
Com a Copa do Mundo acontecendo nos Estados Unidos e no Canadá, resolvi aproveitar minhas férias para ir lá. Como não gosto muito da ideia de simplesmente voar do ponto A para o ponto B quando ainda existem países pelo caminho que eu não conheço, decidi transformar o deslocamento em parte da aventura e fazer algumas paradas pelo Caribe antes de seguir para o norte do continente.

Dos países das Américas, já visitei toda a América do Sul e também todos os países da América Central continental. O que ainda falta para completar a região são basicamente algumas ilhas do Caribe. Então pensei: já que vou passar por ali mesmo, por que não começar a diminuir essa lista?
O primeiro país escolhido foi Barbados. Não houve uma grande razão estratégica ou emocional. Simplesmente era um dos países que eu ainda não conhecia e que tinha uma ligação aérea conveniente pela Copa Airlines, do Panamá. Às vezes o planejamento de uma viagem nasce de um sonho antigo. Outras vezes nasce porque o voo encaixa direitinho. Mala pronta e vambora.
Uma chegada surpreendentemente tranquila
A primeira coisa que me fez gostar de Barbados foi algo que muita gente talvez nem perceba: o Uber funciona normalmente na ilha. Pode parecer um detalhe bobo, mas depois de passar por países onde você precisa negociar cada corrida, discutir preço, combinar pagamento e ainda torcer para não estar pagando três vezes o valor justo, abrir o aplicativo, chamar o carro e pronto é um luxo que a gente aprende a valorizar. Em menos de um minuto eu já tinha um motorista vindo me buscar e não precisei pechinchar absolutamente nada.

Outra coisa que me surpreendeu positivamente foi a eficiência da imigração. Antes mesmo de chegar ao guichê, você preenche seus dados em terminais eletrônicos, de modo que quando finalmente encontra o agente de imigração boa parte do trabalho já está feita. O resultado é que o processo anda muito mais rápido do que eu esperava. Sem filas intermináveis, sem formulários misteriosos e sem aquela sensação de que você está participando de uma prova de resistência burocrática.

Passei pela imigração, chamei um Uber e segui para o Airbnb. Depois de algumas viagens recentes cheias de pequenas complicações, parecia até estranho quando as coisas simplesmente funcionavam como deveriam. Foi desembarcar, entrar no carro e começar a aproveitar a viagem. Só alegria.
Como Barbados se tornou um dos países mais desenvolvidos do Caribe
A história de Barbados é um pouco diferente da maioria dos países do Caribe. Enquanto várias ilhas da região passaram por sucessivas ocupações de espanhóis, franceses, holandeses e britânicos, Barbados permaneceu sob controle inglês até ficar independente Os ingleses chegaram em 1627 e transformaram a ilha em uma gigantesca produtora de açúcar, um dos motivos que levaram a quebrar a indústria de açúcar do Nordeste Brasileiro. Durante séculos, a economia foi baseada no trabalho de escravos africanos. Na verdade, os povos originários de Barbados foram todos dizimados, por isso que a maioria da população hoje é de descendência africana. A escravidão foi abolida em 1834, mas os descendentes dos antigos proprietários continuaram concentrando grande parte do poder econômico por muitas décadas.

Ao longo do século XX, Barbados passou por reformas políticas graduais e conquistou sua independência do Reino Unido em 1966. Diferentemente de muitos países recém-independentes, a ilha conseguiu construir instituições relativamente estáveis, investir em educação e desenvolver uma economia baseada em turismo, serviços financeiros e negócios internacionais. Quase todas as crianças estão na escola e o alfabetismo foi virtualmente banido. Isso permitiu que Barbados alcançasse um padrão de vida superior ao de muitos de seus vizinhos caribenhos. Até 2021, inclusive, o chefe simbólico do país era o monarca britânico, já que Barbados faz parte da Commonwealth.

A bandeira de Barbados também conta um pouco dessa história. Ela é formada por três faixas verticais: duas azuis nas extremidades e uma amarela no centro. O azul representa o mar e o céu que cercam a ilha, enquanto o amarelo simboliza as praias de areia dourada. No centro aparece um tridente negro quebrado. Originalmente, o tridente era um símbolo associado ao deus romano Netuno e aparecia em emblemas coloniais britânicos da ilha. Quando Barbados se tornou independente, o tridente foi mantido, mas com o cabo quebrado, representando a ruptura com o domínio colonial. As três pontas também costumam ser interpretadas como os princípios de governo do povo, pelo povo e para o povo.
O choque dos preços em Barbados
Uma das coisas que mais me chamou atenção em Barbados foi o custo de vida absurdamente alto. E não estou falando só para turistas. Restaurantes simples, mercado, transporte, aluguel, energia elétrica… tudo parece custar mais do que você imagina que deveria custar numa pequena ilha do Caribe. Para quem vem de países como Brasil ou mesmo dos vizinhos caribenhos, a sensação é constante de estar pagando caro por praticamente qualquer coisa. Em alguns momentos eu tinha a impressão de que os preços estavam mais próximos dos encontrados em cidades dos Estados Unidos ou da Europa do que dos praticados no restante da América Latina.

O mais curioso é que esse custo elevado também pesa para os próprios habitantes da ilha. Barbados importa grande parte do que consome, desde alimentos até combustíveis e produtos industrializados, o que encarece praticamente toda a economia. Conversando com moradores, ficou claro que moradia, contas domésticas e supermercado são preocupações frequentes. A diferença é que, enquanto o turista sofre por alguns dias, o barbadiano convive com esses preços o ano inteiro. Talvez por isso tenha ficado tão comum ver as pessoas reclamando do custo de vida, mesmo em um dos países mais estáveis e desenvolvidos do Caribe.

Para você ter uma ideia de como Barbados é caro, a corrida do aeroporto até o Airbnb que eu aluguei — um trajeto de apenas 16 minutos — custou cerca de 140 reais (26 dólares). Cara, é surreal. Em alguns momentos eu tinha a impressão de que os preços estavam competindo diretamente com cidades dos Estados Unidos ou da Europa Ocidental. Depois dessa primeira corrida, aprendi rapidinho que, se quisesse manter alguma dignidade financeira, teria que descobrir como funcionava o transporte público da ilha.

Felizmente, não é tão complicado. A principal avenida acompanha boa parte do litoral, então minha estratégia era simples: aparecia uma van, eu entrava e acompanhava o trajeto pelo Google Maps para saber onde descer. Funcionou tão bem que até para voltar ao aeroporto eu fui de transporte público. O problema foi que o motorista da van parecia estar participando de uma seletiva para a Fórmula 1. Rapaz, o homem dirigia como se estivesse fugindo de alguma coisa. Curva, ultrapassagem, acelerada… tudo ao mesmo tempo. Eu paguei por transporte e recebi de brinde uma volta de montanha russa.

Ah sim, não tinha cinto de segurança. Nem os passageiros. Nem o motorista. Absolutamente ninguém. Ah, e essa aventura não era exatamente barata: a passagem custava a bagatela de 9 reais (cerca de US$ 1,75). Nove reais para andar numa van sem ar-condicionado, sendo conduzido por um psicopata. Depois disso, confesso que comecei a olhar com muito mais carinho para o preço da passagem de ônibus no Brasil. Porque os preços em Barbados são realmente de outro planeta.
A terra da Rihanna… que parece ter esquecido disso
Antes de viajar para Barbados, uma das primeiras coisas que me vinha à cabeça era: “essa é a terra da Rihanna”. Afinal, ela é de longe a pessoa mais famosa já nascida na ilha e uma das artistas mais conhecidas do planeta. Eu imaginava encontrar fotos dela no aeroporto, outdoors, estátuas, propagandas, lojas vendendo lembranças e todo tipo de homenagem possível. Afinal, não é todo dia que um país de menos de 300 mil habitantes produz uma celebridade desse tamanho. Imaginava (e ainda imagino) que ela fosse uma heroína nacional.

Mas o curioso é que, durante boa parte da viagem, eu não vi NADA relacionado a ela. Andei por Bridgetown, praias, mercados, centros comerciais e atrações turísticas e fiquei surpreso com a ausência de referências. Eu esperava uma presença muito maior e no final não encontrei presença nenhuma. Tou impressionado com isso até agora. Só sei que, se eu não soubesse que estava na terra da Rihanna, dificilmente teria descoberto isso apenas caminhando pelas ruas
Cuidado com a sua camiseta do exército
Uma das curiosidades mais engraçadas de Barbados é que roupas com estampa de camuflagem são proibidas para civis. Sim, aquela bermuda camuflada que você compra numa loja de esportes, aquela camiseta estilo militar ou até mesmo uma mochila com padrão de exército podem arrumar uma bela dor de cabeça. A regra existe porque a camuflagem é considerada de uso exclusivo das forças armadas e das forças de segurança. A ideia é evitar que alguém possa ser confundido com militares ou policiais.

O mais curioso é que isso pega muitos turistas de surpresa. Afinal, em boa parte do mundo roupa camuflada é apenas moda ou roupa de trilha. Eu mesmo fiquei imaginando a cena de um turista chegando feliz da vida com sua bermuda comprada em promoção e descobrindo que ela é tratada quase como contrabando de alta periculosidade.
Eu vi um cara falando para não levar nada com camuflagem pro país e depois que eu vi que isso era verdade. Pior que deve haver outros países que eu viajei que são assim e eu não me toquei. Já aconteceu duas vezes em dois países diferentes de pessoas na rua me perguntarem se eu era militar porque eu tenho um chapéu com estampa de camuflagem que eu comprei em uma loja de pesca. Não é exatamente o tipo de problema que a gente espera enfrentar durante uma viagem ao Caribe. Então fica a dica: em Barbados, deixe o visual de soldado para os soldados. É uma das poucas situações em que uma simples escolha de roupa pode acabar gerando mais conversa com as autoridades do que você gostaria. Acabei deixando o meu chapéu em Brasília.
Os cavalos de Pebbles Beach

Uma das atrações mais curiosas de Barbados acontece todos os dias bem cedo em Pebbles Beach. Os cavalos de corrida que ficam alojados nas cocheiras próximas ao hipódromo são levados até a praia para tomar banho de mar e fazer exercícios na água. A tradição existe há décadas e faz parte da rotina dos treinadores locais. A água salgada ajuda na recuperação muscular dos animais após os treinos, enquanto a resistência da água permite que eles se exercitem sem o impacto que teriam correndo em solo firme. O resultado é uma cena bastante diferente: dezenas de cavalos entrando no mar do Caribe enquanto o sol começa a nascer.

Como eu queria ver isso de perto, tive que fazer um pequeno sacrifício: acordar às cinco da manhã. Não sou exatamente um entusiasta de madrugadas, mas confesso que valeu a pena. Quando cheguei à praia, já havia vários cavalos entrando e saindo da água acompanhados pelos tratadores. Era curioso ver aqueles animais enormes nadando tranquilamente no mar enquanto turistas e moradores observavam tudo da areia. E o mais engraçado é que para cada cavalo sendo lavado, parecia que tinha outros 5 para os turistas baterem fotos e passearem a um preço módico de 15 dólares.

Depois de passar um tempo observando os cavalos e batendo algumas fotos, aproveitei que já estava acordado e resolvi continuar explorando a ilha. Voltei para Bridgetown e passei o restante da manhã caminhando sem muita pressa pelas ruas da cidade, observando o movimento dos moradores, as construções coloniais e o ritmo tranquilo da capital. Àquela hora, a cidade ainda estava despertando, o que tornou o passeio especialmente agradável e bem diferente do movimento mais intenso que aparece ao longo do dia.
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