A primeira coisa que eu tenho que dizer é que, se na viagem Zâmbia/Zimbábue eu tive uma maré absurda de sorte, em Botsuana foi exatamente o oposto. Impressionante como absolutamente tudo resolveu dar errado ao mesmo tempo. Nada sério, nada envolvendo saúde ou segurança — graças a Deus — mas todo o resto parece que entrou num complô pessoal. Depois eu vou detalhar essa novela, mas já adianto: foi um festival de azar.


Inicialmente, meus planos para Botsuana eram simples: visitar só a capital, Gaborone. Mas quando eu estava montando o roteiro para Zâmbia/Zimbábue, descobri que dava para fazer um bate e volta, um passeio de um dia, de Livingstone até Kasane, em Botsuana, para conhecer o famoso Parque Nacional de Chobe. Pensei: “Uai, é agora!”. E paguei pelo day tour. Antes de contar como esse passeio virou uma comédia de erros, deixa eu explicar um pouco da história de Botsuana — porque esse país é bem mais interessante do que parece no mapa.
Botsuana: o país africano que transformou tradição, política e diamantes em estabilidade

A história moderna de Botsuana começa com a chegada dos britânicos no final do século XIX, quando o território passou a ser administrado como o Protetorado de Bechuanalândia. Nessa fase crucial, três líderes locais — Khama III, Sebele I e Bathoen I — enxergaram o risco de serem anexados pela Rodésia de Cecil Rhodes (hoje Zimbábue), que avançava agressivamente pela região. Os três viajaram até Londres e conseguiram convencer a Coroa britânica a manter Botsuana como protetorado separado, evitando que suas terras fossem tomadas. Essa negociação foi decisiva para o futuro do país e hoje é lembrada no Monumento aos Três Chefes, em Gaborone, que simboliza coragem política e visão estratégica.



Botsuana conquistou sua independência em 1966 e deu início a uma trajetória singular no continente africano. Ao contrário de muitos países vizinhos, que enfrentaram golpes militares, guerras civis e ditaduras logo após a saída dos colonizadores, Botsuana adotou uma democracia estável desde o primeiro dia. O país era pobre, praticamente sem infraestrutura, mas possuía algo raro: uma liderança pragmática, comprometida e com visão de longo prazo. O primeiro presidente, Seretse Khama — neto de Khama III — combinou tradição local com governança moderna, criando instituições sólidas e um ambiente político que valorizava consenso em vez de confronto.

Além disso, Botsuana investiu os recursos dos diamantes em escolas e universidades e mandou estudantes estudarem na Europa. Quando eles voltaram, eles já eram engenheiros, médicos, administradores públicos, criando uma forte classe média negra que é raro você ver em outros países subsaarianos.

O resultado dessa combinação foi extraordinário. Botsuana se tornou um dos países mais estáveis e bem administrados da África, com crescimento econômico consistente, baixa corrupção e serviços públicos que funcionam melhor do que a média regional. A descoberta e o uso responsável dos diamantes impulsionaram o desenvolvimento, mas não criaram a dependência predatória que arruinou outros países. Hoje, Botsuana é considerado um modelo de democracia africana: segura, previsível e com instituições fortes. Para quem visita a região, a diferença é nítida — é um país que escolheu o caminho da estabilidade e colhe os frutos até hoje.

As etnias de Botsuana formam um mosaico cultural organizado em torno de grupos conhecidos como Tswana (ou Batswana), que deram origem ao nome do país. Esses grupos são divididos em chefias tradicionais que ainda hoje têm influência política e social, mesmo dentro da estrutura moderna do Estado. Cada etnia possui seu kgosi (chefe), responsável por decisões comunitárias, resolução de conflitos e pela manutenção de tradições. Apesar das diferenças entre os grupos, existe uma identidade coletiva forte e valores compartilhados, elementos que ajudaram Botsuana a manter estabilidade política desde a independência.
O clima do país é semiárido, com longos períodos de seca, solos pobres e chuvas imprevisíveis. Nesse contexto, a água sempre foi um recurso extremamente valioso, essencial para o gado e para a vida no deserto do Kalahari. É por isso que a palavra “pula”, que significa literalmente chuva, se tornou tão simbólica a ponto de virar o nome da moeda nacional. Isso faz lembrar que cada gota conta. Eu só não vi esse semiárido todo que falaram, porque eu não consegui lavar a roupa quando estive por lá do tanto que choveu todos os dias e não ia ter como secar.
Safári no Chobe: a parte épica, a parte frustrante e a parte engraçada

Como eu já estava na Zâmbia e existia um bate-volta bem famoso até o Parque Nacional de Chobe, em Botsuana, pensei: por que não? Chobe é um dos parques mais conhecidos da África — criado em 1968, tem quase 12 mil km² e abriga a maior concentração de elefantes do continente, mais de 100 mil vivendo soltos. O rio Chobe corta o parque garantindo água o ano todo, e por isso atrai de tudo: búfalos, hipopótamos, girafas, crocodilos e uma infinidade de aves. Tem o combo completo: safári terrestre de manhã, safári de barco à tarde. Clássico.

O day tour funciona assim: sete da manhã a van já está buzinando na porta da sua pousada em Livingstone. Te levam até a fronteira com Botsuana, você carimba saída, carimba entrada, troca de carro e pronto — já começa o safári terrestre. A promessa era épica: centenas, milhares de elefantes caminhando a centímetros do carro. O guia falava como se fosse quase um tsunami cinzento andando pela savana. A expectativa era grande.

Quantos elefantes eu vi? 100 mil? 1.000? 100?
ZERO.
Cara, acredita nisso? Me venderam o apocalipse elefantídeo e eu não vi um único elefante. Depois descobri que, nessa época do ano, ainda restam várias lagoas pelo parque por causa das chuvas, então os bichos ficam dentro da mata, escondidos, sem precisar ir até o rio beber água.

Claudiomar triste.
O safári até começou promissor: em cinco minutos encontramos um leopardo no topo de uma árvore com sua refeição — um antílope recém-abatido pendurado ali como um troféu. O bicho estava deitado no galho como se fosse a melhor rede do mundo. Pensei: se começou assim, imagina o resto. Mas não teve resto. Depois disso, vimos alguns búfalos, uns antílopes tímidos e… nada. O safári ficou tão parado que eu literalmente dormi no carro. Claudiomar triste, novamente.

À tarde veio o famoso safári de barco no rio Chobe, o mais esperado do passeio. Ali é o momento em que, teoricamente, os elefantes atravessam o rio, os hipopótamos brigam na água e os crocodilos ficam à espreita. E… adivinha? Zero elefantes de novo. Pelo menos hipopótamos e búfalos apareceram em quantidade, e conseguimos ver uns dois crocodilos sem graça.





Foi melhor que nada. Interessante é que o rio delimita a fronteira entre a Namíbia e Bostuana. No lado de Botsuana é um parque, não pode plantar, criar animal, pescar… no lado da Namíbia… bem… dane-se. A gente passava de barco e via os bois pastando na margem do rio e um vaqueiro espantando eles da margem para eles não serem comidos por crocodilos.



A única parte realmente engraçada foi uma menina que, toda vez que aparecia um animal, se agarrava no namorado como se o leopardo fosse pular dentro do barco. Pensei: deve ser americana, sueca, suíça… Não. Era a única menina zambiana do barco. A ironia da vida.

No fim do dia voltamos pra Livingstone. Foi legal? Olha… acho que fiquei mais animado por ter passado pela minha primeira quádrupla fronteira (Namíbia, Botsuana, Zimbábue e Zâmbia ao mesmo tempo) do que pelos próprios animais. Hipopótamos eu já tinha visto indo pra Piscina do Diabo, crocodilo eu já vi aos montes no Pantanal… então digamos que foi frustrante.
Mas pelo menos não choveu nenhum dia e consegui fazer tudo o que tinha programado nessa viagem maluca.
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