Massada

Não sabia da existência de Massada e tampouco estava entre os meus planos visitar essa fortaleza encravada no meio do deserto, próximo ao Mar Morto. Depois que li mais um pouco sobre e descobri que Massada era um dos locais mais importantes para Israel e para os judeus, ficava cada dia mais ansioso pra poder visitá-la.
Bem, deixe-me explicar. Durante a destruição de Jerusalém levada a cabo por Tito em aproximadamente 70 d.C., os judeus continuaram lutando e se revoltando contra o Império Romano. Eles foram sendo caçados um a um. Fugindo dos romanos, procurando um local que pudesse servir de abrigo e aproveitando-se da distração dos romanos, os judeus tomaram um palácio do rei Herodes e fizeram dele a sua muralha. O palácio era situado em um morro que se eleva a 500 metros de altura no meio do deserto. Quando eles tomaram o local, viram que estavam de posse de várias toneladas de alimentos e litros de águas estocados pelos romanos para caso ocorresse um cerco ao palácio, além de um bom estoque de armas e chumbo para produção de mais armas, caso fosse necessário. Trocando em miúdos, os romanos quase que construíram um local perfeito para servir de abrigo para os judeus.

Em 73 d.C o local estava sendo habitado por aproximadamente 960 judeus, entre homens, mulheres e crianças. Por dois anos Massada, devido a sua natureza inexpugnável, já resistia às investidas das legiões romanas, se tornando o último foco de resistência judaica. Depois de um bom tempo vendo que não tinham o que fazer, que tentar chegar ao topo subindo pelas trilhas era praticamente impossível devido aos projéteis que os judeus lançavam, os romanos resolveram apelar de vez. Trouxeram uma pancada de engenheiros de Roma e danaram-se a construir máquinas de cerco e uma rampa para que fosse possível jogar lá dentro milhares e milhares de soldados romanos para massacrar qualquer coisa que se mexesse em Massada.

Trilhas que levam a Massada
Os judeus lá de cima ficaram acompanhando cada passo dos romanos e se defendendo da maneira mais desesperada que fosse possível. Quando todo o maquinário para invasão de Massada encontrava-se construído e pronto para ser utilizado, os romanos decidiram esperar o amanhecer para poder atacar.

Por lá havia meio que um viveiro para corvos e pombas. Pra que eles mantinham isso? Porque gostavam de passarinhos? Não, amigo! Porque aves forneciam carne e adubo! É! O negócio de lá era bruto!

No outro dia quando os romanos enfim conseguiram subir e chegaram ao topo, eles estranharam que Massada estava em total silêncio, aquilo que no Maranhão chamamos de “silêncio de cemitério”. Na verdade estava assim porque, veja você, ali estava um imenso cemitério! Os 960 judeus, vendo que não tinham chances mínimas de se opor a uma legião romana dentro do complexo, se suicidaram um a um, preferindo morrer a se entregar aos romanos. Fiquei curioso acerca dessa história e inclusive perguntei a minha amiga Ariel Sharon porque eles fizeram aquilo, já que o suicídio é um grande tabu para os judeus (suicídio é considerado uma morte desonrosa para os judeus. O suicida é enterrado longe dos corpos dos outros judeus, próximo ao muro e de costas para as outras sepulturas). Ela me explicou que, segundo a tradição judaica, há algumas hipóteses em que o suicídio é aceito:

1 – Se estiverem lhe obrigando a praticar incesto;
2 – Se alguém estiver lhe forçando a matar outra pessoa sob risco de matar você se não obedecer;
3 – Se alguém estiver lhe obrigando a deixar de ser judeu ou querendo lhe escravizar até que você aceite deixar de ser judeu.
Como a hipótese 3 cabia perfeitamente no caso ilustrado o suicídio desses judeus não foi considerado uma desonra, pelo contrário, foi considerado um ato heróico. Ainda assim, para evitar o “suicídio honroso” de todos, dez homens foram sorteados para passar a fio da espada todos os outros judeus. Quando eles mataram todo mundo, sortearam um judeu que foi responsável por matar os outros nove. No final, esse foi o único que realmente se suicidou. Massada assim ficou como o grande simbolismo, o último foco de resistência judaica contra o Império Romano e que ainda assim preferiu se matar a viver sobre domínio de outro.
Ainda hoje, toda turma de jovens recrutas das Forças Armadas israelitas, ao se formarem, vão a Massada para prestar um juramento e gritar “Massada não cairá nunca mais”. Tudo bem, não vou entrar no mérito disso tudo. Mas depois fiquei me perguntando, se já iam se matar mesmo, porque eles simplesmente não se jogaram lá embaixo? Imagina a carnificina que não foi você cortar as gargantas de 960 pessoas? Que morte traumática da porra você ter que matar seus filhos, seus pais, seus amigos etc.? Ainda que pular lá de cima ia ser uma morte muito mais emocionante! Ainda assim, a minha amiga Ariel Sharon conseguiu explicar. Ela disse que isso ocorreu porque os judeus ao se matarem lá em cima ainda dariam trabalho para os romanos terem que subir tudo aquilo para irem buscá-los, além de que morreriam mais pertos de Deus. Pode parecer pouca coisa, mas imagina o dispêndio de recursos e tempo que não foi para os romanos ter que deslocar toda uma estrutura daquela pra lá em cima descobrirem que fizeram tanto serviço pra não lutar depois?
A visita foi bem legal e bem enriquecedora. A única hora engraçada foi quando eu já tava quase pra ir embora e, de repente, ouvi uma gritaria danada. Fui lá pra poder ver o que era e tentar entender o que estava acontecendo e quando vi eram uns clérigos gritando e chamando a segurança porque havia uma mochila aparentemente sem dono por lá! Rapaz, mas pense no auê que foi enquanto o dono dessa mochila não apareceu? Ainda pegou uns gritos quando foi buscar, haehhaehae. Pobre coitado! Mas é assim mesmo, cara! País que vive sobre intenso medo de atentado terrorista fica desse jeito! Lembrou-me de um ocorrido com minha bolsa em Mumbai.
Maquete de como era Massada
Outra parada que descobri sobre Massada e que foi relativamente engraçada também é que, pô, é um dos principais pontos turísticos de Israel, né? Você vai pra lá e imagina que lá tem uma infra-estrutura GIGANTESCA com Mc Donald´s, roda gigante, parque aquático, o que for! Não, fi! Tem não! Não tem NADA! Não tou falando de Mac Donald´s e coisas afim, tou falando é que não tem sequer um CAIXA ELETRÔNICO por lá! Mermão, tive que ficar o dia INTEIRO sem comer NADA porque a lanchonete de lá não aceitava cartão e nem tinha como sacar. Só pra você ter uma ideia, pra eu conseguir dinheiro pra poder pagar a volta de ônibus, eu tive que ficar na fila conversando com um por um e perguntando se alguém ia pagar a entrada em dinheiro, pra poder pedir pra me dar o dinheiro e eu passar no cartão, já que o busão também era só no dinheiro! Pra mim foi de boa, só tive que ficar com fome o dia inteiro. Pior foi um brother meu que comprou uma passagem de Jerusalém pra lá de noite, achando que Massada era uma cidade e quando chegou não tinha NADA! Teve que dormir no banheiro de uma casinha que o vigia usava de guarita! E o pior que não deve ter sido o único que passou por isso não! Esse vigia devia estar acostumado com uma galera chegando perdida por lá e pedindo pra poder dormir no banheiro dele. O hotel mais próximo de Massada custa uns 200 reais à noite, totalmente aquém do que um mochileiro pode pagar…
Hotelzinho baratinho do lado

Mar Morto

Uma outra vantagem que existe em ir a Massada é que ela fica muito próxima ao Mar Morto. Na verdade dá pra ir andando de lá até o Mar. Como cheguei cedo em Massada, decidi também dar uma passada no Mar Morto e visitar um dos mais famosos e estranhos espetáculos da natureza. Pra quem não sabe, o Mar Morto possui a maior concentração salina encontrada em um mar no mundo inteiro (30 gramas por 100 ml de água. Os oceanos possuem 3 gramas por 100 ml) e também a depressão mais baixa do planeta, com mais de 400 metros abaixo do nível do mar. Devido a sua concentração salina, nenhum ser vivo pode viver por lá e ocorrem dois fenômenos interessantes. Cara, lá você bóia! Não importa o que você vai fazer, se vai ficar de pé, tentar mergulhar, o que for, você VAI BOIAR! É impressionante, a água mais parece uma geléia de tanto sal que tem nela! A sensação é exatamente essa mesmo! De estar nadando em um grande pote de geléia. São famosas as fotos de pessoas boiando no Mar Morto e lendo jornal ao mesmo tempo. Acredite, dá pra fazer isso sem esforço e sem molhar o jornal!
Todo mundo tem que ter uma foto dessas, rapaz
Outra é que, não importa o quanto pareça que você está bem, ao entrar no Mar Morto, você vai descobrir TODOS os arranhões que existem em sua pele! Sim, aquele arranhãozinho MINÚSCULO! Aquela cutícula de unha que você arrancou muito forte, vai arder MUITO quando o sal começar a comê-la! Por essas e outras que nadar no Mar Morto é uma experiência inicialmente dolorosa! Mas depois fica de boa!
Cara, vou te dizer, É MUITO LOUCO! É MUITO legal, MESMO! Nadar por lá!
Existem umas “praias” que as pessoas fazem (na maioria kibutzs) na beira do lago onde é possível usufruir de toda uma infraestrutura com chuveiros, mesinhas para churrasco, lanchonetes e coisas afins. Eu, LÓGICO, não tava muito a fim de pagar por toda essa frescura e nem tinha muito dinheiro pra isso. Mas só que você não pode simplesmente ir lá no Mar Morto, tomar um banho, ficar de boa e depois ir pegar um busão? Por quê? Bem, cara, se um dia na praia sem uma chuveirada de água doce depois já te deixa meio ardido, assado e queimado por causa do sal da praia, multiplique isso POR DEZ e você começará a ter uma noção do que é o Mar Morto. Sim, se você vai lá no Mar Morto, dá um mergulho e depois vai embora, você pode ter sérias queimaduras na sua pele no decorrer do dia!

Por isso precisava de um plano. Tive que começar a confabular. Meu plano então foi o seguinte. Quando ainda estava na lanchonete de Massada esperando a hora do meu elevador pra subir, comecei a observar o lixo de lá. De repente, tive uma ideia. Havia várias garrafas de refrigerantes vazias por lá. E se, e se eu pegasse essas garrafas, fosse ao banheiro, as enchesse com água da torneira e depois corresse pro Mar Morto? Rapaz, mas eu era um gênio! Comecei a pensar quantas garrafas pegaria, mas antes fui trocar uma ideia com o atendente de uma das barraquinhas e perguntar pra ele qual seria a efetividade do meu plano genial. Ele, óbvio, me chamou só de burro e falou que, além de colocar minha pele em risco, ainda podia ter problemas com a polícia de fronteira se fizesse isso, afinal, o Mar Morto fica na fronteira de Israel com a Jordânia e um maluco nadando sozinho no Mar Morto é tudo o que eles mais querem pra poder brincar de tiro ao alvo. Falou que não valia a pena fazer isso pra poder economizar míseros cinco dólares de entrada mais três dólares de busão pra se chegar de Massada até lá. Ãhn? Sim, o meu livro-guia não dizia, mas lá de Massada tinha um busão que levava direto a uma “praia” do Mar Morto e lá eu pagaria essa mixaria pra poder ter acesso a chuveiros de água doce! Simples assim… Droga, meu plano parecia tão bem mais inteligente! Ainda por cima, ia gerar história de blog! Mas enfim, a prudência falou mais alto!

Peguei o busão e segui para a prainha. Cara, lá apesar do que eu estava imaginando, parecia uma praia mesmo! A água era limpíssima e cristalina. Realmente era um lugar bem agradável pra poder se passar uma tarde. Corri, pulei na água e já comecei a ter aquela sensação de alguém esfregando limão em uma ferida aberta no seu braço! Ah, meu amigo, mas ardia, viu? Se bem que depois de uns dez minutos acabei acostumando e fiquei pra curtir a paisagem! Cara, o Mar Morto é muito legal!
Olha a cor da água, mlk!

4 comentários em “Massada

  1. Fala Claudio! Sempre que espero juntar vários posts pra voltar a ler teu blog é bom pra cacete. Fiz isso e voltei a ler essa semana. Tinha parado na Siria! Como te disse no Facebook ontem eu, literalmente, viajo contigo.

    Maneiro que essa parte da tua viagem foi ainda informativa, rica em detalhes históricos e atuais no que diz respeito a religião, política, etc. Lógico que faltam as presepadas das baladas… hehehehe.

    Mas é maneiro que tudo isso faz a gente entender bastante do que acontece hoje.

    Bom, agora é aguardar novos posts. Mas sem pressão! hehehe
    Abraços!

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  2. Oi Claudiomar!
    Sou amiga do Caio, ele me passou teu blog pq estou indo viajar pra Israel. De mais teu blog!

    Uma perguntinha, quanto dinheiro vc acha que eu preciso reservar pra Israel, dormindo em couchsurfing (um menos louco que o seu eu espero..)?
    frank.bettina@gmail.com

    Obrigada! =)

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