Imagina na copa?

(texto originalmente escrito em julho de 2014 e que hoje achei entre meus arquivos…)

Esses poucos dias aqui no Equador, depois de passar por países como Panamá, Uruguai, México e até EUA, me fizeram pensar como parece que a América Latina está toda em ritmo de Copa. Aqui no Equador, do taxista ao povo que me via na rua com o agasalho do Brasil, todos vinham me perguntar da Copa do Mundo e falar de Messi, Cristiano Ronaldo, Neymar e coisas assim. Isso me fez pensar como no Brasil tá aquele clima como se estivéssemos hospedando o Mundial de Rugby, todo mundo sabe que vai rolar, mas finge que não se importa.
Porra, é a Copa do Mundo, o maior evento do planeta ocorrendo em casa e a gente tá que nem um bando de bundão dizendo “Imagina na Copa” e “Fora PT”, como se a Copa do Mundo fosse ocorrer dentro da casa do Lula.
Tá certo que os estádios saíram mais que o planejado, tá certo que a principal realização do governo patético do Agnelo Queiroz foi um estádio que custou o dobro do preço, mas agora fingir indiferença ao evento que, junto com a visita do Papa, faz o país parar e a Avenida Paulista virar uma avenida fantasma, por causa de uma galera que, pode até ter causas justas, mas acha que vai mudar o país quebrando banco e McDonalds, cuspindo em pai de família fardado e tacando fogo em ônibus, são outros quinhentos.
Sinto que estamos naquele clima de que vamos passar vergonha apesar de já termos realizado uma Copa há 70 anos e de no carnaval contarmos turistas aos milhões e não aos milhares como será na Copa. Nessas horas eu lembro de um dos membros de uma organizada inglesa que dizia que quando foram na Ucrânia e na África do Sul (país mais violento que o nosso), todo mundo falava que eles iam ser mortos e estuprados e lá estão eles vindo felizes e contentes para o Brasil!
Hoje se sente que é até politicamente incorreto gostar da Copa do Mundo, como se todos nossos problemas fossem ser resolvidos e fôssemos ter um hospital e uma escola em cada esquina com 8 bilhões de reais, o que dá menos de 40 reais por brasileiro.
Então, quer saber? Eu confesso! Confesso que deixei dessa baboseira! Confesso que entrei no clima da Copa!! Confesso que tenho álbum de figurinhas! Confesso que comprei ingressos para todos os jogos de Brasília! Confesso que tou ansioso para ver os jogos na sovaqueira que vai ser a Fifa Fan Fest, confesso que também estou ansioso para agarrar o Neym… tá, também não tou tão ansioso assim, mas quem gosta, não tem problema!! Quero mais é que o Brasil seja campeão e, para não perder o costume, que a Argentina se foda, junto com a França daquele chato de galocha do Valcke!!
FALTAM MENOS DE 30 DIAS!!! VAI FELIPÃO!! CHUPA ARGENTINA, VOCÊS NÃO TEM COPA!!! OBINA É MELHOR QUE MESSI!!! CHUPA AGNELO!! CHUPA FIFA!! CHUPA BLATTER!! CHUPA VALCKE!!! DEIXA A SUA SÍNDROME DE VIRA-LATA NO ARMÁRIO POR UM MÊS!! PIAUÍ NÃO TEM TIME NA SÉRIE B!! VAI SAMPAIO!! PARA CIMA DELES, FRED!! MARACANAZZO É COISA DO PASSADO!! TROCO FIGURINHAS!! VAI TER COPA, PORRA!!!

Porque não querer enjaular pessoas por qualquer coisa não é ter pena de bandido, mas sim pena do meu bolso…

Esse último fim de semana fui ao Maranhão por causa das festas juninas, de longe o melhor momento para visitar São Luís. Porém, o que me impressionou dessa vez não foi o bumba meu boi (que é impressionante, vou postar as fotos depois), mas sim o medo da violência. Não, não é aquele medo que somos acostumados desde criança: não andar com joias, não ostentar as coisas, não sair sozinho à rua a noite. Não, é pavor em uma escala como eu nunca presenciei em 31 anos de vida.
Daí eu me pergunto por quê. Direitos humanos são uma piada no Estado. Pode até haver Corregedoria nas polícias, porém elas estão longe de ser tão efetivas em punir execuções e torturas quanto às dos Estados sulistas, que parecem gostar muito mais dos bandidos que nós. Nas nossas prisões, onde mais de 50% dos presos foram sequer julgados, não existem regalias, os presos realmente pagam pelos crimes em uma realidade medieval sob tortura diária. Isso quando saem vivos, pois o Maranhão tem a maior mortalidade per capita nos presídios de todo o Brasil (superando em quase 4 vezes o segundo colocado, portanto nossa pole position está assegurada com tranquilidade). Há uma probabilidade 60 vezes maior de um cidadão morrer dentro de um presídio maranhense, ou seja, sob custódia de um Estado que deveria estar lhe reeducando, do que fora dele. Logo, o Maranhão é o estado mais próximo de possuir pena de morte para criminosos, sonho da bancada da Bala da Câmara dos Deputados. Ah sim, grande parte desses mortos em 2014 foram mortos decapitados, assim como o Estado Islâmico gosta de fazer e a gente até fica chocado de ver quando não é em um “criminoso”.
Portanto, o Maranhão é o laboratório perfeito das políticas de segurança propostas pelos homens de bem do Facebook, a Bancada da Bala e parte de líderes religiosos (tristeza porque quem já leu a Bíblia sabe que ele é um livro que fala de amor e não de ódio). Como recompensa por estar fazendo “tudo certinho”, não dando espaço para os frescos dos Direitos Humanos, o Maranhão teve uma taxa de homicídio que triplicou em 15 anos? Gente, TRIPLICOU! EM QUINZE ANOS!
Infelizmente a vida não é binária ou tão simples quanto a gente quer imaginar. Hoje o Brasil tem a quarta maior população carcerária do país (a título de comparação temos mais presos que a Índia, que tem uma população SEIS VEZES MAIOR e uma taxa de homicídios ridícula comparada com a nossa). Essa galera presa custa dinheiro, MUITO DINHEIRO. Um menor internado custa 8,9 mil reais por mês. Um detento em uma prisão federal, 3500 reais por mês. Uma criança na escola, 2222 reais. AO ANO! Sim, incríveis 185 reais ao mês. Um adolescente sob custódia do Estado custa o mesmo que quase CINQUENTA na escola!
Por isso que ser contra enjaular pessoas que cometeram crimes não significa ter pena de bandido, mas sim ter pena do meu próprio bolso. Gastamos uma grana feia para que 70% deles possam cometer mais crimes quando saírem, dessa vez melhores capacitados no crime. Prisão precisa ser o último recurso a ser empregado em quem comete crimes, não o primeiro.
Serve como reflexão nesses dias onde está tão na moda achar que violência vai resolver nosso problema e não políticas de ressocialização efetiva, investimento em educação e medida socioeducativas. Ou então enfiar adolescentes em presídios.

Novo golpe militar no Brasil e Nelson Ned

Alguns parecem nutrir um certo temor com essa marcha de São Paulo. Inicialmente pedia-se o impeachment da Dilma, depois se misturaram com quem pedia recontagem dos votos e no final o que deu mais Ibope mesmo foi para a galera que estava pedindo a volta da Ditadura Militar e o fim da democracia.
Segundo estimativas foram 2.000 pessoas. Isso me fez lembrar o comentário de um jornalista sobre a preocupação despertada pela notícia de que havia 20 “círculos bolivarianos” no Brasil para discutir os ideais que inspiram Hugo Chávez. Se isso não seria uma ameaça para a democracia. Ele respondeu que “Na população brasileira deve haver mais gente militando no fã-clube do Nélson Ned’’. Acho que esse para mim é o resumo do quanto temos que nos preocupar com 2000 malucos gritando coisas desconexas em uma cidade com dezenas de milhões de habitantes.
Pessoas assim sempre existiram, porém, hoje, com o advento da internet qualquer coisa bizarra pode virar um viral. E, cá entre nós, esse povo é engraçado. Se liga no vídeo abaixo de alguns que chegaram a ir em um quartel no Ceará para pedir diretamente aos militares um golpe:
Apesar de ter muita gente que enche a boca para falar que não pertence a nenhum partido político, sindicato, entidades representativas ou associações para opinar ou se manifestar, nenhuma mudança social acontece de verdade se for sem eles. E basta um olhar mais atento para a manifestação para perceber que não houve qualquer apoio de instituições coletivas. Para usar como exemplo de comparação, a Marcha da Família com Deus pela Liberdade de 1964, que foi um fator importante para o golpe militar, contou com centenas de milhares de pessoas e apoio de setores do clero (como o próprio nome já deixa claro), do empresariado, setores políticos etc. Já em São Paulo as principais lideranças acabaram sendo mesmo o decrépito do Lobão e o filho do Bolsonaro, que, lógico, subiu no trio elétrico armado caso o golpe fosse começar dali.
O que mais me surpreendeu foi ver um partido como o PSDB, um partido com história, um dos poucos partidos que efetivamente é um partido e não uma agremiação de interesses, parecendo surfar na onda. Isso no final desencadeou o ridículo questionamento no TSE, que até mesmo setores de dentro do PSDB reconheceram que foi uma burrada. Ainda bem que houve a constatação do tiro no pé que era ter apoio desses lunáticos e até o próprio Geraldo Alckmin foi a público condená-los. Hoje, Aécio, em seu primeiro discurso pós-derrota, reconheceu a vitória da Dilma e criticou os grupos que pediam a volta ao governo militar e o impeachment, se desvinculando dos nossos amigos maluquinhos. Pode parecer pouco, mas é sempre bom lembrar que o PT nunca se desvinculou de seus mensaleiros e ainda os trata como heróis.
Por último, um golpe militar não se faz assim do nada. Não é algo onde se acontece uma eleição, o candidato de direita perde e um general olha para o outro e diz “Pô, não estamos fazendo nada aqui, vamos ali derrubar o presidente?”. Basta lembrar que o golpe de 64 durante anos foi algo esperando para se acontecer. Desde a renúncia de Jango em 1961 e toda a negociação para posse do seu vice, João Goulart, que o clima no país estava caminhando para isso. Além disso, era época de Guerra Fria, com uma Revolução ocorrida no quintal dos Estados Unidos em 1959 em Cuba e tudo o que os Estados Unidos menos queriam eram sequer passarem por um risco parecido na América do Sul. Vários países Sul-Americanos inclusive viraram ditaduras durante essa época.

Enquanto os gatos dormem, os ratos fazem a festa. Ou a pauta bomba

Enquanto coxinhas ficam pedindo recontagem de votos, como se o nosso sistema eleitoral fosse um lixo qual o estadunidense, criando abaixo assinado pelo impeachment da Dilma e petralhas mandando beijin no ombro e sambando na cara das recalcadas, o Congresso Nacional vai lentamente fazendo o que saber fazer de melhor. Enquanto o governo vai tentando se recompor desse cenário de terra arrasada pós-eleições e de alguma forma dar algum tipo de resposta aos clamores de mudança em uma eleição que quase foi sapecado, o Legislativo vai devagarinho transformando o Poder Executivo em refém.
É tão simples que chega a ser bobo. O Executivo precisa dar alguma resposta para a sociedade. Se ele faz isso baseado em interesse próprio e eleitoreiro ou realmente quer mudança, não vem ao caso. O fato é que o governo efetivamente quer propor mudanças. Todas as mudanças passam pelo Congresso, que sabe que essa é a hora certa de pôr os dentes de fora e pegar a sua fatia do bolo.
Apesar de você estar aí todo pimpão com a derrubada dos conselhos sociais (ou bolivarianos, para ficar mais fácil para os coxinhas lembrarem), essa derrubada foi basicamente um recado. Enquanto entramos em recessão técnica e precisamos de equilibro fiscal, o Congresso prepara a sua pauta bomba de aumento de gastos que de interesse social não tem nada: Obrigação do governo em executar as emendas parlamentares dos deputados (depois digite emendas parlamentares + corrupção no Google), aumento de salário do Judiciário para que marotamente eles possam ultrapassar o teto do funcionalismo, flexibilização das dívidas dos estados dos municípios e, claro, aumento dos próprios salários ano que vem porque ninguém é de ferro.
Enquanto você está aí feliz porque está batendo sua laje, nosso amigo vai explicar porque os pobres dos juízes precisam de um auxílio-moradia de 4800 reais.
Nos bastidores Henrique Alves, o mesmo do escândalo do bode galeguinho onde o único punido foi o pobre do bode, sem emprego ano que vem após perder a disputa de governador, articula de toda forma para conseguir espaço no próprio governo, quem sabe um Ministério. Renan Calheiros quer obrigar o governo a apoiá-lo na presidência do Congresso novamente. Candidatos derrotados querem garantir a sua boquinha a partir do ano que vem mantendo os seus apadrinhados no governo.
Galeguinho dando uma nova forma à expressão

Todos esses nossos amigos podem fazer isso na maior tranquilidade pois sabem que se tudo der errado, o salário está no bolso e quem vai responder pelo baixo crescimento e descontrole das contas públicas é o Executivo mesmo. É aquela vida boa que todo mundo que tem irmão pequeno sabe que ele tinha. Ele podia quebrar qualquer coisa na casa que quem ia responder era o irmão mais velho. Até Waldemar da Costa Neto, PRESO em regime semi-aberto por causa do mensalão, aproveita que só precisa passar a noite em sua hospedaria e durante o dia aproveita para conspirar contra o governo e comandar o seu partido já de olho nos cargos e ministérios de 2015. Só lembrando que o seu partido é o PR, partido do primeiro governador preso da História, Arruda, e que quase foi eleito governador em Brasília.

Enquanto ficarmos como idiotas achando que grande parte dos nossos problemas estão no Presidente e elegendo tranqueiras para o Congresso, tudo vai ficando da forma que está. A questão não é ser contra criticar o Presidente. Não, isso é mais do que certo. A questão é que de uma extrema burrice querer colocar a culpa pelo descontrole dos gastos públicos, baixo crescimento, rebaixamento do Vasco, criação da Fanta Maçã, o cunhado folgado que não sai do sofá, e tudo mais que for errado na sua vida no Presidente do país como se ele fosse um rei absolutista.
Melhor do que compartilhar qualquer coisa do Lobão

Acho que as pessoas poderiam aproveitar todo esse fervor político, discutir coisas úteis e que realmente são problemas nesse país e não o que o Aécio faz no fim de semana no Rio ou quantos dedos o Lula tem na mão. Ou propor separar o Nordeste e transformar Minas em um lago.

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Ai ai, agora deram para falar do Maranhão

Agora, além de maldizer o Nordeste, acharam por bem falar do Maranhão, já que o meu estado foi onde houve, proporcionalmente, mais votos para Dilma. Parece haver um consenso entre os insatisfeitos de que a votação expressiva do Maranhão deve-se unicamente ao Bolsa-Família e que, egoisticamente, os maranhenses ficaram com medo de deixar de perder seu “privilégio”. Bem, gostaria de deixar o meu testemunho de porque acho que 70% dos maranhenses votaram em Dilma. Não tenho a pretensão de dizer que isso é uma verdade absoluta ou falar em nome de seis milhões e meio de maranhenses, até porque votei no Aécio, mas, como já disse, é apenas um testemunho.
Quebradeiras de coco babaçu mamando nas tetas do governo

Bem, o Maranhão de minha infância foi um estado pobre e que hoje me impressiona o tanto que mudou em um espaço de tempo tão pequeno.
Apesar de nunca ter vivido em miséria ou pobreza, pois, graças a Deus, minha família era de classe média, cresci em um lugar onde a mão de obra era tão barata que as casas de classe média do Maranhão pareciam verdadeiras cortes tamanho o número de empregados. As crianças vinham do interior do Maranhão, fugindo, como diria Patativa do Assaré, “com medo da peste, da fome feroz”. Eram “criadas” pelas donas de casas maranhenses. “Criadas” significava que elas trabalhariam de graça para ter a oportunidade de estudar em uma escola pública, desde que a noite, e caso a Casa Grande, digo, a família fosse condescendente, essa criança receberia algumas roupas usadas como “presente”. Quando virasse adolescente, com muita sorte, receberia, um salário mínimo??, não, meio salário-mínimo, ou, como dizíamos no Maranhão, meio salário, que naquela época era miserável. Era um sistema tão surreal, que havia um sentimento de gratidão entre essas meninas e as donas de casa, pois elas sentiam-se realmente “criadas” e sabiam que se não tivessem vindo do interior para se submeterem a isso, a sua sorte seria bem pior.

Curta de Glauber Rocha, que foi encomendado por José Sarney em sua posse ao governo do Estado do Maranhão em 66. Até vinte anos atrás era tão atual…
Lembro de uma professora minha, em plena aula, dizer que tinha um jardineiro que cobrava só um prato de comida para poder fazer o trabalho. Ela dizia que sabia que era barato, mas é o que ele cobrava. “Ah, mas também era um senhor prato que ele comia” – ela dizia como para se justificar. Acostumei-me a estudar em escolas em que os poucos negros trabalhavam como porteiros ou faxineiras. Não lembro de ter muitos amigos negros no Maranhão (negro quando digo é da cor do Pelé, não moreno quase que nem eu), não por não gostar deles, mas sim porque os negros não faziam parte do nosso círculo social. Os poucos amigos negros que lembro de brincar na rua do meu bairro eram adotados ou “criados”. Isso no segundo maior estado negro do país.
Lembro de, quando criança, ficar aterrorizado em descobrir que alguns dos jardineiros, motoristas, entre outros que prestavam serviços eventuais para nossa casa, não sabiam ler nem escrever e, ironicamente, aprendiam as primeiras palavras das crianças da casa que, naquela inocência, acreditavam que poderiam ajudar. Lembro de perguntar quantos irmãos eles tinham e eles responderem que a mãe teve oito filhos, mas só cinco “renderam”, já que era natural crianças morrerem de desnutrição no Maranhão antes dos cinco anos.
Lembro, quando criança, de conversar com um menino vizinho meu e perguntar do lavador de carros da casa dele, que gostávamos porque nos dava algumas aulas de capoeira (apesar de algumas mães não aprovarem por dizer que aquilo era coisa de preto e vagabundo). Vi que fazia tempo que ele não ia mais lá e resolvi perguntar por que: – Ah, nós juntamos um bando de roupas usadas e demos para ele. Depois ele veio pedir salário, ele era muito folgado – foi a resposta que recebi e que, se hoje acho de uma atrocidade tremenda, naquela época, como criança, achei apenas natural.
Mas não só a classe pobre maranhense era assim. A classe média do Maranhão também era pobre, ainda que frente a grande maioria da cidade fôssemos ricos. Quando criança, ficava maravilhado ouvindo as histórias dos poucos felizardos que haviam tido a graça de visitar São Paulo, como tudo lá parecia coisa de outro mundo, não era “aquele lixo que é São Luís” – como a gente costumava dizer. Naquela época, mesmo um classe média maranhense, deveria ter uma renda per capita cinco vezes menor do que um classe média paulista, isso sou eu chutando.
Poderia escrever trinta, quarenta páginas sobre a minha realidade de criança, mas acho que deixei meu ponto.
Maranhenses que só pensam em si mesmos e votaram na Dilma
Hoje, em São Luís, é preciso muita coragem para se “criar” meninas na sua casa. Com a melhora das instituições e o maior nível de escolaridade, ninguém se sujeita a esse tipo de trabalho escravo e, depois de levar um processo na justiça do trabalho, pode acontecer é de você ir limpar a casa da empregada para pagar a dívida. Depois da Emenda Constitucional das Domésticas “empregada no Maranhão agora só quer ser chique” – como escutei na última vez que fui lá. O interior do Maranhão pode não ter virado uma maravilha, mas pelo menos deixamos de ver pessoas literalmente fugindo de lá para não padecerem de fome ou desnutrição e hoje poderem ir para escola. Educação ruim, é verdade, mas melhor do que quando não tinham nem isso e tinham que aprender a ler com as crianças da Casa Grande.
Hoje o Maranhão pode não ter virado São Paulo, a ilha das maravilhas de todo maranhense da década de 80, mas com certeza a nossa diferença diminui absurdamente. O Nordeste nos 12 anos do governo Lula-Dilma cresceu a uma taxa três vezes maior que a média da taxa de crescimento do Brasil. A título de comparação, em 2011, o Maranhão cresceu a taxas chinesas, 10,3%, enquanto o PIB nacional cresceu 2,7%. Se isso foi por mérito do PT, foi por causa do crescimento da China, foi por causa das reformas do FHC, foi por causa da seleção de Parreira de 1994, por causa do Capitão Planeta, ninguém pode afirmar, mas é natural a tendência das pessoas a ligar os pequenos avanços que conseguiram a quem está no poder. Os nossos avós, a Getúlio Vargas, os maranhenses, a Lula e Dilma e, graças a Deus, não aos Sarneys.
Acredito que não há demérito nenhum em dizer “não conheço esse tema, será se dava para você falar um pouco mais?”. Na verdade, é bem melhor do que sair falando barbaridades sobre estados e pessoas que nem sabe onde fica e nunca visitou, apesar de já ter ido a Paris e a Disney. Afinal, o Estado de uma pessoa não é só aquilo que você teve que decorar na aula de Geografia, o Estado de uma pessoa é de onde ela vem, é onde estão os seus amigos de infância, a sua família, é de onde vêm as pessoas com quem ela se sente mais a vontade e é de onde se ela teve que sair foi porque, como disse o Luiz Gonzaga, teve que pegar “o último pau-de-arara”.
E, assim, meu Estado não elegeu Feliciano, a filha de Garotinho, Eduardo Cunha, Maluf, Tiririca, Russomano, Fraga entre outros grandes políticos sucesso de votos. Tiramos os Sarneys. Talvez não estejamos tão mal assim.
Hein Hein, bando de qualhira! Fica mangando dos outros, arrumando cascaria, depois pega um bogue ou leva uma chuchada e fica todo escangalhado! Aí eu vou ver ficar arriliado. Ninguém aqui é seus pareceiro não!

Armistício pós-eleição

E acabou.

Vimos chegar a quarta-feira, acabar brincadeira, rasgar fantasias, bandeiras se desmanchando. 
Acabou a eleição mais acirrada da história.
Agora é o momento de voltar a fazer as pazes com todo mundo que saímos na mão nesses últimos dias. Hora de parar de imaginar que política é como futebol, Fla x Flu, e começar a conversar com os amigos de uma forma civilizada.


É hora de tirar a sua assinatura daquele abaixo-assinado, que eu sei que você só assinou porque estava no calor do momento, perceber o quanto é ridículo querer ganhar a eleição no tapetão e pensar até em contratar o advogado do Fluminense. Vamos parar de se ridicularizar e querer imaginar que qualquer coisa pode dar Impeachment, né?

– Impeachment de Alckmin
http://spressosp.com.br/2014/10/24/apos-audio-vazado-da-sabesp-oposicao-pode-pedir-impeachment-de-alckmin/
– Impeachment de Dilma
http://www.diariodopoder.com.br/noticias/impeachment-de-dilma-ja-tem-575-mil-assinaturas-2/

O Brasil não vai virar uma Cuba ou uma Venezuela e nem iria virar Miami como os coxinhas imaginavam. Caso o Aécio fosse eleito, o Brasil ia continuar sendo o país que é, com seus pequenos avanços anos após anos. A Belíndia vai continuar se aproximando mais da distante realidade da Bélgica mais se distanciando bem mais rápido da Índia.

Coxinhas amigos, o PT não é um partido baseado na corrupção, isso é o PMDB. Petralhas amigos, o PSDB não é o partido que nos vai trazer o apocalipse caso eleito, isso é o PR que no DF não só tinha um ex-presidiário candidato a governador, Arruda, como se orgulhava disso.

Nem o PT, nem o PSDB são partidos fisiológicos, são partidos que possuem corruptos entre eles. Isso é o problema de um sistema eleitoral que leva ao máximo o significado da palavra “pluralismo partidário” como se isso fosse um conceito absoluto e democrático.

Devido ao nosso “pluralismo democrático”, em 2015 teremos 28 partidos no Congresso Nacional. Pode parecer trivial, pois apesar do poder propositivo dos partidos com um ou dois deputados ser quase nulo, o poder de travamento do Congresso de cada um deles é tremendo. Basta apenas ver o  barulho que o PSOL, com seus três deputados, fez na legislatura passada. Apesar do PSOL tentar a todo momento travar o Congresso por sua ideologia, as legendas de aluguel o fazem por cargos, influência, interesse próprio. Sendo mais claro, para roubar dinheiro. Aí reside o principal problema de corrupção brasileira e não no PSDB ou PT.

Dizer isso não é ser conivente com corrupção ou apoiá-la, é simplesmente achar uma burrice sem tamanho querer jogar a culpa da corrupção em quem não é o verdadeiro problema, fazendo exatamente o jogo que PP, PMDB, PR, PTB, esses os principais problemas, querem que joguemos.

A Copa do Mundo é nossa!!

Enfim, acabou.
E acabou sendo eleita no site da BBC como a melhor Copa da história. Essa Copa foi um banho, foi um baile sobre o sentimento vira-lata brasileiro. Apesar de não termos levado o caneco, foi a nossa redenção de 1950. Levamos um sapeco maior, um Mineirazo e um Manérazo e, ao contrário de 1950, ainda assim saímos com a autoestima elevada e com o sentimento de que podemos sim, realizar um trabalho a nível de excelência.
As piores previsões não se concretizaram: não houve surto de dengue, não houve apagão, ataques do PCC, meteoros caindo céu… nada do Armagedom que a imprensa nacional e internacional martelaram durante anos em nossas cabeças.
Apesar do PT querer capitalizar o sucesso, comemorar a realização da Copa não é comemorar o PT (Manaus, que foi escolhida a melhor cidade-sede, por exemplo, é administrada por Arthur Virgílio do PSDB). Festejar a Copa, é festejar o Brasil que mostrou ao mundo o país gigante que é. Foi vencedora a simpatia da ruas brasileiras (que convidava os estrangeiros até para entrar em suas casas e tomar um café), as risadas que demos com os gringos (Serrucho!! Serrucho!!!!), a bagunça das segundas que eram sexta e quintas que eram segunda. Da farra onde o Brasil podia até chegar na final, mas a gente não passava das quartas de tanta cana que todo mundo tava tomando. Foi a Copa da zoeira, da Costa Rica surrando a Itália, da Argélia sendo o time que mais deu trabalho a Alemanha, da gente torcendo para um time que nos surrou de 7 a 1 só para não torcer para a Argentina, do Podolski que, de tão brasileiro, passa o filho debaixo da catraca do ônibus… Foi a Copa que começou muxoxa, onde a gente fingia que não se importava, mas depois tava todo mundo doido no bolão que a Costa Rica e o goleiro do México insistiam em atrapalhar…
Fica um sentimento estranho, um gosto de Coca-cola sem gás, pensar que hoje não tem jogo, não tem a zoeira da internet. Hoje é o momento em que a fantasia se encerra, as cortinas se fecham e sobra só a vida cotidiana. O momento de botar a vida nos eixos, voltar a estudar, voltar a academia, a tudo que ficou do avesso durante a Copa.
Enfim, acabou, agora é hora de começar a juntar dinheiro que a Rússia vem aí!
#copadascopas #brasilcincoestrelas #valeucopa

Natan Donadon e o gigante acordado

Hoje acordei com aquela sensação de que tinha entrado no site Charges.com.br. Sem conseguir acreditar, soube só pela manhã que Natan Donadon (PMDB-RO), apesar do desfrute de estar hospedado na Penitenciária da Papuda, continua deputado. Se aproveitando do conforto do voto secreto, que absolveu Renan Calheiros e Jaqueline Roriz, a Câmara dos Deputados pregou o último prego no caixão de quem acreditava que as manifestações populares de julho serviram para alguma coisa.

Se algum dia houve a esperança de que uma reforma política saísse do nosso Parlamento, essa esperança se esvaiu. Hoje o que vemos são os parlamentares se atracando por propostas que melhor lhes beneficiem: o PT por votação no partido em lista fechada (pois é um dos poucos partidos que tem militância), o PMDB pelo distritão (semelhante ao para senador, onde os mais votados são eleitos sem proporcionalidade, favorecendo os mais ricos, motivo pelo qual o PMDB tem a maior bancada do Senado), o PSDB pelo voto distrital (que destrói o poder de representatividade das minorias) e o PR, o PTB e o PSD se vendendo para qualquer um que possa lhe dar mais vantagens.

É lógico que é muito bonitinho e dá até um certo ar de rebeldia ser contra tudo que o governo propõe, mas apesar da forma atrapalhada e atribulada de proposta de reforma política, hoje a única forma de alguma reforma sair é de fora para dentro do Congresso Nacional. O plebiscito, apesar de tudo, foi uma boa ideia, mas o que mais me impressiona é o verdadeiro silêncio da opinião publicada aos esforços do MCCE – Movimento de Combate à Corrupção Eleitoral, movimento social que foi o responsável pela aprovação da Lei da Ficha Limpa. O MCCE tentou pautar algum tipo de reforma política e está sendo solenemente ignorado por todos.

No fim, ficou claro que protestos “apolíticos”, sem participação de conselhos de classe, sem partidos políticos, sem discussões sobre o que queremos e para onde vamos, tem tanta segurança quanto uma salsicha na boca de um banguela. Dois meses depois dos protestos contra tudo isso que está aí, contra Dilma, FHC, contra Lex Luthor e o Coringa só levaram a diminuição do preço das passagens (a ser custeado com recursos que poderiam ser investidos em educação ou saúde), a quedas de popularidade de representantes do Poder Executivo e ao orçamento impositivo do Congresso Nacional, que obriga o Executivo a gastar todas as emendas parlamentares aprovadas, emendas que são a principal fonte de… Corrupção.

Continuamos com nossa “realidade Casseta e Planeta”, assistindo Renan Calheiros defendendo que “ética é dever de todos”, Feliciano pensando em se candidatar para presidente, Genoíno e João Paulo aprontando todas com uma turminha do barulho na Comissão de Constituição (sic) e Justiça (double sic), Donadon sendo julgado por meio do foro privilegiado (que divide os cidadãos brasileiros em plebeus e patrícios) e a Câmara dos Deputados, que por meio do voto secreto cometeu um harakiri, agora tendo que fazer votação por meio de enquete no Facebook para que Donadon possa participar das principais discussões de interesse nacional.

A montanha pariu um rato. #ogiganteacordou

P.s: Aqui tem a lista de todos os deputados que se ausentaram na votação do processo de cassação, http://fernandorodrigues.blogosfera.uol.com.br/2013/08/29/conheca-os-deputados-que-faltaram-a-sessao-para-cassar-natan-donadon. Tem de todos os estados, tente se lembrar de algum deles em 2014.

Mais médicos. Imagina na Copa?

Médicos brasileiros hostilizam e vaiam médicos cubanos que chegam ao Brasil. Olhe bem na cara do médico cubano, alguma vez você já foi atendido por um médico parecido com ele aqui no Brasil ou seria mais fácil se deparar com ele dirigindo um ônibus? Sinal de que temos muito a aprender com o sistema de ensino cubano…
Um dos principais desafios que sempre possuímos quando discutimos políticas públicas é sair das discussões rasas e se basear em dados. O Mais Médicos é o principal exemplo disso. Como sempre, todos os problemas do Brasil são culpa do governo que nunca faz nada, dos políticos que roubam, imagina na Copa.

O que as pessoas não pensam, ou pior, não sabem, é que o governo trabalha com recursos escassos, finitos. Segundo dados da OMS (2009), gastamos em porcentagem do PIB (8,8%) quase o mesmo que Finlândia (9%) e mais do que Austrália (8,7%). ” Ah, mas tá vendo? Mas eles tem uma saúde pública bem melhor do que a nossa!! Isso é porque roubam da gente, imagina na Copa” – alguém já poderia argumentar, porém, tudo é uma questão de renda per capita. Países onde há rendas maiores, onde os cidadãos recebem salários maiores, o governo também arrecada bem mais impostos por pessoa. Enquanto a Finlândia tem US$ 3226 e a Austrália US$ 3,484 para gastar por cidadão, o Brasil possui US$ 921, ou seja, se ZERÁSSEMOS a corrupção, teríamos cerca de quatro vezes menos recurso, para investimento per capita, do que Austrália e Finlândia. Isso porque temos o maior Sistema de Saúde Pública do mundo e também o segundo maior sistema de transplantes, só perdendo para os Estados Unidos. E isso porque há quinze anos gastávamos 4,3% do PIB em saúde, então falar que falta vontade política também é um pouco demais.

A situação é que não dá para termos hospitais bem-equipados como vemos na TV, não dá para simplesmente obrigar uma cidade de interior a ter uma UTI neo-natal, isso custa dinheiro, MUITO dinheiro! Entendo que os amigos médicos necessitem de estrutura para poder trabalhar, mas enquanto formos um país de terceiro mundo, isso não pode ser resolvido com uma canetada. E também não podemos ficar de braços cruzados dizendo que “sem estrutura, não é possível trabalhar” enquanto crianças no interior do Brasil morrem de diarreia.

Porque então entendo que Cuba é bom exemplo para o Brasil. Deixando toda e qualquer ideologia de lado e se atendo a fatos, Cuba investe US$ 478 dólares por cidadão (metade do que o Brasil) enquanto os Estados Unidos US$ 7,960, ou seja, 16 vezes mais, porém Cuba possui índices de mortalidade infantil menores do que o Brasil e, pasmem, do que os Estados Unidos. Se somos um país de Terceiro Mundo, temos que estudar formas de investimento do gasto público baseados em países que o fazem com poucos recursos. Alta tecnologia e um mar de dinheiro não são a resposta para nossos problemas, ainda mais no Brasil que forma mais cirurgiões plásticos que Médicos da Família (cujo retorno financeiro é bem menor). Precisamos de especialista nos rincões do Brasil.

Médicos estudam seis anos de suas vidas, fora a residência. Isso dá mais do que a maioria das outras profissões gastam com graduação, mestrado e doutorado. Assim como qualquer outra categoria profissional, não querem ir para o interior porque precisam morar próximos de centros


de capacitação para se atualizarem, necessitam de escolas privadas de qualidade para seus filhos, querem lazer, qualidade de vida como qualquer outro brasileiro, e isso é extremamente difícil em cidades do interior.

Então, se não é possível dar uma estrutura em Melgaço (pior IDH do país) como em Brasília (uma das cidades com maior distribuição de médicos), porque então a necessidade de se xingar e hostilizar médicos que estão dispostos a fazer isso? Se por tantos anos aceitamos médicos brasileiros formados em qualquer universidade de beira de esquina sem nenhum teste de revalidação, nos incomodamos tanto com isso para médicos de centros de excelência, como Cuba? O Revalida, para quem não sabe, é elaborado por Conselhos Profissionais de Medicina que, como o CREA ou qualquer outro conselho profissional, não tem interesse que mais profissionais atuem no mercado, por isso tão poucos são aprovados e se aplicássemos nos médicos brasileiros, talvez a aprovação fosse menor ainda. Acho que seria interessante refletirmos um pouquinho mais sobre o perfil de médicos que teremos neste país como os 400 primeiros a chegarem:

“Dos 400 médicos cubanos que participarão da primeira etapa, 89% têm mais de 35 anos, sendo 65% do total na faixa etária de 41 a 50 anos. Além disso, 84% têm mais de 16 anos de experiência em medicina, sendo 60% mulheres e 40% homens. Todos os profissionais cubanos já cumpriram missões em outros países, incluindo participação em missões em países de língua portuguesa e têm especialização em Medicina da Família e da Comunidade. Do total, 20% têm mestrado em Saúde.”

Enfim, vamos refletir um pouquinho mais sobre políticas públicas e não ficar pensando que a gente tem dinheiro e que se “os políticos parassem de roubar” teríamos hospitais cinematográficos em todas as cidades deste país.

Porque perdi de assistir o jogo da Copa das Confederações….

Hoje perdi de ver o jogo de estreia da Copa das Confederações, não porque eu deteste futebol ou torcesse contra o Felipão e cia, mas porque não pude me indignar com tudo isso que está acontecendo.

Hoje perdi de ver o jogo de estreia da Copa das Confederações porque estamos presenciando o primeiro regime de exceção da nossa recente democracia.

Hoje, nas imediações do estádio Mané Garrincha, ao contrário de São Paulo, não houve depredações, não houve danos ao patrimônio público, não houve sequer uma pichação, não houve obstrução de vias públicas, não houve queima de lixo ou de pneus. Então porque essa reação totalmente desproporcional de um Aparelho Repressor do Estado que deixaria Althusser orgulhoso? Manifestantes velhos, jovens, das satélites, do Plano Piloto, gordos, ricos, pobres, saíram do Facebook armados com cartazes e flores na mão gritando desesperadamente “Sem Violência”, o novo lema das manifestações.

Manifestantes pacificamente protestando, alguns até sentados, torcedores entrando no estádio com seus ingressos, quando momentos antes da abertura da Copa, sem prévio aviso, pude ver o belo investimento dos nossos impostos para nos agredir fisicamente. O caos instalado. Manifestantes, torcedores, crianças, todo mundo correndo no melhor estilo “salve-se quem puder”. Devido a pedradas dos manifestantes? Não, devido a própria instituição que foi criada para nos proteger. Mas se você não acredita em mim, a ESPN, que ironia, pode te dar um relato: http://www.espn.com.br/video/336517_policia-repreende-e-manifestacao-acaba-em-confusao-equipe-da-espn-relata-momentos-de-tensao-vividos.

Hoje eu perdi de ver o jogo de estreia da Copa das Confederações, porque esse país está em um regime de exceção e parece que ninguém vê problema nisso. Ontem, manifestantes que participaram de um protesto e queimaram pneus para fechar as vias foram caçados DENTROS DAS SUAS CASAS, SEM MANDATO JUDICIAL. Não, isso não é uma novela ambientada em um romance stalinista, é o Brasil da Copa. http://www.correiobraziliense.com.br/app/noticia/cidades/2013/06/14/interna_cidadesdf,371500/manifestantes-que-participaram-do-protesto-contra-a-copa-sao-presos.shtml. Além disso, parte do nossos amigos tiveram os seus rostos estampados na Folha de São Paulo no melhor estilo Vivo ou Morto pelo crime de não aceitar o que está ocorrendo em nosso país (http://www1.folha.uol.com.br/esporte/folhanacopa/2013/06/1295637-funcionarios-do-governo-sao-ligados-a-grupo-que-protestou-em-frente-ao-estadio-do-df.shtml).

Hoje eu perdi de ver o jogo de estreia da Copa das Confederações porque hospitais nesse país estão cancelando cirurgias para ficar de prontidão (http://diariodonordeste.globo.com/materia.asp?codigo=1279312). Não vi o gol do Neymar porque só em um estado de exceção a Justiça poderia proibir manifestações populares como em Belo Horizonte (www.migalhas.com.br/Quentes/17,MI180542,71043-Justica+de+MG+proibe+protestos+durante+a+Copa+das+Confederacoes) ou como em Brasília onde fomos ameaçado de prisão pelo Secretário de Segurança Pública do DF em rede nacional caso protestássemos (http://g1.globo.com/distrito-federal/noticia/2013/06/protesto-na-copa-das-confederacoes-sera-coibida-com-prisao-diz-secretario.html)

Hoje não vi a goleada do Brasil porque em uma cidade onde o futebol é inexpressivo, um estádio que inicialmente estava previsto para custar 745 milhões custou 1,5 bilhão. Tudo bem ter uma margem de erro, mas ele CUSTOU O DOBRO! Repito, em uma cidade que, se não me falha a memória, há mais de dez anos não tem um time na primeira divisão do Brasileiro, temos o estádio mais caro da Copa. Enquanto isso, de todas as obras prometidas para a Copa, somente o estádio ficou pronto. Não temos o VLT, não temos metrô na Asa Norte, não temos metrô no aeroporto. Construíram um estádio, só esqueceram de construir um país ao redor dele.

Hoje não vi a estreia da Copa das Confederações porque pela primeira vez na minha vida, eu tenho medo de “xingar muito no twitter” e depois me deparar com alguém batendo na porta da minha casa a noite. Hoje não vi a estreia da Copa das Confederações porque não vou ficar calado presenciando o nosso AI-6.
PORRA