Viagem ao Malawi – Perambulando por Lilongwe: quando a capital parece uma cidade sem centro

Cara, por mais que eu tenha tentado encontrar alguma coisa realmente interessante para fazer em Lilongwe, vou te dizer… foi difícil, viu? Mesmo assim fiz meu roteirinho e saí andando pela cidade para ver o que dava.

A primeira parada foi o Lilongwe Wildlife Centre, o principal santuário de vida selvagem do Malawi e um dos projetos de conservação mais importantes da África Oriental. O centro fica bem no meio da capital e funciona como hospital, creche e casa de recuperação para animais vítimas de tráfico, armadilhas ou maus-tratos. Já passaram por lá pangolins, macacos, cervos, aves e todo tipo de bicho que o ser humano dá um jeito de maltratar.

Eles tratam, reabilitam e, quando possível, devolvem os animais à natureza. Também fazem um trabalho bem forte de educação ambiental com escolas e visitantes. Eu fui achando que seria algo meio sem graça, mas acabei gostando bastante — especialmente pelos macacos soltos andando entre a gente, inclusive o lendário macaco da bola azul. Sim, ele mesmo. Tava lá, pleno. Infelizmente não consegui tirar uma foto que fizesse jus às… bem… às azuis dele.

Imagem da internet
Mensagem bem simpática do tipo “Não acaricie um jacaré!!!!”

Depois disso, continuei perambulando pela cidade tentando achar algo para ver ou fotografar. Cara… complicado. Ainda bati foto do Banco Central, de uns prédios governamentais, mas nada que valesse escrever um “uau”. De qualquer forma, eu estava a caminho do ponto que, teoricamente, era o mais famoso da cidade: o Memorial da Primeira Guerra Mundial.

O memorial foi construído pelos britânicos durante o período colonial para homenagear os soldados africanos que lutaram na Campanha da África Oriental ao lado do Exército Britânico — muitos deles do King’s African Rifles, uma tropa formada majoritariamente por povos da região. Sim, teve malawiano lutando contra tropas alemãs em território que hoje é Tanzânia, Moçambique e Malawi. A estrutura permanece até hoje não só por ser herança colonial, mas porque representa um capítulo importante — e pouquíssimo falado — da história do país: milhares de africanos foram enviados para uma guerra que não era deles, mas cujas consequências atingiram profundamente o continente. Além disso, o memorial tem umas das maiores torres do Malawi, então teoricamente daria para ver Lilongwe inteira lá de cima.

Pus no Google Maps e fui. Rapaz… de repente as construções começaram a sumir, o asfalto acabou e me vi cada vez mais cercado por mato, mato e mais mato. Fui ao memorial achando que era no centro — e… era no meio do nada.

Se liga onde ficava o memorial

Para ajudar, começou a chover. Quando tentei subir as escadarias, estavam fechadas com cadeado. Aí surge um sujeito sorridente do nada dizendo que, se eu desse uma “gorjeta”, ele abria. Mano, os caras trancam de propósito só para arrancar uns trocados de quem aparece. Fui ver o livro de visitas: quase quatro da tarde e eu era o único turista do dia. Vida que segue. Subi assim mesmo e, chegando no topo, descobri que não dava para ver quase nada, porque a cidade fica longe do memorial.

Único visitante do dia

O “guia” me contou que a maioria dos turistas que visitam ali são do Quênia, da África do Sul e… da Malásia. Sim, Malásia, lá do outro lado do mundo. Vai entender.

Vista de Lilongwe. Cara, o memorial é realmente no meio do nada

Quando comecei a descer, tava reparando na fiação exposta que parecia ter sido instalada durante a própria Primeira Guerra. Eu já estava com medo de levar um choque quando, de repente, vi um clarão enorme. Pensei: “eita, curto-circuito!”. Nada disso: era um raio, que caiu quase do nosso lado. Foi aí que eu concluí que meu dia já tinha dado tudo o que tinha para dar. Peguei um táxi todo molhado e voltei para o Airbnb que, sim, obviamente, continuava sem energia quando cheguei.

O Malawi funciona… mas continua pobre: entendendo essa contradição

O Malawi é um caso curioso porque, ao mesmo tempo em que é um país extremamente pobre, ele também é surpreendentemente organizado em alguns aspectos. Tem bolsa de valores, instituições relativamente estáveis, um governo que funciona e um ambiente político previsível — o que, convenhamos, já coloca o país na frente de muito vizinho. À primeira vista, parece contraditório: como um país com mercado financeiro, sistema bancário razoável e estabilidade continua entre os mais pobres do mundo? A explicação está, basicamente, na economia. O Malawi não tem saída para o mar, tem pouca indústria, depende pesadamente da agricultura de subsistência e vive sofrendo com eventos climáticos, especialmente secas e enchentes. A estabilidade evita o caos institucional, mas não gera riqueza — e o país simplesmente não tem motores suficientes para crescer.

Essa contradição aparece claramente no dia a dia. Como eu já tinha percebido na prática, a vida no Malawi é marcada por apagões intermináveis, que param restaurantes, hotéis, comércio, hospitais — tudo. E a própria capital, Lilongwe, representa bem essa mistura de ordem com precariedade: é uma cidade espalhadíssima, com bairros distantes, poucas áreas densas e praticamente sem “centro”. Você passa mais tempo cruzando estradas vazias do que caminhando de um bairro ao outro. Parece que você está atravessando várias pequenas cidades em vez de uma capital de verdade. A estabilidade existe no papel, mas ainda não virou desenvolvimento — e o Malawi fica preso exatamente nesse limbo.

Quando eu tentava encontrar alguma atração turística para visitar, cara… complicado. As pessoas são gentis, acolhedoras — o país não tem o apelido de “Warm Heart of Africa” à toa — mas realmente não tem muita coisa para ver na capital. Todo mundo fala maravilhas do Lago Malawi, mas eu via as fotos e parecia… um lago normal. Nada de um Titicaca boliviano. Além de ser relativamente difícil chegar até ele. Então desisti de inventar moda e fiquei pela capital mesmo. Pela capital sem luz, diga-se.

Uma curiosidade foi quando eu estava indo embora no aeroporto. O cara do raio-X me perguntou de onde eu era. Eu falei que era do Brasil, esperando aquele bingo de sempre — Ronaldinho, Rivaldo, Neymar, essas coisas. Nada disso. O cara abriu um sorriso e perguntou: “País do Bolsonaro?”. Vocês que gostam de político, me falem se isso é bom ou ruim.

Mas, sinceramente, a pior parte da viagem não foi o apagão eterno, nem o memorial no meio do nada, nem a ausência de Uber. Foi o fato de que o Malawi virtualmente não tem Coca Zero. Mano… eu não bebo álcool, não tomo refrigerante com açúcar e evito doce. Me sobra o quê? Coca Zero. E ela simplesmente… não existia.

O tanto de dinheiros que uma simples nota de 10 dólares comprava

Aí sim, meu amigo, aí foi sofrimento real.

= (

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Viagem ao Malawi: pobreza extrema, apagões constantes, coca zero inexistente e um país que tenta funcionar

O Malawi sim, foi um país que eu só decidi visitar porque eu já tava pela região. Nunca tinha ouvido falar em qualquer coisa referente ao país e na verdade vez ou outra eu pegava me confundindo dizendo que eu ia viajar pro Mali e não pro Malawi. As passagens aéreas para lá era bem complicadas, mas acabei conseguindo achar algumas razoáveis com conexões na África do Sul. Depois que eu fui descobrir que o Malawi é o sétimo país mais pobre do mundo. A título de comparação, o Brasil tem uma renda per capita quase 15x maior que a do Malawi e a própria Zâmbia, que eu achei muito pobre, tem 3x mais renda per capita do que o Malawi.

A título de curiosidade, teve uma noite que eu fui tomar banho e comecei a sentir um cheiro de queimado. E isso é estranho, porque, ao contrário do surto esquizofrênco do Brasil que mistura eletricidade e água para ter chuveiro quente (sim, na gringa chamam o chuveiro brasileiro de suicide shower), o chuveiro no Malawi era a gás. Além disso, era um cheiro estranho, parecia cheiro de carvão. Depois fui comentar com o dono do Airbnb e ele me falou que isso ocorria porque os vizinhos usavam carvão para poder cozinhar. Sim, o fogão ainda era a carvão. Isso porque eu tava em um dos bairros mais nobres de Lilongwe, a capital do país.

Isso explica muito os perrengues que iriam acontecer comigo na viagem ao Malawi.

Como é chegar ao Malawi: visto fácil, transporte difícil e os primeiros perrengues

O visto para o Malawi, inacreditavelmente, foi fácil de tirar. Sim, fácil — uma palavra que eu não achava que combinava com vistos africanos depois da novela Zâmbia/Moçambique. Os caras me deram um prazo de até cinco dias úteis e, veja só, em cinco dias úteis o visto estava na minha caixa de entrada, prontinho, online, bonitinho, só para apresentar na chegada. Eu ainda acho que teve algum erro no universo, porque, depois de pagar duas vezes pelo KAZA Visa da Zâmbia e nunca receber resposta de Moçambique, conseguir um visto do Malawi quase como num passe de mágica foi praticamente uma experiência espiritual.

Achar hospedagem, por outro lado, já foi um desafio à parte. Já não sou mais aquele moleque de 20 anos que dorme em qualquer espelunca porque “o importante é viajar”, mas também ainda não virei fresco de hotel cinco estrelas (ainda — ênfase no ainda). Só quero o básico do básico: ar-condicionado, wi-fi e uma cozinha para eu poder fazer minha comida e evitar passar mal com restaurante duvidoso. Cara, achar um lugar com esses três requisitos no Malawi foi quase uma gincana. Mas no fim encaixei um Airbnb que atendia o mínimo existencial que eu precisava, e de lá peguei meu voo na África do Sul rumo ao Malawi.

A novela já começa no aeroporto. No Malawi não existe Uber, Indrive, Yango ou qualquer outro app de transporte. Zero. Você olha pra tela do celular, aperta o aplicativo no automático… e nada funciona. O jeito foi negociar com meu host para ele ir me buscar. Na rua, os taxistas cobram 30 dólares por corrida — sim, TRINTA. Coisa de 170 reais para andar uns poucos quilômetros. É facada, machadinha e serrote tudo junto no turista. Mas beleza, era o que tinha para hoje. Se eu quisesse sair do aeroporto, ou pagava, ou passava a noite fazendo amizade com mosquitos.

História do Malawi: Colonialismo, autocracia e dependência externa

A história moderna do Malawi começa sob domínio britânico, quando a região foi incorporada ao Protetorado da Niassalândia no final do século XIX. Os britânicos estabeleceram ali uma administração colonial voltada principalmente para agricultura e extração de recursos, mas sem grandes investimentos em infraestrutura ou indústria. O país só conquistou sua independência em 1964, adotando inicialmente um sistema de partido único liderado por Hastings Kamuzu Banda, que governou como autocrata por três décadas. O ditador se acha tanto, que mandou até fazer um Mausoléu para ele que até hoje está presente no meio da capital do país, Lilongwe. Fica do lado do Parlamento do país, inclusive. Apesar da independência formal, o Malawi saiu do período colonial com pouquíssimo desenvolvimento econômico, forte dependência externa e uma população majoritariamente rural — características que continuam marcando o país até hoje.

O Mausoléu onde tá enterrado o bonitão
Parlamento do Malawi

Mesmo após a redemocratização nos anos 1990, o Malawi segue entre os países mais pobres do mundo por uma combinação de fatores: falta de acesso ao mar, baixa industrialização, agricultura extremamente dependente do clima, explosão demográfica, desmatamento severo e governos sucessivos sem capacidade de modernizar a economia. A dependência de ajuda internacional é alta, e choques climáticos — como secas e enchentes — afetam diretamente a produção de alimentos e a renda da população.

O país até tem algumas indústrias, cujos donos são parte da minúscula elite branca que ficou por lá. Por lá também tem bastante indianos, que formam a elite comercial do país. Cara, se tem um comércio ou um supermercado, certeza que o dono é um indiano. Sim, mas podia ser o supermercado que fosse, por mais que eu procurasse nunca achava Coca Zero. Impressionante.

Por agora também tem começado a aparecer bastante chineses. Na verdade, os chineses estão cada vez mais presentes na África inteira.

Supermercado do lado do Airbnb. Era de quem? Óbvio, de um indiano

O apagão interminável que me fez repensar o valor da eletricidade

Cara, foi só eu pisar no Airbnb e fuuuuuuuuuuuu. Acabou a luz. Depois de quatro dias sem saber o que era um ar-condicionado ligado à noite na Zâmbia, eu já nem me abalei. Meu corpo tinha virado oficialmente “resiliente ao calor”. O dono do Airbnb me explicou que ali era sempre assim: quedas constantes de energia, mas tinham baterias para manter pelo menos as luzes funcionando. Só não teria ar-condicionado. Nem fogão. Nem TV. Nem… geladeira. Vida que segue.

Aí começou a contagem. Uma hora sem energia. Duas. Três. Nada. Quatro, cinco, seis… nada. Sete… oito… nove… e quando bateu dez horas sem energia, você acha que voltou? Não: eu é que desisti e fui dormir sem ar-condicionado mesmo, igual na Zâmbia. Ainda bem que não estava calor.

Acordei no outro dia e… cadê a luz? Exatamente: não tinha voltado ainda. Tomei café, saí para andar pela cidade, passei o dia fora e… Cadê a luz? Continuava na mesma. A essa altura, até as baterias de luz solar do Airbnb tinham ido para o espaço, então nem luz, nem wi-fi, nem tomada para carregar celular tinha mais. (Ainda bem que eu tinha comprado 10 GB de internet 4G local senão era isolamento total.) O dono do Airbnb ficou com tanta pena que foi no mercado comprar umas lâmpadas recarregáveis e ainda me trouxe um powerbank para eu ao menos carregar o celular quando acabou a bateria.

Quando já era noite, quase hora de dormir de novo, finalmente a energia voltou. Cara… vou te contar: essas viagens servem para a gente aprender a dar valor às coisas mais simples da vida. Eu juro que, depois disso, toda vez que eu chego em casa, aperto o interruptor e a lâmpada acende, eu penso: “rapaz… isso aqui é luxo puro”. Pode parecer bobagem, mas ficar esse tempo todo sem energia é MUITO ruim. Não desejo pra ninguém.

Futebol ainda vai salvar o mundo

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