Problemas com tradução

Saindo de Beirute, resolvi seguir viagem de volta à Turquia, pois já tinha marcado o meu voo em direção à Europa. Tentei de todas as maneiras ver como poderia não sofrer mais o mesmo tanto que sofri no caminho de ida da Turquia para Síria, mas mais tarde pude perceber que a viagem de volta seria bem, mas BEM pior do que a viagem de ida. Por quê? Bem, vamos lá…

Não havia ônibus direto de Beirute para Istambul. Pra falar a verdade, sequer havia ônibus de Beirute para a fronteira da Turquia, ou seja, a sorte estava lançada. Depois de muito lutar, conseguir achar um busão que poderia me levar de Beirute para a segunda maior cidade da Síria, Alepo. Alepo é uma cidade tipicamente síria, no meio do deserto e com muito menos turistas que Damasco. Além disso, a cidade possui uma cidadela construída nos tempos das cruzadas que parecia ser MUITO da hora de visitar. Havia visto algumas fotos dessa cidadela quando conheci um turco, que estava vindo de Allepo, na rodoviária de Antakia e realmente me deixava empolgado a chance de poder visitá-la.

Portão principal da cidadela de Alepo

Beleza, tudo é festa. Peguei o meu busão e segui em direção à Síria mais uma vez. Ao contrário da primeira vez que entrei na Síria, que foi bem tranquila, na segunda foi bem complicado desenrolar com os carinhas no posto de fronteira. Motivo? Bem, logicamente eles não falavam inglês e dessa vez não havia o búlgaro que conheci na fronteira da Síria com a Turquia pra traduzir pra mim. Os guardas da fronteira tentavam de todas as maneiras me fazer perguntas, mas depois de um tempo desistiram de tanto eu falar “Istambul, Istambul”, acho que eles se tocaram que eu estava apenas de passagem pela Síria. Mas eles ainda necessitavam recolher alguns dados meus e com isso ficou um impasse sem eu poder entendê-los e vice-versa. Depois de um tempo, um dos soldados foi até o ônibus e voltou com um molequinho pelo braço me dando a entender que ele falava um pouco de inglês. Fiquei um pouco aliviado, pois achava que aquilo poderia facilitar a minha vida. Ledo engano. O molequinho só sabia falar “I speak english” e “my name is…” e nada mais. Os militares falavam uma parada pra ele, mandavam ele traduzir e o moleque não conseguia falar nada. Depois de um tempo o soldado começou a ficar puto e gritar com o moleque, nitidamente irritado porque ele não falava nada de inglês e aí piorou mais a situação. O molequinho se viu aperriado e, com medo, enrolava ainda mais a língua e mandava um enrolation X rebolation pra cima de mim, achando que tava falando inglês. Eu, logicamente, não entendia nada. E aí ficou nessa situação, o soldado dava uns gritos no moleque, ele tentava do jeito que dava me falar alguma coisa e eu fingia que entendia com medo daquele guri acabar levando uns tapas por causa de mim. Os olhos do moleque chegam tavam mais esbugalhados que um sapo cururu!! Eu fiquei foi com uma pena do bichinho…

Dentro da cidadela

Só sei que o soldadinho no final desistiu, me mandou entrar no busão e nos mandou embora. Pensei que enfim ia ter paz, mas que nada… Quando subi no busão e comecei a fechar o olho pra dormir, esse molequinho veio pra querer conversar comigo. No início eu nem me importei, pois achei que ele nunca havia visto tantos estrangeiros na sua vida e conversar com um devia ser algo que realmente mexia com a curiosidade dele. Mas o problema era que o menino não falava NADA de inglês. Boto fé que os pais deles o matricularam em um curso e com isso ele tentava lembrar das poucas expressões que havia aprendido como “what time is it” ou coisas assim e tentava falar comigo. Ficava aquela situação constragedora, ele do meu lado, me olhando e sem falar nada e nada de eu conseguir dormir. Eu realmente me sentia um animal exótico próximo a ele. Só sei que, graças a Deus, ele desceu TRÊS horas depois e eu pude tentar tirar um cochilo.

Allepo

Desci na cidade de Alepo e logo de começo foi aquele estresse que já estava acostumado. Desce do busão, procura um taxista, o taxista não fala inglês, arruma um lugar pra dormir, o taxista vai querer te roubar e coisas assim… Fiquei procurando no guia que eu tinha um lugar pra dormir e acabei optando por um local que o maior destaque que o livro dava a ele era o fato que as meninas deveriam tomar cuidado ao tomar banho, pois os donos do lugar costumavam fazer buracos na parede para poderem vê-las nuas. É amigão, Oriente Médio é assim mesmo… O esquema é bruto. O taxista dessa vez me deixou bem rápido no lugar e enfim pude largar minhas coisas, tomar um banho (logicamente, sem virar a bunda pra parede, preocupado com o perigo dos bigodudos ficarem me espiando dentro do banheiro) e dormir cedo pra no outro dia acordar e seguir para o forte pela manhã. O busão que seguia para a Turquia saía mais ou menos pela hora do almoço.

Lá no albergue ainda conheci uma galera legal da Polônia, mas como tinha que sair cedo no outro dia, nem fiquei conversando muito com eles não. Acordei e segui para o forte.

Depois que eu comecei a passear pela cidade, comecei a perceber que Alepo não era apenas só “uma cidade com um grande forte pra se bater fotos”. Caminhando por suas ruas e prestando um pouco de atenção na arquitetura da cidade, comecei a desconfiar que aquela cidade era muito mais grandiosa do que eu pensava. Só depois de ler no meu guia e de fazer algumas pesquisas na internet que pude me dar conta da grandiosidade que era aquela cidade. Alepo possui mais de cinco milhões de habitantes e por muito tempo foi a terceira maior cidade de todo mundo islâmico, perdendo apenas para Constantinopla e Cairo. Como todas cidades na Síria e no Líbano, é uma das mais velhas do mundo, com registros históricos de que a cidade é ocupada desde o século XI antes de Cristo.Comparem o tamanho das pessoas em relação ao tamanho da entrada da cidadela. É GINGANTESCA!

Fosso da cidadela. Mais uma vez, comparem o tamanho dos carros com o tamanho do fosso e o imaginem cheio de jacarés 😛

Alepo chegou a ser uma das mais importantes cidades da região, pois ficava em um dos mais movimentados entrepostos da Rota da Seda. Porém, com a construção do Canal de Suez no século XIX a rota foi alterada e a cidade perdeu grande parte de sua importância. Bati algumas fotos do bairro velho de Alepo, com seus milhares de anos de história, e depois segui para a sua mais importante atração, a cidadela de Alepo.

O local onde foi construída a cidadela vem sendo sagrado por milhares de anos para os habitantes do local. No alto da colina onde foi construída, havia um templo que os historiadores acreditam ter sido construído no milênio III a.C. A cidadela tomou a forma que possui hoje, com um fosso gigantesco, muros enormes em volta com sua fortaleza, apenas no século XIII depois de Cristo. Os árabes, preocupados com os constantes assaltos das tropas cruzadas cristãs e temendo perder o controle de uma de suas mais estratégicas cidades, ergueram a fortaleza para poder lutar contra os cruzados. No final acabaram logrando sucesso, pois, apesar de Jerusalém ter mudado de mãos diversas vezes durante a época das cruzadas, Alepo nunca foi conquistada pelos guerreiros do Papa.

A cidadela é bem imponente e é impossível não ficar maravilhado com o seu tamanho, se sentir ainda mais pequeno perto dela e não ficar imaginando as batalhas ocorridas próximas a suas muralhas.

Já dentro da cidadela, é possível ter uma visão panorâmica de toda a cidade de Allepo. Uma curiosidade interessante que acho importante destacar é que a cidade parece ser toda cinza, como vocês podem ver na foto. Alguém sabe me dar uma explicação pra isso? Eu sei que o concreto é cinza e as pedras com que eles fizeram a cidade também, mas, pombas, você pode ver na foto que NENHUMA construção da cidade tem uma cor que destoe do tom “pastel” que Allepo parece ter vista de cima, não? Não há nada azul ou vermelho. Será se é proibido pintar as casas dessa cidade?

Enfim, peguei meu busão e segui em direção a Istambul em um dos mais épicos translados de toda minha viagem…

Brother que acabou me vendendo umas falsificações de perfumes legais antes de eu seguir viagem…

4 comentários em “Problemas com tradução

  1. Cara, faz tempo que acompanho seu blog e queria fazer uma pergunta. Estou planejando fazer uma viagem como a sua, só que menor. Meu roteiro é Indonésia, Malásia, Tailandia, Camboja, Vietnã, Laos, Burma e Índia. Desculpe pela pergunta indiscreta, mas quanto você gastou mais ou menos nestes países? Parabéns pelo seu blog e vê se para de sonhar com o kanguru e seja mais ''ativo''no seu blog.
    Abraço

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  2. Segundo informações seguras , tem um canguru fazendo intercambio no zoo aqui no Brasil, parece que tem um cidadão maranhense que é voçutaria para cuidar do bichinho

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