American Way of Life, “a espiral do consumo”

Cara, eu ia postar algo relacionado ao American Way of Life alguns blogs atrás, mas preferi analisar mais algum tempo e conversar com mais pessoas, para não fazer uma análise baseada em apenas um indivíduo…

Assim que cheguei aqui nos EUA, o Orlando, aquele gerente do hotel, tinha me falado do furor da sociedade americana pelo consumo e como isso parece escravizar as pessoas na espiral do “preciso trabalhar mais para poder comprar mais” ou “ainda não tenho tudo que sempre sonhei, preciso comprar mais coisas”.

Os dois exemplos mais emblemáticos que tive contato até agora foram: O novo cara que chegou pra trabalhar no hotel, o Alberto e a minha gerente gente boa e super simpática, a Sarah.

Certa vez, pela janela ônibus que me levava pra casa depois de mais uma noite de trabalho, pude ver a Sarah trabalhando na cozinha da doceria. Tudo normal, se não fosse plena 7:30 da manhã! Cheguei em casa, escovei meus dentes, fui dormir, voltei pro trabalho 3:30 DA TARDE e a mulher ainda tava lá trabalhando! Cara, fiquei realmente impressionado com isso, pois, apesar do trabalho dela de fazer doces não ser tão pesado como o meu de lavar pratos e o chão, ela fica o dia inteiro trabalhando em pé, já que em momento algum elas fazem algum trabalho sentadas. Fui conversar com ela e descobri que pelo menos cinco vezes por semana ela chega todos os dias no trabalho às seis horas da manhã e sai no final da tarde, algumas vezes chegando a trabalhar DOZE horas por dia.

Isso começou a matutar na minha cabeça. Se eu, que ando trabalhando por volta de 65 horas por semana, consigo ter superávits SEMANAIS de quase 350 dólares (juntando tudo o que eu ganho e tirando minhas despesas, consigo juntar 350 dólares por semana), de quanto será o superávit semanal de uma gerente de doceria como ela, trabalhando 60 horas por semana? Tudo bem que ela deve ter um nível de vida absurdamente melhor que o meu, já que mora com o marido e talz, mas mesmo assim, será se ela consegue gastar tudo que ganha? Será possível?

Fui perguntar isso pra ela e, pasmem, ela me falou que não consegue juntar quase nada por semana, já que tem muitas contas pra pagar e por isso decidiu procurar um outro emprego. Ela trabalha também numa loja como atendente, segundo ela, não tem problema, já que o trabalho é bem mais sossegado e ela só tem que ficar atendendo pessoas (no final a gente é bem parecido, hehehee, trabalho duro durante o dia e moleza durante a noite). No total ela me falou que trabalha por volta de 75 horas por semana. Pô brother, seja o serviço que for, 75 horas por semana é MUITA coisa. Digamos que ela pegue um dia de folga por semana, isso dá mais que 12 horas por dia de trabalho! Vai encarar?

Ao notar meu espanto, ela justificou que não via problema nisso, já que não tem filhos, o marido também não tem muito tempo livre (já que trabalha e estuda) e ela é jovem! Basicamente isso!

Porra, eu fico pensando que eu, por estar aqui só de agito, sem amigos e namorada, não tenho tempo pra mais nada a não ser pra trabalhar, fico imaginando se ela não está na mesma maneira.

O outro caso que me deixou mais impressionado ainda, estava relacionado ao Alberto, um cara que chegou agora pra trabalhar no hotel. Seus pais são provenientes da Guatemala e ele nasceu aqui, logo tem nacionalidade americana. Ele começou a trabalhar no hotel porque conhece o dono do hotel de longas datas, já que o dono é cliente do banco que ele trabalha.

O Alberto trabalha num banco daqui de Santa Bárbara, ganha 22 dólares por hora e trabalha quarenta horas por semana (faça as contas). Além deste trabalho e das exíguas quatro horas que trabalha no hotel o nosso amigo ainda trabalha como OPERADOR DE TELEMARKETING! Brother, eu sempre achei que trabalhar com telemarketing fosse o fim que uma pessoa pudesse chegar. Tipo, o cara é corintiano, a mãe trabalha na zona, a filha faz sexo com porcos, o filho usa drogas e o cara ainda é do Piauí! Beleza, um cidadão como esse vai trabalhar com Telemarketing, algo que um maranhense sangue-bom e que faz sucesso com a mulherada nunca faria. Porra, se já é chato atender ligação de Telemarketing, imagina como deve ser chato ficar o dia inteiro fazendo ligações com pessoas sendo extremamente grossas com você e com metas absurdas a bater?

Mas é, fez as contas? O nosso amigo com certeza deve trabalhar mais que 70 horas por semana. Mais ou menos como a gerente, ou seja, no limite da capacidade humana. Porque ele trabalha tanto? Sim, a mesma resposta, “tem muitas contas a pagar”!

Assim como o Orlando tinha me falado, eu fico impressionado como o americano médio realmente parece ter essa sanha louca por consumo! Eu também já tinha lido um livro muito interessante, “Pai Rico Pai Pobre” (Robert Kiyosaki) onde o autor tem uma tese interessante: Não adianta o quanto essas pessoas sejam promovidas ou ganhem salários maiores, elas sempre vão estar cada vez mais atoladas em dívidas e mais problemas. Enquanto não for possível mudar o pensamento do “eu preciso ter uma casa melhor” ou “eu preciso de um carro melhor”, as pessoas sempre estarão no que ele chama de “corrida dos ratos”, cada vez mais endividadas, cada vez trabalhando mais e cada vez mais botando a culpa no governo ou na corrupção pelos seus erros pessoais.

Os dois casos que citei são bem ilustrativos. Um dia cheguei ao trabalho e vi um calhamaço de correspondências em cima do balcão. Fui lá e perguntei pro Alberto se aquilo era do hotel. Qual não foi minha surpresa quando ele falou que tudo pertencia a ele. No meio daquelas correspondências, havia contas de home theater, prestação do carro, contas de lojas de roupas etc.

Essa é a armadilha do American Way of Life, a facilidade com que você pode trabalhar. A facilidade do “olha, 10 dólares por hora é uma boa grana! Não faz mal trabalhar mais 20 horas por semana, eu sou jovem, não tenho filhos…” e, principalmente, a facilidade com que você pode comprar. A facilidade do “faça um cartão na nossa loja, não precisa comprovante de renda, você pode pagar em quantas vezes quiser”. Quando você menos se espanta já possui vinte calças jeans, 50 pares de tênis e, claro, sempre muitas contas a pagar. Depois que você se encontra endividado até o pescoço “porque não procurar um outro emprego” e por aí vai, cada vez mais afundado na sua espiral sem saber como sair. Trabalhando e consumindo como uns loucos enquanto a sua vida vai passando…

Quem tiver um tempinho, tem um documentário feito pela BBC que fala sobre isso no EUA, sobre o consumo desenfreado, a subida dos neoconservadores e dos fundamentalistas islâmicos ao poder. Eu comecei a ver agora e ele parece ser bem interessante.

O PODER DO PESADELO – Doc da BBC – Legenda em Portugues:

PARTE 1 http://video.google.com/videoplay?docid=5984887661763949903&hl=en

PARTE 2 http://video.google.com/videoplay?docid=-3944892390419580084

PARTE 3 http://video.google.com/videoplay?docid=7601165999682228862

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