Triste realidade – Perambulando por Nouakchott

Assim que cheguei, eu e Emanuelzinho contratamos um motorista local para nos levar nas quebradas de Nouakchott. Cara, foi de longe a melhor decisão que pudemos tomar. O cara deu um rolezão cabuloso com a gente.
Primeiro fomos ao mercado do peixe, o principal ponto turístico de Nouakchott.
Imagine aquela loucura de feiras no Brasil, multiplique por cem e você vai imaginar o que era aquela loucura do mercado. Era gente para todo lado, barco para todo lado e eu e Emanuelzinho CLARAMENTE destoando daquela galera. Para ficar ainda mais engraçado, o motorista que contratamos era um negro alto e que veio vestido de paletó. Mano, um cara de paletó naquela loucura realmente não combina com o ambiente. O mais engraçado é que a gente ia andando e ele meio que abrindo espaço para a gente, quem olhava achava que era o nosso segurança e nós éramos os caras mais importantes da Mauritânia.
O negócio era não parar para pensar que o peixei que comíamos vinha daqui
A primeira coisa que você observa por aquele mercado é que só ha negros pelo lugar. Sim, os mauritanos mesmo são mais árabes e menos escuros do que os africanos subsaarianos. Eles eram em sua maioria senegaleses. O pessoal de Senegal parece ser a principal mão de obra não só do mercado, mas da Mauritânia inteira. Segundo um mauritano que conversamos eles vêm em peso devido ao caráter nômade do povo da Mauritânia que não estavam acostumados a viver em cidades e a desempenhar serviços urbanos. Disse ele que uma vez, devido a uma confusão, foi fechada a fronteira com o Senegal e os mauritanos quase morreram de fome por causa da falta de quem desempenhasse os serviços. Outro motivo era que antigamente era fácil comprar um passaporte mauritano falso e tentar migrar para a França. Como poucos mauritanos tentavam visto para a Europa e geralmente eles eram ricos (iam para passar férias e não emigrar) era mais simples para os senegaleses assim conseguirem chegar à França. Pelo sim, pelo não, a maioria dos garçons e atendentes que pude ver eram senegaleses ou da Costa do Marfim.
Outra característica interessante do povo é que eles são muito solidários a quem possa ter problemas no meio do deserto. Um cara que conheci em Andorra me disse que estava viajando por lá de moto e disse que ouviu falar que existe uma lei em que se alguém está ferrado no meio do deserto você é obrigado a socorrê-lo se conseguir avistá-lo. Pelo sim, pelo não, disse que quebrou uma roda de sua moto no meio do nada. Ficou uns trinta minutos esperando ajuda e de repente apareceu um carro com uma família. Ele não falava francês, os mauritanos não falavam inglês, mas ainda assim eles deixaram uma caixa de leite, um saco de maçã e duas garrafas mesmo ele dizendo que não precisava. Foram embora e uma hora depois chegou uma pick-up que disse que foi avisada pela família sobre uma moto quebrada no meio do deserto. O cara da pickup cobrou 300 euros para “ajudar”, mas, bem, é melhor que morrer no meio do deserto, né?
Depois do Mercado do Peixe, o motorista levou a gente para dar um rolêzão nas favelas de Nouakchott. Cara, o que foi aquilo? A gente até o momento só tinha rodado pela parte mais rica da cidade. Tá certo que a área mais rica era areia para todo lado e, literalmente, só duas ruas da cidade inteira tinham, ao mesmo tempo, asfalto, calçada e iluminação pública. Várias delas só tinham um desses três ou às vezes nenhum desses. A gente quase chegou a atolar em uma faixa de terra no meio do centro de Nouakchott uma vez.
Uma das poucas ruas na capital com asfalto, iluminação pública e calçada
Quando na verdade a maioria das ruas eram assim
Bicho, sério, foi como eu já falei no post da Guiana (leia aqui), a gente acha que por morar no Brasil, estamos acostumados a ver pobreza, mas, mano, mesmo os bairros mais pobres do Brasil que pude presenciar, mesmo há 20 anos atrás, não chegavam perto daquela cena chocante. Era algo de dar pena, um cheiro super forte de podridão por todo lugar e aquele cenário de “Deus nos acuda” e “Salve-se quem puder” absurdo. Um choque de realidade forte do tipo “agora você chegou na África de verdade”. A gente, dentro do carro e no ar-condicionado, parecia em uma espaçonave andando por um outro planeta surreal.
Engraçado como havia chineses por lá
Se liga na camisa do moleque que tá jogando
No meio da feira uma camisa do Neymar e uma bandeira do Brasil sendo vendida

Depois que saímos, o cheiro ficou impregnado no carro por dias, a gente até checou se não tinha deixado nada estragado lá dentro.

Depois fiquei pensando. Se os senegaleses vão para a Mauritânia para viver daquela forma deve ser porque na África Subsaariana deve ser ainda pior, por mais difícil que seja imaginar isso.

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