Atravessando a fronteira da Síria para a Turquia – agora a volta!

Cara, tava tudo dando certo e se encaixando direitinho. Apesar de ter sido difícil entrar na Síria e o mesmo pra poder entrar no Líbano, a saída de ambos países foi bem tranquila. O ônibus que eu peguei no Líbano não atrasou, chegou no horário e com isso consegui ficar quase cinco horas a mais em Alepo. Bati várias fotos, o que me deixou satisfeito. O transporte de Alepo até a fronteira da Turquia também foi bem tranquilo, deu tudo certo. Ninguém tentou me roubar e, apesar de uma história que eu vou narrar abaixo, nada demais aconteceu. Cara, tudo estava acontecendo de uma maneira que me deixava assustado, pois, afinal, no Oriente Médio, tudo ocorrendo de maneira correta, era um mau presságio.
Dica, sério, se vocês vão viajar por aquela região, faça com que algo dê errado, pois senão vai acontecer o mesmo que aconteceu comigo.
Enrolei-me com dois gringos que conheci em Alepo, pegamos o transporte em direção à fronteira e seguimos em direção ao posto de controle da fronteira turca. Eles eram um casal de eslovacos e também estavam indo em direção a Istambul. Fiquei amigo dos figuras. Estava lá, dentro do carro, pensando em devaneios, quando lembrei de algo que me preocupou sobremaneira. Eu não sei se vocês lembram, mas num post lááááá atrás, escrevi sobre um sírio que conheci que era jornalista e fazia vários documentários e reportagens contra a ditadura síria. Aquele que já havia sido preso várias vezes. Enfim, aqui está o post dele pra que vocês possam refrescar a memória.

Casal eslovaco que viajou comigo até Istambul. Fui só eu o mais alguém achou a menina a cara da Trinity do Matrix?
Sim, por que estou falando tanto dele? Bem, acho que vocês não lembram, mas no post eu falei que ele havia salvo alguns dos seus trabalhos no meu pen drive quando eu estava em Damasco pra eu depois poder ver em casa. Gravei no meu pen drive e acabei nem me lembrando de abri-lo e ver o que ele havia colocado lá dentro. Só fui me lembrar quando estava cruzando a fronteira. Qual o problema? Amigo, estamos falando de um cara que já foi preso várias vezes pela ditadura síria, altamente subversivo e com grande probabilidade de estar fazendo um trabalho novo e querendo propagandeá-lo pelo mundo. Como? Ora, como, disponibilizando para vários estrangeiros diferentes. Cara, não sei se vocês se tocaram, mas eu estava com uma probabilidade MUITO GRANDE de ter um material altamente subversivo no meu pen drive. Vocês podem achar que eu estou falando besteira, mas basta apenas lembrar que estamos falando de uma das ditaduras mais sanguinárias do planeta que tem como um dos seus principais modelos, nada mais, nada menos, do que o ditador iraquiano Saddam Hussein.
O desespero bateu forte quando lembrei disso. Cara, e se eles resolvessem mexer nas nossas malas, ver o que estávamos levando assim como fizeram no Camboja com um estrangeiro que estava no meu ônibus (que até o laptop eles ligaram pra ver o que tinha no HD do cara)? Mermão, aquilo tinha um GRANDE potencial de dar merda. Comecei a pensar em mil maneiras de como eu poderia fazer pra poder esconder aquele pen drive. Não, não pensei em colocar naquele lugar íntimo que iria arder bastante, também não precisava esse grau todo de desespero, né? Resolvi apenas jogá-lo embaixo do meu banco e rezar pra que nada de errado acontecesse no final. Chegamos ao posto de controle da Síria. Por mais desesperado que eu estivesse, o único problema que acabamos tendo foi que havia uma fila GIGANTESCA de carros querendo cruzar a fronteira (boto fé que todo mundo quer ir embora da Síria) e o fato de que não poderíamos sair com nenhuma nota de dinheiro sírio do país. Sim, não é permitido sair com dinheiro sírio de lá e nem é possível trocar a sua moeda em qualquer lugar que não seja dentro da Síria. Interessante, né? Acho que é pra evitar que especulem com a moeda da Síria e assim desestabilizem a sua economia. Nem no nosso carro tocaram, só carimbaram meu passaporte e me mandaram voltar pro carro. Nada demais. No final, quando eu vi o que havia no pen drive, não havia nada demais, apenas algumas fotos de um campo de refugiados da Palestina e umas novelas que ele havia feito. Infelizmente antes de eu puder passar pro meu pc os arquivos, o pen drive deu pau e eu acabei perdendo os mesmos.

Odisséia turca

Cambada na Rodoviária
Problema mesmo eu fui ter foi quando cheguei na Turquia. Bicho, aquilo não foi uma viagem. Aquilo foi uma odisséia. Se eu achava que havia tido problemas demais na ida, eu não sabia o que me esperava na volta. Cara, só quando eu cheguei na maldita rodoviária de Antákia, aquela que me trazia péssimas recordações que eu fui ter notícia de que eu estava viajando na véspera de um dos MAIS IMPORTANTES feriados turcos!! Era algo mais ou menos como se eu estivesse viajando no dia 23 de dezembro aqui no Brasil. Mermão, a rodoviária tava um INFERNO de gente caminhando pra tudo que era lado, todo mundo estressado e, claro, ninguém com a mínima paciência para forasteiros.
Cheguei no guichê, com a maior das esperanças do mundo, e fui falar com o atendente:
– Opa, tudo bom? Então, cara, o próximo ônibus pra Istambul, que ainda tenha passagem disponível, sai que horas?
– Daqui a uma semana. Você prefere janela ou corredor?
!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!
Rapaz, no começo eu até achei que ele tava era de molecagem comigo. Mas só depois que eu fui me tocar que ele realmente falava sério. Não havia passagens para Istambul de maneira alguma. Istambul? Não havia passagens era pra LUGAR ALGUM da Turquia saindo daquela rodoviária ABARROTADA de gente. Parecia que a melhor idéia pra mim seria ficar acampando naquele deserto por uma semana antes de pegar o próximo ônibus, já que nem hotel eu poderia pagar, pois o preço deveria estar nas alturas. Comecei a conversar com o casal de eslovacos pra ver o que poderíamos fazer e surgiu a idéia de tentarmos viajar para a cidade mais próxima no caminho de Istambul e ver se lá teríamos mais sorte. Acabamos tendo que ir de novo para Antália e de lá tentar chegar em algum outro lugar.

Tudo o que eu consegui comer em 24 horas de viagem. Correria é assim mesmo, chefe!
Ao chegarmos em Antália, também não havia busão no mesmo dia para Istambul. Cara e foi do mesmo jeito. Viaja pra outra cidade mais próxima, não tem busão pra Istambul, vai pra outra, não tem busão pra Istambul, vai indo, indo, indo… Foi indo assim até que em uma dessas rodoviárias conhecemos um turco que falava inglês e achavámos que seria a nossa redenção. Realmente, ele foi nos ajudando de boa por algumas cidades nas trocas de ônibus. Mas bicho, teve uma hora que ele quase saiu no tapa com o motorista de um dos ônibus por um motivo que não fazíamos a MÍNIMA idéia. Os passageiros do ônibus até chegaram a querer vir falar com a gente, perguntando alguma coisa em turco, mas desistiram quando viram que só falávamos inglês. Devido ao estado aleatório do figura, achamos que seria menos arriscado se déssemos um perdido nele e continuássemos sozinhos…
No final, levamos 30 horas para fazer uma viagem que facilmente daria para fazer em 12. Ninguém falava inglês com a gente, todo mundo queria nos roubar, tudo era sempre mais difícil. Mas enfim, conseguimos chegar, são e salvos a Istambul… Mais dois dias nessa cidade e depois eu seguiria para o meu próximo destino: Eslovênia…

2 comentários em “Atravessando a fronteira da Síria para a Turquia – agora a volta!

  1. Ola claudiomar, leio seu blog ja faz algum tempo, e comentei dele no meu blog, espiraldestrutiva.blogspot.com ,to passando só para avisar, e ver se não há nenhum problema.

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  2. Pergunta meio óbvia (ok, pergunta TOTALMENTE óbvia e desnecessária), mas mandarei só pelo humor:

    Não rolava o esquema carona amigo que você usou lá na Polônia/Leste Europeu?
    Tipo, dispensava o turco mala e usasse a minazinha eslovaca como chamariz, ia angariando caronas até Istambul.

    ^^

    Qualquer diferença sócio-cultural entre Polonia e a região fronteiriça entre Síria e Turquia é desprezível no exemplo.

    hehehehehe

    Abraços fio

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