Pohkara – Varanasi, Índia. Parte 2, pós-macarrão assassino.

Quando foi a hora de voltarmos, já estava me preparando psicologicamente para voltar ao “ônibus dos horrores”, o ônibus em que o tempo de exposição à mesma música indiana, tende ao infinito. Rapaz, mas quando eu tava quase entrando no busão eu olhei para cima e vi uns gringos felizes danados no teto do ônibus. Perguntei o que eles faziam ali e eles me falaram que eles estavam viajando lá em cima porque era menos apertado e também não tinha aquela droga daquela música no ouvido. Depois me convidaram pra subir. Não precisa dizer qual foi a resposta, né? Pedi pra Coração Gelado ficar olhando minhas coisas lá embaixo e me taquei pra cima do busão.
Foi uma decisão acertada. Era bem mais ventilado, agradável e, bicho, a visão era fenomenal já que estávamos a cortar vários vales do montanhoso Nepal. A vista, mais uma vez, valeu por toda a viagem! Como lá em cima era compartimento de bagagens, não havia um local apropriado para você sentar. Na verdade o chão era cheio barras de ferros paralelas, onde os caras jogavam as malas em cima e amarravam-nas com cordas. Logo, não deu outra, acabei ficando com as nádegas parecendo batatas chips, parecendo umas batatas Rufles, mas como a zoeira era massa acabei ficando.
Se liga na felicidade do menino!
Depois de algumas horas com o motorista ENFIANDO a mão na buzina, ENTRANDO que nem um louco em várias curvas e eu chacoalhando como um pingüim no liquidificador, enfim chegamos numa zona de calmaria. Uma rua reta, com o asfalto lisiiinnhooo: Estrada da fronteira do Nepal com a Índia. Juro que a calmaria me fez sentir como Vasco da Gama após cruzar o Cabo das Tormentas em direção às Índias. Mas como tudo pra virar história de blog tem que dar errado, aquela calmaria não iria durar muito tempo. Pra falar a verdade, durou uns dez minutos. Quando avistei ao longe uma fila QUILÔMÉTRICA de caminhões em direção à fronteira vi que algo não estava bem.
QUEDIABOÉISSO?!?! Não restou outra opção ao motorista do ônibus a não ser parar e esperar na fila.

Crise do Petróleo
Matuta daqui, matuta dali, depois de algum tempo nos foi comunicado que aquilo era um protesto dos caminhoneiros do Nepal contra o aumento abusivo dos preços da gasolina no país. Estávamos chegando ao auge da crise do petróleo com o preço a mais de cem dólares o barril! Com o preço às alturas, não restou escolha aos donos dos postos de gasolina a não ser repassar o aumento para as bombas. Os caminhoneiros piraram sem entender o porquê daqueles preços malucos e resolveram fechar a fronteira em protesto. Conversando com alguns que estavam por lá, eles me falaram que não iriam pagar pela “ganância” dos donos dos postos de gasolina sem entender que o motivo de toda aquela espiral de loucura dos preços vinha de muitos outros fatores que nem os donos dos postos de gasolina, nem o governo poderiam controlar! Como o trabalho de um motorista de caminhão, incrustado no meio de um país na Ásia, é dirigir e não prever volatilidade do mercado acabamos por ficar parados, reféns por tempo indeterminado, numa das greves mais imbecis que já presenciei na minha vida (e olha que petistas e professores de história, filosofia, antropologia da UnB são mestres em fazer greves imbecis). Os caminhoneiros falaram que só abririam a fronteira quando o governo mandasse alguém para negociar. Malditos Irã e Arábia Saudita e seus poços de petróleo!! Confesso que foi interessante sentir na pele uma crise que estudei por tanto tempo apenas nos livros (sim, estou sendo irônico).
Japonesada que acabou ficando ilhada também

 

Aparelho repressor do Estado e saída mágica pra crise.

Depois de umas duas horas, um cabra veio pra gente e falou que ele sabia uma saída mágica para a crise! Não a crise do petróleo, mas a crise da fronteira. Ele disse que sabia de uma outra saída para fronteira com a Índia e que lá os motoristas não tinham conseguido fechar porque a polícia chegou antes e desceu a bolacha em todo mundo.
Ah, bendito aparelho repressor do Estado! Como isso faz falta de vez em quando na UnB!
Como não tínhamos outra escolha, acabamos por aceitar a proposta do cara e subimos no busão dele em direção à outra fronteira. O único problema básico era que, veja só, não havia mais lugares suficientes para todos na parte interna do busão, só havia um assento que eu cedi pra Coração Gelado conquanto ela carregasse minha mochila com ela. O que sobrou pra mim? Sim, o teto! O que da vez passada fiz por diversão, dessa vez, já cansado, tive que fazer por obrigação.
Cara, mas foi interessante pegar este outro caminho, viu? Sabe por quê? Cara, o caminho que pegamos era um caminho mó nada a ver, que levava uma hora a mais para poder cruzar a fronteira, logo nenhum ônibus com gringos pegava aquele caminho para ir embora. Pra falar a verdade era um caminho apenas para passagem de carroças, sem asfalto. O que não podia ficar pior, ficou! O busão chacoalhava BEM mais e minhas nádegas que mais pareciam uma batata Rufles naquele momento ficaram onduladas como um tanque de lavar roupa à mão.
Mas o que era interessante era perceber o quanto éramos novidade para aquele povo rural que tanto nos olhava com espanto. Cara, era muito legal e triste ao mesmo tempo observar aqueles indianos e nepaleses e perceber que eles viviam atualmente o mesmo estilo de vida de provavelmente algumas centenas de anos atrás.
Cidades que passamos antes de entrar na zona rural em si
Enfim, continuamos andando e o improvável ocorreu. O ônibus parou. “Danou-se” – pensei. Achei que o busão já tinha quebrado novamente ou algo assim. Naadaaa, alguém tinha posto umas varetas no caminho impedindo o ônibus de poder passar. “Assalto” – foi a primeira coisa que veio na minha cabeça. De repente, surge um nepalês de dentro de sua cabanazinha com uma machete e caminhando em nossa direção. Cara, depois de alguns anos estudando sobre o massacre que ocorreu em Ruanda e o que os caras faziam com as machetes, tudo o que não eu queria encontrar no Nepal era um bigodudo com uma machete ameaçando o motorista. Depois de um tempo entendi que o cara tava querendo um pedágio porque nós teoricamente estávamos entrando em “seu território” e por isso deveríamos pagar. Depois de algumas discussões acaloradas com o motorista e vendo que todos os homens de dentro do busão começaram a sair e a cercar o bigodudo ele se viu aperriado e nos deixou ir embora.

Fronteira com a Índia, inferno novamente!

Continuamos seguindo viagem até a hora em que chegamos numa cidade à fronteira com a Índia. Como já de praxe, uns motoristas de charretes tentaram nos roubar. Combinamos que iríamos pagar um real por cabeça pra eles nos levar da parada de ônibus à fronteira física e quando chegamos ao final combinado eles queriam cinco. Falamos que não íamos pagar e eles começaram a querer nos intimidar. Coitado deles… Depois de muitas horas sendo chacoalhados, cara com machete querendo brincar de “Genocídio em Ruanda” e greves de caminhoneiros atrasando em mais de três horas a nossa viagem tudo o que não tínhamos era paciência para ser roubados. Naquela hora já éramos um grupo grande de algumas dezenas de pessoas e quando eles começaram a gritar, apenas gritamos de volta. Vendo que o bicho ia pegar eles resolveram ir embora. Basicamente adotamos a mesma estratégia que parecia sempre dar certo e que eu já tinha adotado antes: intimidar quem tenta me roubar através de gritos e ameaças de descer a porrada.
Na hora de atravessar a fronteira mais problemas. Não existe fronteira entre a Índia e o Nepal. Indianos e nepaleses não precisam de visto, passaporte, sequer documentos para atravessar a fronteira de um país pro outro, logo a situação lá é completamente caótica. Pense numa Rua 25 de março lotada numa época de Natal? Assim era ruazinha que levava à faixa de fronteira!

Saímos andando, andando, andando… Quando vimos já tínhamos andado mais de uns cem metros dentro da Índia e parecia que nada tinha mudado, só nós tocamos que estávamos na Índia devido à uma bandeira indiana tremulando em cima de uma loja. Descobrimos na marra que não existem postos de controles de ambos os lados na fronteira física entre eles. Como não poderíamos simplesmente entrar na Índia sem carimbos (isso poderia dar uma bela dor-de-cabeça para sair da Índia depois. Se não possuíssemos carimbos de entrada, na saída eles iriam perguntam porque entramos dessa maneira, poderiam desconfiar que estávamos fazendo algo de errado e, até separar alho de bugalho, ia ser uma beleza). Resolvemos voltar ao Nepal e demoramos ainda uma meia hora pra achar os postos de fronteira.
Meu amigo, que cena precária viu? O posto do Nepal era meio que escondido, doido!!! Só pra vocês terem uma idéia era vizinho de um açougue e fedia que só o diabo. Entramos, carimbamos e fomos embora. Na hora de achar o posto da Índia, mesmo problema. Dentro de uma viela achamos uma casinha com as janelas quebradas e que continham dois oficiais indianos sentados, bigodudos (meu amigo, como esses caras gostam de bigode, viu?) e fumando um cigarro velho. No lugar, a surpresa. Eles se recusaram a carimbar o passaporte com o visto de entrada sem que pagássemos a eles uma “taxa” de dois dólares, uma mixaria. O detalhe que o carimbo era de graça, eles só queriam extorquir a gente.
Como já tinha prometido pra mim mesmo que não aceitaria ser roubado, um real que fosse, me recusei a pagar e todo mundo fez o mesmo. Eles resolveram engrossar e falaram que não iriam carimbar então. Depois de alguma discussão alguém lá do meio falou que conhecia alguém em Deli e que se esses caras realmente fizessem a gente pagar a propina que eles tentavam extorquir o bicho ia pegar depois. Após a ameaça parece que enfim ele resolveu carimbar e partimos pra próxima tentativa de roubo.
Quando começamos a procurar o ônibus que deveríamos pegar para poder ir para Varanasi, um rapaz muito simpático se aproximou para nos ajudar. Alguém simpático na Índia, como vocês já devem estar sabendo, é claramente alguém tentando nos enrolar com algo. Perguntamos a ele aonde poderíamos pegar o ultimo ônibus para Varanasi que sabíamos que estava a partir em alguns minutos e eles nos ofereceu para ajudar. Como não tínhamos muita opção do que fazer, decidimos uma vez na vida acreditar na bondade das pessoas. A bondade do cara nos fez dar uma volta e quase perdemos o ônibus. Só conseguimos pegar o ônibus porque dei um real pra um menino que andava no meio da rua (juro que fiquei com medo dele achar que eu queria era brincar de “padre católico” com ele) e ele nos mostrou o real lugar. Depois descobrimos que o cara que primeiramente nos ofereceu ajuda fazia viagens pra Varanasi e queria que perdêssemos o ônibus de propósito só pra ele fazer dinheiro em cima da gente…
Enfim, conseguimos pegar o ônibus e fomos em direção a Varanasi.

10 comentários em “Pohkara – Varanasi, Índia. Parte 2, pós-macarrão assassino.

  1. hahaQuando tu escreveu Japoneza, tu tava querendo dizer “Japonezada” né, tipo coletivo de japonês??!??!Tão meio defasadas as postagens, nessa época o barril de petróleo tava 100usd hoje em dia não chega a 90usd…enfim…

    Curtir

  2. Cluadix, muleque doido, que estória do “Ó” é essa?que filha da putada é essa?será que na colonização do Brasil ao invés de índios os portugueses não fizeram encontrar indianos?

    Curtir

  3. Outra coisa meu, vc em cima do busão tava com a maior cara de enganação, sendo fudido em baixo,mantendo o sorriso em cima!!!!ui ai ho whooooooooooooo

    Curtir

  4. oi ClaudiomarNão sei porque seu blog não estava entrando, mas enfim…outro post legalque aventura essa na Índia, parece coisa de filme “Indiana Jones”.Aquele grupo de asiáticos não pareciam japoneses, estão com cara de serem chineses.abraços e Feliz Natal!!!a japa

    Curtir

  5. Cara, vc e muito divertido!! Estou rachando de rir das historias!! Tambem estou indo para o Nepal. Minha viagem sera de 40 dias e alem do Baltico, farei a Turquia completa, Nepal e Egito.

    To pegando algumas dicas aqui com vc!!
    Abracos!!

    Curtir

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s