Procurando lugar pra ficar em Beirute…

Assim que descemos do ônibus já foi aquele choque na primeira parada. Ao contrário da Síria, país islâmico com uma ditadura sanguinária e repressora, Beirute é uma cidade que respira liberdade em um Oriente Médio onde as liberdades individuais parecem ser repreendidas cada vez mais. Como não havia conseguido um couch a tempo (culpa minha, pois comecei a procurar com pouco tempo de antecedência. Ah sim, o Líbano foi o ÚNICO país em que não consegui ficar de graça em nenhuma de suas cidades), tive que procurar um albergue com os outros dois amigos do Matt. O canadense, Dino, como era bem mais esperto, já tinha reserva em um albergue super da hora e nós fomos conferir se havia vagas nele para que pudéssemos ficar também.
Tanque com soldados em cima no meio da rua de Beirute (sim, eu bati a foto meio mal porque eu não podia bater uma foto abraçado com o tanque, né cara? Se os militares vissem que eu tava batendo fotos poderiam encrencar…) 
Infelizmente ao chegar no albergue onde o Dino possuía as reservas ele se encontrava lotado e tivemos que sair à procurar de um lugar pra ficar. Estávamos na região central de Beirute e achávamos que não seria muito complicado conseguir um lugar para ficar. Repararam na ênfase no verbo “achávamos”, né? Sim, porque foi isso que aconteceu mesmo. Cara, saímos que nem um bando de loucos pra poder achar um lugar pra ficar e todo lugar que a gente ia sempre tava lotado. Só nos restou um último albergue que nós REALMENTE não queríamos ficar…
Bem, por quê? Cara, leitores MMMUIIITOOO antigos do blog podem lembrar de uma descrição que eu fiz do albergue que fiquei em Fiji. Mas, mermão, esse era MUITO pior. Primeiro que o lugar parecia uma casa mal-assombrada, tudo mal-iluminado com paredes descascadas. A porta de ferro que os caras usavam pra fechar o albergue de noite era crivada de bala (reflexo das inúmeras guerras civis que ocorreram por lá) e além de tudo o tiozão, com uma bela barriguinha de chopp, que atendia lá era mais fedorento que arroto de corvo. Afe maria…
Parte de trás do prédio do albergue
Bicho, os quartos era totalmente abafados e o banheiro, bem, o banheiro não merece comentários, vamos apenas naquela do “uma imagem vale mais que mil palavras”:
“Mas se tava ruim, porque você resolveu ficar por lá?”. Cara, no final não tive escolhas, ou era ficar naquele albergue ou dormir na rua, já que, como falei, todos os outros albergues estavam lotados. O tiozão ainda teve a cara de pau de querer cobrar pra gente o mesmo tanto que os caras cobravam no albergue do Dino que, comparado com o nosso, mas parecia um hotel cinco estrelas… No começo eu achava que ele tava era tirando onda com a gente quando falou quanto que custava a noite naquele pardieiro, mas ele REALMENTE estava falando sério. Cara, aí já era demais, tudo o que eu menos esperava era além de ter que ficar naquele pardieiro, ainda ter um tiozão daquele querendo me roubar. Pensei em voar na jugular dele e brincar de “guerra civil libanesa”, mas apenas fomos BEM duros com eles e o cara acabou fazendo por metade do preço que, real, saiu MUITO caro, pois aquela espelunca dele não valia nem os cascos da parede.
Só sei que fiquei lá por uma noite. Quando foi no outro dia, o Dino me passou o bizú que abriu uma vaga no albergue dele. Se eu queria ir? Opa, na hora! Fui só buscar minhas coisas lá no albergue mal assombrado e desci pra ficar lá no albergue do Dino.
Quando fiz meu check-in, acabei ficando amigo dos donos do albergue. Bastante simpáticos, eles me explicaram que antes daquele lugar ser um albergue, ele foi um campo de concentração há mais ou menos trinta anos atrás e por isso ele tinha conseguido comprar tão barato. Além disso, tinha outra curiosidade também. Pra poder tomar banho, você tinha que pedir autorização na recepção pros caras poderem liberar o registro do banheiro. Cada hóspede tinha direito a dois banhos por dia de sete minutos cada, o que eles REALMENTE levavam muito a sério. Se você tivesse se ensaboando e terminasse seu tempo, ele falava que era pra tirar o sabão com a torneira da pia, porque eles realmente não iriam liberar mais água pro chuveiro. Perguntei se teria como a gente negociar, de eu pegar parte das cotas de outras pessoas, já que eu tinha quase certeza que uma pancada dos caras do meu quarto não chegavam nem perto de utilizar sua cota diária, os caras fediam demais, hehehehe. Mas não teve jeito. Os caras não liberavam mesmo e eles SEMPRE cortavam a minha água enquanto eu tomava banho, pois eu sempre esquecia que tinha essa maldita cota, afinal, o calor lá era de lascar e nada mais confortável que um banho.
Teve outro fato engraçado também. Como a recepção sempre tinha uma galera lá, eu gastava um bom tempo conversando com geral. Uma vez, eu fiquei conversando em inglês com um figura por quase trinta minutos pra depois descobrir que ele era brasileiro também, hahaha. Cara, a gente REALMENTE não reparou que éramos do mesmo país. Eu jurando que ele era árabe e ele achando que eu era italiano. O nome dele infelizmente não lembro, mas ele era correspondente da BBC Brasil no Líbano e estava lá desde os bombardeios de 2004. Disse que cobriu o conflito e diariamente ele via caças israelenses sobrevoando a sua cabeça. Imagina que vida mais pacata…

7 comentários em “Procurando lugar pra ficar em Beirute…

  1. Albergue tenso esse daew heim… hehehehe
    Pela foto ali de traz do prédio ali deu pra sentir bem o nível da coisa.

    Abraço!

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  2. oi
    Já faz algum tempo que eu acompanho o blog, mas não tinha postado. Só que dessa vez não dava para deixar passar. É que eu acho que conheço o cara que vc conversou no bar. Qndo eu estava no colégio, tinha um cara que dirigia a oficina de jornalismo que eu participava. Ele tinha descendência libanesa, tava fazendo jornalismo na época e agora ele era correspondente da BBc no Líbano. Ah o nome dele era Tariq Saleh. Será que é o mesmo?…

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  3. Po cara, por que você não disse la pro tiozinho da pensão começar a gravar filmes de terror???O cenário ele já tem, e naquele estado acho que faz sucesso uahhua.
    O pior é quando esses donos de estabelecimentos estourados cobram o mesmo que os arrumadinhos.Já me irritei muito com isso.

    Agora Claudiomar, uma curiosidade referente as suas viagens, que não reparei se alguém já perguntou, mas eu queria saber: você teve algum problema com ultra-nacionalistas??
    Ainda mais você que tem traços latinos, não sofreu nada??E como é a recepção do pessoal com isso??

    Um tio meu está na Rússia, e me chamou para passar lá por uns tempos, e também pretendo viajar pela Europa.Só que vire e mexe aparece casos de neo-nazis violentos por lá e em outros lugares, como Aústria.Ai acabo ficando meio preocupado.

    No mais, bom blog.

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  4. Ei, eu estive em Beirute tb e fiquei neste “albergue”. Só que tem uma coisa, acho que quem estava bebadod e tanto Chopp era vc.
    Em primeiro lugar, as fotos que vc colocou sao de um prédio em frente ao albergue. Quero crer que vc se equivocou e nao quiz dramatizar.
    O noem do hotel é Talal…e apesar de ser simples, é recomendado até pelo Lonely Planet, guia de viagesn internacionais.
    Os quartos eu lembro eram simples mas limpos e com tv com satelite e ar-condicionado. O preço era razoavel e bom. Outra coisa, as fotos do banheiro nao sao do hotel pq simplesmente o hotel nao tem banheiras.
    Lembro ate do “homem da barriga de chopp”…o nome dele é Zaher (eu sei pq anotei no meu diario). Gente boa, sempre ajuda o pessoal e mto brincalhao. O hotel dele esta sempre lotado de estrangeiros.
    Olha, acho q vc trocou as bolas hein. Aquela porta de ferro com furos de bala nem é do hotel, mas de uma sala comercial numa rua mais acima…eu tb tirei fotos dela.
    Amigo… que dramalhao hein.
    OBS>: conheci tb o brasileiro, o nome dele é Tariq, gente boa. E ele chegou no Libano em 2006 (e nao em 2004). Lembro disso tb pq ele me contou q chegou aps a guerra de 2006.
    Cara, com essa tua memoria so podia mesmo trocar tudo.

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