Viagem ao Malawi: pobreza extrema, apagões constantes, coca zero inexistente e um país que tenta funcionar

O Malawi sim, foi um país que eu só decidi visitar porque eu já tava pela região. Nunca tinha ouvido falar em qualquer coisa referente ao país e na verdade vez ou outra eu pegava me confundindo dizendo que eu ia viajar pro Mali e não pro Malawi. As passagens aéreas para lá era bem complicadas, mas acabei conseguindo achar algumas razoáveis com conexões na África do Sul. Depois que eu fui descobrir que o Malawi é o sétimo país mais pobre do mundo. A título de comparação, o Brasil tem uma renda per capita quase 15x maior que a do Malawi e a própria Zâmbia, que eu achei muito pobre, tem 3x mais renda per capita do que o Malawi.

A título de curiosidade, teve uma noite que eu fui tomar banho e comecei a sentir um cheiro de queimado. E isso é estranho, porque, ao contrário do surto esquizofrênco do Brasil que mistura eletricidade e água para ter chuveiro quente (sim, na gringa chamam o chuveiro brasileiro de suicide shower), o chuveiro no Malawi era a gás. Além disso, era um cheiro estranho, parecia cheiro de carvão. Depois fui comentar com o dono do Airbnb e ele me falou que isso ocorria porque os vizinhos usavam carvão para poder cozinhar. Sim, o fogão ainda era a carvão. Isso porque eu tava em um dos bairros mais nobres de Lilongwe, a capital do país.

Isso explica muito os perrengues que iriam acontecer comigo na viagem ao Malawi.

Como é chegar ao Malawi: visto fácil, transporte difícil e os primeiros perrengues

O visto para o Malawi, inacreditavelmente, foi fácil de tirar. Sim, fácil — uma palavra que eu não achava que combinava com vistos africanos depois da novela Zâmbia/Moçambique. Os caras me deram um prazo de até cinco dias úteis e, veja só, em cinco dias úteis o visto estava na minha caixa de entrada, prontinho, online, bonitinho, só para apresentar na chegada. Eu ainda acho que teve algum erro no universo, porque, depois de pagar duas vezes pelo KAZA Visa da Zâmbia e nunca receber resposta de Moçambique, conseguir um visto do Malawi quase como num passe de mágica foi praticamente uma experiência espiritual.

Achar hospedagem, por outro lado, já foi um desafio à parte. Já não sou mais aquele moleque de 20 anos que dorme em qualquer espelunca porque “o importante é viajar”, mas também ainda não virei fresco de hotel cinco estrelas (ainda — ênfase no ainda). Só quero o básico do básico: ar-condicionado, wi-fi e uma cozinha para eu poder fazer minha comida e evitar passar mal com restaurante duvidoso. Cara, achar um lugar com esses três requisitos no Malawi foi quase uma gincana. Mas no fim encaixei um Airbnb que atendia o mínimo existencial que eu precisava, e de lá peguei meu voo na África do Sul rumo ao Malawi.

A novela já começa no aeroporto. No Malawi não existe Uber, Indrive, Yango ou qualquer outro app de transporte. Zero. Você olha pra tela do celular, aperta o aplicativo no automático… e nada funciona. O jeito foi negociar com meu host para ele ir me buscar. Na rua, os taxistas cobram 30 dólares por corrida — sim, TRINTA. Coisa de 170 reais para andar uns poucos quilômetros. É facada, machadinha e serrote tudo junto no turista. Mas beleza, era o que tinha para hoje. Se eu quisesse sair do aeroporto, ou pagava, ou passava a noite fazendo amizade com mosquitos.

História do Malawi: Colonialismo, autocracia e dependência externa

A história moderna do Malawi começa sob domínio britânico, quando a região foi incorporada ao Protetorado da Niassalândia no final do século XIX. Os britânicos estabeleceram ali uma administração colonial voltada principalmente para agricultura e extração de recursos, mas sem grandes investimentos em infraestrutura ou indústria. O país só conquistou sua independência em 1964, adotando inicialmente um sistema de partido único liderado por Hastings Kamuzu Banda, que governou como autocrata por três décadas. O ditador se acha tanto, que mandou até fazer um Mausoléu para ele que até hoje está presente no meio da capital do país, Lilongwe. Fica do lado do Parlamento do país, inclusive. Apesar da independência formal, o Malawi saiu do período colonial com pouquíssimo desenvolvimento econômico, forte dependência externa e uma população majoritariamente rural — características que continuam marcando o país até hoje.

O Mausoléu onde tá enterrado o bonitão
Parlamento do Malawi

Mesmo após a redemocratização nos anos 1990, o Malawi segue entre os países mais pobres do mundo por uma combinação de fatores: falta de acesso ao mar, baixa industrialização, agricultura extremamente dependente do clima, explosão demográfica, desmatamento severo e governos sucessivos sem capacidade de modernizar a economia. A dependência de ajuda internacional é alta, e choques climáticos — como secas e enchentes — afetam diretamente a produção de alimentos e a renda da população.

O país até tem algumas indústrias, cujos donos são parte da minúscula elite branca que ficou por lá. Por lá também tem bastante indianos, que formam a elite comercial do país. Cara, se tem um comércio ou um supermercado, certeza que o dono é um indiano. Sim, mas podia ser o supermercado que fosse, por mais que eu procurasse nunca achava Coca Zero. Impressionante.

Por agora também tem começado a aparecer bastante chineses. Na verdade, os chineses estão cada vez mais presentes na África inteira.

Supermercado do lado do Airbnb. Era de quem? Óbvio, de um indiano

O apagão interminável que me fez repensar o valor da eletricidade

Cara, foi só eu pisar no Airbnb e fuuuuuuuuuuuu. Acabou a luz. Depois de quatro dias sem saber o que era um ar-condicionado ligado à noite na Zâmbia, eu já nem me abalei. Meu corpo tinha virado oficialmente “resiliente ao calor”. O dono do Airbnb me explicou que ali era sempre assim: quedas constantes de energia, mas tinham baterias para manter pelo menos as luzes funcionando. Só não teria ar-condicionado. Nem fogão. Nem TV. Nem… geladeira. Vida que segue.

Aí começou a contagem. Uma hora sem energia. Duas. Três. Nada. Quatro, cinco, seis… nada. Sete… oito… nove… e quando bateu dez horas sem energia, você acha que voltou? Não: eu é que desisti e fui dormir sem ar-condicionado mesmo, igual na Zâmbia. Ainda bem que não estava calor.

Acordei no outro dia e… cadê a luz? Exatamente: não tinha voltado ainda. Tomei café, saí para andar pela cidade, passei o dia fora e… Cadê a luz? Continuava na mesma. A essa altura, até as baterias de luz solar do Airbnb tinham ido para o espaço, então nem luz, nem wi-fi, nem tomada para carregar celular tinha mais. (Ainda bem que eu tinha comprado 10 GB de internet 4G local senão era isolamento total.) O dono do Airbnb ficou com tanta pena que foi no mercado comprar umas lâmpadas recarregáveis e ainda me trouxe um powerbank para eu ao menos carregar o celular quando acabou a bateria.

Quando já era noite, quase hora de dormir de novo, finalmente a energia voltou. Cara… vou te contar: essas viagens servem para a gente aprender a dar valor às coisas mais simples da vida. Eu juro que, depois disso, toda vez que eu chego em casa, aperto o interruptor e a lâmpada acende, eu penso: “rapaz… isso aqui é luxo puro”. Pode parecer bobagem, mas ficar esse tempo todo sem energia é MUITO ruim. Não desejo pra ninguém.

Futebol ainda vai salvar o mundo

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