Em Damasco, Síria – Servicio del Taxi

Depois de tudo que eu narrei, parecia que tudo ficaria mais fácil depois que eu chegasse em Damasco, certo? Bem, é lógico que não, amigo! Tudo só tinha a piorar. O turco que havia me ajudado a atravessar a fronteira acabou ficando numa cidade antes de Damasco e eu fiquei sozinho. Só eu e Deus (ou só eu e Alá, se preferir) pra poder chegar no couch que eu iria ficar. Logo na hora que eu desci do ônibus, eu comecei a pensar: se numa cidade como Brasília já é difícil achar alguém que fale inglês, como será na capital de um país completamente hostil aos EUA? Pois é, amigo, LOGICAMENTE ninguém falava inglês pelas ruas de Damasco.

Trânsito caótico em Damasco

Desci na estação de ônibus e comecei a matutar como DIABOS eu faria pra poder chegar no bairro que o cara havia me falado que era pra eu ir. Eu tinha o nome do bairro anotado em um pedaço de papel, mas já no primeiro taxista eu vi que até isso seria um problema. Ele não conseguia ler o que havia escrito, afinal, é sempre bom lembrar que o alfabeto árabe é diferente do nosso. Só depois de muito tempo e de várias vezes eu ler em voz alta pra ele, ele conseguiu entender pra onde eu queria ir. Pedi pra ele me levar pra um albergue, mas mais uma vez ele não entendeu e eu acabei desistindo de falar com ele.

Depois de alguns minutos em que eu tentava desesperadamente alguém que pudesse me levar ao menos para um albergue qualquer na cidade (em albergues as pessoas SEMPRE falam inglês), tive contato pela primeira vez com um dos meus mais sérios problemas que eu pude enfrentar por TODOS os países árabes que pude visitar. Na Síria então… Imagina… O país faz parte do eixo do mal e, dia após dia, recebemos notícias da Síria relacionados a terrorismo. Tudo só podia piorar. Enquanto estava tentando falar com os taxistas um soldado (sim um SOLDADO, com roupa camuflada e tudo, não um policial) fortemente armado e com um fuzil começou a vir na minha direção e começou a gritar e chamar a minha atenção. Pronto, era só o que me faltava! Além de NINGUÉM conseguir falar comigo, eu não ter a mínima ideia de como chegaria na casa onde eu devia ir, só faltava essa. Só faltava eu ser preso apenas pelo fato de estar andando pela rua sem fazer nada. Essas coisas só acontecem em países assim mesmo.

E QUANDO VOCÊ ACHA QUE NADA PODE PIORAR…

Se bem que, se eu fosse preso, até resolvia meu problema. Preso eu não teria que me preocupar com casa e comida. A Síria gentilmente me hospedaria.

Como estava sem escolha e, como já havia dito em um post passado, o homem com o maior rifle sempre tem a razão, fui à sua direção pra ver de qual era. Quando cheguei pra falar com ele, logicamente, ele não falava inglês. Depois de algumas mímicas minhas e dele e de eu apontar para o papel que havia escrito o nome, ele percebeu que eu precisava de ajuda. Pediu que eu o acompanhasse e me levou pra algo parecido com um posto policial (mas com soldados dentro dele) onde vários outros estavam dentro. Depois de algum tempo falando em árabe com a soldadesca um dos soldados meio que falou pra ele que sabia falar um pouco de inglês e começou a falar comigo. Bem, “falar” é uma maneira boa de dizer, o soldado que veio falar comigo sabia falar “my name is… I’m from Syria… hot dog… Michael Jackson” e coisas assim. Ainda assim era melhor que um outro lá que, quando eu falei que era do Brasil, ele tentou falar em espanhol comigo. Mas o mais engraçado é que o cara só sabia falar “servicio del taxi” e ficava repetindo isso toda hora. Cara, tava engraçado a parada lá. Um virava pra mim e fica falando: “Hot Dog, Manchester United, George Bush, I’m from Syria…” enquanto eu virava para o outro e ele ficava repetindo: “Servicio del Taxi”… “Servicio del Taxi” sem parar. Pensei: “Pô pelo menos o sistema educacional aqui ensina melhor inglês do que espanhol, pelo menos o que sabe falar alguma coisa em inglês sabe falar algo mais do que “Taxi Service”. Isso me lembrou um post dos EUA…

E eu fiquei naquela situação que se eu pudesse filmar, renderia MUITAS risadas no Youtube. Sério, até hoje quando eu lembro do cara repetindo “Servicio del Taxi” que nem uma vitrola quebrada, eu fico rindo sozinho.

Enfim, depois de um tempo um dos caras do posto do Exército teve uma ideia que salvou o dia. Ele perguntou se eu tinha o telefone do meu amigo. Eu falei que tinha em algum lugar na bolsa e fui lá e achei. O senhor “Hot Dog” me levou a uma lojinha onde um cara alugava o celular dele para chamadas. Ele meio que desenhou no papel e eu pude compreender que um minuto custava algo como um dólar. Do jeito que eu tava desesperado eu pagava era DEZ! Ele ligou pro cara que ia me oferecer o couch e enfim pude ouvir a voz do Matt. Salvou minha vida. Expliquei pra ele a dificuldade que estava tendo e ele me pediu que eu passasse o telefone ao soldado que ele iria explicar o que eu estava precisando. Eles conversaram em árabe por um instante e depois de um tempo o árabe passou o telefone pra mim. O Matt falou que o soldado havia pedido para que o Math pedisse desculpa a mim por ele, pois parecia que eu havia ficado assustado quando fui abordado pelo primeiro soldado (ah, sim, claro, até porque no Brasil a coisa mais comum de acontecer é você estar andando na rua e, de repente, aparece um cara com roupa camuflada e começa a gritar em sua direção. Eu sou muito idiota de me assustar mesmo…). Ele explicou que o soldado tinha me chamado apenas porque queria me ajudar, pois é o que eles sempre fazem quando aparece um gringo perdido na rodoviária. O Matt me explicou também que o soldado ia me colocar em um táxi, ia explicar pro taxista onde eu estava indo, que eu deveria pagar tanto (eu realmente não lembro quanto paguei) e caso o taxista tentasse me cobrar o dobro do preço pela corrida (gente, eu falei, taxista é filha da puta em qualquer país) era só eu voltar lá no posto policial que a casa ia cair pro lado do taxista. E real? Eu tenho tanta raiva de taxista que eu seria capaz de pagar um outro táxi, ida e volta da casa do Matt, só pra ver o soldado dando uma bolachas na cara do taxista se ele me roubasse. Nossa, acho que não tem nada mais relaxante do que ver uma cena dessa. Se ele me deixasse dar umas no taxista então…

Tecla PAUSE

E sim, esse foi um dos principais “problemas” que eu pude ter em todas as minhas viagens pelos países árabes. Como os caras são solidários com as pessoas que estão no meio da rua sob dificuldade. Esse foi só o primeiro exemplo e muitos outros virão como vocês poderão ver. Acho que os caras são tão esculachados na mídia internacional que eles se esforçam ao máximo pra que tenhamos uma boa impressão deles quando formos embora.

Tudo isso que eu tou falando, claro, não estão inclusos os taxistas pois, como falei várias vezes, não há raça mais FILHA DA PUTA que taxistas. Isso em QUALQUER lugar do mundo. E olha que eu tenho moral pra falar disso…

Tecla PLAY

DISCUSSÃO DO SOLDADO COM O TAXISTA. SIM, ERA O BEM CONTRA O MAL!

Eu e o soldado fomos na direção de um taxista e o soldado começou a explicar pra onde eu tava indo. Depois de um tempo pude perceber que o soldado começou a falar de uma maneira mais ríspida com ele e que ele tava botando o bicho pra cima do cara. Deu pra perceber que ele falava algo do tipo: “Se tu tentar tapear esse aí, a casa vai cair…”

Foto das ruas de Damasco. Repare na foto do galazão no alto do edifício

O taxista se viu meio aperriado e eu vi que ficou meio preocupado com com o soldado falando com ele, mas resolveu me levar, afinal, o homem do rifle sempre tem razão. No caminho me deixou em casa de boa e eu, meio que com pena dele, ainda dei uma gorjeta por ele não ter me roubado. Tá, eu sei que ele não me roubou por causa do soldado, mas enfim, eu prefiro acreditar que ele era honesto.

COUCH (HOSPEDAGEM) EM DAMASCO

Quem me hospedou em Damasco foi o Matt, um cara muito gente boa. Ele é inglês e estava vivendo na cidade para poder aprender árabe, idioma que falava muito bem. Eu, claro, cheguei acabado na casa dele. Pô, não havia dormido em Antália (saí direto da balada pra rodoviária), não consegui dormir no ônibus apesar do trajeto de 15 horas, dormi por algumas poucas horas num banco de metal na rodoviária e depois peguei mais 10 horas de viagem até Damasco. Ele, claro, foi bem compreensivo quando falei isso:

– Pô, cara, foi uma batalha pra chegar aqui, né? – Matt me perguntou.
– Rapaz, foi…
– Ah, mas tá de boa, eu tenho algo que você vai gostar…
– Uma cama bem confortável?
– Não, claro que não, descansar você descansa quando chegar no Brasil. Vamos, eu tou indo pra uma aula de capoeira agora e você VAI comigo.

Matt com algumas crianças no centro de Damasco

CAPOEIRA EM DAMASCO – TREINANDO NO RAMADÃ

Bem, ele não estava perguntando se eu queria ir com ele não. Ele estava AFIRMANDO que eu iria com ele. Depois de toda essa epopéia tudo o que eu mais queria era ter que ficar pulando de um lado pro outro e levando umas bolachas numa aula de capoeira.

Mas não teve negociação. O cara REALMENTE me pegou e me fez ir com ele pra essa aula de capoeira.

No final até que foi interessante. Pô, cara, imagina a experiência de jogar capoeira num país como a Síria? Muito da hora!!!

Cara, foi muito louco!! Pra começar havia uma bandeirona imensa do Brasil na porta da academia. Lá dentro mais uma bandeira brasileira com uma da Síria do lado. O professor e vários dos alunos deles falavam português fluentemente. O professor me contou que havia morado na Bahia e que lá havia se graduado. Apesar de estarmos em um país completamente distante do Brasil, as cantigas que todo mundo cantava eram todas em português e o nome dos golpes também. Era engraçado ver os árabes tentando cantar em português.

Quando eu cheguei e eles souberam que eu era brasileiro… Ixi, mas foi aquela festa. Pediram pra eu traduzir algumas das cantigas, ensiná-los a cantar e coisas assim. CLARO que depois de algumas conversas eles quiseram que eu jogasse capoeira e alguns até me desafiaram. Cara, só uma observação aqui. Viajar no exterior sendo brasileiro é legal, mas também tem seus ônus. Pombas, cara! Às vezes tem gente que acha que por sermos brasileiros, viemos com o pacote completo. Não raro o cara fala: “Ah é brasileiro? Sabe dançar samba então? E capoeira? E futebol? E Percussão? E salsa…” e por aí vai. Eu infelizmente só tenho programado a função “samba”, “futebol” e “salsa” (isso pq eu aprendi salsa enquanto viajava)… Pois é, ainda me meti a besta e aceitei um desafio. Depois de levar duas rasteiras, as pessoas constataram o óbvio: Eu realmente não manjava NADA de capoeira. Não me restou outro opção a não ser ir pra ala dos iniciantes e passar vergonha durante o resto do treino.

No meio do treino eu ainda saí pra tomar um gole d’água, mas fui recriminado por todos que estavam no salão. Depois o professor foi me explicar, em português, que eles estavam no Ramadã e nenhuma daquelas pessoas ali dentro podia colocar qualquer coisa dentro do corpo entre o nascer e o pôr-do-sol. Água inclusive. Na hora lembrei da Turquia e como as coisas lá são um pouquinho diferentes…

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5 comentários em “Em Damasco, Síria – Servicio del Taxi

  1. Duas perguntas:
    1) Como se traduz “paranauê, paraná”?
    2) Na foto do Matt, tem um molequinho com uma arma. Ela é de verdade? (eu e a minha mania observadora)

    Post muito, muito engraçado! Queria ter visto a cena do milico falando com o taxista!

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  2. Opa, já sei o que fazer quando quiser pegar taxi no OM.

    Como essas pessoas aguentam praticar capoeira no calor do oriente médio e sem beber água por 12 horas?

    E na boa, o moleque da foto perto do Matt está com uma UZI de brinquedo ou de verdade????

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