Gatos no estômago – Jerusalém

Apesar da mais do que detestável experiência que tive com meu couch, Jerusalém foi uma experiência maravilhosa. Como não poderia mais ficar na casa da minha amiga Ariel Sharon, resolvi entrar em contato com uma amiga da universidade que estava trabalhando como oficial de chancelaria na representação diplomática brasileira na Palestina. Ela morava em Ramalah, que pra minha grata surpresa, era quase que do lado de Jerusalém. Conversamos e ela falou que não havia problema algum se eu ficasse na sua casa. Problema resolvido, resolvemos dar uma volta por Jerusalém. O que tinha tudo pra ser uma experiência super agradável, foi uma das maiores odisséias que enfrentei em toda minha vida. Por quê?

Entrada para a parte árabe de Jerusalém Velha

Cara, eu sou muito de boa com as coisas. Enfrento fosso de jacaré, pulo de precipício e até assisto jogo Vasco X América-RJ, mas se tem uma coisa que me deixa agoniado é quando meu estômago não funciona bem. Em toda minha viagem, não me lembro de ter tido sequer uma indisposição gástrica em qualquer país. Passei um mês e meia na Índia/Nepal, comendo até pão com barata (confira a história clicando aqui) e em momento algum tive uma dor-de-barriga. Conversava isso com mochileiros que também havia conhecido na Índia e os bichos ficavam impressionados com minha virilidade, pois dificilmente alguém passava mais de um mês na Índia sem conhecer a famosa Delhi-Belly (Belly é barriga. Delhi-Belly seria a dor-de-barriga típica da Índia)! Pois é, porque tou falando isso? Bem, cara, porque apesar de todo esse torpor gástrico, uma hora eu iria ter problemas e o sabe se lá por que o destino quis que fosse em Jerusalém. Na noite passada, em um dos quiosques por lá, comprei uma esfiha igualzinha àquelas do Habbib´s. Achei que seria mais ou menos como comer em um shopping qualquer aqui em Brasília. Estava redondamente enganado. Rapaz, essa esfiha tinha um temperozinho lá que foi quase como um vulcão no meu estômago! No outro dia de manhã, quando acordei, após ser expulso de casa, comecei a sentir algo meio estranho pelas minhas entranhas. Cara, sem brincadeira, a sensação era que dois gatos se ENGALFINHAVAM dentro do meu estômago! Rapaz, mas aquilo se remexia por dentro de uma maneira que mais se parecia um saco de gato! Vontade de ir ao banheiro, se é que você entendeu o eufemismo, a todo o momento pra botar esses gatos pra fora!

Esqueça a ONU, o futebol vai salvar o mundo…

Fui me encontrar com a Helena no lugar combinado e quando cheguei a mãe dela também estava lá. Andávamos pra cima e pra baixo lendo tudo sobre os lugares, admirando, olhando. E eu só pensando onde era o banheiro mais próximo pra botar meus gatos pra fora. Pior que o número de gatos parecia só aumentar a cada hora. Tinha uma verdadeira matilha de gatos dentro do meu estômago e eu não sabia o que fazer. Só sei que foi o dia todinho neste aperreio. Até hoje, quando as pessoas me perguntam o que eu lembro quando falam a palavra Jerusalém pra mim, eu só respondo: – Vontade de cagar do caralho!

Perambulando por Jerusalém

Gatos a parte, Jerusalém tem todo o seu charme de cidade histórica. Pra começo de conversa, ela é uma cidades mais importantes e controversas do mundo inteiro. Só pra vocês terem uma idéia, Jerusalém já esteve sob domínio Persa, Judeu, Romano, Otomano, Árabe, Britânico, Israelita… Isso só o que eu consigo lembrar aqui de cabeça. Em toda sua história já foi destruída duas vezes, sitiada 23 vezes, atacada 52 vezes e capturada e recapturada 44 vezes. O albergue que eu dormi trazia nele uma placa que dizia que o prédio havia sido construído há mais de 700 anos!

Estilo, uns nascem com, outros vivem a vida tentando ter…

Jerusalém é uma das mais importantes cidades de três das maiores religiões do mundo: Judeus, Cristãos (aí se incluem Católicos e Protestantes) e Muçulmanos. Judeus porque o rei David a proclamou a sua capital no século X a.C. Pros cristãos porque foi o lugar em que Cristo foi crucificado. Pros muçulmanos (só é menos sagrada que Meca e Medina) porque foi a cidade em que Maomé subiu aos céus (não me pergunte porque ele foi lá só pra fazer isso).

Parece muita coincidência que essas três religiões possuam em comum a mesma cidade sagrada, não? É, mas não é coincidência não! Como já expliquei no post da Síria (confira a história aqui), as religiões judaicas, cristãs e muçulmanas tem um profeta em comum: Abraão. As três religiões, na verdade, tem as mesmas bases e uma foi surgindo, digamos, “em complemento” a outra. O Torá, livro mais importante para os judeus, está contido no Velho Testamento na Bíblia dos cristãos. Não é a toa que Jesus Cristo era chamado de o “Rei dos Judeus”. Por essas e outras que Jerusalém, apesar de tão importante para os três, sempre foi motivo de disputas e sangue desde que essas religiões nasceram. Como dizia um xeique que conheci aqui em Brasília, Jerusalém, em toda sua história, só foi mantida por quem tinha o poder de ocasionar a maior destruição ao outro, o chamado paradoxo sagrado de Jerusalém. Só para lembrar, as cruzadas tiveram como objetivo retomar a “Terra Santa” dos “infiéis” muçulmanos. É meio difícil aceitar dividir um pedaço de chão quando você acredita que Deus o reservou para você.

Igreja do Santo Sepulcro, um dos lugares mais sagrados do Cristianismo

Por essas e outras que tudo o que você percorre, vê ou toca em Jerusalém é santo. Lá está o lugar em que Jesus foi crucificado, o lugar em que Jesus ascendeu aos céus, a via dolorosa percorrida por Jesus para ser crucificado (inclusive é até meio sem graça você andar por lá, porque em Jerusalém há a preocupação de se retratar e representar a história sob o viés religioso, o que acaba por comprometer o rigor histórico de suas construções), isso sem contar os diversos simbolismos de outras religiões que, por eu ter tido uma educação apenas católica, eu não conhecia. Andar por lá requer um certo cuidado, pois você não sabe o que um gesto seu pode significar e o pau pode comer loucamente, como ocorre quase todo dia. Enquanto estive lá, cristãos armênios entraram em atritos (atrito é maneira de falar, foi pau de doido mesmo, com uma galera voando por cima da outra e a polícia tentando desesperadamente separar todo mundo) com outros cristãos dentro do Santo Sepulcro só porque uns estavam empatando o caminhando da procissão dos outros.

Devido ao caráter sagrados para as três religiões, é preciso ter um pouquinho de ordem lá dentro também, ainda que hoje a cidade esteja nas mãos dos judeus aliados aos cristãos (e isso é bem recente, viu? Há alguns séculos atrás os judeus eram os maiores aliados dos muçulmanos. Quando os cristãos tomavam Jerusalém para si durante as cruzadas eles massacravam muçulmanos e, principalmente, judeus). A cidade velha é dividida em quatro setores: o setor judaico, o setor cristão, o setor muçulmano (o maior dos três) e o setor, adivinhe, Armênio. Ué, mas os Armênios possuem uma religião própria? Não, eles são cristãos! E por que diabos tem um bairro só pra eles? Até hoje eu tento descobrir. Alguns me disseram que a Armênia foi um dos primeiros países a abraçar a fé cristã, tanto é que eles construíram o bairro dele no século IV d.C. Outros dizem que vários fugiram pra lá durante o grande genocídio armênio um dos maiores crimes contra a humanidade tal qual o Holocausto. O certo é que Jerusalém é dividida nesses quatro, digamos, bairros diferentes com cada um tendo seus respectivos lugares sagrados.

Há outras coisas interessantes. Primeiro que se você for mulher e bonita, caso da Helena, de dez em dez minutos um árabe vai lhe parar no meio da rua e lhe pedir em casamento. Não, isso não é jeito de falar, isso é sério! A gente ficava andando pelas ruas e vez ou outra um árabe parava a gente, olhava pra Helena e perguntava: – Cê quer casar comigo? – no melhor estilo Silvio Santos! Cara, era realmente bem engraçado isso! Até porque todo mundo sai pensando quando sai de manhã de casa: – “Nossa, hoje eu vou achar o homem da minha vida. Eu vou estar andando, procurando um narguilé e do nada ele vai pedir a minha mão em casamento!”. Se bem que pra uma mulher deve até ser bom se casar com um cara desses. Ele vai te dar casa, comida e roupa lavada. Você não nem precisar trabalhar, só arrumar a casa e de vez em quando pegar uns tapas, mas também, nada é de graça, né?

Rabinos em Jerusalém

Além de que por todo lado que você anda tem gente passeando com rifle pra cima e pra baixo. Cara, sério, quando você olha aquilo na mão dos caras, parece até que é de brinquedo! No começo dá até medo, mas depois você se acostuma. Até na rodoviária o pessoal andava armado. Fui inventar de tirar uma foto do detector de metal que tínhamos que passar pra poder entrar (que nem o de avião) e, rapaz, me arrependi. Na hora voou uma pancada de guarda em cima de mim gritando “apaga, apaga, apaga!”. Eu só fiquei pedindo calma e apaguei na hora a foto. O guarda ainda pegou minha máquina e ficou conferindo foto por foto antes de me devolver a máquina! Lá é tenso!

Sim, tem gente que é sem-noção!

2 comentários em “Gatos no estômago – Jerusalém

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