Florença

Tenho que confessar que inicialmente Florença não estava nos meus planos. Basicamente, eu tinha curiosidade de conhecer apenas as cidades de Roma, Veneza e talvez Pisa. Por que acabei indo pra Florença então? Bem, quando estava em Roma, vendo como poderia fazer pra poder chegar em Veneza, percebi que vários horários de trens diferentes faziam algumas paradas em Florença e, além disso, os caras que estavam me hospedando em Roma também estavam indo para lá pra poder passar o fim-de-semana. Pesquisei, vi que sairia até um pouco mais barato ir de trem pra Florença e de lá pra Veneza e com isso não tive dúvidas: Segui para Florença!
Protesto por mais verbas estudantis na estação de trem quando eu ia pra Florença.
 
Dois dias antes de viajar, saí desesperadamente pedindo couch pra quem quer que eu via no Couchsurfing e, por sorte, um cara aceitou me hospedar pro fim-de-semana. O nome dele era Matias, ele era francês e estava participando do Eramus (um programa de intercâmbio estudantil que encoraja cidadãos de diferentes países da Europa a estudarem em outros países da União Européia). Morava numa república com mais quatro estudantes e, no final, eu iria acabar ficando mais ou menos só uma noite com ele, já que chegava no sábado bem cedo e iria embora na segunda feira de madrugada.
Matias e sua república
Até cheguei a pesquisar um pouco sobre a cidade de Florença, sobre seus museus e lugares turísticos, afinal, Florença foi um dos berços do Renascimento. Acabou que eu nem visitei museu, nem porra nenhuma. Ah não, brother! Eu já tinha ficado a semana INTEIRA em Roma só fazendo isso! Museu pra cá, museu pra lá, catedral pra cá, catedral pra lá! Não havia saído nem uma noite sequer! Quando soube que iria ficar em uma república, só com estudantes universitários, deu pra perceber que as minhas noites florentinas seriam um pouco “ocupadas”. A cidade pela noite FERVE!! Florença é uma cidade com várias universidades e vários estudantes da Europa inteira indo fazer intercâmbio por lá, por aí você imagina como é a situação. A noite lá é caos!
Depois de tanto tempo reclamando do restaurante universitário da UnB, olha onde fui parar. Restaurante universitário de uma universidade de Florença. Ah sim, a carteirinha não era minha 😛
Cara, não deu outra. Foram duas noites em Florença, duas festas em repúblicas de estudantes. A primeira em uma república de estudantes espanhóis. A segunda… bem… a segunda eu nem soube de quem era a república, só sei que foi uma bagaceira só!
Eu, Matias e uma das suas companheiras de apartamento tomando um sol na praça no melhor estilo europeu
 
Saímos para essa festa dos espanhóis e fomos chegar em casa quase quatro horas da manhã. Como vida de malandro não é fácil, acordei já as oito da matina e fui logo fazer um passeio pela cidade que, se não tinha tantas atrações como Roma, com certeza valia pelo menos um dia inteiro de caminhada pois, como já disse, Florença foi um dos berços do Renascimento.
Eu e o Matias na festa dos espanhóis
Saí de casa, visitei algumas praças florentinas e, claro, visitei a mais do que famosa catedral de Florença, com seu estilo gótico. Uma obra prima do Renascimento. Dei mais umas voltas e me encantei com uma ponte que, apesar de muito famosa, eu nunca ouvira falar dela. Era a Ponte Vecchio, uma ponte que, de tão antiga, data do tempo do Império Romano. Diz a lenda que a palavra “bancarrota” provém desta ponte. Há muito tempo atrás, ela era um importante centro comercial do Império e para montar-se uma banca nela, era necessária uma autorização especial bem cara. Quando o mercador não tinha a autorização ou não pagava as suas dívidas, a sua banca era quebrada pelos soldados romanos. Essa prática era conhecida como bancorotto (banco de “banca” e rotto de “soldado”).
Bati fotos também do Palácio Vecchio, sede do município de Florença e um dos símbolos da cidade. Em sua fachada é possível ver alguns brasões que simbolizam algumas famílias do tempo da República de Florença e também alguns lemas da cidade, como sua fidelidade ao papa.
No final subi um morro, um dos lugares mais visitados de Florença, onde era possível ter uma visão panorâmica da cidade.
Segunda Noite
A noite fomos para a outra festa. E que festa, viu rapaz? Cara, lá foi legal demais! Descemos todos juntos pra uma outra república de estudantes. Rapaz, foi só eu chegar que eu fui logo ficando amigo de um português muitooo gente boa. O nome dele infelizmente eu não lembro mais! Mas o cara era gente boa demais e engraçado. Quando falei que era brasileiro ficamos logo amigos. O cara mandava demais no violão e a gente acabou virando logo o centro da festa. Ele depois de um tempo tocando, virou pra mim e perguntou:
– Cara, tu sabes tocar violão?
– Pô, bicho, sei não!
– Pô, mas tu não é brasileiro? Todo brasileiro não toca violão?
Rapaz, eu fiquei pensando sobre a pergunta do figura. Só faltava essa. Eu já tava acostumado com as pessoas me questionando, ao eu dizer que era brasileiro, se eu fazia algumas coisas. Era o que eu chamava de “brasileiro pacote completo”. Na maioria das vezes, na hora que as pessoas te perguntam se você é brasileiro, elas de cara já perguntam:
1 – Você sabe jogar futebol?
2 – Você sabe dançar samba (às vezes até mesmo salsa, eles perguntam)?
3 – Você joga capoeira?
É meio que uma visão estereotipada que algumas pessoas tem do Brasil. Eu não vejo ninguém perguntando pra alguém “Ah, você é japonês? Você sabe consertar vídeo-cassete?”, mas é só dizer que é brasileiro que já vem essas perguntas. Eu que, logicamente, não vou querer sair fazendo uma discussão antropológica com cada pessoa que acabei de conhecer só porque ela tem uma visão estenotipada do meu país, né? No final acabo sempre rindo e falando que sei fazer todas essas coisas (salsa, por exemplo, eu não sabia dançar. Aprendi a dançar na viagem de tanto as pessoas me perguntarem se eu sabia), não tão bem, mas sei algo. Mas, tocar violão, ele era o primeiro que vinha me perguntar!
A festa com o português tocando violão

Respondi negativamente e continuamos tocando o violão. De repente, o telefone do cara tocou. Era uma amiga dele chamando a gente pra uma festa que estava rolando numa das praças de Florença. Ele falou que ia e me convidou pra ir junto com ele. Cara, a festa onde estávamos tava bem legal e tinha uma espanhola me dando uma moral danada, mas o cara era tão gente boa que acabei indo com ele. Fui também porque o Matias decidiu ir. No caminho alguém resolveu levar quase um barril de cerveja que tinha lá no meio da festa! A marca da cerveja era “Beck” e acabamos apelidando nosso barril de “Bequinho”, nada mais meigo e carinhoso do que um nome como esse. E fomos lá pra igreja, com Bequinho debaixo do braço, fomos chegando!

Eu e Beckinho
 
Chegamos na praça e tava uma GALERA tomando cerveja sentada numa escadaria de uma igreja que, eu vendo a placa posteriormente, vi que foi construída no século XV!!! Igreja renascentista e a galera bebendo cerveja nos degraus! Não tem respeito nenhum!!
Cara, a gente tinha acabado de chegar no lugar, já me passa um cara numa bicicleta e vira pra gente perguntando se não queríamos comprar. Uai, assim? Comprar uma bicicleta no meio da rua? Cara, essa galera realmente é empreendedora. Perguntei, só por curiosidade, pro figura quanto ele queria nela e qual foi a resposta dele? 50, 40 euros? Não, CINCO euros!! Será se a bicicleta era roubada? Hahahahah…. Tinha acabado de sair do forno, digo, acabado de ser roubada. Hahahaha. O Matias até que ficou um pouco interessado, mas eu falei pra ele não comprar. Rapaz, é como eu disse, a noite da cidade é CAOS!
Sentamos nos degraus e começamos a tomar nossa cerveja. Continuamos tocando um violão, cantando algumas músicas do Chico Buarque (o português sabia MUITAS músicas do Chico) e mais uma vez viramos o centro das atenções. Sentaram duas espanholas do nosso lado e começaram a dar mó papo pra mim e pra ele. Mais pra ele que pra mim, pra falar a verdade. Maldito poder que o violão tem pra poder impressionar as mulheres! De repente o português já deu um go-go-fight no pescoço de uma das duas e começou a pegar a menina! Rapaz, na hora eu já achei que era a minha deixa e pulei no pescoço da outra. Ela meio que ficou se fazendo de difícil e como eu não tava com muita paciência, resolvi não investir muito, afinal, já eram jogadas duas horas da manhã e meu trem no outro dia saía cinco horas da manhã pra Veneza. Como a viagem só durava duas horas (tempo que eu iria dormindo no trem), resolvi voltar pra casa pra poder tentar dormir ao menos umas duas horinhas a mais. Duas em casa, mais duas com a do trem na viagem, dariam quatro horas. Não são muitas horas, mas já é alguma coisa pra ajudar. Bom lembrar que eu iria ficar o dia INTEIRO caminhando e portanto deveria dormir um pouco, afinal, Veneza é VENEZA e eu precisava estar disposto pra poder aproveitar uma das poucas cidades que eu REALMENTE desejava visitar na Europa.
Beckinho a caminho da praça
Desci pra casa e fui dormir. Quando deu mais ou menos uns vinte minutos toca o meu celular. Quem era? Minha mãe com saudades? Claro que não!!! Era o português!! O bicho me ligou desesperado dizendo que tava querendo “dar um rolê” com a espanhola dele e que não tava podendo porque ela não podia deixar a amiga sozinha. Depois de um tempo conversando com ela, ele convenceu a outra espanhola a me dar uns pegas e disse que era pra eu descer que ela “tava só me esperando”. Proposta indecente é pouco pra poder descrever a situação que o cara me deixava. Fiquei naquela indecisão miserável!! Descia e dava uns pegas na espanhola, mas ficava que nem um zumbi o dia inteiro em Veneza e não aproveitava nada? Ou fingia que não era comigo e simplesmente dormia pra poder aproveitar a minha cidade favorita na Europa inteira? Diga aí? É ou não é uma decisão difícil?
Eu fiquei, “pô, o que é que eu faço?”. Eu sei que muitos de vocês vão até duvidar da minha masculinidade, mas eu realmente acabei optando por ficar e não descer do apartamento. Entre outras coisas que eu pensei, mulheres tem em todo o mundo, mas Veneza era só aquela e sabe Deus se um dia terei oportunidade de visitar novamente. Apesar dos insistentes protestos do português, eu acabei ficando em casa e dormindo mesmo. Até hoje essa decisão me assombra. Dilema do prisioneiro o cacete!! Isso sim foi um dilema difícil pra mim! Nem no filme do Homem-Aranha alguém teve que tomar uma decisão tão difícil.
Sei que minha noite terminou com o português lá embaixo gritando o meu nome pra ver se eu descia e eu fingindo que não era comigo. Hahahhah… Cara, que tristeza eu ter perdido o contato daquele cara, viu? Poucas pessoas pude conhecer tão gente boa como ele. Mas enfim, a vida é assim. Bola pra frente. Não era a primeira vez que eu conhecia alguém que nunca mais veria na minha vida. Lembrou da Tailândia…

7 comentários em “Florença

  1. Ainda bem que c sabe o que a gente vai falar lol

    Mas na boa, tu se arrepende ou não? Agora que vc já foi pra veneza e talz.

    Flws

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  2. Mudanças na política de contenção do blog para assuntos fornicatórios? =P

    E teu amigo português era meio frouxo hein?? Ficou lá te implorando para rebocar a espanhola. Porra, por que não catou as duas logo de umas vez? Duas minas, no meio a madsrugada em Florença chegam numa galera (sem conhecer ninguém) bebendo nas escadas duma Igreja, e já vão para cima de um brasileiro e um português. Só porque os caras estavam com um violão!
    Duvido que elas não topariam um ménage.

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  3. Maranhão… não necessariamente nesta ordem:

    1º – a mulher do cara do absinto (até compreensível);
    2º – a “lésbica” que viajava com você;
    3º – Espanhola dando moral e vc não desce…

    Sei não… acho que o tal do guaraná jesus ta virando fanta mesmo

    hehehehe
    Abraço

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  4. Rapa… teu histórico com a mulherada na viagem ta afro-brasileiro…
    DORMIR? mulher no ponto, so pra vc correr pro abraço e tu QUER dormir? eh pra kbar… ehui aeh aeiuhaeiaeh

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  5. CANECO …
    como o mundo è pequeno
    ehejehe
    Voce nao vai acreditar quem è deste lado :0)
    Sou o PORTUGUESSSSSSSS ..
    “porra caralho cade meu baseadoooo”
    ehejeheje

    Mas olha ai a coincidencia da vida :0)
    Vem uma brasileira com a sua amiga passar um mes aqui em Florencia, elas tao procurando quarto, e eu tou dando uma ajuda.
    Uma delas mandou-me o teu website pra eu ler… e … CARA ..pouh tem muita coincidencia na vida :0)
    ADORO ESTE MUNDO
    :0)
    pega ai o meu contacto: LUIS VEDOR
    Skype: VEDAS_
    tenho algumas fotos da noite em Sta Croce (na igreija) ehejeh
    Adorei ler seu BLOG :0)
    VAMOZEMBORAAHHHHHHhhhh :0)

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