Viagem ao Zimbábue: babuínos na rua, comida barata, Victoria Falls e a nota de 100 trilhões de dólares que não comprava nada

Cheguei ao Zimbábue porque queria ver as Victoria Falls, as Cataratas do Iguaçu da África, que ficam exatamente na fronteira entre Zâmbia e Zimbábue. Apesar de a cidade do lado zimbabuano literalmente se chamar Victoria Falls — porque vive única e exclusivamente para isso — e apesar da maior parte dos voos internacionais chegar justamente ali, eu preferi me hospedar na Zâmbia em Livingstone. A cidade de Livingstone é muito mais estruturada, maior, com mais opções de tudo, enquanto Victoria Falls é praticamente uma cidade-monotema: existe, respira e funciona ao redor da cachoeira.

E mesmo assim, apesar de ser menor, estar num país com um histórico político complicado e viver entre crises cíclicas, a cidade de Victoria Falls recebe mais turistas que Livingstone. E a razão é simples: a vista das cataratas é melhor do lado zimbabuano. É do Zimbábue que você vê o paredão inteiro de água de frente, aquela imagem clássica que aparece em documentários. Do lado da Zâmbia, a visão é lateral, depende da época do ano e muitas vezes alguns trechos chegam a secar. O Zimbábue também investiu mais cedo em turismo: hotéis grandes, trilhas bem feitas e acesso direto ao mirante principal — tudo num espaço compacto, fácil de explorar a pé. No fim das contas, mesmo com inflação, crise política e tudo mais que o país enfrenta, o apelo visual fala mais alto. A maioria dos visitantes atravessa a fronteira porque, para ver as cataratas em sua forma mais épica, o lado do Zimbábue é imbatível.

Apesar da fama, ficar hospedado em Victoria Falls, no lado do Zimbábue, costuma ser uma furada para quem quer aproveitar bem a região. A cidade é pequena, tem menos opções de hospedagem e tudo costuma ser bem mais caro pelos mesmos passeios que você faria do lado zambiano. E o pior: as principais atrações — o safári a pé com rinocerontes e a Piscina do Diabo — ficam em Livingstone, na Zâmbia. Ou seja, se você se hospedar no Zimbábue, vai pagar mais e ainda vai ter que fazer deslocamentos maiores todos os dias. Além disso, quem está no Zimbábue precisa cruzar a fronteira diariamente, perdendo tempo e dinheiro com imigração, transporte e aquela burocracia básica de qualquer travessia africana. E se quiser fazer o day tour para Kasane, em Botsuana? Também vai ter que passar obrigatoriamente por Livingstone. No final das contas, Victoria Falls só vale a pena se você gosta de pagar mais para ter menos benefícios e não se incomoda em perder horas indo e voltando da fronteira. A melhor opção, pra mim, é a que eu fiz: ficar a maior parte dos dias em Livingstone e ir para Victoria Falls apenas no dia de visitar as cataratas do lado zimbabuano.

Chegada ao Zimbábue: gripe forte, avião só de gringos e o taxista mais didático da África

Desci no aeroporto do Zimbábue com uma gripe forte e totalmente desanimado porque imaginava que essa gripe iria estragar a minha viagem. Ledo engano, logo fiquei bom e logo estava lá pronto para a minha viagem. Uma coisa que me chamou a atenção é que só tinha estrangeiros no avião. 100%, todos os lugares. Os únicos locais eram aeromoças ou o piloto. Beleza, é uma zona turística, mas, caramba, mesmo os passeios eu só vi uma vez um casal de locais com a gente, de resto era sempre uma maioria de gringos aposentados.

Peguei um taxista no aeroporto que era gente boa demais e fomos conversando no caminho. Como de costume nos países assim que chego, perguntei para o taxista se era seguro caminhar pela região.

Ele falou que sim, desde que eu caminhasse só pelas estradas, evitasse andar sozinho e a noite e não me aventurasse a caminhar por entre os arbustos:

  • Ah sim, porque nos arbustos pode ter gente escondida para me roubar?
  • Não, porque a alguns metros da pista tem elefantes, hipopótamos e búfalos e se eles se sentirem ameaçados, eles podem te trucidar como uma boneca.

Explicando de forma didática assim não tem como não entender, né?

História do Zimbábue: Do Grande Zimbábue à hiperinflação, a trajetória histórica mais dramática da África Austral

Antes dos europeus chegarem houve na região o Grande Zimbábue, um reino africano que prosperou entre os séculos XI e XV e deixou como legado as famosas ruínas de pedra que deram nome ao país. Séculos depois, no final do século XIX, a região passou a ser alvo da cobiça britânica quando David Livingstone — missionário e explorador escocês — entrou para o imaginário britânico como herói nacional. Já dado como morto na África, ele foi encontrado pelo jornalista Henry Morton Stanley, episódio que gerou a famosa frase “Dr. Livingstone, I presume?”.

Placa em homenagem a David Livingstone

As explorações de Livingstone revelaram o interior da África Austral aos europeus e abriram caminho para a ambição colonial britânica. Seu relato sobre as Cataratas Vitória despertou interesse na região e tornaram o território mais vulnerável ao avanço imperial. Décadas depois, esse vácuo foi ocupado por Cecil Rhodes, que via a região como parte essencial do seu projeto de expandir o domínio britânico por toda a África. Cecil Rhodes, magnata e político queria estender o domínio do Império Britânico da “Cidade do Cabo ao Cairo”. A presença britânica ali facilitou a exploração de rotas, a instalação de infraestrutura e a articulação política que abriria caminho para a submissão dos reinos locais ao domínio europeu.

Do lado que seria a Rodésia do Sul, os britânicos consolidaram um sistema colonial em que a minoria branca controlava a política, as melhores terras agrícolas e praticamente toda a economia, enquanto a população africana era empurrada para reservas pobres e sem direitos. Essa desigualdade profunda alimentou décadas de tensão. Em 1965, quando muitos países africanos já estavam conquistando independência, os colonos brancos da Rodésia do Sul se recusaram a abrir mão do poder e declararam uma independência unilateral — um Estado que continuava branco, mas sem reconhecimento internacional. Esse ato provocou o início de uma guerra longa entre os nacionalistas africanos e o governo colonial, conflito que geraria as lideranças que mudariam o país, incluindo Robert Mugabe, que chegaria ao poder em 1980 como herói nacional. Foi o fim da Rodésia e o nascimento do Zimbábue. Com Mugabe, as coisas que estavam ruins se tornaram apocalípticas.

O governo de Robert Mugabe transformou o Zimbábue em um laboratório de desastre político, econômico e humano. Ele começou como líder da independência e poderia ter sido o Nelson Mandela do Zimbábue, unificando o país após o fim da Rodésia branca. Em vez disso, escolheu se tornar um tirano. Seu governo promoveu massacres contra opositores — o mais famoso deles foi o Gukurahundi, nos anos 1980, quando milhares de civis ndebeles foram mortos por forças comandadas pelo próprio Estado. Mugabe não pode ser acusado de racismo, no governo dele ele perseguiu, democraticamente, tanto negros quanto brancos: os primeiros, quando discordavam dele; os segundos, quando decidiu expropriar propriedades agrícolas sem planejamento, destruindo a principal base econômica do país. A intolerância política virou regra, jornalistas foram silenciados, opositores desapareceram e eleições se tornaram teatro.

Crianças brincando nas ruas, uma imagem que eu já tinha me desacostumado no Brasil

O colapso total veio com a hiperinflação histórica, que chegou a níveis tão absurdos que as pessoas andavam com notas de trilhões de dólares zimbabuanos. A maior de todas foi a nota de 100 trilhões de dólares zimbabuanos, um pedaço de papel que não comprava nem um pão — quando havia pão. Era comum ver pessoas indo ao mercado carregando sacolas cheias de dinheiro que valiam menos do que o plástico da própria sacola. A população gastava o salário imediatamente, antes que perdesse valor em poucas horas, e muitos acabaram abandonando a moeda local, passando a usar dólar americano, rand sul-africano ou qualquer moeda estrangeira que ainda tivesse algum poder de compra.A economia derreteu, hospitais fecharam, milhões fugiram do país e a moeda deixou de existir. O fim do regime só veio quando o próprio partido de Mugabe o expulsou em 2017, pressionado pelo Exército. Depois disso, o país adotou o dólar americano, a economia estabilizou minimamente e parte da vida cotidiana voltou ao eixo — ainda longe do ideal, mas sem a ruína absoluta da era Mugabe. Ele poderia ter entrado para a história como símbolo de reconciliação e liderança; porém preferiu enriquecer, se perpetuar no poder e deixar como legado um país devastado.

Hoje o Zimbábue tem uma economia dolarizada e você pode ter uma vida mais próxima do normal.

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