prisioneiros coreanos em experimentos com armas químicas e biológicas e perversões diversas dos japoneses até o fim da Segunda Guerra Mundial. Cinco anos após o fim da Segunda Guerra, 1950, quando o mundo inteiro estava em paz, ocorreu a “guerra esquecida”, a guerra da Coréia, que quase ninguém lembra, mas foi tão fratricida que quase levou a uma Terceira Guerra Mundial.

Mais um mural a caminho! Lógico, louvando a mais um Kim

GUERRA DA COREIA – VAMOS ENTENDER UM POUCO?

Para quem não sabe, a Coréia era um país unificado quando foi invadido e colonizado pelo Japão. Após a Segunda Guerra Mundial, quando os Estados Unidos estavam para conquistar a Península Coreana, a Rússia e a China intervieram e ocuparam a parte norte da Península, implementando um país satélite assim como havia sido feito na Alemanha Oriental e no Vietnã do Norte (que também foi dividido em dois). A China não queria tropas americanas bem na sua fronteira, tampouco a Rússia, portanto criaram a Coréia do Norte. Após o fim da Segunda Guerra Mundial, essas duas Coréias ficaram em pé de guerra. A Guerra da Coréia começou quando, quando… basicamente quando eles saíram de ameaças de invasões para ação e o pau começou a quebrar. Os EUA dizem que a Coréia do Norte começou, a Coréia do Norte diz que a Coréia do Sul começou e não temos consenso. De qualquer forma, em uma região de conflito como aquela, com várias trocas de ameaças e escaramuças é difícil saber de que lado estava o estagiário que deu o primeiro tiro.  É mais ou menos aquela cena quando a mãe pergunta pros dois irmãos quem começou e os dois ficam gritando: – “Foi ele, mãe, foi ele!”, ela perde a paciência e senta a mão nos dois.

A Coréia do Norte partiu pro pau e quase reunificou a península coreana (ou libertou os coreanos do sul como diz o guia), 90% da península ficou sob o seu poder. Quando os EUA viram que iam perder um aliado estratégico, entraram com tudo na guerra, com ajuda de tropas da ONU e foram levando as tropas do Norte de volta até quase a fronteira na China. Quando a China viu que ia perder o seu satélite, adivinha o que ocorreu. Sim. Ela levou o caminhão de cream cracker para fronteira e saiu distribuindo bolacha pra todo lado. Entrou com tudo na guerra (e imagina o que é guerrear na fronteira do país de maior exército do mundo), com apoio da mãe Rússia e aí o pau comeu de vez. O pau foi comendo, as tropas americanas foram recuando e quando o pau realmente ficou sério, com os dois lados ameaçando usar armas nucleares, todo mundo pediu “júri-juri” e a turma do deixa-disso entrou em ação. Assinaram um cessar fogo e por um momento a guerra cessou. Resultado da guerra? Um milhão de coreanos mortos e as fronteiras EXATAMENTE no mesmo lugar de antes. Um milhão de vidas ceifadas de graça.
Importante citar que, como falei, não foi assinado um tratado de paz e sim um cessar-fogo. E faz diferença? Sim, faz TODA diferença. Um cessar-fogo diz basicamente “vamos parar de se matar por um instante e tentar conversar para chegar a um acordo para acabar a guerra”, porém ele não TERMINA a guerra. Portanto, tecnicamente as duas Coréias ainda estão em guerra. Isso pode parecer bobagem para a gente, mas para um país extremamente fechado e paranoico ter uma declaração de guerra assinada contra ele até hoje faz muita diferença. Por essas e outra que a Coréia do Norte tem hoje o quarto maior exército do mundo (maior do que o de países como Brasil, Alemanha…), sendo formado basicamente por tropas mal treinadas e mal alimentadas. Apenas carne humana segurando um rifle.
E vamos lá! Ensaiando pro titio Kim!
Bem, porque eu me alonguei tanto? Alonguei-me para que seja possível entender como funciona a cabeça de um coreano. Pombas, o país ficou sendo destruído e massacrado (Pyongyang foi reduzida a cinzas várias vezes durante a guerra) e de repente, PIMBA!, cinquenta anos de relativa paz, “prosperidade” e ”respeito internacional”. Tudo isso por causa dos incansáveis esforços dos grandes líderes que trabalham incansavelmente para que todo coreano possa viver em paz (Kim Jong Il inclusive só aparecia em público com roupas militares para representar que ele sempre estava no front “lutando” por uma Coréia melhor). Adicione isso em um país extremamente fechado, com pouquíssima informação entrando de fora e a um rígido controle educacional e da mídia e, pronto, está feito o culto a personalidade de um Grande Líder.
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4 comentários em “O culto à personalidade na Coreia do Norte e a influência da Guerra das Coreias (1950 – 1953) nisso

  1. Nossa, muito bom o post! Mas novamente muitas das fotos não é possível ampliar, fiquei muito curioso (mas muito mesmo) para saber o que você deixou escrito no livro de visitas, como não dá para ampliar não conseguir ler uma palavra! Muito bom o post de qualquer forma, muito bom o blog!

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  2. Ótimo post, um dos melhores que já li nesse blog. Parabéns! Também não consegui ler o que você deixou escrito. Se eu fosse vc, ao voltar pra Brasília, tentaria me mudar, quem sabe até de cidade ou país. Os caras tem teu endereço e vc deixou mensagens subversivas. Queremos que o blog continue.

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  3. Lembram daquele xororô histérico com a morte do Deng? Todo mundo ficou se perguntando se era autêntico ou se as pessoas estavam encenando.

    Autêntico como uma mãe que perde um filho não é, mas sim autêntico como aquele sentimento coletivo que atinge qualquer pessoa no meio de uma multidão igual (uma festona, uma torcida de futebol, um culto evangelico, um enterro…).

    Pois é, um enterro, onde o sentimento padrão era chorar, da mesma forma que nossa sociedade e cultura também nos condiciona a ter certos sentimento.

    A Coréia é um prato cheio para antropólogos. Tomara que eles mudem, mas com a menor imposição externa possível.

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