Como chegar ao Líbano – Perrengue

Pra falar a verdade, quando ainda planejava a minha viagem de volta ao mundo, a Síria não estava nos meus planos. O país que mais me fascinava no Oriente Médio (além de Israel) era sem sombra de dúvidas o Líbano. Por quê? Cara, não sei dizer… Talvez pela grande influência libanesa na cultura brasileira. Talvez por ter conhecido alguns libaneses na Austrália que eram apaixonados por Beirute (quando ela não estava sendo bombardeada, é lógico) e a imagem da Paris do Oriente Médio. Talvez por me fascinar um país com metade da extensão do menor estado brasileiro (Sergipe) ou o dobro da área do Distrito Federal possuir tanto conflitos e religiões. Enfim, o Líbano me fascinava. Eu acabei indo pra Síria quase que na inércia mesmo, pois a única fronteira terrestre possível de ser cruzada para o Líbano é a fronteira com a Síria (já que a fronteira com Israel é fechada). Inclusive, uma curiosidade que eu acho que eu ainda não contei pra vocês. Quando você vai entrar na Síria ou no Líbano eles fazem poucas perguntas e quase não lhe importunam. A ÚNICA coisa que eles procuram com bastante seriedade é se você tem traços de que passou por Israel, ou seja, se você viajou pra Israel antes de ir para a Síria ou para o Líbano. Se você tiver uma passagem aérea com trechos passando por Tel-Aviv ou um carimbo da imigração israelense no seu passaporte demonstrando que você entrou no país, você é barrado antes de entrar nesses países. E não só no Líbano e na Síria. Possuir um carimbo da imigração de Israel no seu passaporte automaticamente o impede de entrar também no Irã, no Afeganistão, na Argélia, Iraque, Kuwait, Líbia, Arábia Saudita, Somália, Sudão, Iêmen… Ou seja, planeje bastante a sua viagem pro Oriente Médio pois senão você pode ser barrado numa fronteira de um país sem nem saber porque (eles não falam inglês. Então a única coisa que eles irão fazer é apontar para o outro lado da fronteira e mandar você voltar. E ah sim, sempre bom lembrar, eles tem rifles, e os caras que possuem rifles sempre possuem a razão, como eu já falei diversas vezes no blog nessas histórias aqui e aqui). Como eu consegui ir a Israel e a esses países pedreiras ao mesmo tempo? Bolei um plano… Primeiro fui pra Síria e pro Líbano por terra, vindo da Turquia, regressei a Turquia, voltei para a Europa, da Europa fui de avião pro Egito e do Egito atravessei, por terra, a fronteira de Israel. Sem problemas, certo? Errado! Você até pode entrar em Israel tendo carimbos de países hostis como Líbano e Síria, mas pode ter certeza que passará por um looonnngooo interrogatório na fronteira, tal qual ocorreu comigo, mas isso é história, muito engraçada por sinal, pra posts lá na frente.Quando estava na Síria, alguns amigos europeus do Matt também estavam planejando ir ao Líbano em alguns dias. Acabei ficando mais dois dias na Síria além do esperado, mas no fim valeu a pena, haja vista que os amigos do Matt falavam um pouco de árabe e isso tornava tudo sempre mais fácil. Fomos à rodoviária, a mesma do Servicio del taxi, e lá começamos a recolher informação de como nós poderíamos seguir para o Líbano. “Nós” é jeito de dizer, pois a única função que foi delegada ao latino burro aqui foi ficar cuidando das mochilas enquanto os caras saíam perguntando qual ônibus deveríamos pegar. De qualquer maneira fiz o meu melhor pra guardar as mochilas e elas se comportaram direitinho, no final, o que me ajudou bastante. Depois de um bom tempo sem sucesso, conseguimos falar com um cara que sabia como era o esquemas e resolveu ajuda a gente. Rapaz, esse cara só faltou pegar a gente pela mão. O bicho foi num guichê, foi em outro, foi no outro, achou o guichê que vendia a passagem pro Líbano, começou a barganhar pra ver se o cara fazia mais barato (éramos quatro no total), enfim, o cara fez tudo pra gente. No final, nos entregou a passagem e eu já estava me preparando pra tirar a grana da carteira que eu tinha certeza que ele ia pedir uma comissão pra ele… Que nada… O cara só falou que tava tudo certo, nós agradecemos e ele foi embora. Nada mais que isso. No final ainda perguntei pros caras: “Pô, o bicho foi mó gente boa, a gente não vai dar nenhum troco pra ele em agradecimento?”. Rapaz, fui seriamente repreendido por eles. Eles me falaram que é esse tipo de pensamento do tipo “se você me ajuda, eu te dou dinheiro” que contaminam as relações entre as pessoas quando você viaja mundo afora. Por isso que vários lugares turísticos, você não pode contar com as pessoas porque certamente elas irão tentar te enganar pra poder pegar um pouco de dinheiro de você. Rapaz, os caras ficaram brabos comigo. Mas pô, foi o que eu aprendi quando estava viajando, tratar as pessoas que nem foca: Foca faz uma pirueta? Toma um peixe! Ela bate palma? Toma outro peixe… Só estava contaminado, hehehehe.

Eu e Dino em Beirute
Entramos no busão e seguimos em direção ao Líbano. Lá conhecemos um canadense, Dino, MUITO gente boa, que virou nosso amigo e que ia nos ajudar bastante no Líbano, já que ele falava francês e quando os caras não conseguiam falar em árabe com os libaneses (já que o sotaque era diferente da Síria), o canadense desenrolava pra gente em francês. Além disso, eu, como estava com um agasalho do Brasil, acabei chamando a atenção de um molequinho que estava dentro do ônibus! Rapaz, esse guri ficou doido pra brincar comigo! A mãe dele falava algum inglês e me explicou que o menino era doido pelo Brasil. Que ele tinha várias camisas da seleção, sempre assistia os jogos do Brasil e coisas do tipo. Eu como gosto de criança e, pra agradar, fiquei brincando com ele enquanto viajávamos. Chegamos à fronteira e todo mundo teve que descer do ônibus. Rapaz, que inferno.
Descemos do ônibus e nos dirigimos ao guichê de imigração. Ninguém do busão precisou apresentar nada, só a carteira de identidade, nós, como éramos os únicos estrangeiros, tivemos que ir pra longa fila e o ônibus inteiro ficou nos esperando e olhando já com uma cara de raiva. Peguei a fila que eu julgava ser a menor. Rapaz, pra que? Só depois que eu vi que uma das mulheres que estava no balcão tinha era um BOLO de passaportes do IRAQUE na mão e o soldado do guichê foi lá pra poder carimbar, um por um, as DEZENAS de passaportes que ela trazia com ela. Depois eu fiquei pensando: Que guerra civil que nada! Pra quem mora no Iraque, o Líbano deve ser seguro como as ruas da Suíça.Pra facilitar e agilizar a nossa vida, nos separamos em diversas filas e combinamos que quem chegasse no guichê primeiro, pegava os passaportes de todos os outros e assim a gente passava logo. Bem, iríamos fazer exatamente como a iraquiana com milhares de passaportes e todos os outros estavam fazendo.Ficamos esperando na fila por quase uma hora. E a galera do busão querendo MATAR a gente, pois, enquanto não resolvêssemos nosso problema, ninguém chegava em Beirute. Até que chegou a hora do Dino e ele pegou nossos quatro passaportes e deu pro cara carimbar pra gente poder passar. Rapaz, eu não sei o que aconteceu, o que foi que o cara do guichê viu no Dino que na hora que ele pegou os nossos quatro passaportes, ele jogou de volta e disse que não ia fazer aquilo. Que só ia carimbar se fosse um por vez. Por quê? Vai perguntar lá pra ele porque eu não tenho a MÍNIMA ideia! Só sei que na hora nós quatro tentamos sair das nossas filas e ir pro lugar do Dino pro soldado no guichê ver nossas caras uma por uma. Os outros caras que estavam na fila não nos deixaram passar. Resultado? Mais UMA HORA na fila com a galera no ônibus esperando doida pra achar um cinto de bombas e explodir a gente…
Só sei que no final o rapaz resolveu enfim carimbar os nossos passaportes e nos deixar passar. Quando entramos de volta no busão, a galera chega nos fuzilava com o olhar! A galera tava era FUMAÇANDO de raiva por causa de todo esse tempo de demora! Resolvi nem trocar olhares com ninguém, sentar e esperar até chegar em Beirute e cair logo fora dali. Na hora que eu fui sentar eu comecei a procurar o meu casaco. Não tava no meu banco, quando eu fui achar olha onde ele tava…
Era o meu “bem vindo ao Líbano” 🙂

5 comentários em “Como chegar ao Líbano – Perrengue

  1. Pô!

    Post de primeira! parabens ae…e muito engraçado também.

    Quero eu um dia ter 1/5 das histórias que tu tem pra contar em bares!

    Longa vida e longas viagens pra tu!

    Luis Maceio

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  2. O gurizinho devolveu lá teu casaco Claudio?

    Creio que sim não é? Se fosse o contrário tu provavelmente tinha escrito um monte de impropérios para o pequeno safado (vide os posts da saga Índia).

    Agora pense positivo: no “bem-vindo ao Brasil” típico, tu além de ficar sem o casaco, ficaria sem a carteira, celular, óculos, roupas, dentes de ouro; tomaria uns tapas do bandido para deixar de ser otário, e também uns do delegado quando fosse dar queixa. Para deixar de ser otário, e por ser um gringo trouxa que veio fazer turismo sexual aqui.

    huahauhauhau

    Esperando pelas aventuras no Oriente Médio.

    Abração

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  3. Cláudio, to adorando essa sua passagem pelo Oriente. É tão bom ler informações sobre esse lugar tão misterioso pra gente!
    Aliás um dia desses eu tava num bus indo de SP a BH e ouvi alguém falando numa língua que parecia árabe. Não resisti, puxei assunto com o cara e ele era da Síria, me contou mais um monte de coisas do país 🙂

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