CAPOEIRA EM MINSK, BELARUS

Um dos países os quais eu estava mais curioso e com vontade de conhecer algum instrutor de capoeira era a Bielorússia. Entre outros motivos, o fato do país ser um país fechado onde há menos de uma década atrás nem existia embaixada brasileira.

Marquei de encontrar com a Mila, batizada como instrutora Gata, no local onde ela iria dar a sua aula. De início já me chamou a atenção pelo fato de ser estrangeira (até aí tudo bem, o instrutor do Irã também era, confira sua história clicando aqui), mas principalmente pelo fato dela ser uma instrutorA. Todos os instrutores, mestres, de capoeira os quais eu conheci no Brasil (e até o momento viajando e conversando com capoeiristas pelo mundo) eram todos homens. Mila, seria a primeira mulher.

Cheguei ao local combinado e foi até um tanto quanto simples de achar, haja vista que próximo havia um grafite gigantesco feito por um grafiteiro brasileiro. Inicialmente houve um pré-treino de música onde eu cheguei até a participar (apesar de ficar morrendo de vergonha, pois nunca fui muito bom com instrumentos de percussão). Depois houve a aula e só assim podemos conversar.

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Mila, com o berimbau, no meio da aula de música com os alunos

A história da Mila com a capoeira se iniciou há treze anos atrás com uma amiga sua que começou a treinar quando morava na Alemanha fazendo um intercâmbio. Quando ela voltou para Belarus, começou a praticar com a Mila que se apaixonou pela capoeira. Inicialmente elas treinavam só entre elas, por meio do que a menina aprendeu na Alemanha e assistindo alguns vídeos na internet. Ainda era época da Bielorússia, exigia-se visto para brasileiros e tudo era muito complicado. Ainda assim ela passou um bom tempo buscando um professor de português em Minsk para poder aprender nossa língua, até porque tinha curiosidade de saber o que diziam as músicas e cantigas de capoeira os quais treinava. No início foi bem difícil para ela aprender e falar português, a língua é bem diferente do russo, no começo ela se comunicava com as pessoas lembrando das palavras que havia aprendido nas cantigas de capoeira, porém hoje fala um português próximo do perfeito, enquanto conversava comigo não errava nem as conjugações verbais.

Depois de um tempo, Mila e amiga tiveram conhecimento de um professor que dava aulas na Polônia, o Mestre Museu, e que concordou em abrir uma escola, a FICAG em 2004 em Minsk. Elas chegaram a fazer algumas vaquinhas e começaram a trazer professores que davam aula pela Europa para poder fazer alguns workshops em Minsk. Depois de algum tempo, dez anos atrás, estava criada a escola e os alunos começaram a chegar. Hoje professores vêm uma vez por ano para batizados e entregas de cordas.

Mais uma vez, no início a capoeira causou alguma estranheza pois era algo bem diferente de qualquer coisa que havia em Minsk. Tentavam fazer rodas nas ruas ou nos parques e devido a música e aos cânticos, a polícia desmanchava a roda alegando que teoricamente eles deveriam ter autorização para poder fazer eventos nas ruas, mais uma vez, semelhante ao ocorrido com o professor do Irã, apesar de nunca ninguém ter sido preso como no país persa.

Depois de algum tempo dando aulas de capoeira, decidiram aumentar um pouco mais os horizontes e iniciaram também a fazer eventos de divulgação da cultura brasileira (como aulas e eventos de samba, forró, batucada…) antes mesmo da chegada da Embaixada do Brasil na Bielorússia iniciar esse tipo de trabalho. Isso é mais um exemplo de algo que ocorre com diversas escolas de capoeira os quais pude conhecer viajando. A capoeira deixa de ser apenas uma arte marcial para se tornar um pólo de exportação e divulgação da cultura brasileira em nível global. Iniciaram a organizar um evento o qual chama-se “vulica Brasil” (ou “rua Brasil”, em português).

Este evento, por si só, é algo que vi ser um dos principais orgulhos da Mila. Antes de fazer esse evento, ela entrou em contato com os grafiteiros brasileiros “Gêmeos” famosos e mundialmente conhecidos. Disse que entrou em contato com eles por e-mail mesmo, explicou o projeto, o que era a Bielorrússia e eles adoraram a proposta. Viajaram a Minsk e fizeram alguns grafites, o que foi algo revolucionário, já que, mais uma vez, o país ainda estava se abrindo e a cidade era toda cinza. Hoje eles participam sempre que podem do Vulica Brasil principalmente como curadores dos grafites. O último Vulica Brasil, segundo as contas dela, teve participação de quase 100.000 em uma festa que durou, literalmente, 24 horas.

Hoje o principal trabalho da Mila é todo relacionado ao Brasil. Além das aulas de capoeira, ela trabalha na Embaixada Brasileira na Bielorússia e inclusive já viajou algumas vezes ao Brasil, já visitou os Estados de São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais, Espírito Santo, Distrito Federal, Pernambuco e Bahia, ou seja, mais estados que muitos brasileiros. Sim, eu sei que você reparou, ela ainda não viajou ao Maranhão, mas eu fiz o meu melhor para convencê-la a visitar lá, ao menos os Lençóis Maranhenses.

Ela acredita que já tenha passado pelo seu grupo mais de 1.000 alunos e quase todos os instrutores que hoje dão aula na Bielorússia, são bielorussos e um dia passaram pela escola dela.

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Assinatura em grafite dos gêmeos

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Grafite dos Gêmeos na Embaixada do Brasil
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