Mão invisível do mercado nas muralhas

Como fui voto vencido, seguimos em frente. Cara, sabe aquela imagem das muralhas que você em cartões postais e na tv? Ela toda bonitinha e talz? Pois é, aquilo é a exceção e não a regra. Aquilo ali é só na parte bonitinha e turística para os turistas gordos poderem bater fotos e colocar no facebook. A maioria da muralha hoje é feita de ruínas e depois que saímos da parte turística, fomos para a verdadeira muralha! Aí, cara era pedra descolada fazendo você tropeçar e quase desabar precipício abaixo, zonas da muralha quase inexistentes, vegetação dificultando a caminhada, zonas intensamente íngremes e, o pior, NENHUM ser humano a vista, ou seja, com tudo para dar errado.


Seguimos caminhando e de repente veio aquela cena de filme. Sabe aquela ilhota, famosa em filmes de náufragos? Não, a muralha não virou mar, nem o mar virou muralha (sábio Antônio Conselheiro!), mas serve como metáfora para o oásis que vimos. Ao longe foi se formando a imagem de um ser humanoide sentado ao lado de algo que parecia um cubo branco. Sim, demorei a acreditar, mas era isso mesmo. Um VENDEDOR AMBULANTE perdido NO MEIO DAS MURALHAS!! É isso aí, meu caro! A mão invisível do mercado suprindo a demanda e ofertando os seus produtos onde quer que acha necessidade deles serem comprados. Com o nosso estoque de água quase no fim, aquele cara seria uma benção! Adam Smith ficaria orgulhoso! Porém, sempre há um porém! Como já havia dito nesse post da Indonésia, a mão invisível do mercado não carrega o isopor dele montanha acima.
Então? Bem, então o cabra queria que pagássemos SETE VEZES MAIS pelo preço que normalmente pagávamos em outros ambulantes! Adam Smith ficaria orgulhoso! Tentamos argumentar, mas não teve jeito, ou pagávamos a ele, ou ficaríamos com o nosso estoque de água perigosamente baixo. Você se sente humilhado, depois de estudar Economia na universidade por quatro anos, não conseguindo argumentar com um ambulante que mal sabe escrever o nome! Marx, David Ricardo, Keynes, nada adiantava, a única linguagem que ele entendia, e bem, era a do dinheiro! Depois de muito choro, ele resolveu baixar para cinco vezes o preço de mercado de um ambulante comum e seguimos viagem. Nunca paguei tão caro por uma garrafa d´água na minha vida, cara! Aquele ambulante me ensinou sobre Economia do que qualquer universidade.

AMIGOS, AMIGOS…

Caminhamos mais por uma hora e, como a pomba que volta com um ramo no bico mostrando para Noé que ele estava próximo de terra firme, vimos alguns chineses caminhando em sentindo contrário ao nosso. Bem, essa maldita vila deveria estar perto.
Caminhamos mais um pouco e nos deparamos com um problema complicado. Chegamos a uma torre de observação e o acesso dela do outro lado estava simplesmente em ruínas. Era necessário pular algo como uns dois metros, dois metros e meio de queda livre para poder continuar viagem. Cara, isso é algo como pular do primeiro andar de uma casa. Bem, com muito cuidado até dá para você fazer isso e pular no seu quintal em cima da grana, o problema é que o terreno abaixo era pedregoso e um piso em falso poderia levar a uns belos arranhões ou, o pior dos mundos em um lugar como aquele, uma torção do tornozelo a algumas horas sendo carregado até o socorro mais próximo. Ficamos matutando o que fazer quando, do nada, lá detrás, vem um chinês correndo com uma escada na mão. Lógico, do lado dele, uma outra caixa de isopor. Ficamos bem agradecidos com o que ele estava fazendo e pensamos até em comprar umas garrafas d´água da mão dele como agradecimento. Só havia um detalhe, cara, estávamos na China. Assim que ele botou a escada na torre, que eu ia pisar ele só falou: – “É dois reais para descer. POR PESSOA!!!”. Adam Smith ficaria orgulhoso!

Ok, cara, não quero que ninguém trabalhe de graça e talz, mas POMBAS! Era só uma escada! Eu, lógico, nem quis barganhar com aquele enviado dos infernos. Não era por causa do preço nem nada, era mais a atitude mesmo. Mole, mole, erámos apenas seres humanos em uma situação de risco! Entreguei a minha mochila para a galera em cima e fui me esgueirando, esgueirando e consegui alcançar o chão. Peguei as mochilas, ajudei os outros homens a descer, fizemos as mulheres pularem nos nossos braços e seguimos viagem.

Nosso amigo com sua caixinha de isopor

Em que língua escrevem os vândalos?

CINCO HORAS DEPOIS do momento em que decidimos não voltar e chegar à vila, chegamos em uma parte da muralha onde vários ambulantes conversavam. Exaustos, pobres, extorquidos, mas vivos e hidratados. Cara, não tinha placa nem nada, o caminho seguia e se não fosse a nossa amiga chinesa, para perguntar se aquela trilhazinha de nada levava até a vila, estaríamos caminhando até hoje nas muralhas. Isso é, até o momento que nosso dinheiro acabasse de tanto comprar água inflacionada. No acesso para a trilha, lógico, mais uma pequena queda de um metro e meio e mais uma operação padrão para içar as meninas de cima para baixo.

2 comentários em “Mão invisível do mercado nas muralhas

  1. Considerando que a grande sacada do Capitalismo não é atender as necessidades, mas CRIÁ-LAS, então APOSTO que mesmo em ruínas aquele trecho da muralha podia ser atravessado sem um pulo mortal, mas a tal mão-invisível-do-mercado deu um jeito de que virasse uma arapuca para laowais curiosos e metidos a desbravadores.

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