Ramadã na Argélia e as batatas maconheiras

Cheguei no começo do Ramadã, o mês sagrado dos islâmicos. Para quem não conhece, o Ramadã é um período de trinta dias onde eles não comem nada nem bebem água entre o nascer e o pôr-do-sol. O Mohamed e a família dele cumpriam esse jejum, apesar de não serem tão religiosos. Ele me explicou que hoje na Argélia as pessoas jejuam mais por uma questão cultural do que religiosa, o mesmo que haviam me dito na Tunísia, que é um país mais liberal. Ele mesmo não era um cara religioso, mas dizia que fazer aquilo era o que fazia se sentir argelino. Dizia que alguns argelinos até mesmo jejuavam durante o dia e bebiam cerveja a noite, ou seja, o jejum era só por uma questão mesmo de participar de um grande costume do seu país. Durante o Ramadan, TODOS os restaurantes fecham (não pude ver nenhum aberto) durante o dia e só abrem a noite. Os horários de trabalho são reduzidos, já que as pessoas não têm horário de almoço, então todos entram as oito e saem as quatro.
Eles tomam “café da manhã” as três e meia da manhã, porque, conforme falei, eles tem que fazer isso antes da alvorada, que no verão começava as quatro da manhã. Isso significava que eles acordavam as três e meia da manhã, enchiam o bucho e voltavam a dormir depois. Eles “almoçavam” as oito da noite. Eu não tomava café as três da manhã como eles faziam, mas também comia bastante ao acordar e depois só comia a noite, já que durante o dia não tinha nenhum restaurante ou lanchonete aberto mesmo e quando chegava em casa próximo as oito “almoçava” com eles.
Verdade seja dita, o sol castigando a galera na rua e não vi ninguém nem com garrafa d´água na mão. Fico imaginando a galera que faz trabalho braçal, como fica. Mohamed me falou que no final você acaba se acostumando e que não existe felicidade maior do que quando você terminar o Ramadã fazendo tudo certinho e com o sentimento de dever cumprido.
Como tudo é fechado durante o dia, a noite do Ramadã é uma grande festa, os restaurantes abrem e todo mundo fica na rua até tarde se divertindo. Até mesmo os metrôs, ônibus e etc. funcionam até mais tarde para todos poderem festejar. O dia é meio que morno e é durante a noite que as pessoas realmente vivem. Bicho, senti como se fosse um Natal que durasse um mês.
Mohamed disse que as crianças não jejuam e que estava um pouco preocupado com o filho mais velho dele, de 15 anos. Ele estava começando ainda a jejuar e vez ou outra ainda sentia sede e, portanto, bebia água algumas vezes durante o dia. Mohamed estava preocupado sobre como o filho dele iria se sentir frente aos colegas, já que todos jejuavam. Eu falei que, uai, era só ele beber água vez ou outra e não falar para ninguém, ao passo que Mohamed me falou que a preocupação dele não era o que iriam falar do menino, mentir que está jejuando qualquer um pode fazer, mas o menino se sentir mal por não conseguir jejuar como todos fazem.  Não se sentir capaz e não se sentir parte do grupo. É mais uma questão de cobrança de si mesmo e auto afirmação. Muito louco isso.
No final Mohamed me pediu apenas para não comer e não beber nada na rua e, se o fizesse, que fosse escondido para não desrespeitar as pessoas que estavam jejuando. Fiquei meio que clandestino na casa dele, um cristão que comia durante o dia! No começo eu achava que ia acordar as três da manhã tambem, já que dormia na sala, mas eles, para não me acordar, tomavam café na cozinha.
Eu já tinha tido uma experiência semelhante na Síria (veja o post aqui), mas nunca uma experiência como essa de realmente me importar em não comer na rua. Teve um dia que eu não aguentei de fome e acabei comprando uma batatas chips Pringles no supermercado. Cara, sério, para comer aquilo eu fui a um parque, me escondi lá no fundo e comi como se fosse a melhor refeição do planeta. MY PRECIOUS. Na verdade me senti como se estivesse fumando maconha no meio da rua.
Confesso que fiquei meio que contagiado por aquilo tudo e fiz o meu “mini-Ramadã”. Tirando esse episódio das “batatas chips maconheiras”, eu realmente não comia nada entre o café da manhã e o almoço da noite, só tomava água, porque isso eu não consigo abrir mão. Foram três dias só, mas, sei lá, é difícil explicar, me senti por três dias realmente fazendo parte de uma grande corrente social que é o jejum do Ramadã na Argélia.
Tava tendo uma filmagem de um filme enquanto eu passeava no Jardim
Pedi para um figura bater uma foto minha na fonte do Jardim. Compare com a foto no topo! Abaixo, eu e o fotógrafo!
Metrô em Argel
Emaranhado de árvores no jardim
Se liga em quem tá construindo o metrô de Argel. A Andrade Gutierrez, empresa brasileira!
Jardin Botanique du Hamma, jardim botânico no centro de Argel construído em 1832 e um dos mais importantes do mundo
Gostou do post? Então curta nossa página no www.facebook.com/omundonumamochila para sempre receber atualizações.
Quer entrar em contato direto com o autor ou comprar um livro? Clique aqui e tenha acesso ao nosso formulário de contato!
Quer receber as atualizações direto no seu e-mail? Cadastre-se na nossa mala direta clicando na caixa “Quero Receber” na direita do blog
Se gostou das fotos, visite e siga nosso Instagram para sempre receber fotos e causos de viagens: www.instagram.com/omundonumamochila

Um comentário em “Ramadã na Argélia e as batatas maconheiras

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s