De volta a Istambul

Apesar de achar que nada de mais aconteceria quando voltasse a Istambul, de achar que apenas iria ficar por duas noites na cidade esperando o dia do meu vôo, posteriormente percebi que eu estava enganado. Primeiro porque eu pude curtir Istambul sem estresse. Ao contrário de Damasco, de Beirute e das outras cidades que passei, nesta volta a Istambul eu não precisava ficar preocupado se o tempo era curto, preocupado que eu precisava voltar logo e, pior, como eu diabos eu iria fazer pra poder me deslocar, já que se deslocar pelo Oriente Médio sempre era dor-de-cabeça. Foram dois dias de absoluta paz e descanso na preparação para a volta à Europa que prometia ser bem hardcore.
Acordei no primeiro dia e, sem ter o que fazer, resolvi procurar um lugar onde pudesse acessar internet de maneira barata. Como não sabia pra onde ir, fiquei passeando pelo Estreito de Bósforo, pensando como diversas civilizações lutaram para ter domínio daquela região que hoje pertence aos turcos e que olhando assim não parecia nada demais.
Estreito de Bósforo

Também pude ver as pessoas que, que nem eu, pareciam não ter o que fazer, apenas ficavam pescando e curtindo aquele belo dia de sol em Istambul.
Só uma curiosidade acerca dessa curiosíssima foto de Salvador Dali. Ela não é montagem, ela é, desculpem o trocadilho, realmente real. Ela foi feita com a ajuda de, se não me engano, mais quatro pessoas. Uma atirou os dois gatos, a outra segurou a cadeira, a outra atirou o outro gato e a outra atirou o balde com água. Difícil acreditar, né?

E tava eu lá, andando de boa, quando vejo um cartaz com uma foto meio familiar. Um cidadão com os olhos perdidos, cara de maluco, mexendo no seu bigode… Rapaz, eu acho que eu conheço esse cara de algum lugar. Jogador do Flamengo? Não… Peraí… Aquele cara era… Era… Dali! Salvador Dali!!
Depois de um tempo que eu fui reparar que estava em frente a um centro de eventos e que lá estava ocorrendo uma exposição de quadros originais de Salvador Dali!! Caraca, doido!! Doido demais!! Corri lá pra dentro e qual não foi a minha surpresa a descobrir que ainda era de graça. Pronto, aí foi todo o meu primeiro dia em Istambul!! Acabei me perdendo pro aquelas dezenas de quadro, aquela loucura em telas do surrealismo!! Lendo etiqueta pro etiqueta, me deliciando com detalhe por detalhe que podia perceber em cada quadro. Foi sensacional!! Dentre os diversos quadros que pude ver estava o seu mais famoso, o do relógio com o tempo se desfazendo. Não sei se era o original, ou apenas uma réplica. Enfim, o fascínio ser o mesmo…
No outro dia, resolvi passar o dia inteiro dentro da Mesquita Azul (falei dela num post atrás, se não se lembra, favor clicar aqui). Por quê? Bem, cara, além de ser uma das maiores jóias arquitetônicas que pude presenciar em toda a minha viagem, a Mesquita Azul era uma das poucas atrações em Istambul que, pasmem, não cobrava entrada. Era de graça. Entre ficar dentro de casa escrevendo sobre os futuros posts do blog e ficar dentro da mesquita fazendo o mesmo, a única diferença seria a passagem de ônibus até lá. Resolvi descer para a mesquita.
Cheguei lá, coloquei minha mochila no carpete macio da mesquita, tirei o meu bloquinho de anotações, coloquei meu agasalho do Brasil em cima da minha mochila e comecei a escrever algumas coisas que eu não poderia esquecer de postar no blog. Depois de um tempo, um cara veio falar comigo, perguntando se eu era brasileiro. Falei que sim e logo ficamos amigos. O nome dele era Fabrício e ele trabalhava como técnico em alguma área relacionada a petróleo. Ficamos trocando uma idéia. O cara era muito engraçado…

Contos em Istambul

Conversa vai daqui, conversa vai dali e fomos nos apresentando um ao outro. Depois de um tempo eu falei pra ele que estava em uma viagem de volta ao mundo e que da Turquia estava voltando pra Europa. Ele me falou que também estava viajando bastante:
– Ah é? Massa e onde você esteve antes? França, Inglaterra, Espanha? – fui perguntando aquele roteirozinho besta que todo mundo faz e acaba não sabendo que há um mundo muito grande lá fora além de Europa Ocidental/Estados Unidos da América.
– Não, não, pra falar a verdade, são uns países um pouco mais exóticos.
– Ah tá. República Tcheca, Eslovênia, Bulgária??
– Não, não, pô! Eu trampo com petróleo. Eu primeiro fui para o Azerbaijão, depois Líbia e depois Cazaquistão.
Eita porra, e eu tirando onda achando que tinha viajado pra lugares malucos. O cara não sabe nem brincar, coloca logo Líbia e Cazaquistão na mesa. Mandou mal. Fui lá e perguntei como havia sido viajar para tais países e ele me falou que havia sido, no mínimo, exótico. A Líbia, segundo ele, não havia sido nada demais, a não ser o fato de que ele havia tido alguns problemas pra poder passar no posto de imigração do aeroporto, já que NINGUÉM falava inglês (qualquer semelhança com a Síria é mera bobagem…). Falou que só conseguiu atravessar a fronteira quando os caras conseguiram ler no passaporte dele que ele era do Brasil e ficaram gritando “Ronaldo” até a hora que o tradutor da empresa chegou no aeroporto e desenrolou tudo. Problema mesmo ele disse que havia tido era no Cazaquistão.
Problema por quê? Ah, cara, besteira. Como dizia o saudoso Tiririca Jr. (sim, eu também sei ser trash. Eu confesso, eu achava ele engraçado… “Ai Jurubira como é grande a emoção, toda vez que eu te vejo faz tum-tum meu coração…”) no programa do Gugu: No aeroporto ele foi bem recebido de todos os lados, foi tijolada de um lado, tijolada do outro. Cara, não foi tijolada em si, mas foi parecido com isso. Diz ele que ao estar caminhando pelo o aeroporto, procurando um telefone pra poder ligar para alguém da empresa ir lhe buscá-lo, um cazaque, começou a gritar e a correr na direção dele. Coisa comum, você vê todo dia, né? Desce do avião, num país TOTALMENTE estranho, NO MEIO DA ÁSIA e vem um maluco correndo pra cima de você. Só faltava estar montado num elefante rosa pra completar a cena surreal…
O que você faz numa situação dessas? Vendo um louco, correndo, NO CAZAQUISTÃO, apontando pra você e gritando? Isso, logicamente o que você pensou: Nada, você fica paralisado olhando o que aquele maluco vai tentar fazer. Diz ele que ficou olhando aquele pandemônio pra ver o que ele diabos queria. Quando o cara chegou, o agarrou pro braço e começou a apontar pro braço dele, mas precisamente para a sua pele. Fabrício é negro como vocês podem perceber nesta foto abaixo.
O cara diz que agarrou com força no braço dele e começou a gritar. Depois de um tempo ele foi perceber que o fato dele ser negro e de haver um negro no aeroporto, segundo ele, parecia irritar aquele cara. Diz ele que apenas se soltou do cara, saiu correndo, entrou no primeiro táxi que viu e seguiu pra uma lan house pra poder ligar no skype e ser “resgatado” por alguém da empresa. Diz ele que a vontade que dava era de rir, mas ele ficou com medo e depois foi se informar com os companheiros da empresa (a maioria italianos), o que diabo acontecia naquele país tão distante onde a única coisa que o mundo sabe é que eles produzem potássio e que o Borat é o segundo repórter mais importante de lá…
Os italianos falaram para ele tomar cuidado, pois aquilo parecia ser algo recorrente com negros que iam trabalhar no Cazaquistão, pois muitas pessoas no país não estavam acostumadas a ver pessoas de pele negra (vale lembrar que durante muito tempo o Cazaquistão foi um país MUITO fechado, pertencente à falecida União Soviética) e isso poderia lhe trazer problemas. Por via das dúvidas, ele evitava sair de casa para não ter problemas. Bicho, só um segundo aqui antes de eu começar a escrever. Cara, imagina a loucura que não é viver num país que nem esse… O bicho falou que ele só saía pra rua acompanhado dos italianos e não-raro algumas pessoas gritavam quando olhavam pra ele. Diz que teve até uma vez que ele estava andando no meio da rua e começou a chover pedra pra cima do grupo dele. Ele diz que já havia visto chuva de todo o jeito, mas de pedra era a primeira vez. Quando ele foi ver, era um cazaque jogando pedras neles e, logicamente, gritando!! Antes eu achava que o filme Borat trazia uma imagem muito negativa acerca do Cazaquistão, hoje eu penso é se eles não pegaram foi muito leve. E você aí preocupado com seqüestro relâmpago…
Diz ele que era pra ele ficar seis meses por lá, mas deu dois meses ele pediu pra sair. Diz que não tinha paz e não dava pra ficar vivendo daquele jeito. Os caras relutaram um pouco, mas acabaram transferindo ele de volta pro Rio de Janeiro. Tá louco, imagina ficar vivendo desse jeito?
Com essas histórias não me espantava que ele havia, digamos, não se adaptado ao Cazaquistão. Gente boa demais o moleque… Ele ainda me contou que preferia morar no Rio de Janeiro, apanhando de PM, do que morar naquele lugar de maluco. Apanhando de PM? – perguntei. Ele me explicou.
Diz ele que um dia de madrugrada, por volta de uma cinco da manhã, estava caminhando com uns primos, voltando de uma balada quando foram abordados por um PM que pediu os documentos deles. Como já tava todo mundo bêbado e saliente, o primo dele só virou pro PM e falou: – Pode ficar frio, tio, aqui ta todo mundo limpo… O PM diz que respondeu à altura, ou melhor, “à baixura” já que baixou uma bolacha no pescoço dele que foi caindo por cima dos primos e todo mundo rebolando no chão, quase um boliche de embriagados, já que bêbado não é muito bom em manter o equilíbrio.
– Tio? Vê lá se eu tenho sobrinho feio desse jeito, rapaz!! Senta todo mundo no canto ali!! – o PM gentilmente respondeu. Ficaram os cinco sentados no parapeito da calçada olhando pra ele. O bicho só falou: – Agora vocês cinco vão ficar aí sentados até a hora de acabar o meu horário. Os cinco, podem sentar aí, tão de castigo que é pra aprender a obedecer autoridade. E ai de quem dormir aí!! Pode ficar todo mundo com os olhinhos abertos!!
E lá foi ele e os primos ficar até sete horas da manhã de castigo pra poder aprender a respeitar autoridade, hehehehe.
No aerporto de Istambul, quatro horas da manhã, esperando o avião e escrevendo o blog…
Depois de um tempo conversando, de ouvir esses e muitos outros causos (o cara era muito engraçado, não dá pra escrever tudo aqui, senão vou ter que fazer um blog só pra ele), nos despedimos e foi chegada a hora de eu voltar para casa pra poder pegar minhas coisas e descer pra Eslovênia. Chegando em casa nem deu pra gente se despedir direito, pois o casal que estava me hospedando pareceu que estavam brigado e por isso nem puxei muito papo com eles. Segui logo pro aeroporto pra poder esperar meu avião que sairia SEIS horas depois…

6 comentários em “De volta a Istambul

  1. Cara, se algum dia eu viajar para fora num esquema meio mochilão e tals, até já sei qual é a manha master para sair fazendo amizade com a galera.

    Vestuário mostrando que sou do Brasil. Ainda que eu não esteja no time dos patrióticos, e no geral cague para nossas “manifestações da cultura típica brasileira” (i.e. samba, futebol, praia, mulata, bunda, caipirinha…); vou andar de camiseta da seleção e havaianas que está tudo legal.

    E na boa, NUNCA defendo ou defenderei violência/agressão policial, mas chamar um PM de tio na zuera, altas horas da madrugada, precisa ser muito burro.

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  2. cara vc devia explicar como faz pra viajar tanto, seus pais te bancam, vc trabalha nos paises em que fica, viajar faz parte de seu trabalho, ensina ai pra eu que to doido pra viajar tbm

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  3. Sem comentarios…
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