Couch em Jerusalém

Jerusalém
 
São várias as perguntas que eu costumo ouvir sobre a minha viagem. As pessoas costumam me perguntar qual foi o país que mais gostei (Índia), o lugar que eu passei maior perrengue (Havaí) entre outros. Sempre há também o melhor couch e o pior couch que fiquei. Achar o melhor couch é meio difícil. Teve o Egito, a Suécia, a Índia, Vietnã e outros, com cada um tendo deixando a sua marca e as suas histórias. Achar o melhor couch que fiquei é bem complicado, agora, achar o PIOR couch que pude ficar, esse sim foi bem fácil.
Em Jerusalém, pedi um couch pra uma menina que parecia ser até gente boa. Ela era americana, judia, mas morava há algum tempo em Israel, onde cursava um mestrado em “Estudos Judaicos”. Morava com o namorado e parecia bem simpática na foto. Fui lá e me preparei pra poder ficar na casa dela.
Tentei de toda maneira não chegar muito tarde a Jerusalém pra chegar ao couch de boa. Infelizmente tive alguns problemas em Eilat e acabei chegando bem tarde no meu destino. Como já era tarde da noite, preferi não incomodá-la e dormi em um albergue que achei pelo centro de Jerusalém. No outro dia de manhã aproveitei pra poder visitar a velha Jerusalém e fiquei passeando por suas ruas, suas vielas, seus mercados e personagens de milhares de anos atrás. Como fazia frio, resolvi comprar um gorro. Queria uma lembrança legal de lá, logo comprei um gorro com algumas palavras escritas em árabe, coloquei na cabeça e me dirigi ao couch.
Toquei a campainha e quando a menina abriu a porta, já recebi as minhas boas-vindas:
– Oie Claudio, tudo bem? Seja bem vindo ao meu apartamento! Têm uns amigos meus aqui que…
Ela parou a frase no meio
– O que é isso na sua cabeça?!?!?!? Porque você está com um gorro escrito Jerusalém em árabe? Você está louco?!?!? Jerusalém se escreve em Hebraico, não em árabe! Tire já isso da sua cabeça!

Eu e meu gorro da confusão

Er… Depois de um boa noite desses, não me restava outra opção, né? Fiquei meio que chocado com aquela primeira “troca de diálogos” que tivemos, mas como estava em casa e país alheios e, digamos, não queria confusão, procurei tirar o gorro e pensar que aquilo tudo seria apenas um mal-entendido.
Fui entrando na casa, deixando minhas coisas no lugar indicado. Quando entrei, havia mais três pessoas: o namorado dela e um casal que ela estava hospedando. Fingi que nada tinha acontecido e comecei a trocar uma ideia com todo mundo. O casal era de Nova Iorque e estava visitando Israel. Trocando em miúdos, eles também eram judeus. Começamos a conversar e aí sim pude começar a ter noção de onde estava metido.
Como sempre faço quando chego a um país diferente, comecei a fazer algumas perguntas sobre como era a vida por lá e, invariavelmente, a conversa acabou descambando para o bombardeio israelense ao Líbano. O casal que morava por lá começou a me explicar como era assustador tentar dormir ao mesmo tempo que o Hizbollah bombardeava com seus foguetes Katyusha, por meio de caminhões em território libanês, as cidades israelenses. O barulho era ensurdecedor por toda a noite e você ficava se perguntando quando eles atingiriam a sua casa. Diz que eles paravam com o caminhão próximo a Israel, mandavam foguetes em direção à fronteira israelense sem escolher um alvo específico e picavam a mula antes que algum caça aparecesse para pegá-los. Até aí tudo bem, eles estavam relatando como era viver numa área de conflito, realidade que várias pessoas no mundo inteiro convivem até hoje, nem quis entrar no mérito de quem estava certo ou errado fazendo isso. O show começou mesmo foi depois disso.

Líder do Hizbollah

Tendo em mente estes ataques, eles começaram a discutir porque Israel não acabou com a Palestina uma vez por todas enquanto havia tempo. Como esses árabes davam trabalho para eles e como seria mais fácil se pudessem matá-los todos. Falou que vez ou outra, Israel cortava o fornecimento de água e luz da Faixa de Gaza quando os palestinos seqüestravam algum israelense, pedindo o dinheiro do resgate por ele, e só retomavam o fornecimento quando eles devolviam o seqüestrado: – “Nada mais que justo, se nós fornecemos tudo pra eles, também podemos cortar quando eles nos dão problemas” – dizia ela. Só tinha esquecido de falar que eles forneciam água e luz para a Faixa de Gaza porque eles haviam destruído TODA a infraestrutura de um dos países com maior concentração populacional do mundo situado EM UM DESERTO justamente para podê-los deixar reféns de cortes de fornecimento. Além de que não lembrava de árabes, por mais fundamentalistas e malucos que fossem, querendo trocar reféns por dinheiro, só vejo eles querendo trocar israelenses por, veja só, prisioneiros políticos enjaulados em Israel.

Muralhas de Jerusalém

Mas era isso mesmo, eles falavam desse jeito mesmo, conversando como quem fala da dedetização que está pra fazer na sua casa. Comecei a ficar indignado ouvindo aquelas coisas, aqueles imbecis discutindo de vidas humanas como quem fala em matar baratas. Tentei de toda maneira mudar de assunto, mas parece que eles sentiam prazer em toda hora retomar ao mesmo ponto, a destilar todo o ódio que eles sentiam pelos palestinos. Era algo do tipo:
– Pô, mas então, é legal viver aqui?
– Ah, até é legal, isso quando não vem um árabe pra querer te roubar, porque, você sabe, eles não gostam de trabalhar, só querem te roubar blá blá blá.
Depois de um tempo, eu já não tava mais levando a sério. Eu comecei a rir por dentro e a provocar os bichos. “Nossa, mas os árabes daqui da Palestina são ruins, né? Poxa, vocês deviam ir à Síria, os árabes que eu conheci lá eram MUITO gente boa. Sempre prestativos e sorrindo. Bem simpáticos e talz..”. Eu falava pra provocar mesmo, lembrando que a Síria é o arqui-inimigo de Israel e o segundo lugar que eles mais odiavam depois do Irã. Falava isso só de sacanagem. Ficava rindo por dentro, olhando a cara de “eu não acredito o que esse cara tá falando” que eles faziam e pensando “Rapaz, mas eu tenho que escrever isso no blog”. Fingia que tava com frio, colocava o meu gorro árabe e ficava andando pela casa. Mas bicho SÓ PRA PROVOCAR! Só pra vocês terem noção da raiva que eu sentia em olhar pra cara daqueles facínoras.

E o show de horrores continuava. O casal de Nova Iorque começou a comentar como a Guerra do Iraque havia sido boa para os iraquianos. Que apesar de todo o caos que estava lá, logo logo a situação iria se normalizar e o Iraque viraria uma democracia como os Estados Unidos. Assim, digamos, num passe de mágica. Que os americanos gostavam de fazer isso, de serem os protetores da democracia pelo mundo. Que eles adoravam pegar os países problemáticos, implementar a democracia neles e depois deixarem eles se desenvolver, exatamente como fizeram na Alemanha e no Japão (sempre bom lembrar que após o fim da Segunda Guerra, os EUA atuaram fortemente na reconstrução do Japão e da Alemanha visando evitar que eles se tornassem inimigos novamente. A Constituição do Japão foi praticamente escrita pelos EUA e traz no artigo 9 a proibição explícita do Japão declarar guerra a todo e qualquer país, além de que limita os gastos militares a 1% do PIB. Sim, eles temiam o Japão pós-guerra). Sim, eles acreditavam nisso. Eles realmente acreditavam que os Estados Unidos trabalhavam pela democracia no planeta e era pra isso que tinham ido ao Iraque. Eles REALMENTE acreditavam nisso. Cara, o bicho chegou ao cúmulo de me falar que a ONU só existia pra perturbar os Estados Unidos e alimentar africanos. Sim, isso mesmo que você me falou. Cara, pode parecer engraçado, mas bicho isso é TRISTE! Sim, é esse tipo de americano que vota nos George Bushs da vida. Por essas e outras que os EUA estão até hoje bombardeando o Iraque e o Afeganistão. Pois é, eles além de judeus ainda eram republicanos. Como não queria pular no pescoço de ninguém aquela noite, juntei meus trapinhos e fui dormir.
Tratando com Ariel Sharon
No outro dia, levantei e fui dar um passeio por Jerusalém. Ainda saí pra pegar o busão com a menina que tava me hospedando e no caminho ainda descobri que ela era vegetariana e feminista. Meu Deus (inclusive Deus para ela era uma mulher, que Deus ser homem era uma visão machista!), a mulher era tudo de ruim, americana, racista, vegetariana, feminista, republicana… Se morasse no Brasil torceria pro Vasco da Gama! Sentamos no busão e ela me falou que era melhor irmos sentarmos lá atrás. Perguntei por que e ela me falou que aquele país havia sido fundado com valores socialistas, logo as pessoas se sentiam dessa maneira. Se chegasse uma velhinha, dizia ela, e estivéssemos sentados no banco, a velhinha esperaria que obrigatoriamente nos levantássemos pra ela sentar. Olha só que absurdo! Lógico que pra ela isso não era certo! Ela achava que só deveria levantar se quisesse e não por obrigação. Sim, nesse naipe, cara! Ser educado para ela era ser socialista! Pior que, ainda falei pra ela, o único lugar que me pagaram sapo por não ter cedido meu lugar a uma senhora foi no Havaí. Não, não sou mal-educado, eu só não tava vendo a senhora chegar, tava viajando no pensamento, por isso não cedi o lugar a tempo! Depois dessa eu até apelidei essa menina de Ariel Sharon um dos maiores facistas que já viveram neste planeta, olha só como o cara era gente boa.
Voltei pela noite, com o meu gorro árabe na cabeça, LÓGICO, e fui bater na casa. Para minha grata surpresa quem abriu a porta foi o namorado da minha host. O namorado dela era até gente boa e ficamos conversando um tempo enquanto preparávamos o jantar. Depois de comermos, perguntei se eu poderia usar o computador e ele falou que sim, me apontando o computador da sala e que eu poderia ficar a vontade. Rapaz, pra que? Na hora que Ariel Sharon chegou em casa e viu que eu tinha usado o computador dela, a bicha ficou louca. Começou a perguntar quem tinha me dado autorização pra isso e eu disse que tinha sido o namorado dela. Eles começaram a discutir em hebraico e eu fui pra sala pra poder ficar mais de boa.

Pra quem gosta de Narguilé, é só escolher! Rapaz, como esses bichos gostam disso!

Só sei que depois de algumas horas ela saiu do quarto e voltou a falar comigo de boa. Disse que ouvira falar que eu cozinhava bem e perguntou se eu não podia cozinhar algo pra ela. Falei que sim e ficamos conversando por um tempo. Ela tava mais de boa e começou a perguntar pra onde eu iria depois que saísses de Israel. Respondi que iria para Belém, na Cisjordânia. “-Mas Belém não é na Cisjordânia. Belém é em Israel”. Uai, fiquei em dúvida, tinha quase certeza que Belém era na Cisjordânia. Como não tive certeza, falei que o próximo país que iria viajar seria para a Palestina, para Ramalah, capital da Cisjordânia. Mais uma vez ela falou que não, Ramalah também era de Israel. Depois que eu fui entender o que ela tava querendo dizer, queria dizer que a Palestina não existia, que era só um pedaço de terra que logo logo Israel iria tomar de volta. Que tudo aquilo era Israel. “Se é Israel, porque vocês não podem ir pra lá?” – eu perguntava. Aí ela vinha com aquele velho papo que eles iam a seqüestrar pra pegar seu dinheiro e blá blá blá. Ela falava que era que nem Nova Iorque, a cidade pertence aos Estados Unidos, mas há alguns lugares que você não pode ir devido a sua própria segurança. Cara, só sei que ela continuou com esse papo e aquilo foi me irritando, me IRRITANDO. Só sei que teve uma hora que eu não agüentei e acabei explodindo.

Domo da Rocha. Um dos lugares mais sagrados para os Muçulmanos também fica em Jerusalém

Fiquei puto e comecei a discutir com ela. Cara, comecei a falar tudo o que eu queria falar pra ela, sem me preocupar com nada. Que eu sentia vergonha de ser da raça humana quando ouvia pessoas como ela falando, que eu ficava impressionado como uma pessoa tão nova podia ser tão mesquinha, que nunca no mundo aquela região teria paz devido a filhas da puta que nem ela, que eu tava pouco me lixando pra aquela baboseira religiosa que dizia que Israel sempre pertenceu aos judeus e que toda hora ela insistia em falar pra mim e coisas assim. Cara, falei muito, mas MUITO mesmo. Comecei a xingar de tudo que era palavrão que eu sabia em inglês. Resultado? Ela falou que eu tinha até oito horas da manhã do dia seguinte pra poder sair da casa dela. Enfim, ganhei mais uma noite de sono, apesar de ser em território hostil.

15 comentários em “Couch em Jerusalém

  1. Irônico que as vezes no CS é preciso ser mente aberta o suficiente até para tolerar alguém de mente fechada, haha.

    Eu apenas provocaria dizendo que a minha religião era árabe, para ver se ela me deixava ficar.

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  2. “karalho
    Americana, judia, republicana e feminista…. V.s.f.!!!
    Essa aí, o diabo marcou pra não perder de vista.”

    De adjetivo só falto: magricela e vesga pra mocréia ficar completa.

    Pra essa aí a Coração gelado é gata.

    PS: Vc catou a coração gelado lá no Nepal. Catou…

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  3. Se eu fosse você, teria ido embora da casa naquele exato momento. Lamentável ainda existir pessoas tão alienadas como ela.

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  4. Oh rapaz, que orgulho que bateu de ti.

    Sinceramente, acho religião coisa de gente sem muito capacidade mental. Na boa, a pessoa nem precisa ser uma religiosa-fundementalista-ultra-ortodoxa, só pelo fato de ACREDITAR numa religião já perde pontos. Perde ainda mais se acreditar de forma capenga, o acreditar por inércia (coisa típica como o “católico não-praticante”).

    Agora há uma grande diferença entre ser uma pessoas religiosa e ser um arremedo de ser humano, tal como tua amiga Ariel Sharon.

    Sabe, durante nossa vidinha temos que engolir pessoas assim pela convivência, as vezes pela necessidade. Mas quando não há tais obrigações, como no teu caso, temos mais é que mandar esses porras para a PQP. Sério, gente assim merecia apanhar todo dia até aprender ou até morrer.

    Enfim, raiva a parte, fica aqui minha admiração pelo Sr. ter tido culhões de mandar essa hipócrita acéfala de merda tomar no cu.

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  5. Faltou voce concordar com eles a respeito dos arabes e dizer que alguem deveria propor uma 'solucao final' pra esses arabes igual ouviu dizer que fizeram uma vez na europa com um povinho chato que so estorvava ;]

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  6. Discordo de todos os comentarios acima e de voce tambem…. Isso que voce fez foi uma total falta de respeito, coisa de babaca mesmo. Voce foi acolhido na casa de uma pessoa e a desrespeitou em sua propria casa…. No minimo poderia dizer que foi falta de educacao, mas isso é pouco perto de tamanha falta de carater de sua parte… voce como hospede deveria respeitar acima de tudo, mesmo nao concordando com o que o outro pensa e/ou fala. Educacao a gente aprende em casa, pelo visto seus pais nao fizeram o dever de casa como deveriam…. Babaca.

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  7. E digo mais, por mais absurdo que tnha sido a sua host tem encrencado com seu gorro, ficar passeando com ele na casa dela apenas pelo prazer da provocacao é de uma INFANTILIDADE bestial! Queria ver se alguem fizesse isso na sua casa se voce ia gostar… Bebe chorao!

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  8. E digo mais, por mais absurdo que tnha sido a sua host tem encrencado com seu gorro, ficar passeando com ele na casa dela apenas pelo prazer da provocacao é de uma INFANTILIDADE bestial! Queria ver se alguem fizesse isso na sua casa se voce ia gostar… Bebe chorao!

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  9. Faria melhor..dizia que era ateu é que tudo no que eles que acreditavam nao passava de historinhas como conto de fadas..

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