Espírito Empreendedor

Marcamos de nos encontrar no albergue delas. Desci pra lá como combinado e começamos a procurar uma balada pra poder entrar. Descemos pro cais onde havia várias baladas diferentes e entramos na primeira que vimos. Não precisava pagar pra entrar.
Sentamos numa mesa e ficamos vendo de qual era da balada. Ficamos conversando um pouco. A balada chegava a ser engraçada se não fosse trágica. Só tinha homem pra tudo que era lado, todo mundo sentado e ninguém, absolutamente NINGUÉM, dançando. Claro que aquilo não seria um problema pra gente.
Enquanto estávamos sentados conversando sobre o que iríamos fazer veio um cara, que mais parecia um garçom, e perguntou se não queríamos algo. Falamos que não e ele saiu. Depois de uns dez minutos voltou e perguntou se queríamos algo. Falamos que não e ele saiu. Depois de mais uns dez minutos ele voltou e perguntou se queríamos algo e ficou nessa de dez em dez minutos. Me senti como nesse vídeo do Hermes e Renato abaixo:
Pra fugir do garçom mala, nos levantamos e fomos dançar um pouco. Cara, o que foi aquilo? A balada simplesmente PAROU pra poder ver as minas dançando. Elas também não contribuíam, né? Polacas, lindas, num lugar que só tinha homens de bigodes por todos os lados, elas dançavam de uma maneira muito sensual. Mermão, até eu parei um pouco pra ver. O que era aquilo, meu amigo? Por entre bigodes eriçados elas dançavam e rebolavam em frente a uma plateia que ia a loucura. Depois eu meio que fiquei de lado com vergonha dos caras ENCARANDO as minas sem parar. Me lembrou de uma foto célebre do tempo da Polônia.
Elas ainda por cima eram banqueiras. Toda hora iam no Dee Jay e pediam uma música diferente e quando ele não colocava, elas ainda iam reclamar. Enfim, acho que era o preço a pagar pra aquela balada ter um pouquinho de graça.
Depois de um tempo sentamos e começamos a conversar novamente. Adivinha o que aconteceu? Sim, eu tenho certeza que você já adivinhou:
– Deseja alguma coisa senhor?
– Rapaz, não, doido, obrigado! Eu REALMENTE não quero nada agora!
– Mas, você vai ficar aí sem consumir nada?
– Rapaz, pelo menos por agora sim, por quê?
– Porque você não pode fazer isso.
– Como assim?
– Você não pode ficar sem consumir nada.
– Uai, mas a festa não era de graça pra entrar?
– Sim, é de graça pra entrar, mas pra ficar tem que consumir algo.
– Tá, tá bom, eu consumo mais tarde.
– Não, senhor. Você tem que fazer um pedido.
– Uai, cara! Não tou te entendendo. Por que você tem que me FORÇAR a consumir algo?
– Senhor, como é que as pessoas fazem dinheiro no país que você vem? Meu patrão prefere não cobrar entrada, mas em compensação a única maneira de ele fazer dinheiro é assim. Quando as pessoas pedem uma bebida ou algo do tipo.
– Tá, se eu não pedir agora você vai me colocar pra fora, é isso?
– Provavelmente…
Levantei, fui lá onde as meninas estavam dançando e deixei ele falando sozinho.
Pensa que ele se fez de rogado? Naadaaa… Pegou as bolsas que as meninas tinham deixado na mesa e começou a levar na direção da porta. Eu não paguei pra ver se ele ia jogá-las pela porta ou não, mas pelo jeito que o bicho ia REALMENTE parecia que ele iria fazer isso. Pegamos as coisas delas e ele nos apontou a porta da rua. Simples assim. As ÚNICAS mulheres da festa foram expulsas porque não estavam consumindo nada dentro do bar. Tristeza geral entre os marmanjos que estavam lá dentro quando a atração estava indo embora. Pude perceber que espírito empreendedor não era lá o forte do dono da balada.
E lá vamos nós
Expulsos da balada, fomos procurar outro lugar. Paramos em um bar, dessa vez, por via das dúvidas, compramos logo uma cerveja e ficamos lá vendo que o iríamos fazer. Do nada um turco em uma outra mesa começou a gesticular um coração no ar e a gritar algumas coisas em turco apontando pra uma das meninas que estavam na minha mesa. Ele parecia querer dizer que estava apaixonado por uma das polonesas que estavam sentadas conosco. A gente tentou ignorar, mas o cidadão simplesmente não parava. Um peão de obras aqui era um lord comparado com o cara. O figura REALMENTE não parava e começou a ficar chato. Isso NO MEIO DE UM BAR LOTADO. Eu fiquei me perguntando se é assim mesmo que eles chegam em mulher na Turquia ou se de tanto as mulheres viverem cobertas, os caras quando olham uma mulher de saia simplesmente ficam mais loucos que o batman!
Enfim, como não podíamos ficar assistindo aquele show de desespero por uma mulher, resolvemos sair do bar antes que ele pegasse um tacape, desse na cabeça dela e a levasse arrastando pelos cabelos. Fomos para um outro bar e ficamos lá de boa. Do nada chegou um outro cara, mas dessa vez falando em inglês com a gente e sendo gente boa. Era o dono do bar.
O cara era REALMENTE muito sangue bom e virou nosso amigo. Depois de um tempo conversando, ele perguntou se não queríamos entrar na casa dele (o bar ficava nos fundos da casa dele) que ele queria nos mostrar algo. Eu não gostei dessa história de “vamos entrar aqui na minha casa”, fiquei com medo do cara querer fazer alguma maldade ou algo do tipo, mas as minas não tavam nem aí e foram logo entrando. Eu acabei tendo que ir mesmo.
Não era nada demais. Ele apenas foi mostrando a casa dele e no final mostrou uns gatinhos que a gatinha dele tinha acabado de parir. Claro que desmanchou o coração das minas, pois se tem algo que amolece coração de mulher é gatinho filhote sedendo de carinho. Ficamos conversando lá por um tempo e ele perguntou se não estávamos a fim de ir numa balada com ele. Eu mais uma vez fiquei escabreado e com medo de acordar numa banheiro de gelo com um rim a menos (pô, eu sou do Brasil, né, fera?), mas mais uma vez as meninas foram na frente e nem me deram tempo de titubear.
No final o cara levou a gente pra uma balada GIGANTESCA!!! Custava 30 euros pra poder entrar, mas ele nos colocou de graça lá dentro! O bicho era REALMENTE gente boa! A balada era coisa de outro mundo, o único porém é que já estava fechando. Ficamos curtindo um pouco lá até que deu umas quatro horas da manhã. Ficamos ainda dando um rolê, mas eu acabei indo embora e me despedindo das meninas e do cara, que, infelizmente, nem o nome mais eu lembro.
Noite surreal, amigo.
Voltei pra casa e comecei meus preparativos pra poder viajar Síria no outro dia.

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