Contos em Damasco

P.s: Galera, coloquei algumas fotos de Beirute bombardeada pra poder ilustrar a história. LOGICAMENTE as fotos não são minhas e as peguei na internet…


Numa das noites que eu fiquei em Damasco, o Matt me levou pra um lugar super interessante. Era parecido com um café, com almofadas coloridas pelos cantos e algumas pessoas conversando e tomando cerveja. É meio complicado de explicar, mas o ambiente respirava um agradável ar de liberdade devido aos assuntos discutidos por todos que se encontravam por lá. Dentre todas as pessoas que se encontravam, uma se destacava: Era um árabe com uma idade um tanto quanto maior que a maioria das pessoas que lá estavam (ele parecia ter uns 35 anos) e todo mundo parava pra poder ouvir as histórias do cara.


Não lembro o nome dele, mas ele trabalhava com documentários e trabalhos jornalísticos. O cara realmente era bem carismático e era bem interessante ouvir o que ele falava. Ele já havia sido preso algumas vezes pelo governo sírio, porque, cá entre nós, jornalistas sempre se dão mal em regiões como essas, ainda mais um cara como ele que, pra piorar ainda mais a sardinha dele na Síria, era comunista. Comunista e jornalista na Síria deve ser como ser pobre e favelado no Brasil: Alvo preferido da polícia. Uma das grandes atrações foi ele contando das diversas vezes que ele foi preso. Mas isso vou deixar pra falar mais na frente, porque antes de contar sobre isso, boto fé que seria muito interessante contar sobre a experiência do figura na sua cobertura dos conflitos no Oriente Médio.


O figura já era veterano de quebra-pau. Já havia “servido” no Líbano em 2006 durante a invasão israelense e também ficou durante um tempo cobrindo a Guerra do Iraque. Ele tinha várias história e todas tinham um desfecho inesperado.
Ele disse que durante o tempo em que ele estava cobrindo os bombardeios israelenses ao Líbano em 2006, estava viajando pelo país com uma americana que também era jornalista. Eles estavam exatamente na zona de conflito e enquanto ele dirigia, a americana pôde ver que havia fumaça ao longe por detrás de algo que parecia ser uma colina e, como diz o ditado popular, onde há fumaça, há fogo. Os dois resolveram ir lá pra ver o que era e se deparam com uma das cenas mais chocantes que ele já tinha visto na vida dele. E olha gente, pra uma cena chocar um cara desses, um cara que trabalha no Oriente Médio, cobrindo zona de conflito, deve ter sido um petisco do inferno mesmo. Ele falou que assim que eles pararam o carro e ele foi ver, ele viu um ônibus amarelo em chamas e vários corpos dentro completamente carbonizados. Quando ele pôde se aproximar, percebeu que era realmente o que ele temia que tivesse acontecido. Os corpos que estavam lá dentro não eram corpos de adultos, mas sim de… crianças! Um míssil israelense havia atingido um ÔNIBUS ESCOLAR por engano e matado TODOS os ocupantes que estavam lá dentro. Há sim, sempre bom lembrar… Todos morreram carbonizados, queimados, como você acha melhor. Segundo ele, foi possível perceber que um dos braços que estava do lado de fora do que restou da janela do ônibus parecia segurar algo como um lenço branco, o que o levou a deduzir que as crianças ao avistarem que caças israelenses sobrevoavam por cima de suas cabeças, tentaram desesperadamente acenar com bandeiras brancas para demonstrar que eram civis. Logicamente não funcionou, haja vista que é impossível pra um piloto de caça há milhares de metros do chão avistar uma bandeira branca. Acabaram todos tendo uma morte lenta e agonizante.


Com uma cena daquelas na frente dele, ele sacou a sua câmera da mochila e começou a filmar e a fotografar o que havia restado dos pequeninos corpos para posteriormente entregar para as emissoras de TV sírias que, segundo ele, não tinham essas “frescuras” de ficar cortando as cenas mais chocantes. Mostram a verdade nua e crua diretamente na telinha. Depois de algum tempo chocado e filmando tudo o que pôde, ele voltou para o carro e começou a dirigir novamente com a americana. Diz ele que estava tudo de boa quando algo lembrou a ele que por onde passavam. Algo o relembrou que eles estavam atravessando uma zona de conflito. O carro deles começou a ser alvejado por tiros de metralhadoras vindos de todos os lados. Ele como bom cavalheiro e levando em consideração que havia uma mulher ao lado dele, fez o que era certo: Abriu a porta do carro, pulou pra fora, começou a meio que correr e rastejar ao mesmo tempo e deixou a americana lá dentro desesperada gritando por ajuda. É amigo, ali o negócio era de macho mesmo. Ele se escondeu atrás de uma moita e depois de um tempo a mulher parou de gritar. Os gritos cessaram e algumas vozes gritando em árabe puderam ser ouvidas. Elas gritavam para ele se render. Ele começou a gritar que não era israelense, mas sim sírio e os soldados foram lá falar com ele. Quando realmente viram que ele era sírio, pediram desculpa pela forma que o “abordaram” (esses soldados sempre tem maneiras singulares de abordar as pessoas, basta ver como fui abordado nesse tópico aqui. Me lembrou uma abordagem semelhante na Indonésia…) e falaram que eles meteram bala porque acharam que eles fossem de alguma patrulha israelense que estava fazendo reconhecimento de terreno, pois eles haviam acabado de ser bombardeados. No final ele só explicou que era jornalista e a americana que tava lá dentro também. Enfim, ele só achou que a americana não ia aceitar muito as desculpas porque, digamos, o pedido de desculpas ia chegar um pouco tarde, já que como ela tinha parado de berrar desesperadamente dentro do Jipe, eles acharam que ela tinha sido morta, mais furada que uma tábua de pirulito.


Ele foi lá pra checar e, MILAGROSAMENTE, ela não tinha sido sequer atingida. Diz que o susto foi tão grande que no final ela acabou desmaiando e isso salvou sua vida, porque se tivesse ficado sentada, fatalmente teria morrido. Eles deram três tapas na cara dela e ela acordou com a aquela cara de “São Pedro, é você?”. Ela levou um tempo pra se recuperar e pra realmente acreditar que ainda estava viva. No final eles seguiram de volta pra Damasco e ele nunca mais ouviu falar dessa jornalista… Acho que depois desse susto ela nunca mais quis saber de ser jornalista na vida dela… Deve estar trabalhando até hoje de babá em alguma casa de uma madame americana. Hahahahaha…
Ele também contou que por um tempo cobriu a Guerra do Iraque morando em Bagdá e que ficou um tempo por lá. Perguntei pra ele se não era perigoso ele morar por lá e ele falou que era de boa, afinal, ele era árabe, falava árabe e se misturava com os árabes. Depois de um tempo por lá ele resolveu capar o gato (ir embora) quando ouviu que os americanos estavam procurando qualquer sírio ou iraniano que estivesse trabalhando por Bagdá e oferecendo uma recompensa por eles. Os americanos temiam que cidadãos desses dois países pudessem estar trabalhando para a inteligência inimiga e, pra não arriscar, estavam à caça de qualquer forasteiro que tivesse acabado de chegar de um desses dois países pra levar pra um interrogatório ou possivelmente uma temporada de férias em Guantánamo. Depois disso, ele resolveu picar a mula dele e por isso tinha voltado a Damasco para poder trabalhar na Síria mesmo porque era, veja só, mais seguro…


No próximo post conto mais história engraçadas acerca desse figura…

2 comentários em “Contos em Damasco

  1. Pô acho que esse árabe estava fazendo um pouco de palanque, hein.
    Crianças acenando com bandeiras brancas para um caça Israelense?
    Carro fuzilado e a americana saí ilesa, sei não, tem gente que inventap pra ter uma boa história..

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