Contos em Damasco – Final

Depois de um tempo conversando com esse sírio que eu gastei dois posts falando sobre, ele saiu e foi conversar com uma galera do lado de fora. Acabaram ficando poucas pessoas no local em que eu estava. Fiquei vendo algumas coisas na internet num laptop que tinha por lá e depois de um tempo percebi que havia outro sírio no nosso café e que parecia ter uns papos bem interessantes com uma galerinha que havia por lá. Ele era meio gordinho, vestido todo de preto e muito branco. Parecia com aquele “Bulk”, o gordinho dos Power Rangers, o da foto abaixo.


Percebi que ele trazia no pescoço um pingente com o símbolo da foice e do martelo amarrado no pescoço e que ele era amigo do jornalista que havia conversado comigo por um tempo. Sim, ele era comunista. Mais um. Como pude falar em uns posts atrás, aquele café parecia ser algo como um point da galera síria dissidente do governo, um local em que eles sabiam que facilmente iriam encontrar estrangeiros e com isso pessoas dispostas a ouvir as suas histórias sobre o governo, a repressão que eles sofriam e, logicamente, sobre Israel.
Como já tinha ouvido bastantes histórias sobre repressão e coisas do tipo, resolvi puxar assunto com ele sobre Israel e ouvir um pouco da visão de um árabe acerca de um conflito que dia após dia vemos no noticiário relacionado a mortes e ataques terroristas. Logicamente, não foi das melhores. Ele realmente tinha argumentos bons e me questionava coisas que me faziam pensar e refletir um pouco sobre o posicionamento favorável que tenho acerca da criação do Estado Judeu. Seguem algumas partes do diálogo que tive com ele:
– Cara, eu realmente concordo que os judeus sofreram bastante durante séculos vivendo na Europa e logicamente nas mãos de Hitler. Concordo que realmente era necessário a criação de um estado Judeu para que em algum lugar os judeus pudessem viver em paz e protegidos contra qualquer genocídio. Mas, meu Deus, porque fizeram isso na Palestina? O que os palestinos tinham a ver com isso? Os árabes tiveram que pagar por um genocídio que eles não cometeram? Logo os árabes que durante séculos toleraram que os judeus vivessem sob seu domínio sem persegui-los ou colocá-los em guetos como os cristãos? Se os judeus sofreram tanto com os nazistas, porque não arrancaram um naco do território da Alemanha e lá fizeram um estado judeu? Porque aqui no meio da gente? A gente se sente numa situação mais ou menos assim. Um dia você sai de sua casa por algumas horas pra poder comprar um pão ou algo assim e quando você volta tem um ladrão dentro da sua casa. Você ordena que ele se retire e ele diz que não vai se retirar, que ele sabe que “era” sua casa, mas a partir de agora é dele e que ele vai ficar lá dentro. Ele não vai sair de lá e se você que quiser que vá procurar outro lugar pra morar. Você vai reclamar na polícia e a polícia dá razão pro ladrão e também manda você ir morar em outro lugar. Como é que você aceita uma situação dessas? Você não vai querer amarrar um cinturão de bombas e sair explodindo geral? É mais ou menos por isso que nunca haverá paz aqui se os palestinos não forem respeitados…
– Outra coisa são as colinas de Golã (território da Síria ocupado por Israel). Porque diabos Israel quer aquela região? Lá não há recursos naturais, não há riquezas, não há ninguém morando, não há nada!! É como essa latinha de refrigerante seca que você tem na frente de você, ela não serve pra nada, mas eu vou roubar de você só porque eu quero te pirraçar. É mais ou menos isso que eu vejo que ocorre com as colinas de Golã.
– Se eu temo que Israel volte a atacar a Síria? Cara, muito pelo contrário, eu torço por isso. Pra mim e pra milhões de sírios, não há nada mais glorioso que morrer num campo de batalha pela Síria. Se um dia eu vou morrer mesmo, porque eu vou escolher morrer velho e sem dente numa cadeira de casa se eu posso morrer batalhando e lutando por meu país? É assim que foi e é assim que sempre será. Nunca haverá paz nessa região enquanto existir o estado de Israel nessa região. Infelizmente essa é a triste verdade…

Contos na cadeia

Depois de um tempo conversando com o gordinho, o jornalista voltou mais uma vez e começou a contar suas histórias novamente. O gordinho foi lá e pediu pra contar a história de uma vez que ele foi preso e apanhou que nem um menino porque teve um ataque de riso e não conseguia parar de rir toda vez que o carcereiro pedia uma coisa pra ele fazer. E ele foi contar pra gente essa história.
Diz ele que foi preso outra vez porque estava filmando em um outro local que não era permitido com mais outros amigos comunistas. Foram todos em cana e jogados numa cela na delegacia. Depois de um tempo, foi constatado que eles eram comunistas e a casa começou a cair pro lado deles. Ser comunista na Síria é algo realmente sério e você é punido exemplarmente, mais ou menos como ocorria nos tempos da ditadura militar aqui no Brasil. Por essas e outras, acharam que seria melhor ficar pianinho lá dentro da cela pra que nada de pior pudesse vir a ocorrer.
Depois de um tempo, o delegado chamou o carcereiro na sala e falou que desconfiava que eles tinham um Marx entre eles e mandou o carcereiro ir buscar (gente, em tempo. O delegado falou que havia um livro do Marx com eles e mandou que o carcereiro fosse buscar o livro). O carcereiro como não devia ser um dos caras mais letrados que eles acharam, já entrou na cela distribuindo borrachada pra todo mundo e gritando que era pra eles dizerem logo quem dentre eles era esse tal desse Marx porque se ele não se entregassem o pau ia comer. Ele disse que ninguém acreditava como alguém podia ser tão burro e com isso caíram na gargalhada. O soldado achando que eles tavam rindo da cara dele, batia mais na galera e ficava cada vez mais nervoso gritando pro Marx se entregar. E quanto mais ele gritava “Marx!!”, mais os caras caíam na risada!! Isso me lembrou uma história que meu professor me contou do tempo da UnB durante a ditadura. Segundo ele, algum tempo após o golpe, alguns soldados foram designados para ir na biblioteca da UnB e recolher todos os livros que pudessem ser subversivos. A ordem era “TODO E QUALQUER Marx, deveria ser retirado das prateleiras”. Até aí tudo bem, o problema é que depois de um tempo era impossível achar qualquer livro de MAX Weber por lá. Os caras iam na biblioteca e procurando Marx, Max, sei lá, por via das dúvidas acabam levando os livros do Max Weber que não tinha nada a ver com a história. Acabou que o carcereiro deu tanto neles, que no final cansou e não conseguiu descobrir que entre eles era o tal do Marx.


Essa noite que eu passei nesse café foi realmente muito interessante e enriquecedora. Gastei três posts só falando dela porque acho que realmente houve uma troca de culturas muito intensa conversando com esses figuras. Gente boa demais os caras! No final o jornalista ainda gravou no meu pendrive alguns dos trabalhos dele que era pra eu levar como recordação pra casa…

Festa árabe


No outro dia o Matt me convidou pra ir numa festa árabe/muçulmana que ocorreria na casa de um dos conhecidos deles lá. A festa não teve nada demais, ela era oferecida por um argentino (!!!!!) gente boa demais e que também era muçulmano. A única parada interessante foi que de uma hora pra outra a festa PAROU e ficou só eu e o Matt conversando. Quando eu vi, todo mundo se alinhou e começou a rezar no meio da festa!! Caraca, massa demais, velho! Os homens fizeram uma filha à frente, as mulheres uma atrás e daí se ajoelharam e começaram a rezar em direção a Meca! Meio complicado transmitir em palavras, mas foi a primeira vez que pude presenciar de uma maneira tão explícita pessoas rezando juntas como foi naquela ocasião, legal demais! Depois de uns dez minutos, eles se levantaram e continuaram conversando como se nada tivesse acontecido…

4 comentários em “Contos em Damasco – Final

  1. Tudo o que o mundo precisa, comunas nacionalistas árabes! HAHAH

    Sobre Israel, não foi nada diferente do que ocorreu na India x Paquistões, que matou 10x mais gente. E mesmo hoje, com bombas atômicas nas mãos deles e muito mais probreza, ningué, fica fazendo tanto drama sobre aquele região.

    Sem tolerância, inclusive dos cabeças-duras, Israel vai continuar sendo um país seguro na base do bombardeio alheio intimidatório.

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  2. DENÚNCIA: SÍTIO CALDEIRÃO, O ARAGUAIA DO CEARÁ – UMA HISTÓRIA QUE NINGUÉM CONHECE PORQUE JAMAIS FOI CONTADA…

    “As Vítimas do Massacre do Sítio Caldeirão
    têm direito inalienável à Verdade, Memória,
    História e Justiça!” Otoniel Ajala Dourado

    O MASSACRE APAGADO DOS LIVROS DE HISTÓRIA
    No município de CRATO, interior do CEARÁ, BRASIL, houve um crime idêntico ao do “Araguaia”, foi o MASSACRE praticado por forças do Exército e da Polícia Militar do Ceará em 10.05.1937, contra a comunidade de camponeses católicos do Sítio da Santa Cruz do Deserto ou Sítio Caldeirão, que tinha como líder religioso o beato “JOSÉ LOURENÇO”, paraibano de Pilões de Dentro, seguidor do padre Cícero Romão Batista, encarados como “socialistas periculosos”.

    O CRIME DE LESA HUMANIDADE

    O crime iniciou-se com um bombardeio aéreo, e depois, no solo, os militares usando armas diversas, como metralhadoras, fuzis, revólveres, pistolas, facas e facões, assassinaram na “MATA CAVALOS”, SERRA DO CRUZEIRO, mulheres, crianças, adolescentes, idosos, doentes e todo o ser vivo que estivesse ao alcance de suas armas, agindo como juízes e algozes. Meses após, JOSÉ GERALDO DA CRUZ, ex-prefeito de Juazeiro do Norte, encontrou num local da Chapada do Araripe, 16 crânios de crianças.

    A AÇÃO CIVIL PÚBLICA AJUIZADA PELA SOS DIREITOS HUMANOS

    Como o crime praticado pelo Exército e pela Polícia Militar do Ceará É de LESA HUMANIDADE / GENOCÍDIO é IMPRESCRITÍVEL pela legislação brasileira e pelos Acordos e Convenções internacionais, por isto a SOS – DIREITOS HUMANOS, ONG com sede em Fortaleza – CE, ajuizou em 2008 uma Ação Civil Pública na Justiça Federal contra a União Federal e o Estado do Ceará, requerendo que: a) seja informada a localização da COVA COLETIVA, b) sejam os restos mortais exumados e identificados através de DNA e enterrados com dignidade, c) os documentos do massacre sejam liberados para o público e o crime seja incluído nos livros de história, d) os descendentes das vítimas e sobreviventes sejam indenizados no valor de R$500 mil reais, e) outros pedidos

    A EXTINÇÃO SEM JULGAMENTO DE MÉRITO DA AÇÃO

    A Ação Civil Pública foi distribuída para o Juiz substituto da 1ª Vara Federal em Fortaleza/CE e depois, redistribuída para a 16ª Vara Federal em Juazeiro do Norte/CE, e lá foi extinta sem julgamento do mérito em 16.09.2009.

    AS RAZÕES DO RECURSO DA SOS DIREITOS HUMANOS PERANTE O TRF5

    A SOS DIREITOS HUMANOS apelou para o Tribunal Regional da 5ª Região em Recife/PE, argumentando que: a) não há prescrição porque o massacre do Sítio Caldeirão é um crime de LESA HUMANIDADE, b) os restos mortais das vítimas do Sítio Caldeirão não desapareceram da Chapada do Araripe a exemplo da família do CZAR ROMANOV, que foi morta no ano de 1918 e a ossada encontrada nos anos de 1991 e 2007;

    A SOS DIREITOS HUMANOS DENUNCIA O BRASIL PERANTE A OEA

    A SOS DIREITOS HUMANOS, igualmente aos familiares das vítimas da GUERRILHA DO ARAGUAIA, denunciou no ano de 2009, o governo brasileiro na Organização dos Estados Americanos – OEA, pelo desaparecimento forçado de 1000 pessoas do Sítio Caldeirão.

    QUEM PODE ENCONTRAR A COVA COLETIVA

    A “URCA” e a “UFC” com seu RADAR DE PENETRAÇÃO NO SOLO (GPR) podem encontrar a cova coletiva, e por que não a procuram? Serão os fósseis de peixes procurados no “Geopark Araripe” mais importantes que os restos mortais das vítimas do SÍTIO CALDEIRÃO?

    A COMISSÃO DA VERDADE

    A SOS DIREITOS HUMANOS busca apoio técnico para encontrar a COVA COLETIVA, e que o internauta divulgue esta notícia em seu blog, e a envie para seus representantes na Câmara municipal, Assembléia Legislativa, Câmara e Senado Federal, solicitando um pronunciamento exigindo do Governo Federal que informe o local da COVA COLETIVA das vítimas do Sítio Caldeirão.

    Paz e Solidariedade,

    Dr. OTONIEL AJALA DOURADO
    OAB/CE 9288 – 55 85 8613.1197
    Presidente da SOS – DIREITOS HUMANOS
    Membro da CDAA da OAB/CE
    http://www.sosdireitoshumanos.org.br

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  3. O Marx aí tava igual Hichter dessa q eu recebi esses dias…

    “Recentemente inaugurado, o centro sismológico nacional previu um abalo sísmico na região de Icó, imediatamente remeteram um telegrama:

    Movimento sísimico detectado na zona de Icó, epicentro à três KM da cidade, abalos de 7 graus na escala Hichter, favor tomar providências.

    Uma semana depois o tal centro sísmico recebe um telegrama:

    Aqui é a polícia de Icó. Movimento desarticulado, fechamos a Zona e prendemos a cafetina. Epicentro, Epitáfio e Epifânio detidos para interrogatório, o tal de Hichter tentou fugir e foi abatido a tiros. Só não respondemos antes por que teve um terremoto do cacete por aqui. “

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  4. Cara esses três posts da conversa com os sírios foram muito bons, uma troca de culturas excepcional. Mas e ai. tem como liberar aqui no blog o conteúdo do pen drive com os trabalhos do sírio??

    Abraço!

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