Câmbio maluco

Só que qualquer um sabe que quando o governo tenta controlar um mercado, ele simplesmente fica mais ou louco ainda. Se você fosse em uma casa de câmbio da Venezuela e levasse um dólar na época que eu estava lá, eles te dariam 6,3 bolívares. Se trocasse na mão de um taxista, com sorte e sabendo negociar, ele te daria DEZOITO bolívares e não te sequestraria. Se você passar o seu cartão de crédito em algo que custa 24 bolívares, na sua fatura (cotação oficial) chegará o preço de quatro dólares, se você trocasse na rua, pagaria um dólar e meio por esse valor.
E o problema é que isso vai se tornando um círculo vicioso. Quanto mais a moeda local fica desacreditada, mais as pessoas compram dólares e quanto mais as pessoas compram dólares, mais o preço dele sobe e aí vai indo. A Venezuela, neste ponto, está caminhando para uma “cubanização”. Em Cuba existem dois tipos de moeda, uma utilizada pelo povo cubano e outra usada pelos gringos. Na Venezuela o Bolívar para o povo e os dólares para os gringos.
Cara, o mercado é algo tão perfeito, que até um site de cotação do dólar paralelo foi criado. Criaram um site para dizer quanto custa o preço da “alface verde” na fronteira da Colômbia com a Venezuela (local onde mais acontecem troca de bolívares por dólares). Quando vi o site, vi que um quilo de alface verde, em dólares, estava custando 23,71 bolívares (sim, tem duas casas decimais, o negócio é tenso mesmo) e estava em alta. O valor em euros não lembro. Quem estiver curioso é só acessar http://eldolarparalelo.info/lechugaverde.php.
Pior que depois fui descobrir que trocar dólares em Caracas é algo longe do trivial. Todo couchsurfer que eu perguntava se trocava dólares, falava que não e só conhecia um amigo de um amigo que fazia isso. Cara, mas exatamente como se faz para comprar drogas. Até que um dia um couchsurfer se dispôs a me ajudar e ligou para um amigo que falou que a irmã dele queria drogas, digo, dólares. Liga daqui, liga de lá, esse cara transferiu para a conta do couchsurfer que foi comigo até o shopping e me deixou esperando no banheiro. Depois entrou no banheiro, olhou para ver se não tinha ninguém, entrou na cabine comigo e nos trancamos lá dentro. Pensei “tomara que se alguém olhar, pense que sou gay, melhor sair com fama do que sair preso…”. Ele me deu os bolívares, eu lhe dei os dólares e estava consumada a segunda transação ilegal da minha vida (já que a primeira foi no aeroporto e posto posteriormente) no melhor estilo Claudiomar, 13 anos, drogado e prostituído.
Tudo isso porque ele realmente podia estar encrencado se fosse pego. Conversando depois com um taxista, que depois acabou ficando meu amigo, ele me explicou que já tinha oito amigos presos por terem sidos pego em flagrante trocando dólares no aeroporto. Segundo ele, os caras vão amargar uns dois anos na cadeia fora uma multa gigantesca.
Trocando em miúdos, nenhum estrangeiro utiliza cartão de crédito na Venezuela, pois isso implica em gastar três a quatro vezes mais por alguma coisa. Assim, tudo na Venezuela se resolve com dinheiro vivo, você tem trocar tudo que acha que vai gastar em dólares no Brasil e andar com o bolso CHEIO de dinheiro vivo na cidade mais violenta da América do Sul. E você achando que era radical porque brincou de montanha-russa na Disney…
Vida loca.

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