Viagem a Lesoto, história, capital e Thaba Bosiu, a fortaleza natural

A história moderna de Lesoto ganha forma a partir da chegada dos britânicos no século XIX, quando o território passou a atrair o interesse de potências coloniais e de vizinhos expansionistas. Nessa época, surgiu a principal figura central da identidade nacional de Lesoto até hoje: Moshoeshoe I, o líder que unificou diversos clãs sotho sob uma única autoridade política. Ele é tão importante pro país que o único aeroporto de Lesoto tem o nome dele. Ele nasceu com o nome Lepoqo, mas adotou o nome Moshoeshoe (pronunciado Mon-shwé-shwé) após um episódio em que, usando estratégia e astúcia, conseguiu derrotar inimigos de forma tão eficiente que “raspou” suas fileiras. Por isso, adotou o barulho de uma lâmina cortando (shoe shoe) no nome dele. Sim, sem zoeira, é por conta disso mesmo. Ele conseguiu unir as tribos basotho consolidando um território próprio, tornando-se um dos poucos grupos africanos a conseguir criar um protoestado para poder negociar com os ingleses.

A partir de meados do século XIX, Moshoeshoe percebeu que precisava buscar proteção formal para evitar ser conquistado pelos bôeres, colonos brancos que vinham do norte e avançavam sobre as terras basotho. Ele pediu ajuda ao Império Britânico, transformando o futuro Lesoto no Protetorado da Basutolândia. Os britânicos viram que ao criarem um protetorado no meio da África do Sul conseguiriam enfraquecer os bôeres — e mais tarde a própria África do Sul — impedindo que eles ganhassem ainda mais poder regional. Por conta disso hoje Moshoeshoe I é considerado o “pai da nação” de Lesoto.

Quando os britânicos começaram a desmantelar seus domínios africanos no século XX se recusaram a entregar Basutolândia para a África do Sul, tanto para evitar fortalecer o poder dos colonos sul-africanos quanto para manter influência estratégica na região. Assim, em 1966, Basutolândia se tornou o Reino do Lesoto, um país completamente independente e totalmente cercado pelo território sul-africano.

Hoje, o Lesoto vive numa relação dúbia com a África do Sul. Oficialmente é um país independente, mas na prática funciona quase como um Estado sob influência direta da África do Sul. Quando qualquer crise política começa a escalar no Lesoto, seja disputa entre facções, tentativa de golpe ou tensão entre a polícia e o Exército, a África do Sul intervém. Isso já aconteceu várias vezes desde a independência, e virou quase um padrão: o caos começa, os sul-africanos entram, estabilizam a situação e vão embora. O curioso é que grande parte da população de Lesoto não vê isso como algo negativo — pelo contrário. Para muitos basotho, essa interferência externa evita que o país mergulhe em guerras civis, golpes prolongados ou violência generalizada. É uma espécie de “seguro-político” informal.

A África do Sul, por sua vez, não faz isso por altruísmo. O principal motivo é geopolítico: não interessa ao governo sul-africano ter um país instável completamente encravado dentro de seu território. Um Lesoto em colapso significaria fronteiras vulneráveis, aumento de tráfico, migração descontrolada e risco de grupos armados se instalarem ali. Além disso, o Lesoto abriga as principais fontes nascentes de água doce que abastecem parte da África do Sul — especialmente a província de Gauteng, onde ficam Joanesburgo e Pretória, duas das principais cidades da África do Sul. Projetos como o Lesotho Highlands Water Project tornam o país vital para a segurança hídrica sul-africana. Ou seja, manter Lesoto estável é interesse estratégico direto: protege a região, garante água e evita crises maiores.

Apesar de ser muito mais pobre que a África do Sul, o povo de Lesoto prefere manter sua independência capenga porque isso garante aos basotho algo que eles perderiam imediatamente se fossem incorporados pelo país vizinho: um país para chamar de seu. Se Lesoto se juntasse à África do Sul, os basotho se tornariam apenas mais uma entre muitas minorias étnicas, sem peso real num sistema dominado por grupos muito maiores, como zulus, xhosas e sotho do sul. No reino, eles têm um Estado próprio, uma monarquia que simboliza sua história e instituições que, com todos os problemas, ainda respondem a um povo específico. Integrar-se à África do Sul significaria diluir essa identidade, perder autonomia e virar uma província a mais, sem voz significativa em um país muito maior e mais complexo. Para os basotho, ser pobre e independente é preferível a ser absorvido e invisível.

A diferença econômica entre os dois países é gritante: enquanto a África do Sul tem um dos maiores PIBs do continente, ultrapassando 400 bilhões de dólares, o Lesoto mal passa de 3 bilhões, o que faz a economia basotho ser praticamente uma gota d’água ao lado do gigante vizinho. Essa desigualdade ajuda a explicar porque a capital, Maseru, funciona quase como uma cidade-satélite da África do Sul. Ela fica literalmente colada na fronteira, separada apenas por um rio e por uma ponte movimentada que liga os dois lados. A dependência é tão grande que uma parcela significativa dos moradores de Maseru trabalha diariamente na África do Sul, cruzando a fronteira todas as manhãs para empregos que o mercado de trabalho local não consegue oferecer. Fora as pessoas que trabalham e moram nas casas de ricos em Joannesburgo, Cidade do Cabo ou Pretória e mandam dinheiro para os parentes em Lesoto. É uma relação econômica assimétrica, mas que mantém o país funcionando.

África do Sul ali do outro lado do rio

Perambulando por Maseru: a capital que muda de cara em cinco quadras

Depois de passar a tarde inteira esperando a boa vontade do pessoal para me entregar o visto — e ainda perder mais uma hora até uma tia bem descansaaaaada me vender um chip de celular — resolvi sair caminhando para conhecer Maseru, capital do Lesoto.

Andar por Maseru é curioso porque a cidade muda de cara em minutos. No centro, você vê prédios de concreto, bancos, ministérios e alguns edifícios modernos que lembram qualquer capital africana em desenvolvimento. Em certos pontos, até lembra uma cidade europeia menor, bem organizadinha.

Mas basta caminhar quatro ou cinco quadras para o cenário virar completamente: casas improvisadas, barracos de madeira e plástico, ruas de terra e bairros onde a infraestrutura não acompanhou o resto. Essa transição brusca — do formal para o informal — é praticamente um retrato da desigualdade do Lesoto, onde a modernidade convive lado a lado com áreas sem serviços públicos básicos.

Mesmo assim, Maseru é surpreendentemente segura para caminhar. Diferente da África do Sul, não há clima de tensão, nem aquela sensação de que alguém pode te esfaquear a qualquer momento. Você anda sem ser importunado, vê muita gente simples vendendo o que pode para sobreviver, mercados funcionando, e um cotidiano tranquilo. O trânsito é organizado, há presença policial constante e, no geral, a cidade passa uma calma que contrasta com o que a gente imagina de um país tão dependente da África do Sul.

E tem um detalhe que, para mim, já melhorou 50% da experiência: os táxis são claramente identificados com placa no teto. Pode parecer bobagem, mas Zâmbia, Zimbábue e Malawi não tinham isso. Quando você precisava de um táxi, tinha que ficar perguntando carro por carro, o que era bem chato e inseguro. Em Maseru não — é ver a placa e entrar.

E, sim… lá também tem Igreja Universal do Reino de Deus. Porque, claro, se existe um lugar habitado no planeta, a Universal dá um jeito de chegar antes de você.

Conhecendo Thaba Bosiu: a fortaleza natural que fundou um país

Aqui foi um ponto alto da viagem, um local que eu não dava nada e que eu curti bastante. Thaba Bosiu é o marco que levou a fundação de Lesoto.

Ela deve ser  a maior fortaleza natural da África. É uma montanha gigantesca, com topo plano e cercada por penhascos abruptos por todos os lados, o que a torna praticamente inexpugnável. Na história do Lesoto ela não era apenas um ponto de defesa: ele chegou a ser uma verdadeira cidade suspensa. Milhares de pessoas viviam lá em cima durante períodos de conflito, com vilas espalhadas pelo platô, fontes de água próprias, áreas de vegetação para manter o gado, espaço para plantar e tudo o que uma comunidade precisava para sobreviver meses isolada. Por isso, durante o governo de Moshoeshoe I, Thaba Bosiu virou o centro militar, político e espiritual dos basotho.

Esse conjunto de vantagens naturais fez com que nenhum inimigo jamais conquistasse Thaba Bosiu — nem bôeres, nem tribos rivais, nem forças coloniais. O terreno simplesmente inviabilizava qualquer ataque surpresa. A montanha virou símbolo absoluto de resistência, sobrevivência e inteligência estratégica. É considerada o berço do Lesoto moderno porque foi ali que Moshoeshoe unificou os clãs, consolidou seu povo, resistiu à expansão dos colonizadores e lançou as bases do reino que existe até hoje. Ali você consegue entender como geografia e estratégia podem salvar um povo inteiro da aniquilação.

Assim como Masada é um marco para Israel, Thaba Bosiu o é para o Lesoto. As duas são fortalezas naturais erguidas no alto, difíceis de escalar, e serviram como última linha de defesa de povos sob ameaça. Cada uma abrigou comunidades com água, espaço para animais e condições de sobrevivência durante cercos. A diferença é que, no caso basotho, a montanha não caiu — e virou o coração da identidade nacional.

Lá também estão enterrados Moshoeshoe I e outros reis basotho que deram continuidade ao reino, transformando a montanha num verdadeiro panteão. Além da realeza, líderes militares e figuras históricas que ajudaram a defender o país também foram e ainda são sepultados ali.

A primeira parada antes de subir o platô é um museu que explica a importância histórica da montanha e uma vila cenográfica que… sinceramente, não vale muita coisa. O museu, porém, é ótimo — principalmente a parte sobre o famoso chapéu do Lesoto, o mokorotlo, um dos maiores símbolos culturais do país. Ele é inspirado em uma montanha que fica ao lado de Thaba Bosiu. Feito tradicionalmente de palha tecida, era símbolo de autoridade entre chefes locais. Com o tempo, virou marca cultural dos basotho — está no brasão do país, nos prédios públicos, nos souvenirs… só não está na cabeça das pessoas, que hoje preferem boné.

Montanha que inspira o chapéu símbolo nacional do Lesoto

Depois fui subir Thaba Bosiu de verdade. Imaginei que seria aquele passeio rápido: sobe, tira umas fotos e desce. Ledo engano. Todo visitante é obrigado a subir com um guia, e isso muda completamente o ritmo. Em vez de ir direto ao topo, você para em cada ponto histórico, ouve histórias de batalhas, vê antigas aldeias, cavernas, fontes e relatos sobre Moshoeshoe. E como vivia MUITA gente ali em cima, o lugar é imenso. Depois que chegamos ao topo, nem parecia um platô — parecia chão normal, só que elevado. Quando percebi, já estava há mais de duas horas caminhando por todos os cantos. Foi aí que entendi por que Thaba Bosiu é tão importante: não é uma trilha, é uma aula de história a céu aberto.

Enquanto eu vivia meu “Discovery Channel Tour”, o pobre taxista que ficou me esperando lá embaixo começou a entrar em pânico. Ele tinha certeza de que eu iria subir, tirar duas fotos e voltar em quinze minutos. Quando viu que o tempo estava passando e nada de eu aparecer, começou a mandar mensagem perguntando se estava tudo bem. Quando finalmente desci, ele já estava com a cara de quem perdeu a manhã inteira à toa. Mas, sinceramente? Valeu cada minuto. Thaba Bosiu não é um passeio rápido — é um lugar que faz você ficar, porque a história ali em cima é grande demais para ser vista com pressa.

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Lesoto: o reino encravado, a burocracia infernal e a fortaleza de Thaba Bosiu

Lesoto seria o úĺtimo país nesse meu giro pela parte sul da África. Era o país que faltava para eu completar todos os países do sul da África, a exceção talvez de Angola (que na verdade já é quase que no centro da África). Lesoto é um reino e, junto com San Marino e Vaticano, um dos três únicos países do mundo totalmente cercado por outro país. Levando em consideração que San Marino e Vaticano são micropaíses, Lesoto na verdade acaba sendo o único com essa característica. Além disso, é o único país do mundo em que todo seu território está acima de 1000 metros de altura, sendo o país mais frio da África. Ele é um país relativamente isolado e, todo o desafio para chegar lá, mais uma vez, começou pelo visto de entrada no país.

A burocracia do Lesoto explicada: envie documentos para o visto e reze

Mais um capítulo da minha saga com vistos africanos. Para entrar no Lesoto, também precisamos de visto. Antes eles tinham um sistema online todo bonitinho para você aplicar para o visto, mas ele foi simplesmente desativado. Hoje, para conseguir o visto, você tem que mandar seus documentos para um e-mail. Sim, um e-mail. Eles analisam quando querem, respondem quando querem e você fica ali, rezando para alguém abrir a caixa de entrada.

Eu mandei um e-mail perguntando quais documentos eram necessários e… silêncio absoluto. Esperei um mês, reenviei o e-mail e aí sim eles responderam, listando tudo o que eu tinha que mandar. Um dia depois, eu enviei tudo certinho. Receberam, mas responderam dizendo que não iriam emitir o visto naquele momento porque, quando o visto fosse aprovado, eu teria apenas 21 dias para entrar e sair do Lesoto. Ou seja: pediram para eu enviar tudo de novo “mais perto da viagem”. Repare na loucura: enviar de novo para o mesmo e-mail que eles respondem quando querem, sem prazo, sem previsão, sem garantia de nada. E para completar, só emitem o visto se você já tiver comprado passagem de ida e volta e hospedagem.

E se não derem o visto a tempo?

Problema seu. Você perde tudo e dane-se.

Longa vida à burocracia africana.

Enviei tudo de novo e pedi, educadamente, um e-mail de confirmação — só para eu saber que alguém vivo tinha recebido minha mensagem. É claro que não falaram nada. Como sempre, respondem quando querem. A viagem foi chegando, eu mandando e-mail todo dia perguntando se precisavam de mais algum documento. Nada. Nenhuma resposta.

Cheguei até a pedir ajuda para um cara de Lesoto que conheci no Couchsurfing. Todo santo dia ele tentava ligar para todos os números disponíveis no site do visto — nenhum funcionava. Todos caíam, chamavam eternamente ou estavam desativados. Quando eu já estava prestes a cancelar minha passagem do Malawi para Lesoto e comprar uma do Malawi direto para a África do Sul, PLIM, recebo uma carta de autorização para entrada no Lesoto na minha caixa de entrada. Cara, eu comemorei aquilo como se o Brasil tivesse acabado de ganhar uma Copa do Mundo.

Viajar pela África é sempre assim: teste cardíaco gratuito.

E eu achando que a novela tinha acabado ali.

Mal sabia eu que a dor de cabeça estava só começando.

E você achou que tinha acabado? Quando o visto depende de uma sala cheia de papel e frango frito

Ainda no aeroporto da África do Sul, apresentei a carta de visto que o Lesoto tinha me enviado. A atendente da companhia aérea analisou, pediu minha cópia e saiu. Quando anunciaram o embarque, todo mundo foi chamado… menos eu. A moça voltou dizendo que precisava ligar para o Lesoto para confirmar se o meu documento era real antes de me deixar entrar no avião. No fim, deu certo — seguir viagem virou quase um prêmio. Reitero, isso foi ainda na África do Sul.

Ao chegar ao único aeroporto do Lesoto, descobri outra novidade: apesar de ter enviado tudo por e-mail, o visto não ficava pronto ali. Eles só te dão um carimbo temporário de entrada e você tem 72 horas para se apresentar pessoalmente no Ministério de Assuntos Internos para concluir o processo. Ah, detalhe: o lugar não abre fim de semana, fecha para almoço e às 15h encerra o expediente porque, afinal, ninguém é de ferro.

E se você não for?

Basicamente, você vira um problema diplomático ambulante e não consegue nem sair do país.

Quando perguntei no aeroporto onde regularizar isso, o povo arregalava os olhos e mandava: “Vá lá o mais rápido possível”. Nem chip de celular eu pude comprar.

Como eu tinha chegado numa quinta, fui direto ao ministério — vai que eles resolviam que a semana só ia de segunda a quinta e na sexta eu ficava ao léu. Cara, do jeito que as coisas eram, tudo podia acontecer.

O aeroporto é tão pequeno que existe apenas uma vanzinha que busca todos os passageiros. Me avisaram: se eu perdesse a van, só pegaria outra quando chegasse o próximo voo. Entrei na van junto com um grupo de africanos. Depois de alguns minutos ouvindo o papo, algumas palavras soaram familiares. Português. Eram moçambicanos. Ficamos conversando o trajeto todo — admito que foi um alívio falar português depois de tantos dias improvisando inglês.

Cheguei ao meu Airbnb, deixei as malas e parti para o tal ministério.

E aí começou o calvário.

O prédio parecia cenário de série feita para zoar serviço público. Móveis empilhados pelos corredores, poeira acumulada e aquele ar de abandono absoluto — mas com gente circulando, então tecnicamente estava “funcionando”. Me encaminharam para uma salinha e: era um mar de mesas marrons e pilhas absurdas de processos em papel. Pilhas e pilhas. Naquele momento eu compreendi por que eles não respondiam e-mails: quem vai parar a vida para catar processos em montanhas de papel para responder e-mail?

As senhoras do setor foram até simpáticas. Depois de uns 15 minutos escavando papelada, acharam meu processo e me mandaram para outra sala para “pagar o visto”.

Cheguei na tal sala e encontrei três mulheres enormes. Parafraseando um antigo presidente, elas deviam pesar algumas arrobas.  E lá estavam elas sentadas, batendo papo como se nada no mundo fosse mais prioritário. Quando me viram, disseram para esperar no corredor porque ia demorar. E realmente foi. Eu via pela fresta da porta, e, cara, mesmo sabendo que eu estava esperando do lado de fora, elas simplesmente ficaram batendo papo e me deixaram esperando. Era necessário aguardar acabar o bate-papo. Depois de meia hora, uma delas finalmente percebeu a fila crescendo e começou a atender.

Quando entrei, o impacto veio pelo nariz: um cheiro fortíssimo de frango frito impregnado em tudo — paredes, papéis, mesas. Os documentos tinham manchas de gordura. Elas conversavam entre si enquanto faziam meu atendimento, riam, comentavam histórias, como se eu nem estivesse ali. Depois de 45 minutos, paguei a taxa e voltei para a primeira sala.

Ali, as funcionárias disseram que agora o supervisor precisava assinar, mas ele estava em uma reunião. Imagino que fosse do mesmo nível de produtividade da sala do frango frito. Me mandaram sentar e esperar.

E assim foi:

5 minutos.

10.

15.

30.

45.

1 hora.

1h10.

Só então o supervisor apareceu, assinou meu papel e me liberou. Três horas depois, eu finalmente saía com o visto. E não, não estava lotado. Éramos apenas eu e um chinês acompanhado por um despachante do Lesoto. Era pura burocracia, misturada com um certo prazer institucional de mostrar poder — fazer o estrangeiro esperar porque podem.

Para piorar, quando saí, eles me deram um recibo do pagamento. Normalmente jogo isso fora, mas esse achei “bonito” e guardei. No dia seguinte, recebo uma ligação desesperada: era o despachante do chinês dizendo que eu tinha levado o recibo do cliente dele. Conferi e, sim, as funcionárias tinham me entregado o recibo errado. O cara implorou dizendo que precisava daquele papel “com urgência absoluta” e que iria me encontrar onde eu estivesse. Falei que estava num supermercado. Cinco minutos depois, o homem brotou no meio das prateleiras.

Comentei com um taxista e ele disse que, no Lesoto, todo mundo tem medo dos chineses. Segundo ele, os chineses tentam de tudo para não te pagar, e se houver qualquer erro de recibo, eles se negam a pagar e ainda chamam a polícia. Vendo o desespero do despachante, acredito que já tinha policial no calcanhar dele.

E olha… não duvido.

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