De Bonito para o Pantanal

Na hora que a gente tava saindo, não pude deixar de presenciar essa cena. Um bando de peão tomando cerveja quente escutando o som do carro em frente a pracinha. Cara, esses bichos estão em todos lugares
Inicialmente eu estava planejando gastar toda uma semana aproveitando Bonito. Quando saí daqui de Brasília me parecia que esse tempo não daria pra aproveitar tanto, mas posteriormente pude perceber que estava enganado. Cara, em Bonito você tem que ter foco. Lá existem dezenas, talvez centenas, de atrações e passeios diferentes das mais diversas modalidades possíveis. Lógico, tudo sempre muito, mas MUITO caro. Como disse, você tem que ter foco, você tem que ir pra lá sabendo o que você quer fazer. Por que eu fui pra Bonito (e acredito que a maioria das pessoas vão também)? Eu fui para Bonito pra poder aproveitar aquelas águas de clareza e limpeza indescritíveis. Você tem que ficar o tempo todo com isso na cabeça porque senão você acaba pagando fortunas por passeios que podem facilmente ser realizados próximos de grandes centros urbanos a preços muito mais baratos. Pra que diabos eu vou gastar 350 reais (sem transporte) pra poder fazer uma trilha mais rapel (Passeio da Boca da Onça) se eu posso fazer isso por meros 100 reais (com transporte) em um lugar deslumbrante próximo daqui de Brasília? Pra que diabos eu vou gastar centenas de reais pra fazer um “passeio de bote” de uma hora se eu posso fazer um rafting no Rio Corumbá, que dura uma manhã inteira, por menos de oitenta reais? Cara, são essas coisas que você tem que ter em mente. 213 reais pra fazer flutuação no Rio da Prata? Vale cada centavo, lugar algum no mundo eu vi algo semelhante. A mesma coisa eu digo do abismo Anhumas, que também vale cada centavo dos quase 500 reais do passeio. São lugares que apesar de MUITO caros valem a pena por serem únicos e se são únicos valem um preço exorbitante desses. Agora, pagar 150 reais pra fazer passeio de cavalo, é programa de índio.
Por essas e outras que depois de dois dias vi que não havia mais o que fazer em Bonito. A não ser que eu fosse repetir algum passeio, era melhor que eu fosse embora de lá. Conversando com as pessoas, descobri que existia um lugar q sempre quis visitar e que ficava próximo de Bonito. Onde era? Pantanal! Pombas, onde eu assino? Vamos embora!

De Bonito para Miranda: o “Grilo Falante”

Descobri um carinha que, por módicos 50 contos, te levava de Bonito a um hotel- fazenda incrustado no meio do Pantanal Mato-Grossense. O lugar chamava-se Lontra Pantanal Hotel e eu SUPER recomendo a quem queira ficar por lá. Só pra vocês terem uma ideia, eu paguei 330 reais por dois dias com hospedagem, alimentação e passeio. TUDO INCLUSO! A gente quando tá em Bonito meio que perde a noção de como as coisas são caras por lá =)
O caminho em si também merece ser citado. O motorista chamava-se “grilo” e o cidadão era super gente boa. No caminho fomos conversando sobre histórias recorrentes em zonas de fronteira que aconteceram com ele e com outros amigos que moravam por lá. Ele contou como era quase sempre uma aventura viajar com seu próprio carro pro Paraguai, que poderia ocorrer dos guardas paraguaios inventarem qualquer desculpa pra apreender, ficar com o seu carro no Paraguai e nunca mais você vê-lo. Diz que camionete Hilux então… Outra engraçada que ele contou foi que teve um mês que ele não podia passar em um posto da polícia rodoviária, polícia militar e até polícia ambiental que nego parava o carro dele. Mas era batata. Passou em um posto, paravam o carro dele, davam uma geral e depois mandavam ele ir embora. Diz ele que depois de uns quatro ou cinco dias, sem paciência, foi lá e perguntou pra um policial o que diabos era que eles não paravam de encrencar com ele. O policial foi lá e falou que tinham pego um carrinho igualzinho o dele, mesmo modelo, mesma cor e ainda por cima com um trailerzinho igualzinho o que ele usava pra transportar as malas dos clientes, ABARROTADA de cocaína. Depois disso, ele ficou sem ter um pouco de paz por quase um mês. Essa é a vida na fronteira! 
Falando em outra coisa engraçada, estávamos eu e ele lá proseando e do nada nos ultrapassa um carro: ZUUUUMMMM. Mas o bicho ia embalado, voando baixo. Sabe o que era? Cara, era um carro do Google Street!! Sim, aquele carro que faz o serviço de sair fotografando as ruas das cidades para que vc posteriormente possa ver na internet. O que ele fazia no meio do Pantanal? Isso eu não sei até hoje. Mas enfim, acharam um desses até em Santa Inês no Maranhão.
Ele me contou uma história que ocorreu com uma família que vivia vizinha ao sítio que ele morava. Lá tinha uma menininha que todo dia caminhava um certo tempo até chegar em um ponto onde o ônibus escolar a pegava para ela ir estudar. Depois de uns dias ela começou a falar que quase todo dia quando ela ia pegar esse ônibus, tinha um gatinho que ficava “guardando” ela. Diz que ela só dizia isso: “Papai, tem um gatinho me guardando”. O pai, achando que isso era coisa de criança, nem dava bola. Até que teve um dia que ela sumiu e quando foram procurar por ela só acharam o sapatinho com o pé dela dentro. Foram achar o corpo dela todo dilacerado só algumas semanas depois. O “gatinho” enfim parou de “guardar ela”. Numa região como aquela não podia faltar história de onça…
Bois ameaçadores nos confrontam do outro lado da pista de terra.
Mas o mais engraçado mesmo foi uma mulher que tava viajando que foi, de longe, o destaque da nossa viagem. Cara, sabe uma daquelas mulheres frescas? Mas o estereótipo mesmo? Cara, era a mulher! A mulher era MUUUIITOOO chata! Só pra vocês terem uma ideia, a gente tava indo em direção ao hotel fazenda quando passou um boiadeiro do nosso lado tocando a sua boiada. Rapaz, mas pra que? Essa mulher começou a dar um escândalo… “Ai meu Deus! Ai meu Deus! Olha o tanto de boi! Ai meu Deus! E se eles vierem aqui comer (!!!!!!!!!!!!!!) a gente? Ai meu Deus, socorro!!”. E começou a se desesperar dentro do carro. Eu, como não perco a chance, comecei a comentar com o grilo: “Rapaz, um boi desse tamanho tem força pra virar esse carro, né?” e o grilo respondendo que sim, só de sacanagem. “Rapaz, se um boi desses avança pra cima do carro, a gente capota, né?”. Só de raiva! A mulher, coitada, quase que desmaia no banco de trás! Foi a nossa primeira conversa e a primeira de muitas vezes que eu judiava com ela =)

Largateaaaannddooo

Pantanal!

Desde o primeiro momento em que desci do carro e vi como era o hotel fazenda pude perceber que realmente não ia me arrepender de ter trocado alguns dias em Bonito pra poder ir pra lá. O lugar era realmente BEM DA HORA, super isolado (celular não pegava) e cercado de verde por todos os lados. De início já fui saldado por alguns carcarás (pega, mata e come!) que passeavam tranquilamente pelo hotel fazenda.
Não houve nem tempo de descansar, fui descendo, jogando minhas coisas no carro e já indo pro primeiro passeio programado: subir o rio para poder observar jacarés e outros pássaros. O barco atrasou um pouquinho, daí resolvi que não seria uma má ideia pular no rio e dar um banhada. Perguntei pra dona da pousada se era de boa banhar naquele rio e ela me falou que sim, que era super sossegado. Que o rio só era infestado de piranhas e podia ser que uma hora um jacaré passasse nadando do seu lado, mas que eles eram super dóceis e que não iam dar problemas pra ninguém. Mas assim, com uma naturalidade… “Pode ir meu filho! Tem algumas piranhas assassinas nadando e uns jacarés de dentes afiados passeando, mas tirando isso, nada demais! Eles são dóceis como um cachorrinho de pelúcia”. Acho que ela imaginava que aqueles dentes sanguinários e afiados serviam só deixar as piranhas mais bonitinhas…Não sei você, mas isso não está no rol de informações que eu desejo receber quando estou pra poder ir nadar em algum lugar.

 Ainda fui dar uma nadada, já que ela insistiu que, apesar do rio estar infestado de animais assassinos, ninguém no hotel fazenda nunca teve problemas. Fiquei uns cinco minutos lá dentro, mas não aguentei ficar nadando não. Quem já banhou em rio sabe que quando você fica lá de boa, vários peixinhos ficam te beliscando e dando umas mordiscadas na sua pele, nada anormal. O problema é que quando você está em um rio de água barrenta cheio de piranhas, qualquer mordiscada você já acha que é uma piranha arrancando o seu rim. Lembrei do sábio ditado “Em rio de piranha, jacaré nada de costa”, resolvi sair e ficar tomando banho de chuveiro, que era um pouco mais seguro. O barco chegou e seguimos viagem.
É minha amiga piranha, um dia é o da caça, o outro do caçador. 
Cara, é muito impressionante o Pantanal. É aquilo mesmo que vemos na TV, muito verde, pássaros e muito, mas MUITOS, jacarés. Mas parece uma praga, pra onde você olha tem um jacaré observando pra você! Eles são de todos os tamanhos, mas não chega a ter aqueles crocodilos de quinze metros que você vê na TV não. Eles eram no máximo de um tamanho de um homem adulto. Além de jacarés tinham muitas, mas MUITAS capivaras por todos os lados e ainda outras aves coloridas, além de araras, é claro! Mas o maior destaque vai pra aquela mulher chata que eu havia falado que deu escândalo no carro porque achou que ia ser “comida” pelos bois. Se ela deu escândalo com boi, com jacaré então…
Rapaz, ela tava com uma filinha, uma adolescente de seus 17 anos e que estava super curtindo o passeio. Curtindo assim, tentando curtir, porque essa mulher não parava de reclamar e censurar a menina: “Fulana, sai do sol”, “Fulana, sai de perto da borda que tem um jacaré a 48 metros daqui”, “Fulana, não coloca a mão na água que um peixe vai te comer”. Rapaz, mas aquilo dava raiva, viu? Eu, só de mal, não perdia a oportunidade de perturbá-la! Quando ela começava a falar “menina, tira essa mão da água, só tu tá fazendo isso”, eu ia lá e começava a meter a mão na água, quando o barco passava próximo de uma margem, eu começava a falar “rapaz, acho que tem alguma coisa se mexendo aí nesse mato, vai que é uma onça e que ela pula aqui dentro??!?!” só pra ver a mulher quase se jogando na água. E assim eu ia indo, ela frescando e eu perturbando e morrendo de rir por dentro. Rapaz, mas essa mulher sofreu comigo…
Toda hora que o barco parava eu aproveitava pra dar uma nadada, sempre, claro, mais desconfiado que velha em canoa. Teve uma hora que o guia parou o barco e lááááá do outro lado tinha um jacaré na margem tomando sol. Todo mundo do barco ficou morrendo de medo de entrar na água desse jacaré querer vir pra cima e comer a gente. A chata então… só faltando amarrar a filha dela no banco. Eu, claro, que nunca tive frescuras com essas coisas, aproveitei. Fui lá e pulei na água. A chata ficou falando “Menino, sai daí! Esse jacaré vai acabar te comendo!”. E eu nem dando bola. Rapaz, mas foi esse jacaré sair da margem, entrar na água e afundar pra eu só faltar voar pra cima do barco. Ok, ele tava a uns vinte metros da gente, mas, amigo, um jacaré na água, afundando, água barrenta! Duvido quem não fica com medo por mais que o guia fale que o jacaré não morde a gente!
Vai… nada com um bichinho desses dentro d´água que eu quero ver…

3 comentários em “De Bonito para o Pantanal

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