De Brasília até o Irã: três conexões, 29 horas de viagem e muitas aventuras com uma galerinha do barulho aprontando altas confusões

Sabia que os voos não iriam ser moleza! São muitas horas de viagem. Mas quando a viagem já começa a ter história antes mesmo de você chegar, é um bom sinal! Vamos lá, a saga até chegar no primeiro destino do Irã!

No primeiro voo, do meu lado, um cara de batina!

Aconteceu algo inusitado no meu voo de Brasília para Lisboa. Do meu lado foi sentado um padre. De batina e tudo. Era europeu e vivia no Brasil há mais de 14 anos. Fiquei conversando com ele quase umas duas horas e ele foi me contando o trabalho que fazia de proteção a famílias que foram expulsas de suas casas devido aos bandidos locais. Ele trabalhava para protegê-las e até mesmo acolhia algumas em sua casa. Atormentava ao máximo ministros, juízes, qualquer autoridade possível para pedir ajuda a essas centenas de famílias! Dizia que devido a isso, mandaram a seu whatsapp fotos da porta da sua casa e de sua paróquia, o ameaçando de morte. Na hora lembrei da missionária católica americana Dorothy Stang que foi assassinada no interior do Pará devido ao seu trabalho de proteção de trabalhadores rurais expulsos de suas terras pela grilagem.

Porém, o que mais me impressionou foi que, mesmo sendo ameaçado de morte, mesmo com os bandidos mandando fotos de pessoas esquartejadas (para o padre ver o que acontece com quem se opõe a eles), mesmo com medo, ele não transmitia sensação alguma de ódio, sequer de raiva. As suas palavras eram de paz, eram de pena, era a preocupação de como salvá-los da vida transgressora. Isso é muito doido, ainda mais lembrando que hoje em dia você quer matar alguém só porque pensa diferente de você e ele ali, tendo compaixão de seus carrascos.

Depois que desci do avião, fiquei pensando. Se tivesse sentado o Malafaia do meu lado e dito que tem mais é que matar esses viados mesmo, como iria chamar a atenção. Mas quando um padre, um pastor, um monge, um rabino, nos fala de amor, de compaixão, de perdão, de acolher pessoas esquecidas pela sociedade e pelo Estado (como drogados, mendigos, deficientes mentais, leprosos…) se doar em vida (já que, como o pobre padre me falou, quem dá aos pobres empresta a Deus), ninguém dá ouvidos. Ninguém para para pensar, como ele mesmo me falou, que a Igreja Católica é a maior instituição de caridade do mundo.

Nossa conversa foi super agradável, ele me contou também sobre os seus projetos de hortas orgânicas e acolhimento de jovens grávidas de estupro. Ele dizia: Se ela já teve um trauma grande, que foi o estupro, porque a deixar outro trauma, que era o aborto? Disse que falava para as mães, que se elas não tivessem como psicologicamente criar as crianças, que as deixassem para adoção e que a Igreja daria suporte. Diz ele que no final as mães lhe agradeciam por as ter feito mudar de ideia e até era padrinho de várias crianças concebidas dessa forma, que elas eram de uma alegria impressionante na paróquia.

Enfim, sei que ninguém gosta de textão, mas no meio de todo esse ódio hoje em dia, acho que transmitir umas palavras de paz de vez em quando não é de todo mal.

P.s: No final, percebi que o Rodrigo Janot, o Procurador Geral da República, estava no mesmo voo que a gente. Óbvio que dei um toque no Padre (pô, cara, sei que o Procurador tava de férias, mas a causa era nobre demais). Ele ficou MUITO feliz e ficou me dizendo que foi Deus que me colocou ali do lado dele naquele voo para ajudar, não a ele, mas as famílias que estão sofrendo e morando nas ruas mesmo tendo casas. Bem, quem me colocou naquela cadeira foi a Tap Portugal, mas se eu tivesse fé, realmente acreditaria que foi Deus =)

Chegando ao Irã – Do aeroporto para a estrada

Saí na sexta e fui chegar apenas na segunda as três da manhã ao aeroporto do Irã. Foram quase 29 horas de voo e conexões em Lisboa, Barcelona e Istambul. Desnecessário dizer que cheguei só aos cacos em Teerã.

20161013_100138O aeroporto que todo mundo chega ao Irã é o Imam Khomeini (não lembra quem foi Khomeini? Volte duas casas e releia esse post aqui), que, mano, sério, é MUITO longe do centro de Teerã, dá mais de 50 kms. E, assim, se você que já viu um trânsito maluco e congestionado é porque nunca viajou em Teerã. Sério. Até o da Índia achei menos pior, já que ele é maluco, mas não é tão congestionado ou agressivo.

Devido a isso, combinei com o Ciro de que iríamos direto do aeroporto para a estrada. Só tinha um pequeno detalhe: 29 horas de voos e conexões. Cheguei às TRÊS DA MANHÃ no aeroporto. Sem problemas, mochila dentro do carro e simbora. Ciro me pegou no aeroporto e seguimos direto para Yazd, nada mais nada menos que 600 kms de chão e seis horas de viagem.

Pensei, bem, eu vou estar ruim de sono, mas Ciro vai estar descansado, daí ele vai dirigindo e eu vou só dormindo no carro. Rapaz, quando o bicho me pegou no aeroporto… Ele me disse que não conseguiu dormir cedo e tudo o que ele tinha dormido naquela noite tinham sido duas horas. Essas loucuras inconsequentes que a gente só faz viajando, coisa mais irresponsável que essa só tinha feito nas muralhas da China (confira os posts sobre a caminhada nas muralhas da China clicando aqui e aqui). No final, não pude ir dormindo para ter que ir conversando com ele pra não deixá-lo dormir.

14590390_843453769130847_1128955538251196482_nSó fui surpreendido pela excelente qualidade das estradas iranianas. Cara, viajamos uns 3.000 quilômetros e não vi um buraco nas estradas. Além disso, em quase 90% do trecho as estradas eram pelo menos duplicadas, isso quando não eram triplicadas. O negócio era bom mesmo.

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As pistas mais pareciam um tapete…

No fim da noite quando estávamos em direção ao hotel, depois de duas noites sem dormir, tinha hora que eu estava conversando com o Ciro e, de repente, eu só escutava “Boizão, cê tá dormindo?”. Cara, eu meio que desmaiava e nem percebia. Muito engraçado isso, primeira vez que me aconteceu.

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