Trocando uma ideia com a host

Chegamos mais ou menos umas três da tarde em Riga. Como nossa host estava trabalhando, ficamos de nos encontrar às 18 horas na praça principal da cidade.

Comemos alguma coisa, aproveitamos pra trocar algum dinheiro e ficamos dando um rolê até o horário combinado. Quando foi às 18h, como combinado, nos encontramos e seguimos de ônibus para a casa de Iveta.

Casa da Iveta, bati foto do apartamento dela caso me perdesse 😛

Ao chegarmos à sua casa nos foi apresentado o quarto em que iríamos dormir. Tomamos um banho e depois fomos conversar com ela. Iveta era uma simpática letã na casa dos quarenta anos que trabalhava em uma empresa de alta tecnologia. Ela era um dos milhares de habitantes dos países bálticos que trabalham em empresas de ponta nórdicas que abrem fábricas no território báltico devido à proximidade com Noruega, Suécia e Finlândia, mão-de-obra qualificada disponível e salários ridiculamente mais baixos que os praticados na Escandinávia. Trocando em miúdos, Suécia e, principalmente, Finlândia investem pesadamente e mantém o crescimento da economia dos Bálticos. Ela falava um inglês muito bom, porque no passado havia sido tradutora. O que mais me marcou nela foi a intensa troca de culturas que tivemos nos poucos momentos que ficamos juntos (uma noite pra ser mais exato :P)

Iveta havia vivido o auge da cortina de ferro (pra quem não sabe o que foi a cortina de ferro, clicar aqui pra mais informações). Foi educada numa escola soviética em russo, aprendeu a língua letã apenas em casa, ainda assim em segredo, pois, segundo ela, era perigoso. Na escola, aprendeu que o capitalismo era o pior das modelos econômicos, pois as pessoas trabalhavam demais (não deixa de ser verdade :P), algumas vezes até 18 horas por dia e nunca podiam ser felizes, pois sempre trabalhavam pra enriquecer os donos das fábricas. Qualquer tipo de manifestação contra o governo era punida severamente e pessoas desapareciam constantemente. Basicamente tudo o que ela me falou está relacionado ao que sabemos do terror soviético, mas foi a primeira vez que pude conversar com alguém que realmente viveu aquilo, que presenciou e que se criou sobre uma ditadura. Foi muito interessante poder conversar com ela e ter cada pergunta pacientemente respondida.

Ela disse que foi muito engraçado quando a cortina de ferro caiu e as informações começaram a chegar à Letônia e ela pode descobrir que havia um mundo MUITO grande e diferente lá fora. No início ela até ficou com medo do capitalismo malvado que estava por chegar, mas fala que prefere mil vezes viver agora a viver em outra ditadura comunista outra vez.

Monumento à liberdade feito para comemorar a independência da Letônia à URSS

Ela me contou também que era praticamente impossível viajar para fora da União Soviética e impossível viajar para países fora da influência soviética, tais qual França ou Inglaterra. Um passaporte era uma burocracia absurda e eles vasculhavam a vida inteira da pessoa antes de conceder um para viajar para a Polônia, por exemplo. Apenas pessoas da mais alta burocracia, atletas e artistas conseguiam permissão para poder viajar para bem longe da cortina de ferro.

Ela contou que, apesar de tudo, sentia saudade de algumas coisas boas dos tempos de União Soviética. Primeiro ela fala que sente saudades principalmente das manifestações artísticas. Como naquele tempo a TV passava programas bem mais inteligentes e interessantes do que o lixo americano/europeu que chega às nossas casas todos os dias. Era um humor inteligente, ver TV naqueles tempos era realmente algo que engrandecia as pessoas e não apenas as emburrecia. Mas o mais interessante foi ela me contando como era viajar dentro da União Soviética:

– Era bem interessante viajar por dentro da federação. Não precisávamos de passaporte, vistos ou qualquer autorização especial. Bastava apenas pegar um trem e podíamos já estar em Moscou. Era como viajar dentro do mesmo país.

Exatamente isso, “era como viajar dentro do mesmo país”. Estranho, né? A gente aprendeu na escola que a União Soviética era um só país, mas para ela a Letônia sempre existiu. Foi como aquele letão/russo do post passado me falou “etnias são o eu importam”. Não importa se oficialmente a Letônia era parte da União Soviética, se alguém perguntasse de que país ela era a resposta sairia rápida: Letônia. Nunca na minha vida eu ia saber disso, na minha cabeça era todo mundo a mesma coisa! Pombas, mesma moeda, mesmo time de futebol, mesma língua oficial!! Chegávamos até a chamar os mesmos de “russos”, quando na verdade a Rússia era apenas uma das nações que faziam parte do imenso território soviético. Só pra lembrar, a “Rússia” de hoje tem como nome oficial “Federação Russa”, sendo, ainda hoje, a Rússia apenas uma das nações. Engraçado demais isso…

Por último ela me falou da incerteza de quanto tempo mais a Letônia ficará independente. Como é complicado você ser de um país pequeno incrustado entre grandes potências que traçam os seus planos, anexando ou deixando independentes os pequenos países segundo seus próprios interesses. Como apesar de toda esse falatório internacional acerca de auto-determinação dos povos, as grandes potências podem fazer o que querem e às pequenas nações só resta rezar a Deus. Como exemplo citou a Sérvia que perdeu parte do seu território (virou Kosovo) ou a Geórgia que levou um cacete dos Russos, perdeu 30% do território e tudo ficou por isso mesmo. Ela conta que até hoje sente um grande receio da Rússia.

Quanto você dá pela Geórgia? Cartaz espalhado pelas ruas de Riga, Letônia, fazendo alusão às grandes potências (Rússia e EUA), traçando o mundo à sua maneira. Foi colocada para estimular o debate acerca do tema que a Iveta falava comigo…

Lembrou-me até eu conversando com uma lituana sobre a invasão da Rússia na Geórgia:

– Cara, pode ter certeza, o próximo alvo da Rússia após a Geórgia vai ser um país báltico – ela me disse.

– Mas como assim, a Rússia não seria louca de invadir outro país – eu respondi.

– Não, hoje, mas isso é só uma questão de tempo. Primeiro a Geórgia, depois a Ucrânia e depois eles vem pra cima da gente de novo. Eles querem de volta o território perdido.

– Não, minha filha. Pode ficar despreocupada. Eu lhe dou 150% de certeza que a Rússia NUNCA faria isso.

– Por que não?

– Ora, por que não. A Lituânia hoje faz parte da União Européia e da OTAN. Um ataque a um país membro de uma dessas alianças é considerado como um ataque a toda aliança.

– Isso é o que você pensa, no primeiro momento que a Rússia atacar a gente, os europeus ou a OTAN vão falar assim “Ups, a Lituânia não é mais OTAN, podem fazer o que quiser com eles!”.

Seria cômico se não fosse trágico vê-la falando essas coisas. Imagina se uma aliança militar que é feita, dentre outros motivos, para proteger os países da aliança, ia simplesmente chutar um país membro assim. Além de ser uma grande humilhação para a aliança, ninguém iria querer fazer parte, afinal, se fizeram isso com os outros, farão com o seu país também.

Isso é só pra ilustrar o que é MEDO, cara! O pavor que a Rússia até hoje desperta no imaginário popular dos países bálticos e também dos países que um dia viveram as atrocidades de Stálin. Como as pessoas deixam até de pensar racionalmente frente a uma ameaça como essa se aproxima.

Enfim, depois de mais ou menos umas duas horas conversando com Iveta, fomos nos arrumar para pegar a balada em Riga.

8 comentários em “Trocando uma ideia com a host

  1. Adorei o post! Sempre tive curiosidade de ouvir de uma pessoa que conviveu os tempos de URSS, sob a ótica dos soviéticos. Não tem foto da Iveta, não??

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  2. Oia maranhão, tu viu o ataque terrorista em jacarta?

    Por pouco tu num tava la 😡

    =P

    Eu lembro que no post vc tinha comentado e talz. Maior merda :/! Pais tão legal.

    Luis Maceio

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  3. Ola…Depois de um tempo de viagem e sem acesso a internet agora voltei e estou adorando seus posts… Esse entao adorei e aprendi mais um pouco contigo…
    🙂

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