Contos em Damasco parte 2

E o figura continuou contando as peripécias dele por ambiente nunca dantes navegados (ou documentados, como achares melhor). Uma hora veio um pedido que eu tenho certeza que era o desejo de várias pessoas diferentes naquele recinto. Um dos espectadores que ouvia maravilhado as suas histórias pediu para que ele contasse algumas das suas peripécias quando havia sido enjaulado por perturbar a paciência da censura síria. Pensei que ele ia não gostar muito de ficar falando dessas coisas, afinal, ele poderia ter problemas por causa disso, mas ele estava visivelmente empolgado por possuir uma plateia internacional para suas histórias e parecia não se importar muito.
Ele contou que certa vez trabalhava pelas proximidades da fronteira da Síria com o Iraque quando ele começou a filmar alguns veículos militares sírios patrulhando a área. Se tem uma das coisas que aprendemos cedo quando viajamos por zonas problemáticas, é essa: Nunca, sob motivo algum, filme ou bata foto de militares. Eles realmente não ficarão felizes com isso. Agora imagine como deve ocorrer com militares numa fronteira próxima a um campo de batalha como aquela? Logicamente aquilo não iria acabar bem…


Os militares viram aquele jornalista serelepe e não tiveram dúvida. Correram atrás dele, deram algumas bordoadas e o levaram preso sob a cordialidade do exército sírio. Ele foi jogado numa cela imunda e lá ficou durante alguns dias temendo o que poderia acontecer com ele, já que não era a primeira vez que ele fora preso e, caso os militares descobrissem os seus “antecedentes”, ele poderia estar encrencado, pois eles poderiam achar que ele era um espião a serviço de alguém. Como “direitos e garantias fundamentais do cidadão” não devem ser o forte da Constituição deles, uma suspeita dessas poderia, segundo ele, ser motivo para execução sumária.
Felizmente, ele não foi identificado e ficou apenas por umas semanas naquela prisão até ser enfiado dentro de um camburão e solto em Damasco. Apesar de ter ficado apenas alguns dias, ele disse que foi o suficiente pra poder testemunhar algumas histórias, no mínimo, inusitadas em uma prisão do barulho com uma galerinha agitada aprontando altas confusões.


Dois dias depois que ele havia chegado, apareceu uma daquelas figuras que a gente acha que só existe em um filme americano de baixo orçamento ou nos cartazes de grupos xenófobos. Apareceu na cela dele um saudita com um turbante branco na cabeça, um alcorão gigantesco nas mãos e uma cara de maluco sem igual. Conviveram juntos por um tempo. Esse saudita ficava o dia inteiro sentado no canto da cela lendo o Alcorão e cantando músicas de adoração a Maomé. O cara era o estereótipo de fanático que nos vemos por aí na Tv. Depois de um tempo, ele, como não tinha muito o que fazer, resolveu puxar um papo com o saudita e saber o que diabos um cara daqueles fazia numa prisão síria. Ele explicou que indignado com o que via na TV (sempre ela), com os americanos bombardeando dia após dia árabes em todo o Oriente Médio e devido a cumplicidade de seu país que não fazia nada para mudar esse quadro (gente, só pra lembrar, a Arábia Saudita é uma das mais importantes aliadas dos EUA no Oriente Médio), ele resolveu fazer alguma coisa. Juntou uma boa grana, conversou com alguns caras barra-pesada que manjavam de explosivos e decidiu o que ele queria ser quando crescer: ir pro Iraque porque queria se explodir com um americano. Eu admiro esse tipo de gente, rapaz! Esse tipo de gente que vai lá e tenta mudar a situação ao invés de ficar em casa vendo TV e reclamando que ninguém faz nada. Esse rapaz é um exemplo! Seria bom se tivéssemos um cara desse aqui em Brasília pra ver se ele explodia logo era o Arruda e toda aquela máfia dele…


Chegando na Síria, ele viu que teria dificuldades de conseguir cruzar a fronteira para o Iraque, pois, afinal, nunca é fácil entrar numa zona de conflito. Depois de conversar com algumas pessoas que haviam por lá, ele conheceu um taxista que sabia de uma trilha pra poder atravessar a fronteira do Iraque sem ter problemas com postos de fronteira ou tropas da coalizão, mas que, devido o risco que era gigantesco, ele só aceitaria levá-lo se o saudita pagasse uma boa grana:
– 5000 dólares tá bom? – ofereceu o saudita
– Cara, bom, bom, não é! Mas como você tem uma boa causa (boa causa… Explodir americanos no Iraque sempre deve ser uma boa causa, né?), eu vou fazer isso por você. Entra no carro aí, a gente parte agora…


E logicamente vocês já deduziram o final da história. O taxista embolsou os 5000 dólares do saudita e entregou aquele louco para a polícia de fronteira. Não precisa ser um bacharel em ciências militares pra poder deduzir que pra atravessar fronteiras desapercebido (ainda mais uma das fronteiras MAIS VIGIADAS do planeta), você o faz a pé, de caminhonete 4X4, de barco, sei lá, trilhas alternativas, mas certamente você não consegue fazer isso com um táxi amarelo escrito “Welcome to Syria” com um saudita como uma cara de louco no banco de passageiros. E lá estava o saudita sob a hospitalidade do exército sírio, cada dia mais sonhando com o dia em que iria se explodir em pedaços levando uma americano consigo.
Galinha não!! Galinha não!!



E não é que Alá é um cara irônico? Alguns dias depois do saudita maluco ter chegado na prisão dos caras, apareceu um cara que era totalmente diferente de tudo o que já havia aparecido por aquela prisão. Ele era alto, tinha olhos claros, pele branca… Sim, um soldado americano.
O cara estava patrulhando a fronteira e se perdeu dos seus companheiros. Ficou perdido vagando por uns dois dias à procura da base até que, sem saber, cruzou a fronteira do Iraque, entrou na Síria e foi capturado por tropas sírias. Ele se rendeu e foi levado sob custódia para essa mesma prisão na fronteira que parecia ser bem movimentada. O nosso amigo sírio não chegou a conhecê-lo pessoalmente, mas depois de um tempo foi perguntar a um dos guardas porque eles riam tão alto enquanto interrogavam o americano. Pô, torturar até pode, né, cara? Arrancar uns dentes, quebrar uns ossos, furar um dos olhos, arrancar as unhas, jogar água fervente no cara, botar ele pra assistir Superpop… Tudo tá valendo, mas vê-los rir, assim, sadicamente, enquanto torturam um prisioneiro deveria ser algo para deixar qualquer um com medo. Ainda mais quando você lembra que VOCÊ é um prisioneiro sob suspeita de espionagem e fatalmente, mais cedo ou mais tarde, terá o mesmo destino dele.

O carcereiro foi contou a história desse pobre americano. Assim que ele foi capturado, os soldados sírios o levaram para a “sala do chefe” pra saber o que deveriam fazer com ele. Sentaram-no num sofá e ficaram discutindo o que fazer. Logicamente eles conversavam em árabe. Depois de um tempo o chefão lá achou que seria melhor tratá-lo bem, pois ele poderia mais tarde ser utilizado como moeda de troca por prisioneiros sírios no Iraque e era fundamental que ele estivesse bem alimentado e bem-tratado para facilitar as negociações. Devido a isso, ele comeria não a comida dos prisioneiros comuns (que era um lixo), mas sim a comida dos oficiais. Como o cara havia ficado alguns dias perdido no deserto, ele deveria ter fome e o chefão ordenou que servissem galinha para ele comer.
Rapaz, pra que? Na hora que esse cara ouviu a palavra “galinha” em árabe, ele se desesperou!! Diz que ele começou a gritar que nem louco, no pouco árabe que ele sabia: “galinha não, galinha não!”, desesperado. Dizendo o carcereiro que até se ajoelhar o americano se ajoelhava gritando “galinha não, galinha não!”. Os militares ficaram se olhando com uma cara de “esses ocidentais são realmente bem estranhos” e ficaram querendo entender qual o seria o singelo motivo daquele medo de galinha incontrolável do americano. E ele não parava… Quase chorando, implorando e gritando “galinha não, galinha não” por um bom tempo. E os sírios sem entender porque diabos o cara tinha tanto medo de galinha como ele… Será se ele já havia sido atacado por uma ave antes?
Será se ele já havia sido abusado sexualmente por um galo ensandecido?
Por que galinha despertava aquele medo tão grande no cidadão? Era algo que ninguém conseguia explicar…
Até que um dos soldados percebeu que o cara não estava falando a palavra “galinha” em árabe, mas sim, sei lá, algo como “galin”. Tipo, o soldado não estava implorando pra não lhe servirem galinha, ele estava implorando porque havia entendido o nome de uma cidade do Iraque com o nome MUITO parecido com a palavra “galinha” em árabe, cidade onde, pelo menos durante o tempo que ele estava lá, estavam ocorrendo os combates mais vorazes entre tropas da coalizão e insurgentes e onde soldados americanos morriam a rodo!! O soldado, como não falava árabe, só entendia eles falarem a palavra “galinha” e achava que os militares estavam discutindo como iam fazer para entregá-lo para os insurgentes que lutavam nessa cidade. E, digamos assim, os insurgentes não seriam lá tão amigáveis se o pegassem. Por isso que o cara gritava desesperado que “galinha não! Galinha não!”. Ele na verdade implorava para que não o enviassem para essa cidade. Quando eles entenderam, a gargalhada foi geral e depois de algum tempo conseguiram explicar pra ele a situação. Só assim pro bicho ficar mais calmo.
O que deu desse soldado no final? O sírio disse que não soube, ele foi solto antes do soldado americano e também não chegou a sequer trocar algumas palavras com ele. Por quê? Bem, porque enquanto ele conversava com o carcereiro acerca dessa história, um maluco lá no cantinho da cela, lendo o Alcorão, ouviu parte da conversa e começou a gritar:
– Americano?!?!? Americano?!?!?!? Onde?? Há um americano aqui??? Tragam pra mim!! Tragam-no!!! Tragam-no que eu quero me explodir com ele!! Eu o matarei com as minhas próprias mãos!! Tragam-o aqui…


Acharam melhor não colocar o americano naquela cela com o saudita por motivos óbvios.. O americano não saíria.
O saudita era realmente “gente que faz”…

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